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Do Torreão da Fajã: Peço desculpa, mas assim não vamos lá!

Bruno Pacheco

Do alto do Torreão da Fajã, os números chegam sempre antes das explicações. E, quando falamos de educação, raramente são neutros, pois expressam a medida exata das nossas prioridades coletivas. Os dados mais recentes voltam a colocar os Açores perante uma realidade difícil de contornar: estamos a divergir do país nos indicadores mais determinantes para o futuro de qualquer comunidade: a educação.

Enquanto o país acelera a qualificação avançada da sua população, continuamos a aprofundar o binómio entre o atraso educativo e o atraso estrutural.

A taxa de abandono escolar precoce subiu para 21,1% em 2025, após ter se fixado em 19,8% em 2024. O aumento pode parecer modesto à distância, “apenas” 1,3 pontos percentuais, mas ganha outra dimensão quando olhamos para o restante do país. Em Portugal, o abandono continua a descer, passando de 6,6% para 6,1%.

Dito isto, reforça-se a evidência: a distância não é apenas estatística, mas, sim, estrutural. São cerca de 15 pontos percentuais que nos separam da média nacional. E o mais inquietante é a normalização silenciosa deste fosso. Parece que voltamos ao início da década de noventa, no apogeu do “Motaamarelismo”, quando era habitual ver as cadeiras das salas de aula ficarem vazias sempre que se passava do primeiro para o segundo período. O bolor que se sente no ar indica que andamos a “andar para trás”.

Mais perturbador ainda é perceber que esta fragilidade não é recente. Em 2020, os Açores registavam 23,3% de abandono precoce. O indicador recuou para 19,8% em 2024 (o valor mais baixo do período) e agora volta a subir.

Esta oscilação revela mais do que volatilidade: expõe a dificuldade em consolidar políticas educativas e sociais capazes de promover melhorias consistentes, estruturais e duradouras. Caso para perguntar: não vamos acordar para a vida?

Afinal, o que temos?

Mais de um em cada cinco jovens açorianos sai do sistema educativo sem concluir o ensino secundário. É um sinal persistente de fragilidade e, com isto, perduram os ciclos de pobreza. No meio disto tudo, continuamos nos achismos da vida e pensando que “vamos lá” com “prosucessos” requentados.

No fundo, continua-se a não enfrentar o problema de frente: só vamos conseguir resolver o abandono precoce quando mudarmos a nossa conceção de intervenção social. De uma vez por todas, temos de assumir que as crianças estão e são o cerne da nossa sociedade e que, por elas, temos de ser firmes nas medidas e deixar de “meias-palavras” para com as famílias sempre que não cumprem as suas funções. E, sempre que isso acontecer ou estiver na iminência, o Estado tem de intervir. Doa a quem doer. Caso contrário, e como prova a nossa história, vamos perpetuar ciclos de ignorância e pobreza.

Contudo, os “beatos salu da vida” dirão que os níveis gerais de escolaridade têm vindo a melhorar. No ensino básico, a taxa aproxima-se de 87,2%, enquanto no ensino secundário ronda os 45,9%. São progressos reais, mas insuficientes para ocultar o essencial: continuamos sistematicamente atrás da esmagadora maioria das regiões europeias.

É, porém, no ensino superior que o retrato se torna mais exigente na sua interpretação e mais preocupante na sua projeção. Nos Açores, apenas cerca de 18% da população adulta possui formação superior. O indicador cresce, mas fá-lo a um ritmo demasiado lento para as necessidades de uma economia que depende cada vez mais do conhecimento, da especialização e da capacidade técnica.

Mas, afinal, ninguém dá um pulo da cadeira com estes números?

E até quando vamos assobiar para o lado?

Há uma ligação evidente entre os vários indicadores: uma região que não consegue reter os seus jovens na escola dificilmente alimentará o percurso rumo ao ensino superior. O abandono de hoje é a escassez de quadros qualificados de amanhã, sendo uma fatura que nenhuma estratégia de desenvolvimento pode ignorar.

Do Torreão, a pergunta impõe-se com a clareza das coisas simples: que futuro queremos construir se continuamos a perder tantos pelo caminho e a formar poucos no topo? Enquanto o abandono não estiver abaixo de 5% e o ensino superior crescer a passo curto, persistirá uma dúvida difícil de ignorar: estaremos verdadeiramente a preparar o futuro? Ou apenas adiar o atraso?

Do Torreão, seguimos atentos.

Áreas Marinhas (Des)Protegidas

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito

Num mundo onde o Oceano sofre as consequências da ação antropogénica, as Áreas Marinhas Protegidas (AMP’s) têm um papel capital na garantia de um Oceano saudável, com capacidade para combater as ameaças interligadas à emergência climática. O Oceano é, talvez, o maior aliado na luta pela sobrevivência da nossa espécie num contexto de colapso climático.

Há muito que se abandonou a perspetiva de que o Oceano é apenas um território destinado à extração de recursos ou ao transporte marítimo. É, por si só, um oceano de oportunidades que devem ser pensadas de forma integrada e sustentável.

É nesta linha de pensamento que surgem as AMP’s, enquanto áreas geograficamente definidas, reconhecidas e geridas através de meios legais ou outros instrumentos, com o objetivo da conservação. Essas áreas permitem a recuperação da vida marinha e da biodiversidade, a proteção de ecossistemas vulneráveis, seja pela sua singularidade — como os campos hidrotermais dos Açores — seja pelas ameaças que as espécies enfrentam, exigindo diferentes níveis de proteção: desde áreas totalmente protegidas até áreas com menor grau de proteção, sem prejuízo das áreas não classificadas.

Em muitas AMP’s é permitida a coexistência de atividades, regulamentadas, sendo escassas as áreas com proibição total, dependendo dos objetivos que presidiram à sua criação: proteção da biodiversidade; criação de maternidades ou berçários; ou salvaguarda de locais de interesse cultural.

O seu carácter protetor permite intensificar o sequestro de carbono, regular o clima, reforçar a segurança alimentar, criar oportunidades económicas sustentáveis — como a observação de vida marinha — e instituir santuários de restauração ecológica, aumentando a resiliência climática. Acresce o seu papel na proteção costeira.

As AMP’s, quando bem geridas e com objetivos claros, são essenciais para um sistema eficaz de governação marítima. Aliás, foi com esse propósito e com o de travar a mineração dos fundos marinhos, que entrou em vigor, em Janeiro, o Tratado do Alto-Mar. A par disso, a Europa pretende criar a Lei Europeia dos Oceanos, estando sob consulta pública.

Em linha com a agenda das Nações Unidas, Portugal assumiu o compromisso de proteger 30% do mar até 2030, tendo, inclusive, antecipado a meta para 2026. Assim, os Açores avançaram com a revisão das AMP’s, alterando, em Dezembro de 2024, o quadro legislativo denominado de RAMPA. Afinal, é o Mar dos Açores que dá a Portugal a sua dimensão territorial, legitimando o seu papel ativo na gestão do seu espaço marítimo.

A alteração do quadro legislativo, alinhada com as metas 30×30, gerou expectativas progressistas quanto à proteção do Mar dos Açores. Foi transmitida a mensagem — outrora corajosa — de que a Região se afirmaria como guardiã do Oceano, liderando a criação de áreas totalmente protegidas, com 15% das AMP’s sob proteção total.

Contudo, essa mensagem começou a esbater-se no momento que antecedeu a votação da segunda alteração à RAMPA, em resultado das propostas apresentadas pelo lobby.

Embora as propostas do lobby não tenham, naquele momento, visto a luz do dia, ficaram adormecidas e despertaram quatro meses depois da RAMPA ser publicada. E, apesar das reclamações da sociedade civil, o porta-estandarte desta ambição, numa cambalhota política, aceitou a pesca de atum nas AMP’s, originalmente livres dessa atividade, violando o princípio constitucional do não retrocesso ambiental e correndo o risco de devolver verbas entregues pelo objetivo, alegadamente, alcançado.

Tudo no tempo certo e depois de servidos certos interesses, as AMP’s foram desprotegidas.

Desporto escolar: investir no presente, preparar o futuro

Corta-Mato Escolar Regional 2025 /2026 destacou o papel do desporto na educação açoriana

Márcia Goulart
Deputada pelo PSD na ALRAA

A prática do desporto escolar tem vindo a afirmar-se como um pilar fundamental da formação dos jovens nos Açores, com impactos diretos no sucesso escolar, na saúde e na prevenção de comportamentos de risco.

A Fase Regional do Corta-Mato Escolar 2025/2026, realizada na Lagoa das Sete Cidades, foi um exemplo claro dessa importância.

O desporto escolar desempenha um papel relevante no sistema educativo açoriano, assumindo-se como um complemento essencial à aprendizagem. Ao promover hábitos de vida ativos, contribui não só para a melhoria da saúde física e mental dos alunos, mas também para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais determinantes para o seu percurso escolar.

Diversos estudos apontam para uma relação positiva entre a prática regular de atividade física e o rendimento escolar, evidenciando melhorias na concentração, na capacidade de organização e na motivação para aprender. Neste contexto, o desporto escolar surge como um verdadeiro aliado da escola, potenciando o sucesso educativo e reduzindo fenómenos como o abandono e o insucesso escolar.

Paralelamente, a atividade física regular assume um papel preventivo fundamental no combate à obesidade infantil, um problema de saúde pública que continua a preocupar famílias e instituições. Ao garantir oportunidades de prática desportiva acessíveis a todos os alunos, o desporto escolar promove a igualdade de oportunidades e incentiva estilos de vida mais saudáveis desde cedo.

Outro aspeto de relevo prende-se com a prevenção de comportamentos aditivos e com a redução do tempo excessivo passado em frente a ecrãs. A crescente utilização de dispositivos digitais, fora do contexto escolar, por crianças e jovens tem levantado preocupações ao nível do desenvolvimento físico, emocional e social, principalmente, quando não há controlo por parte dos progenitores. O desporto escolar oferece uma alternativa estruturada e positiva, promovendo o convívio presencial, o espírito de equipa e a ocupação saudável dos tempos livres.

A Fase Regional do Corta-Mato Escolar 2025/2026, realizada num dos mais emblemáticos espaços naturais dos Açores, destacou-se como um momento de celebração do desporto e da escola. O evento reuniu alunos de todas as ilhas, reforçando o intercâmbio inter-escolas e o sentimento de pertença à comunidade educativa regional. Mais do que resultados competitivos, valorizou-se a participação, o esforço e o fair play.

Investir no desporto escolar é investir numa escola mais completa, inclusiva e promotora de bem-estar. Os Açores têm demonstrado que, quando educação e desporto caminham lado a lado, os benefícios estendem-se muito para além do recinto escolar, refletindo-se numa juventude mais saudável, equilibrada e preparada para os desafios do futuro.

Resistência aos antibióticos: um problema de saúde pública

Maria João Pereira
Farmacêutica

É bem sabido que, quando estamos doentes, o que mais queremos é recuperar rapidamente. Por vezes, a palavra “antibiótico” soa a um verdadeiro remédio milagroso – mas nem sempre é assim.

Os antibióticos são medicamentos utilizados para tratar infeções causadas por bactérias. Isto significa que infeções provocadas por vírus, como a gripe, a constipação e a COVID-19, não são tratáveis com antibióticos. Existem várias classes de antibióticos que diferente entre si, de uma forma simples, pelo seu mecanismo de ação, ou seja, pela forma como atuam nas bactérias – impedindo o seu crescimento e replicação (antibiótico bacteriostático) ou levando à sua morte (antibiótico bactericida).

Atualmente, o mundo enfrenta uma ameaça crescente à saúde pública: a resistência aos antibióticos. Esta resistência ocorre quando as bactérias continuam a replicar-se e sofrem mutações (alterações) mesmo na presença de um antibiótico. Quando isso acontece, o antibiótico deixa de ter o efeito desejado e a infeção até se pode tornar mais violenta. Entramos, assim, num ciclo preocupante: antibiótico –> bactéria resistente –> infeção difícil ou impossível de tratar.

Os antibióticos não são apenas usados para tratar infeções em humanos. São também utilizados no tratamento de infeções bacterianas em medicina veterinária, como promotores de crescimento em animais que fazem parte da cadeia alimentar e como pesticidas no controlo de infeções na agricultura. Ou seja, estão muito mais presentes no nosso dia-a-dia do que imaginamos, o que torna essencial uma utilização cautelosa e responsável.

Mas por que razão se trata de um problema de saúde pública? Quanto maior o número de bactérias resistentes, maior será a necessidade antibióticos diferentes e mais potentes. No entanto, a velocidade com que as bactérias desenvolvem resistências é muito superior à velocidade de descoberta de novos antibióticos. Em suma, a crescente resistência pode levar a um futuro – talvez mais próximo do que pensamos – em que não existam tratamentos eficazes para infeções comuns.

É importante compreender que nem sempre a ausência de prescrição de um antibiótico significa falta de tratamento. Muitas vezes, significa exatamente o contrário: uma decisão consciente e responsável, baseada na melhor evidência científica, para proteger a saúde do doente no presente e evitar resistências no futuro.

Sendo um problema de saúde pública, todos nós podemos contribuir para a sua prevenção:

Os antibióticos são um recurso precioso capazes de salvar vidas, mas só continuarão a fazê-lo se forem usados de forma responsável. Cada vez que os utilizamos de forma consciente estamos não só a proteger a nossa saúde, mas também a de todos à nossa volta. O combate à resistência de antibióticos começa em pequenos gestos diários – gestos de cuidado, consciência e responsabilidade hoje, para garantir tratamentos eficazes no futuro.

Carta a um jovem poeta

– (porque se eu ao menos tivesse lido esta carta antes…)

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna

Caro jovem poeta, de dezoito anos, Júlio,

Espero que essa carta te encontre sobremaneira bem, cheio de saúde e cheio de jovialidade.

Venho, do futuro, dizer-te que o futuro, como é, está, por ora, agora estragado; que o futuro, como seja, está adiado e, assim, para sempre, a glória que tu anseias, pela qual oras e pedes, incessantemente, de velas acesas, está perdido; não há, como querias, um pedaço deste Céu.

Caro poeta, mas não desanimes. A vida se é longa, ou curta, não importa – importa mais a sua ligeireza aos assuntos do coração – e da razão.

Diria eu, do alto do meu posto, onze anos à frente de ti, caro jovem poeta, que tudo se desfez; pouco ou nada se construiu, e, pior, a palavra mais cruel é mesmo essa, a palavra – absurda – “Vazio”, a mesma que tu adiarás constantemente, com medo e temor de uma queimadura forte, no teu coração, como que assoprando, continuamente, para a frente, um futuro, e um luto, proscrito e indefinido de mágoas.

Publicarás; é certo – mas quem não neste ermo? Isso não é critério e, falando-te do futuro, digo-te que queima escrever; que queima ler; como queima, enfim, sobretudo respirar ou viver.

Escrever versos dói – dizia Santos Barros. Eu lhe acrescentaria, à latitude desse verso, uma distância concreta entre o passado e o futuro – dói saber quem somos, e o que somos, enfim, (só) a penugem do Tempo, o pó da calçada, a espuma do mar, dissolvendo-se, vagamente, nas sobras da maré alta.

Olho-te, jovem poeta, do teu lugar de abysmo (sim – com “y”, como diria e escreveria Fernando Pessoa) para te dizer o seguinte: tu não és uma má pessoa; és uma pessoa à qual más coisas aconteceram – e, para tal, movido pela fúria da sociedade em demanda, como num carrossel apressado, foste seguindo os dias, esperançoso, demorado, ansioso, adiado …e, muitas vezes, odiado.

Espero-te, jovem poeta Júlio, que consigas perceber, do alto do teu enigma, do teu Futuro, o que não consegues enxergar com esses olhos cheios de esperança e de virilidade: fala-te quem já passou pelo que tu, inevitavelmente, vais passar; fala-te quem já viveu uma vida que, invariavelmente, vais ter de viver e de suportar.

Não basta escrever bem; é preciso ter uma boa fama no público, ser apupado e respeitado pelas elites; é necessário conter, no saldo, uns quantos trocos preparados na carteira, para comprares os teus próprios livros, a bolsa cheia de futilidades, uma pena de lugares-comuns, por vezes, e o enigma da consciência cheio de urina pálida. Sim: de escura urina, para não dizer outra palavra – porque nada mais importa do que ser verdadeiramente “importante” nesta caos social em que se o Estado falha, a mente, qual quê, também falhará.

Assim te vês, decerto, no presente: muito “importante”, inédito e especial. Deixa-me desmanchar-te esse pedestal. Pois bem, desculpa-me, ó jovem poeta, desiludir-te, mas as coisas importantes, e inéditas, deixam muito depressa, penduradas, as pessoas importantes na paragem do esquecimento eterno – prescrevem rapidamente na sua fila de espera pelo cânone ou pelo Nobel… ou pelo premiozinho literário.

Rogo-te que pares de sonhar as coisas absurdas. Que reflitas não nos futuros louvores, mas em ti. E, embora não o vás fazer, que o faças, impiedosamente..; e que, lendo esta carta, escrita onze anos depois de ti, pares um momento, e reflitas, sozinho – longe de todos: vale a poesia a pena nas mãos de um jovem poeta?

Escrevo-te para te salvar; embora já esteja perdida, de pouca absolvição, a tua nobre, e genuína, pena… Então, escrevo-te para me salvar, talvez, para me redimir, de novo, de tanta coisa. Se calhar, no fundo, esta carta servirá mais para mim, seu remetente, do que para ti, seu destinatário.

Assim o farás: porás estas letras no balde do lixo do teu quarto, depois de semilidas, como a todos os avisos e conselhos, mesmo que poucos. Ao menor conselho, de alguém verdadeiramente amigo e lúcido, terás a tua jovem consciência, virtuosa, a afirmar-te com raiva: “É um grande disparate!”. E, não obstante acompanhado de outros poetas – mais cognomizados e reconhecidos como tal -, um dia, mais tarde, eles também te deixarão à berma da estrada, por só… e só, somente sozinho com a tua consciência.

Restar-te-á, no fundo, um apelo bem fundo: voltar atrás. Mas, lamento informar-te, e desiludir-te, Júlio. Não se desfaz. Não há remédio. Nem retorno. Nem absolvição.

Mas não será, penso, de todos os homens, de todas as mulheres deste mundo, viver assim carregando uma culpa só sua?

Então, também a terás, jovem poeta, por direito, a essa culposa mancha.

Lamento contar-te, mas, de ti, verá auspicioso futuro, embora contido, e continuadamente preterido na solidão ruidosa, escura e vazia, do teu quarto frio – terminarás, ó se sim…, os primeiros degraus académicos e, por ora, não te julgues acima dos maiores textos da Humanidade, só por isso – eles foram, supostamente, escritos por gente sem curso superior, ou curso algum. Bem, pelo menos uma parte deles…

Termino, ó jovem, contando-te que somos maiores quando nos encolhemos; e, quando nos encolhemos, para caber nos outros, somos maiores: lê! Lê! Quanto, portanto, possas ler o mais que puderes.

Penso que, no fundo, como a qualquer jovem escritor ou poeta, falta-te, ainda por chegar, um amor proibido, uma causa perdida, uma perda irremediável. A seu tempo, para amadurecer o corpo, a mente, o coração e, claro, a escrita.

Com enorme estima,
o teu
Júlio Tavares Oliveira

Do Torreão da Fajã: proteger não é desenhar mapas. E agora?

Bruno Pacheco

Do alto do Torreão da Fajã, o mar parece sempre o mesmo. Amplo, contínuo, indiferente aos limites que lhe traçamos. Talvez por isso, a tentação de o governar por mapas seja tão persistente e tão antiga, tão antiga que se perde nas linhas históricas dos navegadores fenícios. Uma linha aqui, uma cor ali, e instala-se a sensação de controlo. Mas o oceano não lê decretos nem se deixa proteger por meio de cartografia.

A criação do Parque Marinho dos Açores, com a promessa de proteger 30% do mar à nossa volta, foi apresentada como um marco histórico. E é, mesmo que, para já, permaneça sobretudo no plano simbólico. Marca uma intenção política, um posicionamento internacional, uma narrativa de modernidade. O problema começa quando se confunde a intenção com a capacidade de executar o planeado. Porque proteger não é desenhar mapas. Proteger é exercer autoridade. E, no mar, a autoridade não se decreta: constrói-se.

A Região assume agora a responsabilidade por uma área marítima de escala continental, fragmentada, distante da costa e, em grande parte, inacessível por meios tradicionais. Todos sabem que “não vamos lá” apenas com patrulhamento físico. Insistir nesse modelo é aceitar que, na prática, partes significativas do território protegido permanecerão invisíveis.

E agora?

A fiscalização contemporânea do oceano faz-se de outra forma. Faz-se com monitorização remota contínua, cruzamento de sinais de navegação, análise de padrões de comportamento e deteção automática de anomalias. Satélite, AIS, VMS, algoritmos de risco e centros de decisão capazes de transformar dados em ação. Não por entusiasmo tecnológico, mas por imposição da escala. Quem gere grandes áreas marinhas sem estes instrumentos não governa, mas sim reage.

Sem esta infraestrutura, o parque corre o risco de existir, sobretudo, no papel: regras claras, fiscalização episódica, incumprimento silencioso. Quando a probabilidade de deteção é baixa, a lei deixa de regular comportamentos e limita-se a declarar princípios. E isso é, como se sabe, o princípio do fim de uma lei.

Há, porém, uma questão ainda mais estrutural e falada quase em surdina: o financiamento. Um parque marinho desta dimensão não é apenas um instrumento ambiental. É um ativo estratégico dos Açores e do País, um reservatório de biodiversidade, um sistema de regulação climática, uma plataforma de conhecimento científico e um fator de reputação internacional. Não pode servir apenas para exibição em fóruns internacionais. Se a República quer esta ambição, tem de pagar por ela. Nem que seja para se poder “passear” pelos corredores internacionais com “o troféu na mão”.

É, neste contexto, que temos de introduzir “novos” conceitos para “arranjar dinheiro” para esta despesa enorme, mas necessária. O Parque Marinho dos Açores representa um valor real para o país, e esse valor não consta no PIB, mas existe. E deve ser reconhecido, quantificado e integrado nas decisões de financiamento público. Neste sentido, e como defendido anteriormente, é tempo de recorrermos aos manuais da bioeconomia e de introduzir, na lei das finanças regionais, o conceito de “capital natural”, tal como defende Jorge Moreira da Silva, antigo ministro do PSD e atual Secretário-Geral Adjunto das Nações Unidas.

Do Torreão da Fajã, a conclusão impõe-se: ou o parque é tratado como o ativo estratégico que é, ou arrisca transformar-se numa figura retórica bem-intencionada. O mar continuará ali. A diferença estará em saber se a ambição política teve coragem de ir até ao fim.

Do Torreão, seguimos atentos.

RSI: A falta de fiscalização leva à fraude

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores

Chegou o momento de dizer o que muitos pensam, sentem e comentam em voz baixa: o RSI falhou. Falhou como instrumento social, falhou como política pública e falhou moralmente. E quando algo falha de forma sistemática durante anos, não se corrige com remendos, acaba-se!

O Rendimento Social de Inserção foi criado com uma intenção nobre. Ajudar quem caiu, quem perdeu tudo, quem precisava de uma mão para se reerguer. Mas o que temos hoje não é isso. O que temos hoje é um sistema capturado pelo abuso, alimentado pela falta de fiscalização e mantido por cobardia política.

O RSI transformou-se num modo de vida para milhares de pessoas que podem trabalhar e não trabalham. Não por falta de oportunidades, mas porque o sistema lhes diz, na prática: não vale a pena esforçares-te. Recebes todos os meses, ninguém te fiscaliza, ninguém te exige nada, ninguém te cobra responsabilidade.

Isto não é solidariedade. Isto é incentivo à dependência.

Quem trabalha, quem paga impostos, quem cria riqueza, quem sustenta o Estado, olha para este sistema e sente revolta. E com razão. Porque percebe que o Estado é implacável com quem cumpre e permissivo com quem se aproveita. Porque percebe que há famílias que vivem do RSI há anos, sem qualquer contrapartida séria, enquanto outras vivem no limite com salários baixos e contas para pagar.

A falta de fiscalização não é um detalhe técnico. É a raiz do problema. Assistentes sociais transformadas em meros processadores de papéis, ausência de visitas ao terreno, inexistência de cruzamento eficaz de dados, denúncias ignoradas. O Estado sabe onde está a fraude. Simplesmente escolheu não agir.

E depois há o efeito mais perverso de todos: o RSI destrói o valor do trabalho. Passa a mensagem errada às gerações mais novas. Diz-lhes que estudar, trabalhar, esforçar-se é opcional. Que o Estado estará sempre lá, mesmo que não se faça nada em troca.

Um país que normaliza isto não tem futuro.

Não me venham com o argumento do “caso social extremo”. Esses devem ser protegidos, mas com outros mecanismos, claros, rigorosos, temporários e fiscalizados. Não com um sistema aberto, permanente e facilmente explorável como o RSI.

Sempre o disse e voltarei a dizer:

O RSI não precisa de mais dinheiro.

O RSI não precisa de ajustes.

O RSI precisa de acabar.

Portugal precisa de políticas sociais que empurrem para a autonomia, não que prendam pessoas à dependência do Estado. Precisa de apoiar quem cai, mas também de exigir que quem pode trabalhar o faça. Precisa de justiça social verdadeira, não de discursos bonitos que escondem injustiças gritantes.

Enquanto o RSI existir como existe hoje, continuará a premiar o imobilismo, a castigar quem trabalha e a corroer a confiança no Estado. E nenhum país sobrevive muito tempo quando quem cumpre sente que está a ser enganado.

Dizer que o RSI tem de acabar não é radicalismo.

É bom senso.

É coragem política.

É respeito por quem trabalha.

E é isso que defendo. Sem medo. Sem rodeios.

Quando o corpo não desliga: o impacto do tempo de ecrã nas crianças

Mafalda Melo
Psicomotricista
CDIJA

Os ecrãs tornaram-se inseparáveis do quotidiano, informando, entretendo e aproximando pessoas, espalhando-se por todo o lado — no bolso que carregamos, na sala onde nos encontramos e nas ruas por onde caminhamos. A infância cresce, também, neste cenário tecnológico e com ela surgem novos desafios que pedem um olhar atento para o corpo e para o desenvolvimento das crianças.

Na consulta de Psicomotricidade, surgem cada vez mais preocupações como estas: “Porque é que ele está sempre agitado?”, “Como é que consegue estar tão quieto diante de um telemóvel, mas depois fica tão irrequieto?”, “Porque é que ela parece desligada?”, “Porque é que custa tanto concentrar-se, acalmar ou dormir?” A resposta raramente é simples, mas, em muitos casos, o corpo está a dar sinais claros de sobrecarga.

Quando uma criança está diante de um ecrã, o corpo pode parecer quieto, mas o sistema nervoso está longe de estar em repouso. Luzes intensas, cores vibrantes, sons constantes, recompensas rápidas e estímulos sucessivos colocam o organismo num estado de alerta permanente. O corpo aprende a estar sempre pronto para reagir. Com o tempo, este estado de excitação constante pode traduzir-se em irritabilidade, impaciência, dificuldade em relaxar, menor tolerância à frustração e uma necessidade contínua de estímulos. Paralelamente, o sedentarismo prolongado e as posturas pouco funcionais interferem diretamente com o tónus muscular, podendo gerar tensão, fadiga, agitação sem propósito e uma menor consciência corporal.

Neste contexto, a psicomotricidade assume um papel fundamental na valorização do corpo em movimento, da exploração do espaço, do brincar livre e da interação real, promovendo o desenvolvimento motor, cognitivo e emocional de forma integrada. O corpo da criança precisa de correr, saltar, cair, explorar, experimentar e até aborrecer-se. É através do movimento livre, dos sentidos e da ação corporal que a criança organiza emoções, constrói a atenção, estrutura o pensamento e conhece limites. Uma intervenção técnica especializada com um psicomotricista pode fazer a diferença, pois este fornece estratégias adequadas e direcionadas à família e à criança, de modo a promover habilidades essenciais para o seu desenvolvimento, sejam elas pegar corretamente num lápis para escrever, distinguir a esquerda e a direita, usar uma tesoura, equilibrar-se sem cair, lançar ou apanhar uma bola, começar e terminar uma tarefa, organizar e planear ações e outras aquisições motoras e cognitivas importantes. Desta forma, complementa o desenvolvimento, fortalecendo a confiança, a autonomia e a segurança da criança.

No dia a dia, pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença. A criação de rotinas com menos ecrãs, sobretudo em momentos-chave como as refeições, antes de dormir ou durante a brincadeira, ajuda o corpo a abrandar. A troca de tempo passivo por tempo ativo, através de jogos de movimento, brincadeiras no chão, expressão corporal ou contacto com a natureza, devolve ao corpo aquilo de que ele precisa. Uma redução gradual do tempo de ecrã, mesmo que apenas de 10 a 15 minutos por dia, já representa um passo importante.

Os adultos têm um papel essencial, visto que as crianças aprendem pelo exemplo. A atenção plena, o olhar disponível, a presença sem distrações e o uso consciente do telemóvel transmitem mensagens poderosas às crianças. Quando os ecrãs são utilizados como resposta automática para acalmar ou silenciar emoções perde-se a oportunidade de ajudar a criança a desenvolver competências de autorregulação e de aprender a lidar com a frustração e o tédio.

Cada momento conta, sendo fundamental oferecer às crianças espaço para sentir o corpo, viver o movimento e descobrir a alegria simples de brincar. Que cada passo, cada salto, cada sorriso seja mais forte do que qualquer notificação. O mundo digital está à porta, mas o mundo real pulsa dentro delas — e é aí que o crescimento acontece.

Só na América

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático

A expressão “só na América” era muito utilizada na minha infância para descrever produtos mais “evoluídos” que não existiam por cá e que chegavam através de familiares emigrados no Canadá ou nos Estados Unidos. A chegada de um “barril da América” era um acontecimento por si só, recheado de coisas doces e apetecíveis como pastilhas elásticas Bazooka Joe, chocolates Hershey’s ou manteiga de amendoim. Com o passar dos anos, muitos destes produtos acabaram por ganhar presença no nosso mercado, ou surgiram equivalentes locais, e a expressão passou a ser usada em tom jocoso e nostálgico.

Hoje, porém, a expressão voltou a ganhar relevância, desta vez de forma mais preocupante. Refiro-me a um conjunto de produtos e serviços que praticamente só existem na América, mais concretamente nos Estados Unidos: serviços digitais ligados às tecnologias de informação, sistemas operativos, serviços de computação em nuvem (cloud), segurança digital e, mais recentemente, inteligência artificial.

Os sistemas operativos são o software que gere todo o hardware de um computador, seja ele um portátil, um dispositivo móvel ou um servidor. Sem eles, os equipamentos são inúteis. No segmento dos dispositivos móveis, os dois principais sistemas operativos são Android (Google) e iOS (Apple) que detêm cerca de 99% do mercado global. No universo dos computadores pessoais, o domínio é igualmente concentrado: Microsoft Windows e macOS (Apple) representam aproximadamente 80% do mercado mundial.

Se passarmos para a infraestrutura da Internet, o cenário repete-se. No setor da computação em nuvem, Amazon Web Services (AWS), Google Cloud e Microsoft Azure, todas empresas norte-americanas, controlam cerca de 66% do mercado mundial. No caso europeu, a dependência é ainda mais evidente: aproximadamente 70% da infraestrutura cloud na Europa está alojada nestas três plataformas, enquanto apenas cerca de 15% se encontra em empresas europeias.

Nos motores de pesquisa, a concentração é ainda mais acentuada. Empresas norte-americanas detêm cerca de 91% da quota de mercado global, com destaque esmagador para a Google. No domínio das redes sociais, embora a medição seja mais complexa, a tendência mantém-se: estima-se que mais de 65% do mercado global esteja nas mãos de empresas dos Estados Unidos, através de plataformas como Facebook, Instagram, YouTube, LinkedIn e X. A única exceção verdadeiramente relevante é o TikTok, que, pelo menos por agora, não pertence a uma empresa norte-americana.

Mais recentemente, esta dependência estendeu-se ao domínio da inteligência artificial, um setor estratégico que está a moldar a próxima geração de serviços digitais. Os principais modelos de IA generativa e plataformas de computação associadas, utilizados em motores de busca, produtividade, programação, vigilância e criação de conteúdos, são desenvolvidos e operados quase exclusivamente por empresas dos Estados Unidos.

Este domínio tecnológico é acompanhado por um enquadramento legal específico: leis norte-americanas permitem que as autoridades exijam o acesso a dados armazenados por empresas sediadas nos EUA, mesmo quando esses dados se encontram fisicamente alojados fora do território americano. Em muitos casos, essas ordens judiciais incluem cláusulas de confidencialidade (“gag orders”), que impedem as empresas de informar os seus clientes de que os seus dados foram fornecidos ao governo. Na prática, isto significa que uma parte significativa dos dados de cidadãos, empresas e instituições europeias sendo processados por serviços digitais norte-americanos podem estar sujeitos a acesso governamental sem conhecimento dos titulares, levantando questões profundas sobre soberania digital, privacidade e autonomia estratégica, e diretamente contraditórias à legislação europeia de proteção de dados.

Esta situação não é nova. No entanto, o recente reposicionamento geopolítico dos Estados Unidos face à Europa, que tem fragilizado uma relação construída ao longo de décadas, torna este tema particularmente urgente. A Europa vê-se, uma vez mais, no centro de um dilema existencial: decidir se aceita a vassalagem digital ou se investe na autonomia estratégica necessária para sustentar a base da sua própria civilização moderna.

A cirurgia da coluna hoje é mais segura do que imagina

Gonçalo Fernandes de Freitas
Neurocirurgião especialista em patologia da coluna
no Hospital CUF Tejo, Hospital CUF Sintra e Hospital CUF Açores

Falar de cirurgia da coluna é falar do tratamento de problemas muito comuns, como as hérnias discais, o estreitamento do canal vertebral ou o deslizamento de vértebras, alterações frequentemente associadas ao desgaste natural da coluna ao longo da vida.

Apesar de serem situações bem conhecidas pela medicina, a cirurgia da coluna continua rodeada de receios e ideias feitas que nem sempre correspondem à realidade. Muitos destes mitos resultam de experiências isoladas ou de relatos antigos, que não refletem a evolução significativa desta área nas últimas décadas. Hoje, graças à maior experiência dos cirurgiões, ao volume elevado de procedimentos realizados e aos avanços tecnológicos, a cirurgia da coluna é, na grande maioria dos casos, um tratamento seguro e eficaz.

Um dos receios mais frequentes é o risco de paralisia. No contexto das doenças degenerativas da coluna, esse risco é atualmente muito baixo, com uma incidência inferior a 1%. Outro mito comum é a ideia de que a cirurgia só deve ser considerada quando a dor se torna insuportável ou quando já existe dificuldade em andar. De facto, o tratamento destas patologias começa, quase sempre, por uma abordagem conservadora, que inclui medicação, fisioterapia e adaptação temporária da atividade física, com bons resultados na maioria dos doentes. No entanto, quando estas medidas falham ou quando existe compressão prolongada dos nervos ou da medula, a cirurgia pode ser necessária para evitar danos irreversíveis e permitir a recuperação.

Há também quem acredite que a cirurgia da coluna “não resulta”. Tal como em qualquer tratamento médico, o sucesso depende de um diagnóstico correto, de uma técnica adequada e de um acompanhamento pós-operatório estruturado. Quando bem indicada, a cirurgia apresenta taxas de sucesso elevadas a longo prazo, sobretudo quando integrada num plano de reabilitação que inclui fisioterapia e vigilância clínica.

Outro mito persistente é o de que não é possível retomar uma vida normal após uma cirurgia à coluna. O objetivo principal da intervenção cirúrgica é aliviar a dor, melhorar a função e proteger as estruturas nervosas. Com técnicas cada vez menos invasivas e melhores cuidados anestésicos, muitos doentes recuperam rapidamente, regressando gradualmente às suas atividades diárias. A maioria consegue retomar a sua rotina entre algumas semanas e alguns meses, dependendo da complexidade da cirurgia.

Existe ainda a ideia de que quem é operado uma vez terá inevitavelmente de ser operado novamente. Embora a coluna sofra um processo natural de envelhecimento, a maioria dos doentes não necessita de novas cirurgias. Por fim, importa reforçar que nem toda a dor nas costas exige avaliação por um neurocirurgião. No entanto, sintomas como perda de força, alterações da marcha, formigueiros persistentes, dor noturna intensa ou alterações do controlo urinário ou intestinal justificam uma observação médica especializada atempada.

Estar atento aos sinais do corpo e não adiar a avaliação médica é um passo essencial para proteger a saúde da coluna e garantir melhor qualidade de vida a longo prazo.