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Os Açores são um desses lugares

Turismo em tempo de guerra: quando o mundo procura destinos de Paz

Rúben Cabral
Deputado pelo PSD na ALRAA

Vivemos numa época em que a estabilidade internacional já não é garantida.

O Turismo é muitas vezes visto como uma indústria de paz. Viajar aproxima pessoas, culturas e realidades diferentes. Mas é também um dos setores que mais rapidamente reage quando o mundo entra em tensão.

As tensões geopolíticas regressaram ao centro do debate internacional e conflitos como a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, a tensão na Faixa de Gaza e a guerra no Irão lembram-nos que a estabilidade global não é um dado adquirido.

Quando o mundo muda, mudam também os comportamentos das pessoas — e o Turismo é dos primeiros setores a sentir esses sinais. Alteram-se rotas aéreas, aumentam custos, cresce a prudência nas decisões e muda a forma como os viajantes escolhem os seus destinos.

A literatura sobre turismo e crises mostra-nos algo importante: as pessoas raramente deixam de viajar, mas tendem a escolher de forma diferente.

Quando o mundo parece mais incerto, procuram destinos que transmitam confiança e estabilidade, lugares onde seja possível abrandar e sentir alguma distância do ruído das tensões globais.

Mas há também desafios claros. Em contextos de instabilidade internacional, os turistas tendem muitas vezes a privilegiar viagens mais curtas e destinos mais próximos. Ao mesmo tempo, conflitos geopolíticos costumam provocar aumentos no preço da energia e do petróleo, o que pressiona diretamente os custos da aviação e, consequentemente, o preço dos bilhetes.

Para destinos insulares e mais distantes, como os Açores, esta realidade coloca uma exigência adicional. A distância é parte da nossa identidade atlântica, mas também obriga a uma competitividade reforçada: quando viajar se torna mais caro, os turistas escolhem ainda com mais critério, procurando destinos que inspirem confiança e ofereçam experiências que marcam uma vida.

E como temos desvantagem no que às distâncias diz respeito, a qualificação do destino torna-se, absolutamente, decisiva. Num setor cada vez mais exigente, destacam-se os destinos que investem continuamente na qualidade da experiência que oferecem.

Significa formar melhor, organizar melhor e preservar melhor. Significa garantir que quem visita os Açores não encontra somente paisagens extraordinárias, mas também serviços de qualidade, mobilidade eficiente e uma experiência coerente com a sustentabilidade que o arquipélago tem afirmado.

A competitividade turística dos Açores não se constrói apenas com promoção. Constrói-se com qualidade e credibilidade. Com confiança.

É precisamente aí que está o grande desafio dos Açores: continuar a afirmar-se não pela quantidade, mas pela qualidade. Não pela pressa, mas pelo equilíbrio.

Porque, quando o mundo parece mais turbulento, há lugares que se tornam ainda mais valiosos.

Os Açores são um desses lugares.

Jovens missionários deixam marca em Vila Franca do Campo

A vila que tem São Miguel Arcanjo como padroeiro encheu-se esta semana de mochilas às costas e camisolas bordô. A Missão País despediu-se assim do concelho onde nasceu a primeira edição nos Açores, encerrando um ciclo de três anos consecutivos com um balanço de partilha

© CLIFE BOTELHO / IGREJA AÇORES

Sob o lema “A paz esteja convosco”, cerca de 60 universitários percorreram escolas, lares e casas particulares, deixando um rasto de esperança na comunidade local. Entre os rostos que compunham o grupo estava Vicente Cerejo, natural de São Miguel e estudante de Medicina. Apesar de já frequentar o terceiro ano do curso, esta foi a sua estreia no projeto, motivada pelo convite de amigas. Para o futuro médico, o impacto da semana ultrapassou a barreira das palavras. “A experiência está a ser especial. Às vezes, até as palavras são complicadas… Às vezes é preciso um abraço”, confessa, sublinhando que o fim da semana é, na verdade, um novo começo. “Agora é que começa realmente a minha primeira missão. Até agora eu só tinha existido. Quando acabar esta missão já sei o que é que posso fazer para cumprir uma missão”, afirma Vicente.

O entusiasmo é partilhado por Gonçalo Tanissa, que viajou de Évora para participar pela primeira vez, seguindo o exemplo do irmão mais velho. Para Gonçalo, a missão é uma forma ativa de evangelização através do exemplo pessoal. “Ser discípulo hoje é olhar para esta alegria que nós recebemos e espalhá-la. Ao verem a nossa alegria, as pessoas ficam tocadas”, explica o universitário, destacando a capacidade de contágio que um sorriso pode ter numa comunidade.

Mesmo para quem já é veterano nestas andanças, como Beatriz Novais, de 22 anos, a Missão País continua a surpreender. A estudante de Engenharia Química na Universidade Nova de Lisboa já soma cinco missões, mas garante que a rotina não tem lugar nesta experiência. “Está a ser muito surpreendente. Já fiz várias missões e ainda assim consigo ver que há tanta coisa para anunciar”, refere. Este ano, o seu trabalho centrou-se no contacto com os mais novos, uma experiência que descreve como revitalizante: “A alegria dos miúdos e a simplicidade com que vivem a vida têm sido transformadoras”. Para Beatriz, o desafio agora é transportar esta disponibilidade para o dia a dia familiar e social. “Às vezes ligar a um amigo é um porta-a-porta. A minha família vai precisando… e fazer este serviço às pessoas que estão na minha vida”, partilha.

© CLIFE BOTELHO / IGREJA AÇORES

A coordenação do projeto nos Açores também reflete este espírito de serviço. Mariana Sousa, também estudante de Medicina, trocou Lisboa pelo arquipélago açoriano e assumiu a liderança do grupo com o objetivo de lançar raízes locais. “A minha missão foi capacitar as mãos dos outros para fazer tudo isto”, explica, reforçando o desejo de que os universitários açorianos sintam que “a Igreja pode ser nossa também”. Embora o número de jovens da região ainda seja reduzido, a organização acredita que a semente lançada em Vila Franca do Campo dará frutos noutras ilhas e faculdades nas próximas edições.

Nos bastidores, Inês Carvalho, aluna em Évora e chefe de oração, recorda que o serviço externo exige um trabalho prévio de interioridade. “Precisamos de conseguir encher-nos de alegria para darmos a nossa alegria também à comunidade”, nota. O sentimento é sublinhado pelo padre Tiago Tédeu, que acompanhou o grupo, vendo neles um sinal de esperança para o mundo atual. “Não é apenas um momento de oração, mas também de convívio e, sobretudo, de entrega à comunidade”, destaca o sacerdote.

A Missão País, que nasceu em 2003 e hoje mobiliza mais de quatro mil jovens em todo o país, despediu-se de Vila Franca do Campo este sábado com a tradicional representação teatral, num momento de partilha que simboliza o fecho de um ciclo e a promessa de que a paz semeada e a marca deixada continuarão a crescer na vida de cada um dos envolvidos e na comunidade vilanfranquense.