
Bruno Pacheco
Sou cidadão do mundo, socialista formado politicamente nos movimentos soberanistas e independentistas açorianos do início da década de noventa. Luto, desde sempre, por uns Açores melhores e que sejam local de eleição para os optaram por aqui viver.
Contudo, fico “incrédulo” ao ver os posicionamentos “Açor-cêntricos” de alguns dos nossos governantes, baseados na retórica fácil e sem a devida sustentação técnica e científica sobre o nosso “valor intrínseco”. Como se diz nas arquinhas da vida… muito parla più.
Há um traço recorrente no discurso político regional, enraizado numa linha académica que vigora desde 1976, que importa desmontar (para nosso bem): o Açorianocentrismo acrítico, essa convicção quase dogmática de que os Açores ocupam um lugar central no mundo, não por evidência cientificamente demonstrada, mas por insistência repetida baseada apenas no nosso capital histórico.
Valorizar os Açores é legítimo. É imprescindível e necessário. O problema começa quando essa valorização deixa de assentar em dados, análise técnica e fundamentos científicos, passando a viver apenas de retórica política e de autoafirmação vazia baseada apenas na nossa geografia. Confunde-se orgulho com sobranceria, estratégia com propaganda. E, pior ainda, transforma-se uma agenda de desenvolvimento numa narrativa de autocelebração permanente.
A verdade é simples: relevância geoestratégica, importância ambiental ou potencial económico não se proclamam… demonstram-se. Demonstram-se com indicadores sólidos, estudos comparativos internacionais, políticas públicas avaliadas e resultados mensuráveis. Sem isso, tudo o que resta é discurso. E, por si só, o discurso não atrai investimento, não fixa talento e não cria prosperidade sustentável.
O episódio da saída da Ryanair dos Açores é um exemplo paradigmático dessa falta de noção do ridículo. Em vez de uma análise fria sobre competitividade, custos operacionais, massa crítica de procura ou enquadramento regulatório, assistimos a reações inflamadas, muitas vezes desconectadas da realidade do setor da aviação. Os nossos governantes pensaram que os “O’Leary” andavam a fazer bluff e que, no final, viriam “comer na nossa mão”, e ficaram a ver a banda passar pela avenida. Errado, como se viu!
Mas, mais grave do que a saída em si, foi a forma como foi enquadrada: uma mistura de indignação e, depois, incredulidade, como se o mundo tivesse falhado aos Açores. Esta postura revela uma visão fechada, quase insular no pior sentido da palavra, em que se assume que a centralidade é um dado adquirido e não uma conquista permanente. Um reflexo de quem fala muito para dentro e pouco para fora e da evidente falta de mundividência dos nossos governantes.
O recente episódio protagonizado pelo Presidente do Governo, à saída do Conselho Superior de Defesa Nacional, é mais uma expressão do açorianocentrismo sem urbanidade. À saída de uma reunião realizada ao abrigo do segredo de Estado, tivemos uma proclamação da nossa centralidade geoestratégica e da nossa importância vital para a República Portuguesa, acrescentando que a futura Lei das Finanças Regionais deve incorporar essas variáveis para fins de financiamento. Como sabem, aqui no Torreão, desde o início, abordaram-se os temas do “capital natural” e do “capital estratégico” como vetores para o financiamento da Região Autónoma. Contudo, temos de seguir um caminho sério, tecnicamente e cientificamente sustentado, que nos permita entrar nessa discussão com a certeza do que “queremos ter e porque é que queremos”. A centralidade geoestratégica não se afirma em declarações: mede-se, compara-se e prova-se com métricas objetivas reconhecidas internacionalmente.
Deste modo, recomenda-se ao Sr. Presidente do Governo que, em vez de “furar o segredo de Estado”, dê orientações para que se proceda a estudos sérios e cientificamente credíveis, de forma a podermos apelar a esta retórica, mas com sustentação e evidências.
Se queremos um projeto de futuro para os Açores, ele tem de assentar no realismo, nas exigências técnicas e na capacidade de integração global. Menos retórica, mais evidência. Menos autocomplacência, mais ambição sustentada. Mais avaliação independente, mais transparência e mais cultura de resultado. Caso contrário, continuaremos presos a um discurso que soa bem cá dentro, alimenta egos e ciclos políticos de curto prazo, mas que, lá fora, ninguém leva a sério e, pior do que isso, ninguém tem incentivo para contrariar.
O mundo não começa nem acaba nos Açores. E reconhecer isso não diminui a Região, mas, pelo contrário, é o primeiro passo para afirmá-la com seriedade. Porque só quem entende o seu lugar relativo consegue, de facto, ambicionar mais e negociar melhor.

Bruno Pacheco
A energia é apenas uma questão de preço? Não. É, acima de tudo, uma questão de energia líquida disponível para a sociedade.
É aqui que entra o EROI (Energy Return on Energy Invested): mede quanta energia conseguimos disponibilizar por cada unidade de energia que gastamos na produção. É o “lucro energético” de um sistema.
Quando é elevado, há excedente para sustentar o crescimento e os serviços. Quando é baixo, o sistema começa a consumir-se a si próprio.
Nos Açores, tomando São Miguel como referência — pela sua dimensão e maior diversificação —, são visíveis sinais de degradação do EROI na produção baseada em combustível pesado (HFO). A cadeia é longa e intensiva: extração, refinação, transporte marítimo, armazenamento e conversão térmica com eficiências limitadas.
Considerando estes fatores, o EROI da produção térmica situa-se hoje entre 5 e 8, podendo degradar ainda mais em contextos de instabilidade ou de aumento do preço do petróleo.
Mas é fora de São Miguel que o problema se agrava. Nas restantes ilhas, de menor escala, maior fragmentação e maior dependência de gasóleo, o EROI é ainda mais baixo. A ausência de economias de escala e a maior intensidade logística tornam estes sistemas estruturalmente mais frágeis. Em muitos casos, uma parte crescente da energia é consumida apenas para garantir o abastecimento.
As consequências são diretas: menor competitividade, menor resiliência e menor capacidade de gerar riqueza.
Os custos recentes, de cerca de 230 €/MWh, que podem atingir 400 €/MWh, não são apenas um problema financeiro. Representam um aumento da energia necessária para produzir…energia. Ou seja, menos energia líquida disponível para a economia. Mais recursos gastos sem retorno.
Este é o verdadeiro risco: um sistema pode funcionar financeiramente, suportado por mecanismos regulatórios, mas degradar-se energeticamente. E isso não se resolve por via administrativa.
Por outro lado, a complexidade logística e a concentração da cadeia de abastecimento agravam ainda mais este cenário. Em sistemas isolados, qualquer ineficiência se amplifica.
Perante isto, a questão é estratégica. Qual o caminho?
O caminho é claro: aumentar a produção local com base em fontes endógenas, diversificar as tecnologias e atrair investimento externo. Não por ideologia, mas por necessidade.
Por exemplo, a energia solar, mesmo em contexto insular, apresenta EROI entre 8 e 15. Com armazenamento, reduz-se, mas com vantagens decisivas: produção local, menor dependência e maior previsibilidade.
Mas, mais importante, estes sistemas melhoram o desempenho global. Ao reduzir a necessidade de centrais térmicas ineficientes e estabilizar a rede, aumenta a eficiência do conjunto, sobretudo nas ilhas mais pequenas.
Assim, é óbvio que o debate não pode limitar-se ao preço do combustível. Deve centrar-se numa pergunta essencial: quanta energia útil conseguimos disponibilizar à sociedade? Porque é isso que define a sustentabilidade de um sistema elétrico.
Não estamos apenas a pagar caro pela energia. Estamos, cada vez mais, a gastar energia para conseguir energia. E esse fenómeno é mais intenso, e mais preocupante, nas ilhas mais pequenas, mais isoladas e mais dependentes.
Do Torreão da Fajã seguimos atentos, olhando o mar e projetando o futuro.