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O bairrismo que está a afundar os Açores

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

Há um problema nos Açores de que pouco se fala com frontalidade, mas que continua a condicionar decisões, atrasar o desenvolvimento e dividir aquilo que devia estar unido: o bairrismo entre ilhas.

Não falo de identidade local, essa é saudável, faz parte de quem somos e deve ser preservada. Falo, sim, de um bairrismo doentio, pequeno e muitas vezes alimentado por discursos fáceis, que transformam a realidade numa competição permanente entre ilhas. Agravado quando alguns personagens estão em lugares de decisão ou influencia.

E há uma frase que resume bem esse problema: “vai tudo para São Miguel”.

Repete-se como um mantra. Mas raramente é acompanhada de factos, dados ou análise séria. É uma frase que nasce mais da perceção do que da realidade, e, pior ainda, serve muitas vezes para justificar erros, ineficiências e falta de estratégia.

O desenvolvimento dos Açores não pode ser feito à base de slogans. Nem pode ser construído numa lógia de “tirar a uns para dar a outros”. Isso não é coesão. Isso é criar desequilíbrios.

Mas também é um erro, e convém dizê-lo sem medo, penalizar as zonas onde existe maior concentração populacional, maior atividade económica e, naturalmente, maiores necessidades. Escolas, hospitais, habitação, segurança, infraestruturas: tudo isso cresce onde há mais gente. Ignorar isto não é justiça. É negar a realidade.

Durante anos criou-se a ideia de que equidade significa replicar tudo em todo o lado, independentemente da escala, da procura ou da viabilidade. Essa visão não só é errada, como está a custar caro à Região.

Equidade não é igualdade cega. Equidade é garantir que todos têm acesso ao essencial, saúde, educação, mobilidade, dignidade, ajustando as respostas às realidades concretas de cada ilha.

E aqui começa o verdadeiro problema: exigir tudo, em todo o lado, sem assumir responsabilidades.

Não podemos exigir transportes marítimos regulares e eficientes e depois não ter capacidade de planeamento básico, como a criação de reservas quando sabemos que existem falhas.

Não podemos exigir ligações aéreas diretas para o exterior em quase todas as ilhas e, ao mesmo tempo, ignorar que muitas dessas rotas operam com baixa ocupação e prejuízos elevados. Obrigar companhias a manter rotas inviáveis não é desenvolvimento, é acumular problemas que alguém, mais cedo ou mais tarde, vai pagar. E, no fim, pagamos todos.

Curiosamente, muitos dos que mais falam em “centralismo” são, na prática, os mais centralistas de todos, não no sentido geográfico, mas no sentido mental. Defendem apenas o seu território, o seu interesse imediato, a sua ilha. Raramente os vemos com uma visão global dos Açores. Raramente os vemos defender o todo.

E é precisamente essa falta de visão conjunta que nos está a bloquear.

A realidade é simples: governar os Açores é, em muitos aspetos, como gerir uma família com recursos limitados.

Imaginemos uma família com rendimentos modestos e vários filhos. Todos querem o melhor, e é legítimo que queiram. Mas o orçamento não permite dar tudo a todos, da mesma forma, ao mesmo tempo.

Se a decisão for feita apenas com base em quem grita mais alto, a consequência é previsível: endividamento, desequilíbrio e, no limite, colapso.

Gerir bem implica fazer escolhas. Implica definir prioridades. Implica, muitas vezes, dizer “não” no curto prazo para garantir sustentabilidade no futuro.

E isso exige maturidade social e política.

Os Açores precisam dessa maturidade. Precisam de deixar para trás discursos fáceis e assumir uma visão estratégica, equilibrada e realista.

Enquanto continuarmos presos a este bairrismo pequeno, vamos continuar a desperdiçar recursos, a alimentar conflitos artificiais e a travar o desenvolvimento da Região.

A verdade é simples: ou pensamos os Açores como um todo, ou vamos continuar a perder todos, ilha por ilha.

Portugal: Secretaria das Comunidades lança iniciativa “Portugal, Nação Global” para ligar municípios à diáspora e atrair investimento

Secretaria de estado lança plataforma digital e rede de embaixadores económicos para ligar o território nacional aos cinco milhões de portugueses e lusodescendentes no exterior

© DIREITOS RESERVADOS

A Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas apresentou a iniciativa “Portugal, Nação Global”, um modelo que pretende afirmar a diáspora portuguesa como um ativo estratégico para o desenvolvimento económico do país, reforçando a ligação entre municípios, empresários no exterior e o tecido empresarial nacional.

A proposta parte da ideia de que os territórios portugueses devem assumir um papel mais ativo na economia global, adotando uma estratégia mais proativa na identificação de oportunidades, na promoção dos ativos regionais e na atração de investidores.

Para operacionalizar esta estratégia, o projeto prevê a criação de três funções-chave nas políticas territoriais: os promotores territoriais serão responsáveis por apresentar oportunidades de investimento de forma estruturada, com análises de viabilidade, business cases e condições claras para investidores.

Já os curadores de oportunidades terão a missão de identificar projetos com maior potencial de impacto económico e alinhamento estratégico com os territórios, enquanto os embaixadores económicos representarão os municípios em redes internacionais e junto de comunidades empresariais no exterior, reforçando a reputação e a credibilidade dos territórios portugueses.

A iniciativa inclui ainda a criação de uma plataforma digital permanente, concebida para manter ao longo do ano a ligação entre territórios portugueses e empresários da diáspora.

A ferramenta integra uma base de dados global de investidores, organizada por setor de atividade, geografia e capacidade de investimento, assegurando simultaneamente privacidade e conformidade com o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).

Entre as funcionalidades estão sistemas de comunicação direta entre territórios e investidores, repositórios para business plans e estudos de viabilidade, dashboards com métricas em tempo real e mecanismos de matchmaking inteligente, capazes de cruzar perfis de investimento com oportunidades concretas apresentadas pelos municípios.

A plataforma permitirá ainda o agendamento de reuniões, visitas técnicas, webinars setoriais e encontros empresariais, garantindo um acompanhamento contínuo das oportunidades de negócio.

De acordo com os promotores da iniciativa, este acompanhamento é particularmente relevante, uma vez que processos de investimento internacional podem demorar entre 18 e 24 meses desde o primeiro contacto até à decisão final.

Fórum internacional reunirá empresários da diáspora e territórios portugueses

A primeira edição do fórum “Portugal, Nação Global” está marcada para 29 e 30 de abril, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e deverá reunir mais de 300 empresários nacionais e da diáspora provenientes de mais de 40 países, além de representantes institucionais e entidades empresariais.

O encontro contará ainda com a participação de cerca de 50 câmaras de comércio e mais de 20 entidades supramunicipais, envolvendo diferentes níveis de governação, desde o governo da República e governos regionais até áreas metropolitanas, comunidades intermunicipais e municípios.

Durante o fórum estão previstas mais de 200 reuniões empresariais, organizadas através de uma plataforma de inscrição online criada para facilitar o contacto direto entre investidores, empresas portuguesas e representantes de territórios interessados em captar novos projetos.

Além das reuniões empresariais, o programa inclui mesas redondas, palestras e momentos de networking, destinados a fortalecer relações institucionais, mobilizar a comunidade empresarial e promover a projeção internacional das empresas portuguesas.

O evento conta ainda com o apoio de instituições estratégicas do ecossistema económico português: o Banco Português de Fomento participa como parceiro estratégico, enquanto a AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal integra a comissão executiva, contribuindo para o mapeamento da diáspora empresarial e para a promoção de oportunidades de investimento e internacionalização.

Com mais de cinco milhões de portugueses e lusodescendentes distribuídos por 178 países, a diáspora portuguesa representa uma das maiores redes globais de ligação ao país e um potencial estratégico para reforçar a competitividade económica nacional.

Mário Fortuna despede-se da docência com lição sobre os 50 anos da economia açoriana

Evento na Universidade dos Açores marca a jubilação do Professor Catedrático e analisa os avanços e desafios da região em meio século de Autonomia

© UAc

A Faculdade de Economia e Gestão da Universidade dos Açores (UAc) promove esta quarta-feira, 5 de março, a lição de jubilação do Professor Doutor Mário Fortuna. Sob o tema “Meio Século de Economia Açoriana em Autonomia: Avanços e Desafios”, a conferência terá lugar entre as 16h30 e as 18h00, no anfiteatro IX do campus de Ponta Delgada.

Segundo a nota de imprensa enviada pela faculdade, o evento marca o encerramento formal da atividade docente de uma das figuras mais proeminentes da academia regional. A sessão celebra uma carreira dedicada ao ensino, à investigação, à gestão universitária e à intervenção cívica.

Doutorado pelo Boston College (EUA) e Professor Catedrático desde 2004, Mário Fortuna consolidou um percurso que incluiu passagens por instituições internacionais de referência e a formação de sucessivas gerações de economistas. Fora do meio académico, o docente exerceu o cargo de secretário regional da Economia, em 1990, e liderou o Secretariado Regional da Ordem dos Economistas, bem como a Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada.

Na Universidade dos Açores, o seu contributo foi estruturante. Desempenhou funções de relevo como presidente do Conselho Científico e diretor do departamento de Economia e Gestão, tendo sido uma peça fundamental na criação e reestruturação de cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento que afirmaram a instituição nas áreas do turismo e da gestão.

Para além da vertente académica, a lição de jubilação reflete a experiência de quem acompanhou a economia açoriana a partir de diferentes prismas, incluindo a governação pública. O debate que se segue à lição contará com a presença do presidente da Faculdade de Economia e Gestão, João Teixeira, sendo aberto a estudantes, docentes e ao público em geral.

A sessão tem entrada livre e não requer inscrição prévia. Haverá ainda a entrega de certificados de participação aos interessados, naquele que será um momento de homenagem e de reflexão sobre o percurso económico do arquipélago nas últimas cinco décadas.