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A palavra levanta ou derruba, emociona ou fere, mas da boca duma criança tem magia

A vida girava em torno daquela porta aberta para a rua, naquela vila que não tem comparação: Água de Pau

Irmãos, Roberto Duarte e Lina Manuela © ARQUIVO ROBERTO MEDEIROS

A infância tem um tempo próprio, feito de rituais simples, de cheiros a açúcar acabado de pesar e de passos miúdos a ecoar em escadas de madeira. É desse tempo que guardo a memória da minha irmãzinha Lina — a nossa Lina Manuela — levada cedo demais, aos 38 anos, há já 26. Mas há infâncias que não morrem. Ficam suspensas, intactas, como se ainda descessem as escadas aos saltinhos.

Tínhamos um cãozinho chamado Tim, nome roubado às aventuras de Enid Blyton, cujos livros eu lia e colecionava com devoção. Depois passava-os ao Duarte e à Lina, mais pequenos, para que também viajassem por aqueles mundos de mistério e coragem. Assim crescíamos: entre páginas folheadas com cuidado e latidos felizes no quintal.

As nossas brincadeiras começavam — e quase sempre acabavam — na mercearia do nosso pai, a lendária “A Cova da Onça”. Ali aprendemos a ser gente. Eu fazia de caixeiro de balcão; o Duarte enchia saquinhos de meio quilo e de quilo de açúcar com uma concentração de homem feito; e a Lina era a cliente, entrando e saindo com a seriedade divertida de quem representa um papel importante.

Antes de irmos para a rua — fosse para os quintais dos amigos, fosse para o nosso — passávamos sempre pela mercearia para tomar a bênção ao nosso pai. Era um gesto antigo, aprendido desde que começámos a falar, desde que percebemos que éramos gente deste mundo. De manhã e à noite. Todos os dias. Sem falhar.

Pai Manuel Egídio de Medeiros na frente da A Cova da Onça © ARQUIVO ROBERTO MEDEIROS

A vida girava em torno daquela porta aberta para a rua, naquela vila que não tem comparação: Água de Pau. Ali conheci o mundo rural, o povo e as suas histórias, as vozes que se cruzavam ao balcão, as mãos calejadas do trabalho, os silêncios cheios de significado e de resignação antiga. É dessa seiva viva que nascem os meus livros, Antes Que A Memória Se Apague – Crónicas de Água de Pau, volumes I e II, e o III que verá a luz neste ano de 2026. Porque há terras onde, se as pessoas não querem — ou não sabem — contar a sua história, a própria terra a conta por elas. Basta caminhar pelas suas ruas e as perguntas e as respostas caem em catadupa. Em cada rua há um fontanário que ora une duas artérias, ora as divide ao meio; em cada porta há um artesão ou uma tecedeira, um mestre de alguma — ou de toda — a obra: da carpintaria, da pedra, da pintura; um antigo caiador de cal branca nas fachadas, um sapateiro de sola gasta, um moleiro de farinha no ar, um padeiro de madrugada acesa. 

 Os dois livros publicados de Roberto Medeiros © ARQUIVO ROBERTO MEDEIROS

E as alcunhas — essas metáforas vivas da identidade popular, esses vocábulos que são património oral — Urbano Escorrega, Zé Vira-o-Bolo, Mané Arranca-Tocas, Zé-Bela-Areia, Serafim Gaiafo, António Pim-de-Leite, Laracha, Virgínio Arrepiado, Guilherme Cadela, Zé Borges Carranca, Zé Elias Pinguinha, Zé dos Pulinhos… nomes que são já narrativas inteiras, pequenas crónicas ditas de boca em boca, onde a palavra levanta reputações ou as derruba, emociona corações ou fere suscetibilidades. Porque numa terra assim, a palavra é património: pesa, constrói, eterniza. E, ainda assim, há uma diferença essencial quando essa palavra nasce da inocência.

Serafim Garcia, o Gaiafo © ARQUIVO ROBERTO MEDEIROS

Foi ali, num desses dias iguais a tantos outros, que a magia da palavra se revelou. A Lina teria sete ou oito anos. Desce as escadas aos saltinhos, agarrada ao corrimão de madeira que ligava a casa à “Cova da Onça”. Vai direita ao nosso pai para lhe pedir a bênção. Ele conversava com um antigo amigo do Liceu de Ponta Delgada. Aproxima-se, beija-lhe a mão e a face — como mandava o ritual — e, depois de observar atentamente o senhor que o acompanhava, dispara com a frontalidade luminosa da infância:

– O senhor tem um nariz tão comprido, não tem?
O meu pai ficou visivelmente incomodado. O amigo, porém, manteve a serenidade:
– Não… isso então é que não tenho!
A Lina, intrigada, insiste:
– Ah, não tem?
– Não, querida. Estás a confundir tudo. Eu não tenho o nariz comprido. O que eu tenho é a cara recuada!
– Ãhn!!

E ficou por ali. Não percebeu, mas também não se demorou. Virou costas e foi a correr para o quintal, onde o Tim a esperava para mais uma aventura.

E é aqui que o título ganha corpo e verdade. A palavra pode ferir quando nasce do orgulho, pode derrubar quando nasce da malícia, pode emocionar quando nasce do amor — mas, na boca de uma criança, ela não pesa, não calcula, não mede consequências. Ela é pura. É espelho. É verdade sem intenção de magoar.

A Lina não quis ferir. Apenas viu e disse. E nessa simplicidade reside a magia. A inocência não conhece diplomacias; conhece apenas o mundo tal como o enxerga.

Hoje, ao recordar a sua partida em março de 2000, e a do nosso pai em março de 1982, percebo que as palavras permanecem. São elas que levantam a memória, que impedem que o tempo derrube o que fomos.

E enquanto houver palavra — e memória — a Lina continuará a descer as escadas aos saltinhos, agarrada ao corrimão, pronta a dizer ao mundo, sem filtros e sem medo, aquilo que vê.

Porque, sim:
A palavra levanta ou derruba, emociona ou fere — mas da boca duma criança, tem magia.

“Não podemos mudar o passado nem o trazer de volta. Só sinto a falta dele!”

Não me lembro dos dias, mas lembro-me dos momentos que passei atrás do balcão da antiga mercearia A Cova da Onça desde o início da década de 1960

Fachada exterior da antiga d´A Cova da Onça em 1960 © DIREITOS RESERVADOS

No meu pensamento, hoje, passeiam-se, como se dum filme se tratasse, as velhinhas da rua do Pico quando desciam à nossa mercearia para fazerem as suas compras. Na maioria vinham de xaile escuro pela cabeça, cobrindo-lhes quase o corpo todo. Só lhes via a fronte, os olhos, o nariz e a boca. Assim que chegavam encostavam-se ao balcão, mas antes de me dizerem ao que vinham, ponham em dia a conversa com as vizinhas do pico de cima, se elas eram do pico de baixo. A Ti Maria dos Anjos Marrenêga, na tarela com a Ti Virgínia Bainêta, a Ti Amélia Rondoa com a Sofia Secalhita, a Tia Rosa Caga-Pregos com a mãe do Saneta, a Ti Gilda Pés-Sujos, com a Ti Lurdes Arrepiada e outras que iam chegando enquanto umas iam saindo. Os apelidos não tinham nada de mal, era e é apenas uma maneira de nos recordarmos de quem estamos a falar, porque na verdade os primeiros nomes se pareciam e o povo usava as alcunhas em vez dos apelidos do nome próprio. Elas sabiam o respeito que eu nutria por todas elas e até me chamavam de “menino Roberto”. Se uma me pedia dezoito vinténs de tabaco-de-cheirar a outra queria uma serrilha de chá preto ou seis vinténs de cloral. Metade de um pão e trinta centavos de queija, dava para o almoço e só custavam uma pataca. Nisso entrava o José Pereira, todo alegre com a mão fechada simulando uma corneta em frente da boca e entoando o instrumento do músico José Elias “pinguinha” da nossa banda Fraternidade Rural. Vinha atazanar a mãe para lhe comprar uma serrilha de cigarros-à-larga S. Luís da Fábrica de Tabaco da Maia. Enquanto isso eu tentava entender o Serafim “gaiafo” que queria “ú li petó”, que depois entendi que o que ele pedia era “um litro de petróleo”, não fosse o João “rachadinho”, o nosso empregado, a fazer-me a tradução.

 

Interior d´A Cova da Onça em 1960 © DIREITOS RESERVADOS

Enquanto isso, uma menina entrou, distraída e absorta, com dezoito vinténs apertados na mão, porque já não se lembra o que foi que a mãe lhe pediu que fosse comprar à antiga Cova da Onça.

Não podemos mudar o passado nem o trazer de volta. Só sinto a falta dele! Sinto falta do comércio tradicional e do tempo em que eu e meus dois irmãozinhos brincávamos, depois da porta fechada, aos “clientes, caixeiros e donos da loja”. Minha irmãzinha Lina era a cliente, Duartinho, um ano mais velho do que ela enchia os pacotinhos de meio e de um quilo de açúcar e eu os pesava na balança. Depois, eu unia superiormente as pontas dos pacotes, dava-lhes duas voltas na vertical e voltava para dentro as duas orelhas que sobressaiam e entregava à cliente. Foi assim que nosso pai, Manuel Egídio de Medeiros nos ensinou enquanto minha mãe que descera de casa à loja, colocava na sua face um sorriso, ao ver-nos, antes de avisar meu pai que se tornava tarde para os meninos irem para a cama, e, ele também.

– “Lia, eu já vou, leva-os que já subo também a seguir.”

Cresci e tornei-me rapaz e homem com meus irmãos mais novos no comércio tradicional na Vila de Água de Pau. Meu pai ensinava-nos que se soubéssemos servir bem um cliente e se ele nos respeitasse e admirasse, da mesma forma a sociedade nos acolheria e respeitaria na nossa vida.

Por isso, “Antes que a Memória se Acabe” registo estes e muitos outros momentos do meu passado num livro de crónicas de Água de Pau.

Talvez 70% ou mais dos que alegam diversos motivos para não comprarem no comércio tradicional, em Ponta Delgada ou nas Freguesias e Vilas rurais de S. Miguel, não sabem, não se lembram ou os pais esqueceram-se de lhes dizer, ensinar ou educar que TODOS os seus pais, avós, bisavós e trisavós foram sustentados, sobreviveram ou não morreram de fome graças ao comerciante, ao merceeiro, loja do canto, ou ao comércio tradicional, como agora se diz.

Tanta gente que agora, nas redes sociais, sabe tão bem escrever, mas não sabe nada nada, do que foi e como foi a vida no tempo em que se comprava fiado para pagar na colheita. Aliás, nem sabem o que é a colheita, pois só conhecem agora as «lindas» pastagens verdes “sem vacas”, porque nem estas já pastam. Mas, disso, nem sabem também porquê?!.

Desde criança, ia eu à “Loja da Preta” em Ponta Delgada, do senhor “Dias” e dos filhos, pela mão de meu pai, não apenas no Natal, para ver os brinquedos, mas muitas vezes durante o ano. Que saudades desse tempo!

 Mercearia Central em 2024 © DIREITOS RESERVADOS

A geração de agora, não tem saudades de nada, porque nada têm, nem sentem, para recordar-se daquele tempo: nem sobre a sua história, infelizmente. De resto, já é tarde demais para corrigir o que está feito, mas possível ainda é educar e ensinar aos mais novinhos que nem sempre a nossa vida e a nossa saúde estão bem e que tempos difíceis pandêmicos acontecem, nem que seja de 100 em 100 anos. Nessa altura é que alguns se interessam em “ouvir ou interrogar-se” como era no tempo quando ocorreu a pandemia anterior? Mas, grande parte das pessoas são irresponsáveis mesmo e não querem saber nem do comércio tradicional nem em proteger-se desta pandemia.

Na primeira década deste século XX, enquanto vereador da cultura e vice-presidente da Câmara Municipal da Lagoa (1990-2009), apresentei em reunião camarária uma proposta para a aquisição da antiga “Mercearia Central” e residência anexa. Por aprovação camarária o concelho de Lagoa passou a ter “O Núcleo da Mercearia Central – Casa Tradicional”, alojado num edifício fundado no século XIX, na Praça da República da Vila de Água de Pau.

No interior há uma exposição que pretende mostrar a atividade comercial do século passado, através da mercearia e da taberna, ambas localizadas no rés-do-chão. No piso superior são evocadas as vivências domésticas de uma família da pequena burguesia local (José Inácio Vieira Favela e Angelina da Conceição Reis), no espaço que foi a sua habitação, que ocupa o primeiro andar e o sótão.