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José Estêvão de Melo: o percurso de um informático empreendedor

Informático e empresário, vive um dia a dia bastante agitado que se divide entre o seu lado profissional e pessoal. Numa entrevista ao Diário da Lagoa, partilha o seu percurso e ponto de vista acerca da inteligência artificial

José Estêvão de Melo nasceu a 31 de agosto de 1979 © CLIFE BOTELHO

Natural de Vila Franca do Campo, José Melo vem de uma família de cinco irmãos. É filho de José Estêvam Pacheco de Melo, que presidiu à Câmara Municipal de Vila Franca do Campo durante mais de uma década, entre os anos 80 e 90. “Cresci com o apelido de presidente”, recorda.

O seu percurso académico começou em Vila Franca, onde estudou até ao nono ano, concluindo a escolaridade na Escola Antero de Quental. É fora dos Açores que ingressa no ensino superior, frequentando o curso de Engenharia Informática, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. José Melo admite não ter passado por um período de adaptação difícil ao sair dos Açores, porque tinha os seus irmãos mais velhos a viver lá. “Foi espetacular”, afirma.  

O primeiro emprego surgiu em Lisboa. Estagiou numa “sub-holding da Sonaecom”, a antiga WeDo Consulting, e o seu bom resultado garantiu-lhe um lugar na empresa, onde ficou de 2007 a 2009. O informático refere ter aprendido muito durante esse período e explica que desempenhou mais do que uma função na empresa. Começou por fazer parte da equipa de Optimus (atual NOS) e mais tarde integrou outra equipa de desenvolvimento. José “gostava imenso” da parte que o permitiu programar, apesar do desafio de o fazer numa empresa de telecomunicações.

Uma nova etapa

Embora gostasse daquilo que fazia em Lisboa, o desejo de voltar para casa fez José terminar esta etapa. De volta aos Açores, chega sem emprego, mas com convicção de que “ia conseguir fazer alguma coisa”. É quando regressa que começa a dar “formação” em escolas profissionais. Deu aulas de TIC, uma área que não era exatamente a sua, mas considera ter sido uma experiência positiva.

A mudança de morada trouxe consigo o desejo de mudar de carreira e, por esta razão, cria com amigos a empresa Control Alt Delete, Lda, em 2010.  Este negócio próprio, o qual gere atualmente com Pedro Lima, inclui serviços que vão desde o desenvolvimento de websites a soluções de “software à medida” para cada cliente empresarial, embora hoje esteja mais focado na área de consultoria.

Mais recentemente criou outra empresa com o objetivo de “separar algumas coisas” da Control Alt Delete. A maior parte do seu tempo dedica-se ao desenvolvimento de software e, criar uma empresa para este fim, fez sentido.  O seu lado empresarial foi um dos aspetos que José viu desenvolver em si ao longo dos tempos.
A vida de José Melo é fortemente agitada, trabalha a partir de casa e não vê a necessidade de alterar essa rotina. Fazer programação exige de si elevada concentração: “por regra levanto-me às três ou quatro da manhã, já experimentei trabalhar a horas normais, mas não consigo”. Apesar da agenda preenchida, reserva espaço para o lado pessoal. Casado e pai de dois filhos, vive atualmente na casa que pertenceu aos seus avós. “Não aceitava muito bem a opção daquela casa ser vendida e comprei-a”, diz.

Em 2019 volta a dar aulas, desta vez na Universidade dos Açores. No entanto, por ter pouca disponibilidade e projetos que ainda desejar pôr em prática, tomou recentemente a decisão de deixar o ensino.

“A inteligência artificial não tem que ser uma coisa má”

O Diário da Lagoa falou com José Melo sobre um dos temas que mais marca a atualidade: a Inteligência Artificial (IA). Colaborador do nosso jornal e autor de artigos dedicados a este tema, sublinha que, “apesar de não ser especialista nem investigador” de IA, usa a ferramenta frequentemente. “Para mim é positivo e tem ajudado muita gente”, afirma. Com a ajuda da IA, José Melo criou um “programa de treino de força” e observa um futuro com o auxílio desta ferramenta cada vez mais presente no nosso dia a dia. “A inteligência artificial não tem que ser uma coisa má”, conclui. Ainda assim, manifesta preocupação com o impacto que a tecnologia poderá ter na redução de postos de trabalho.

Em relação ao futuro, José Estevão de Melo afirma não ambicionar grandes mudanças, além do desenvolvimento de algumas ideias pessoais. Não obstante, revela interesse em visitar Angola, já que desenvolve, atualmente, um software para um parceiro local.

Daniela Silveira: uma década de arte e gestão cultural

Natural da ilha Terceira, é dona de vários projetos no âmbito cultural, área à qual escolheu dedicar-se há mais de dez anos. Considera-se uma pessoa “resiliente” e cresceu num ambiente onde a cultura sempre teve grande importância

Daniela Silveira é gestora, produtora cultural e fundadora da associação Get Art © DIREITOS RESERVADOS


Daniela Silveira cresceu na freguesia da Conceição, em Angra do Heroísmo, filha de mãe natural de Santa Bárbara e de pai da Praia da Vitória, passou grande parte da sua juventude num ambiente citadino.
“A família do meu pai é muito diferente da da minha mãe”, conta. A forte ligação da sua família paterna à Base das Lajes fez Daniela crescer com uma forte influência americana. “A minha avó era empregada doméstica dos americanos e a minha tia era babysitter dos seus filhos. Quando eu ia a casa da minha avó, era tudo americano, desde os alimentos aos eletrodomésticos”, diz. O contacto com o jazz, que viria a ser o tema do seu primeiro projeto, começou, precisamente, nos bailes que frequentava na Base das Lajes.
Inicialmente,

Inicialmente, Daniela Silveira começou por se formar “na área de Direito”, frequentando uma licenciatura de quatro anos no Porto, mas enveredou pela área de gestão de empresas. Começa profissionalmente na área da cultura em 2012, dando asas àquele que viria a ser o seu primeiro projeto, o “+Jazz”, que, mais tarde, se torna num festival internacional. Rapidamente, Daniela percebeu que queria fazer da cultura a sua vida profissional.

O +Jazz nasce com o objetivo de dar palco aos músicos locais esquecidos dos festivais internacionais de jazz realizados na ilha Terceira. “Eu queria criar um palco onde estes artistas pudessem apresentar os seus trabalhos”, explica. Uma das suas grandes intenções era também a de levar este estilo musical aos “bares e restauração local”. Daniela refere que, inicialmente, os apoios ao +Jazz foram “residuais”, mas ainda assim suficientes para manter o projeto de pé. O festival ganha “outra visibilidade” quando se muda para Angra do Heroísmo, levando o capitão Pedro Horta a sugerir o “revivalismo” dos bailes de jazz da Base das Lajes, como os que Daniela frequentava em criança.

Com o surgimento do +Jazz, os “projetos locais relacionados” a esta área passaram a ser promovidos pelo festival que, ao longo do tempo, foi transportado a “outras ilhas”. Com uma duração de dez anos, o +Jazz encontra-se atualmente “adormecido”.

Durante os dez anos do +Jazz, Daniela envolvia-se, paralelamente, em outras atividades. Foi colaboradora de diversas entidades ligadas à cultura. Passou pelo Cine Clube da Ilha Terceira, pelo Museu de Angra do Heroísmo e fez parte da direção do Instituto Açoriano da Cultura, mas desenvolvia, ao mesmo tempo, os seus “próprios projetos”. Sentia que não se “revia no perfil de funcionária pública”, preferindo a liberdade de “diversificar”, trabalhar “com equipas e projetos diversos” e fazer o seu “próprio horário”.

Em 2019 nasce a associação “Get Art”, por iniciativa de Daniela Silveira, com o objetivo de agregar e promover festivais musicais, como o festival “Lava que surge, também em 2019, na ilha do Pico. “A Get Art é o amadurecimento de sete anos de trabalho, quando eu já começava a perceber a dinâmica de gerir uma associação cultural”, afirma Daniela.

Daniela reconhece que o mais difícil de ter uma associação é “mantê-la” a funcionar. Sem funcionários fixos, a Get Art funciona com profissionais em “regime de prestação de serviços e a gestora cultural confessa que, “durante muito tempo”, se sentia sobrecarregada por estar “em todas as frentes”. Hoje, o trabalho é dividido por uma “pequena comunidade”, fundamental para o desempenho da associação. Ao tornar-se mãe em 2019, surgiu a necessidade de adaptar o seu horário de trabalho, contudo com a maternidade surgiu também a exploração de novas perspetivas profissionais.

Um dos projetos mais queridos a Daniela Silveira é o “Atitude”. Criado em conjunto com colegas, o Atitude começa por ser desenhado para uma candidatura para a fundação “Calouste Gulbenkian” no âmbito do programa “Parties & Art for Change”, envolvendo “a arte direcionada a um público com deficiência física cognitiva”, diz. O projeto, apesar de finalista, não recebeu o financiamento, mas foi levado pela Get Art a nível regional. Aprovado pela Direção Regional para a Promoção da Igualdade e Inclusão Social, o Atitude arranca com “duas residências artísticas” na ilha Terceira, em colaboração com a Associação Cristã da Mocidade (ACM) e com o Centro de Apoio à Deficiência (CAD).

Ganhando maior proporção, o projeto expandiu-se para São Miguel, com o apoio da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), bem como para a ilha do Pico. Com a elevada procura e a dificuldade em atender a toda esta, surge o Guia de Boas Práticas de Inclusão Através da Arte, com toda a “metodologia necessária para a organização de um projeto de inclusão social”. “Eu desenho um projeto, mas depois disso,  ele deixa de ser só meu. A ideia só se vai desenvolver com outras pessoas”, acrescenta Daniela.

Daniela Silveira finaliza a entrevista ao nosso jornal com a partilha de um dos projetos no qual tem vindo a trabalhar há alguns anos, mas de que nunca desistiu. Preocupada com o “desaparecimento de algumas estruturas”, a gestora cultural começa a desenvolver um mapeamento sobre os “Coretos dos Açores” em 2019, que só viu aprovada a sua candidatura em 2024. O objetivo final é salvaguardar este património cultural, através da recolha de informação com uma “forte componente científica”, diz.

A sua resiliência, otimismo e a vontade de se enquadrar em novas e diversas experiências, acompanham Daniela na sua vida profissional que é, há mais de dez anos, marcada pela dedicação à cultura.

O percurso de Mário Roberto: a arte como necessidade vital e fonte de prazer

Mário Roberto é um artista que desafia rótulos e categorias. Jornalista, ator, cineasta, pintor e ilustrador, a sua vida tem sido um constante movimento entre diferentes formas de expressão. Para ele, a arte nunca foi um meio de sobrevivência, mas uma necessidade vital

Mário Roberto tem 63 anos e é natural de Vila Franca do Campo © DL

No início da tarde, em dia de semana, a Rua Pedro Homem, em Ponta Delgada, enche-se de movimento e histórias. Um pequeno ateliê de arte, de porta aberta, chama a atenção de quem por ali passa. A Traça é um espaço repleto de telas e pincéis.

Neste microcosmos criativo, Mário Roberto, que dá as boas vindas a quem mostra interesse em entrar, movimenta-se com naturalidade, como se a arte fosse uma extensão de si mesmo. Para ele, criar não é apenas um ofício, mas uma necessidade, uma forma de se expressar e encontrar prazer na vida. Quisemos conhecer a sua história.

Desde cedo, Mário Roberto, 63 anos, natural de Vila Franca do Campo, demonstrou aptidão e criatividade para a escrita. Aos 12 anos, começou a publicar textos em jornais locais. A sua paixão pela literatura foi incentivada pelo pai, professor, que sempre lhe ofereceu livros e o incentivou a explorar o universo das palavras. Os seus primeiros contos, apesar da sua pouca idade, chamavam a atenção pelo conteúdo por vezes provocador. Lembra-se com humor de quando um de seus textos foi considerado “atrevido demais” para um jornal religioso, o que não o desmotivou, mas sim o desafiou a continuar a escrever.

A escrita acompanhou-o ao longo da vida. Nos anos 80, Mário aprofundou-se na ilustração e começou a colaborar com suplementos literários, criando desenhos para matérias e contos. O seu talento para o desenho levou-o a experimentar diferentes técnicas, incluindo tinta da china e aguarela. Foi um caminho natural até à pintura, com exposições que lhe renderam reconhecimento no meio artístico.

A arte em cena: teatro e cinema

O teatro também entrou na sua vida como uma extensão do desejo de contar histórias. Desde pequeno, esteve envolvido em encenações religiosas e na adolescência começou a participar ativamente em grupos teatrais. Durante o período escolar, juntou-se a um grupo ligado à sua escola e aprofundou a sua relação com as artes cénicas. Atuou em diversas peças e experimentou a direção, sempre à procura de novas formas de expressão.

O cinema também exerceu um grande fascínio sobre Mário Roberto. Inicialmente, a sua relação com a sétima arte era a de um espectador apaixonado, mas, com o tempo, passou a experimentar a criação de vídeos e filmes independentes. O seu trabalho como cineasta, embora menos conhecido do que as suas outras facetas artísticas, reflete a sua constante inquietação e vontade de explorar novas linguagens.

Questionado se o seu percurso fosse um roteiro de um filme, qual seria o seu enredo, Mário Roberto expõe: ” uma história de um gajo irrequieto”, que procura prazer naquilo que faz.
Mário Roberto trabalhou também na área do jornalismo, durante 14 anos. No entanto, o ritmo acelerado da profissão começou a pesar e a ausência de satisfação pessoal levou-o a repensar o seu trajeto.
“Quando percebi que já não sentia prazer no que fazia, vi que era hora de sair”, diz ele. Essa decisão não foi fácil, mas abriu caminho a novos desafios e a uma reaproximação com as artes plásticas.
Agora em papéis invertidos, perguntamos ao artista qual a pergunta que faria a si próprio? Mário Roberto refere os planos para o futuro, respondendo a si próprio: “o meu plano para o futuro é envelhecer o melhor possível, com qualidade”.

A criação do Rotas e a arte nas ruas

Com o desejo de empreender na área cultural, uniu-se a Catarina e João Pacheco Melo para fundar o Rotas, um espaço que nasceu como casa de chá, mas evoluiu para restaurante e centro cultural. Durante anos, o Rotas foi palco de exposições, apresentações musicais e eventos culturais. No entanto, a parceria acabou por chegar ao fim e Mário seguiu outro rumo.
Foi então que decidiu levar a sua arte diretamente ao público. Armado com papel e tinta, passou a desenhar caricaturas para turistas nas ruas da cidade. A experiência, apesar de desafiadora financeiramente, trouxe-lhe uma nova perspectiva sobre a relação entre arte e sustento. “A arte é complicada, devia ser mais apoiada”, reflete. Ainda assim, ele manteve-se fiel ao princípio de só fazer aquilo que lhe dava prazer.

O nascimento da Miolo e da Traça

Em 2015, juntou-se a Vítor Marques para criar a Miolo, um espaço de arte que se transformaria, anos depois, na Traça – studio gallery. O nome escolhido reflete bem a sua filosofia: traçar planos, desenhar ideias e seguir caminhos próprios. Na Traça, ele encontrou um refúgio para produzir e comercializar as suas obras, além de promover eventos e colaborações com outros artistas.
A Traça tornou-se um ponto de encontro para amantes da arte, oferecendo desde pinturas e ilustrações até produtos personalizados. O espaço reflete a diversidade de interesses de Mário Roberto e sua insistência em transformar a paixão em modo de vida.

O privilégio de viver da arte

Hoje, Mário Roberto segue a sua rotina artística na Traça, sempre explorando novas possibilidades. Seja a pintar, escrever, atuar ou a filmar, o seu percurso reflete um compromisso com a autenticidade. Ele não se prende a rótulos nem procura reconhecimento acima da satisfação pessoal.
“Se eu gosto, se me interesso com alguma coisa, vou fazer”, afirma. Essa filosofia guiou a sua vida e permitiu que encontrasse felicidade no ato de criar, independentemente dos desafios financeiros. Para Mário Roberto, a arte nunca foi apenas um ofício, mas um modo de existir.

Questionado sobre que projetos ainda pretende concretizar, Mário Roberto responde: “queria fazer mais uns filmezinhos”.

O seu trajeto é um lembrete de que a arte, quando vivida com paixão e coragem, transcende barreiras e torna-se um estilo de vida autêntico e livre. Por isso mesmo, questionado sobre que conselho daria ao seu “eu” jovem, o artista afirma: “olha, Mário Roberto, faz o mesmo que fizeste até agora”.

“O meu nome é música”

É professora de canto e coro e também maestrina sendo um dos nomes da música mais importantes na cidade da Lagoa. Cármen Subica conta o seu percurso na área musical, que se inicia desde tenra idade

Cármen Subica é natural da Lagoa, tem 45 anos, é professora e maestrina © CM LAGOA

É na Associação Musical de Lagoa (AML), um dos seus locais de trabalho, que Cármen Subica nos recebe para falar sobre a sua história. A professora e maestrina é natural da Lagoa, tem 45 anos e à pergunta, “Quem é Cármen Subica?”, responde, com certeza: “o meu nome é música”.

Cármen diz que a música “esteve sempre presente” na sua vida: “já havia na minha casa quando eu nasci”, confessa. O seu pai, Humberto Subica, antigo maestro da Banda Filarmónica Lira do Rosário, introduziu, desde cedo, a música na vida dos seus filhos e, foi aos seis anos de idade, que Cármen iniciou o seu percurso musical, acompanhando o seu pai na banda. “A banda foi a minha primeira escola e eu ia sempre atrás do meu pai com o meu trompete”, diz. Fez parte da banda durante 30 anos, assumindo a sua direção durante um ano, sendo a primeira mulher a ocupar esta posição. A sua vida profissional preenchida, assim como a sua vida pessoal, levaram Cármen a tomar a decisão de não continuar. “Mas hoje em dia, quando ouço uma banda, sinto logo vontade de ir tocar, embora talvez já não saiba”, revela ao DL.

A vida académica na música inicia-se, oficialmente, quando tinha dez anos, mas “por acaso”. Ao acompanhar o seu pai ao Conservatório Regional de Ponta Delgada (CRPD), onde o objetivo inicial era o de lá inscrever a sua irmã, Cármen afirma que acaba também por ser matriculada. Começa com o trompete, por ser o instrumento que “tocava na banda” e, após dois anos, muda para piano. Só mais tarde escolhe entrar no canto, “porque também gostava muito de cantar” e explica que foi esta a área que decidiu completar, quando teve de decidir entre as duas. Relata que conciliar “a escola do ensino regular” e o “curso no Conservatório” foi feito com “muito esforço”, mas que acabou por conseguir fazê-lo. “É interessante, porque eu acho que o destino esteve sempre traçado”, acrescenta com a convicção de que terá tomado as decisões certas. Em 2001, ano em que termina o Curso Complementar de Canto no Conservatório, ingressa na Escola Superior de Música de Lisboa. Revela que o mais desafiante na construção da sua carreira musical foi “o estar lá” [em Lisboa]. Foi “com muito sacrifício” dos seus pais e confessa que, nos primeiros tempos, sentia-se “muito sozinha”. “Eu acho que só não vim embora, porque tinha vergonha de voltar e desiludir os meus pais”, admite, fazendo também questão de agradecer o apoio que recebeu da “família e professores”.

Após terminar, em 2005, uma licenciatura de quatro anos, regressa a São Miguel e começa “logo a ensinar”. Em 2006, torna-se maestrina do Orfeão Nossa Senhora do Rosário (ONSR). A sua vida como docente inicia-se a dar aulas de música em escolas de ensino regular e algumas aulas de piano a crianças no CRPD, “mas em horário incompleto”. Em 2007, ano de inauguração da AML, começa, também, a fazer parte desta, onde dá aulas de piano e de canto. Passou por algumas escolas de São Miguel e, só após alguns anos, é que se tornou “efetiva” no Conservatório, onde, atualmente, ensina coro e canto, sendo este o seu “trabalho oficial”.

A lagoense diz que a paixão pelo seu trabalho faz tudo “valer a pena” © DIREITOS RESERVADOS

A paixão pelo trabalho e os desafios de uma agenda exigente

Cármen confessa que não é fácil conciliar uma agenda tão preenchida. “Às vezes, só tenho tempo de dizer boa noite à minha filha e tenho de retirar muito tempo da minha vida pessoal”. Com um horário exigente, divide-se entre o Conservatório, os ensaios do Orfeão, onde o “coro” depende inteiramente das suas “indicações” e das responsabilidades na Associação Musical, cuja direção também integra. A maestrina realça que gostaria que o público que vê o “produto final” dos projetos musicais, tivesse a noção “dos sacrifícios” que fazem aqueles que estão por detrás: “acho que isso precisa de ser um bocadinho valorizado”. No entanto, refere que a paixão pelo seu trabalho faz tudo “valer a pena”. “Eu sou muito feliz naquilo que faço. Por vezes chego cansada, mas tenho tanta sorte”, conta ao DL, enquanto sorri ao lembrar-se que o cansaço parece desaparecer a partir do momento que começa a dar aulas. A docente afirma que gosta “muito de ensinar a música” e, apesar de, por vezes, compor “algumas músicas” no âmbito do seu trabalho, acredita que o ensino “é aquilo para o qual foi feita”.

Recorda alguns momentos importantes da sua carreira, destacando um concerto “no final da pandemia”, onde relembra o resultado positivo apesar da ansiedade de já não cantar “há muito tempo”. Destaca, ainda, o concerto que deu no Canadá, em novembro de 2023, ao lado de João Ponte. Ambos promovidos pela Câmara Municipal de Lagoa, à qual expressa o seu agradecimento.

Quanto a planos futuros, afirma não os ter em concreto, preferindo poder “agarrar” nos projetos que surgem, sendo um destes o “concerto de Ano Novo” no qual participará, a 3 de janeiro. “Se me deixarem fazer aquilo que faço, eu já sou feliz. Não me via a fazer outra coisa”, conclui.

Paula Andrade: o percurso e a vontade de marcar a diferença

À conversa com o Diário da Lagoa, a lagoense Paula Andrade fala do seu percurso e da descoberta da sua vocação e de como o Serviço Social pode contribuir para uma sociedade mais “cuidadora”

Paula Andrade é natural da freguesia do Rosário, na Lagoa, e presidente da delegação dos Açores da Associação dos Profissionais de Serviço Social © DL

Foi diretora regional do Emprego e Qualificação Profissional entre 2016 e 2020. Atualmente,

é presidente da delegação Açores da Associação dos Profissionais de Serviço Social. É também professora na Universidade dos Açores (UAc), na licenciatura de Serviço Social, técnica superior especialista e tem em mãos vários projetos sociais.

Paula Andrade, nascida a 5 de junho de 1976, natural da freguesia Nossa Senhora do Rosário, na Lagoa, conta ao Diário da Lagoa (DL) a história da sua vida e o trabalho que tem desenvolvido na área do Serviço Social.

Foi numa fase familiar difícil que a lagoense teve o primeiro contacto com o Serviço Social, quando o seu pai teve um problema de saúde muito grave. “Eu tinha 11 anos e ele 35. Ficou numa situação de perigo de vida. Depois teve de fazer o processo todo de novo, aprender a falar, a andar e isso tem uma ligação à minha vida e ao Serviço Social”, recorda Paula Andrade. Nessa altura, com os pais ausentes, teve de cuidar do irmão, que tinha seis anos. “Acho que já sou uma cuidadora por natureza”, sente.

Após muita luta na reabilitação e a família se reerguer desta fase, o pai de Paula Andrade montou o seu negócio: uma lavandaria na Lagoa. Foi a esse negócio a que toda a família se dedicou. “Antes de ir para a escola, levantava-me às 4 horas da manhã para passar a roupa a ferro. Tínhamos que ser nós, era um negócio de família pequenino e não tínhamos capacidade para contratar”, explica a lagoense. 

No entanto, o pequeno negócio familiar foi ganhando dimensão. “Eu também fui ganhando idade e essa ligação ao hospital durante a doença do meu pai despertou-me o Serviço Social”, realça Paula Andrade.

Por outro lado, foi também nos seus pais que a ex-diretora regional do Emprego e Qualificação Profissional se inspirou: “Os meus pais sempre ajudaram muito toda a gente e sempre foram uma referência.”

Paula Andrade sempre viveu na freguesia que a viu nascer, com exceção dos cinco anos, entre 1994 e 1999, em que realizou a licenciatura em Serviço Social, no Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. 

Desde 2001 que está ligada à área do emprego. Entre 2012 e 2016, foi chefe de divisão dos Programas de Emprego, na Direção Regional do Emprego e Qualificação Profissional. Entre 2016 e 2020 esteve como diretora regional do Emprego e Qualificação Profissional. Desde 2021, é técnica superior especialista na Secretaria Regional da Juventude, Qualificação Profissional e Emprego.

“O meu estágio de licenciatura foi na área do emprego.  Era uma área em que não tinha interesse, mas agora quase que faz parte do meu ADN”, considera Paula Andrade. “Gosto muito de olhar, estudar a população, perceber quem entra no centro de emprego, de onde é que vem”.

Na área da educação, desde 2004 que Paula Andrade é orientadora de estágios da licenciatura em Serviço Social e, há três, professora nesse mesmo curso.

Paralelamente a estes trabalhos, a lagoense está ligada à área social, participando em diversas instituições. Em 2015 assumiu a presidência da Delegação Açores da Associação de Profissionais de Serviço Social, tendo feito parte das direções anteriores. No entanto, em 2016 cessou a função, mas regressou depois, estando agora no terceiro ano de mandato como presidente da delegação. Desde o ano passado que está na direção do Banco Alimentar.

O que reserva o futuro? Paula Andrade diz querer envolver-se num projeto que seja capaz de mudar as gerações mais jovens. “A minha grande aposta seria a juventude. A juventude precisa de um impulso, de determinados apoios, de outras infraestruturas. Uma sociedade faz-se com desenvolvimento económico, mas não se faz sem pessoas e os nossos jovens é que são o futuro da região”, entende a lagoense.

“Laços de Ajuda”: um apoio emocional para doentes oncológicos

O projeto “Laços de Ajuda” consiste em proporcionar a doentes oncológicos um “kit motivacional”, composto por um saco reutilizável, garrafa de água, boné,  caderno, bola anti-stress, livros, produtos de dermocosmética, entre outros artigos, bem como um “QR code” onde as pessoas terão acesso a informações sobre os seus direitos, como apoios sociais. Para as crianças, o kit contém um estojo mais didático.

Foi desenvolvido pela turma do segundo ano da licenciatura de Serviço Social da UAc, desafiada pela delegação dos Açores da Associação dos Assistentes Sociais.

“A doença não olha a classes, nem meios, nem estratos sociais. Esta doença, de um modo particular, é bastante devastadora na vida das pessoas”, lamenta a presidente da delegação dos Açores, Paula Andrade.

El kit pretende dar mais um “estímulo emocional”. Foi pensado para as “pessoas e em como isto pode contribuir para o seu bem estar. É quase como uma luz ao fundo do tunel”, explica ao nosso jornal.

Em agosto, setenta e cinco kits foram entregues ao Serviço Social do Hospital do Divino Espírito Santo, para serem oferecidos a alguns dos doentes. 

Segundo Paula Andrade, “se esta rede se alargasse e atraísse outras pessoas, poderíamos ir mais além com esta iniciativa”, salientando que futuros projetos não se restringiriam à doença oncológica. “Sabemos que há outras doenças e outras situações de fragilidade social, ao nível da deficiência, doenças degenerativas. A ideia está lançada”.