{"id":104267,"date":"2022-10-11T10:32:42","date_gmt":"2022-10-11T10:32:42","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/?p=104267"},"modified":"2025-09-28T00:36:18","modified_gmt":"2025-09-28T00:36:18","slug":"o-mundo-caminha-mal-e-continuara-pior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/es\/o-mundo-caminha-mal-e-continuara-pior\/","title":{"rendered":"\u201cO Mundo caminha mal e continuar\u00e1 pior\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image is-style-rounded\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Roberto-Medeiros.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-100168\" width=\"384\" height=\"384\"\/><figcaption><strong>Roberto Medeiros<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<p>\u201cO Mundo caminha mal e continuar\u00e1 pior\u201d, quem o disse foi o senhor Pacheco da Preta de \u00c1gua de Pau, em 1968, antigo empres\u00e1rio e negociante de vinhos, aguardentes e bebidas espirituosas da Caloura, no tempo em que as castas da Caloura eram famosas e qualquer um trocava o passo com um \u201cmeiozinho\u201d de vinho!<\/p>\n<p>Um dos prod\u00edgios do senhor Pacheco era ostentar o seu rel\u00f3gio de bolso, em pura prata, encavalitado na algibeira do colete e com a sua corrente tamb\u00e9m de prata, dependurada em curvatura at\u00e9 \u00e0 algibeira das cal\u00e7as. Normalmente tinha na m\u00e3o direita um charuto e atirava as suas fuma\u00e7as por entre a sua espessa bigoda\u00e7a. Mas o que lhe dava mais prazer era mesmo dar milho \u00e0s pombas nas portas da cidade, em Ponta Delgada, quando ali se deslocava em neg\u00f3cios. Os seus neg\u00f3cios, j\u00e1 se sabe, estavam relacionados com os vinhos da Caloura que o senhor Pacheco vendia aos restaurantes da cidade.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Pacheco-da-Preta-em-Ponta-Delgada-DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-104269\"\/><figcaption><strong><sup>Manuel Pacheco Agostinho da Ponte nas Portas da Cidade em Ponta Delgada<\/sup><\/strong> <sup><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/mark><\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<p>Manuel Pacheco Agostinho da Ponte ou o senhor \u201cPacheco da Preta\u201d, assim melhor conhecido, por ter vivido muitos anos com uma preta, tinha morada antes de falecer, em \u00c1gua de Pau, at\u00e9 ao fim da d\u00e9cada de 1970, na casa, por cima, onde hoje est\u00e1 localizado o Bar-Caf\u00e9 Multim\u00e9dia e tinha a sua adega e quinta mesmo em frente onde hoje est\u00e1 um parque de estacionamento da Camara Municipal, entre a rua da Carreira e a rua dos Coelhos.<\/p>\n<p>Muito virtuoso, como era o senhor Pacheco da Preta, n\u00e3o comprava cart\u00f5es de boas festas ou de bons anos para enviar aos amigos. Antes tirava a si fotos de car\u00e1cter social e enviava aos amigos, como o fez ao enviar esta foto a meu pai (Manuel Eg\u00eddio de Medeiros), seu amigo, em janeiro de 1968, a desejar os bons anos. Na foto anexa, vale a pena ver a mensagem escrita pelo seu punho por tr\u00e1s da foto.<\/p>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Escrita-de-Pacheco-da-Preta-DR.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-104270\"\/><figcaption><sup><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\">\u00a9 D.R.<\/mark><\/sup><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<p>H\u00e1 coisas na vida que nunca esquecemos e que de vez em quando nos lembramos delas. Lembro de quando mat\u00e1vamos o porco na nossa casa, meu pai mandava \u201cum presente\u201d da matan\u00e7a, ao senhor Pacheco da Preta, aos nossos familiares e a alguns amigos. A tia Od\u00edlia ou a tia Maria Alforra estavam sempre junto ao fumeiro, na nossa cozinha de \u201cderreter \u201cos porcos e, por isso, \u00e9 que os preparavam. Assim, dentro de uma cesta de vimes, deitavam um prato no fundo, de lou\u00e7a da Lagoa, forrado com um guardanapo para acomodar bem alguns peda\u00e7os de carne e toucinho de porco, alguns torresmos, lingui\u00e7a e morcelas.<\/p>\n<p>Normalmente eu oferecia-me para ir entregar o \u201cpresente\u201d da matan\u00e7a, ao senhor Pacheco da Preta. E, tudo porque gostava de o ver abrir o seu antigo e pesado cofre de ferro para de l\u00e1 v\u00ea-lo retirar, de uma caixinha de charutos, uma moeda de cinco patacas em prata, para me oferecer, como \u201cconvite\u201d.<\/p>\n<p>Ele por sua vez apercebia-se que eu gostava de o ver fazer rolar os n\u00fameros at\u00e9 chegar ao som confirmativo de abertura, ouvindo-se um TEE-L\u00c3O e a porta abria-se e eu espiava l\u00e1 para dentro do cofre\u2026 cheio de caixas de charutos, que eu pensava que eram, mas, n\u00e3o eram&#8230; eram, sim, caixas cheias de notas de quinhentas e mil patacas para pagar aos fornecedores dos vinhos que comprava para revender, dissera-me o senhor Pacheco quando eu j\u00e1 era mais crescido.<\/p>\n<p>E, foi quando j\u00e1 era mais crescido que comecei a reparar que o senhor Pacheco da Preta tinha tamb\u00e9m, numa das divis\u00f5es do cofre, um pequeno livro. Por vezes eu segurava este livrinho enquanto ele retirava alguma das caixas e voltava a p\u00f4-lo de novo no cofre. A minha curiosidade despertou quando li o seu t\u00edtulo: &#8211; \u201cO Caso dos D\u00f3lares\u201d. Estava assim mesmo escrito, como se diz em portugu\u00eas do princ\u00edpio do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Sempre gostei de ler. Lia tudo o que aparecia e estava \u00e0 m\u00e3o. Foi por isso que perguntei ao senhor Pacheco da Preta se me podia deixar ler aquele livro. Ele olhou-me e disse-me: &#8220;este livro envolve um crime ocorrido em \u00c1gua de Pau, h\u00e1 alguns anos atr\u00e1s. Quando fores mais crescido eu empresto-te.&#8221; Confesso, que acenei, afirmativamente com a cabe\u00e7a, mas nunca mais me saiu da cabe\u00e7a a sua promessa.<\/p>\n<p>De facto, ele cumpriu a promessa e alguns anos depois emprestou-me o livro. Depois de o ler, encontrando o senhor Pacheco da Preta \u00e0 porta da mercearia \u201cCasa Vieira \u201c (onde hoje est\u00e1 o restaurante Casa Abel), na Pra\u00e7a Velha de \u00c1gua de Pau, disse-lhe: -\u201cSenhor Pacheco j\u00e1 li o livro do\u2026\u201d, n\u00e3o me deixou terminar a segunda parte da frase&#8230; \u201cdo caso dos d\u00f3lares\u201d, pois, tapou-me a boca com a sua gorda m\u00e3o esquerda, mandando-me calar, mostrando-me o seu polegar da m\u00e3o direita encostado aos seus l\u00e1bios fechados da boca. Puxando-me para o lado disse-me baixinho: &#8211; \u201cest\u00e1s doido? Leste o livro e n\u00e3o sabes que n\u00e3o se deve falar do mesmo em frente ao local do crime?\u201d. Pois era&#8230; pois era&#8230;,mas esta \u00e9 outra hist\u00f3ria e fica para ser lida no meu segundo livro \u201cAntes que a Mem\u00f3ria se Apague \u2013 Cr\u00f3nicas de \u00c1gua de Pau\u201d, em mar\u00e7o de 2023.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO Mundo caminha mal e continuar\u00e1 pior\u201d, quem o disse foi o senhor Pacheco da Preta de \u00c1gua de Pau, em 1968, antigo empres\u00e1rio e negociante de vinhos, aguardentes e bebidas espirituosas da Caloura, no tempo em que as castas da Caloura eram famosas e qualquer um trocava o passo com um \u201cmeiozinho\u201d de vinho! 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