
Pedro Vasconcelos Lopes
Dirigente da Iniciativa Liberal nos Açores
Todos conhecemos o trágico destino do Titanic, tido como inafundável. Nos Açores, temos o nosso próprio “Titanic”: a SATA, empresa pública regional que afunda financeiramente a Região, acumulando défices que já superam os 600 milhões de euros. Só em 2024, o prejuízo foi de 82,8 milhões de euros, o dobro do ano anterior (37,6 milhões em 2023). Parece-me evidente que, é a Azores Airlines, o “iceberg” no qual o grupo SATA embateu.
Durante quase um quarto de século, governos socialistas trataram a SATA como a “jóia da coroa”, não pela sua rentabilidade, mas como instrumento de distribuição de empregos partidários, mantendo-a protegida da concorrência ao fechar o espaço aéreo a outras companhias. A gestão da empresa serviu mais propósitos políticos do que profissionais ou económicos.
Foi só em 2015, por imposição externa, que o espaço aéreo foi finalmente aberto à concorrência, impulsionando fortemente o turismo e a economia regional. Apesar disso, o grupo SATA continuou a registar prejuízos crónicos, mesmo beneficiando, indiretamente, de milhões em subsídios públicos através do Subsídio Social de Mobilidade, permitindo-lhe vender bilhetes a preços inflacionados em relação ao mercado concorrencial, com a certeza de que o passageiro receberia o reembolso do valor pago a mais, por via do referido subsídio. Em 2023, os reembolsos aos residentes totalizaram 81,2 milhões de euros, dos quais grande parte terá entrado nos cofres da Azores Airlines, através dos passageiros posteriormente reembolsados.
Mesmo com um crescimento de 30% nas receitas em 2023 (para os 379 milhões de euros), a empresa continuou a perder dinheiro — o que demostra que o problema está na estrutura e gestão da companhia.
A coligação da AD, atualmente no poder, anunciou a privatização como solução, mas o processo está estagnado. A Iniciativa Liberal exigiu a venda ou extinção da companhia como condição para viabilizar o acordo com a AD após as eleições de 2020. Contudo, como tantas vezes acontece na política, a montanha pariu um rato. O processo de privatização arrasta-se sem fim à vista, e a IL Açores acabou por retirar a confiança política ao governo, precisamente por este não cumprir o que estava acordado. O caderno de encargos afasta compradores sérios ao exigir que a estrutura da empresa se mantenha inalterada por 30 meses, mesmo com dívidas anuais superiores a 80 milhões de euros — o que, na prática, representa mais de 150 milhões de prejuízo garantido nesse período.
Sem coragem política para uma reforma real, a companhia aérea regional continuará a afundar rumo ao destino do paquete inafundável, e os Açorianos continuarão a pagar a fatura: em 2024, cada contribuinte da Região teve de suportar 351 euros por conta das perdas causadas por esta gestão desastrosa. A SATA permanece, assim, um símbolo de desperdício e de irresponsabilidade política crónica.