
Venicio da Costa Ponte
Vice coordenador da Iniciativa Liberal Açores
Os Açores. Meio século de autonomia, autoproclamadas vitórias políticas e um entusiasmo regional que beira o eufórico. E eis que, como cereja no bolo do progresso, surge mais uma distinção para abrilhantar as celebrações: somos a quarta pior região de Portugal em desenvolvimento regional global, segundo o INE. Palmas, por favor, fico realmente sem palavras.
Entre 26 sub-regiões, ficámos no glorioso 23.º lugar. Em coesão territorial? Campeões da base da tabela. Em competitividade? Antepenúltimos, com garra. A única luz ao fundo do túnel é a qualidade ambiental — sinal de que, ao menos, estamos a falhar rodeados por uma bela paisagem.
E como bónus, somos a região onde a natalidade mais desceu. Até os futuros açorianos pensaram duas vezes antes de nascer. E lideramos também no menor crescimento populacional do país. Não estagnamos: regredimos com elegância.
Entretanto, celebram-se os “50 anos de autonomia e vitórias” com fanfarra, discursos e selfies institucionais. Fala-se em progresso, mas não se encontra. Se progresso fosse medido em comunicados de imprensa e inaugurações de rotundas, estaríamos lado a lado com Oslo.
É curiosa esta insistência em vitórias simbólicas enquanto a realidade estatística grita por socorro. Quando se falha em tantas frentes ao mesmo tempo, talvez não seja azar, mas estratégia. E nós dominamos essa arte. Conseguimos a proeza de transformar indicadores negativos em medalhas imaginárias — com direito a foto oficial e um bolo com velas.
Aquilo que se desenrola ante os nossos olhos seria digno de uma comédia de Aristófanes, não fosse o fio de Ariadne do infortúnio a conduzir-nos inexoravelmente ao abismo da tragédia edipiana. Um arquipélago com potencial humano, cultural e natural invejável, atolado em burocracia, inércia política e falta de visão estratégica. Reclamamos reconhecimento nacional, mas ignoramos os sinais claros de que algo está profundamente desalinhado.
Talvez esteja na altura de trocar os discursos inflamados por políticas públicas que funcionem. Ou então, podemos sempre continuar a celebrar este tipo de “vitórias”. Afinal, até Pirro venceu umas quantas batalhas antes de perceber que não lhe sobrava exército.