{"id":12510,"date":"2015-01-08T17:38:03","date_gmt":"2015-01-08T18:38:03","guid":{"rendered":"http:\/\/noticiasquecontam.pt\/?p=12510"},"modified":"2015-01-08T17:38:03","modified_gmt":"2015-01-08T18:38:03","slug":"palavras-para-uma-ilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/es\/palavras-para-uma-ilha\/","title":{"rendered":"Palavras para uma ilha"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0<img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-11018\" src=\"http:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Teresa-Viveiros-educa\u00e7\u00e3o-cultura-cronicas.jpg\" alt=\"Teresa-Viveiros-educa\u00e7\u00e3o-cultura-cronicas\" width=\"720\" height=\"380\" \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Jos\u00e9 Saramago escreveu em tempos um artigo intitulado <em>Palavras para uma cidade<\/em> que \u00e9, segundo o dizer do pr\u00f3prio, uma carta de amor \u00e0 cidade de Lisboa. Inspirada no seu artigo, a Junho de 2013 escrevi uma carta de amor \u00e0 ilha que me serviu de ber\u00e7o. Opto por recorrer a excertos que nela constam, minimizando a carga afetiva que a caracteriza, numa mera tentativa, \u00e9 certo, de homenagear a minha ilha e o meu mar. Ilha e mar: duas palavras que entram na geografia sentimental de todos os que por c\u00e1 nasceram e dos que fizeram dos A\u00e7ores, e desta ilha em particular, o seu lar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O mar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O mar da minha ilha tem alma.\u00c9 um mar que, a rodear este peda\u00e7o de terra feita de verde, n\u00e3o aprisiona, antes nos instiga \u00e0 aventura, \u00e0 descoberta, aos sonhos, \u00e0 liberdade. \u00c9 o mar por onde, h\u00e1 mais de meia centena de anos atr\u00e1s, dois homens, Evaristo Gaspar e Victor, se fizeram \u00e0 estrada de \u00e1gua em busca de outras terras, levando com eles somente <em>O barco e o sonho. <\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O mar da minha ilha \u00e9 o pai de consagrados artistas pl\u00e1sticos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Urbano um pintor nascido do mar, como designou Nestor Sousa, que com os seus dedos feitos de tinta eternizou os (saudosos) banhos das Alca\u00e7arias, e que aquando da antologia da sua obra a batiza justamente <em>Neste meio de mar. <\/em>E se, por um lado, o artista faz-nos embarcar numa viagem \u00e0 autobiografia da Terra, ao <em>Princ\u00edpio<a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em> dos princ\u00edpios, atrav\u00e9s do registo (com pinc\u00e9is e carv\u00e3o) da respira\u00e7\u00e3o a brotar das profundezas do mar. Em outras obras, leva-nos a mergulhar numa peregrina\u00e7\u00e3o interior; somos instigados a refletir silenciosamente e em interrogarmo-nos no sentido de estarmos neste peda\u00e7o de Terra redonda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">O mar da minha ilha n\u00e3o existe em mais lado algum. No entanto, a sua ess\u00eancia pode ser transportada. Tomaz Vieira, com a sua obra intitulada <em>Ilhas Emaladas<\/em>, conseguiu levar para outras terras a ess\u00eancia do nosso mar, da ilha e das gentes. \u00c9 um mar que, em dias de calmaria, inspira \u00e0 quietude; noutros dias \u00e0 liberdade e ao ir al\u00e9m de. Este \u201cir al\u00e9m de\u201d que se d\u00e1 sempre que contemplamos a linha do horizonte, que por estas bandas \u00e9 feita de \u00e1gua (o que, por si s\u00f3, diz tanto de n\u00f3s a\u00e7orianos). Fa\u00e7o minhas as palavras do artista \u201ccrescemos a olhar para o mar\u201d, e este crescimento, al\u00e9m de f\u00edsico, tem tamb\u00e9m o significado de maturidade emocional e intelectual. O mar espica\u00e7a-nos a crescer, \u201ca n\u00e3o nos contentarmos em ser rio, se podemos ser mar\u201d, como um dia li.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A ilha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Este peda\u00e7o de lava que viu escorrer o seu sangue pela \u00faltima vez em 1652, \u00e9 feito de vulc\u00f5es o que, qui\u00e7\u00e1, explique o facto de que muitos dos que c\u00e1 habitam tenham \u201cno cora\u00e7\u00e3o a ard\u00eancia das caldeiras\u201d, como nos diz a m\u00fasica <em>Ilhas de Bruma<\/em>, com letra de Manuel Ferreira.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Esta ilha tem a m\u00fasica das gentes. E gosto destas m\u00fasicas, das que falam da saudade, das que relatam o quotidiano de outros tempos, dos repentistas e cantadores ao desafio, do cantar tradicional aliado ao folclore. Mas tamb\u00e9m gosto da melodia que sai das vozes e \u00e9 tocada e cantada por gera\u00e7\u00f5es mais recentes. Da m\u00fasica doce, com o sabor de um amanhecer, tocada por Lu\u00eds Alberto Bettencourt; e da m\u00fasica madrugadora, deliciosamente rouca, de Zeca Medeiros. Todos estes sons entram em resson\u00e2ncia com as mol\u00e9culas do meu ser, colam-se e fazem parte das nossas mem\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A m\u00fasica a\u00e7oriana carrega em si o som da viola da terra que &#8211; em tempos idos &#8211; durante o dia servia para adornar os quartos de tantos casais a\u00e7orianos, e \u00e0 noite era resgatada para animar os ser\u00f5es, ap\u00f3s um dia de trabalhos. Este instrumento, com os seus dois cora\u00e7\u00f5es, reflete t\u00e3o bem a nossa alma e a saudade que habita em forma de carne em tantos a\u00e7orianos, espelhando aquele que fica e o que parte. Esta viola, recuperada agora pelas m\u00e3os de Rafael Carvalho que n\u00e3o a entregou ao destino fat\u00eddico de ficar a criar p\u00f3, tem chegado a novas gera\u00e7\u00f5es, aliando ritmos tradicionais aos contempor\u00e2neos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A minha ilha carrega em si tradi\u00e7\u00f5es e of\u00edcios que, a par do trabalho, eram outrora (tamb\u00e9m) um pretexto para que as gentes se juntassem. Hoje \u00e9 ninho de iniciativas que v\u00e3o decorrendo um pouco por toda a ilha para que saberes-fazeres de antigamente n\u00e3o se percam, tecendo e fiando encontros entre gera\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">A minha ilha foi placenta de escritores e poetas como Antero de Quental, Armando Cortes-Rodrigues, Daniel de S\u00e1, Nat\u00e1lia Correia e Emanuel Jorge Botelho. De escultores como Canto da Maia e Raposo de Fran\u00e7a. Uns partiram, outros regressaram, mas todos ficaram na ess\u00eancia da ilha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o foi sempre de tempos de bonan\u00e7a. Os invernos rigorosos, a escassez de alimento, o isolamento, levaram a que muitos embarcassem. Este registo foi perpetuado por Domingos Rebelo no seu quadro <em>Os emigrantes<\/em>. No entanto, a partida n\u00e3o fazia cortar o cord\u00e3o umbilical a este peda\u00e7o de terra, tal como nos diz Daniel de S\u00e1: \u201cpartir \u00e9 a pior forma de permanecer na ilha\u201d. N\u00e3o admira, pois, que os a\u00e7orianos espalhados pelos cantos do Ocidente, preservem t\u00e3o ou mais a identidade a\u00e7oriana dos que por c\u00e1 se encontram. Mais tarde, Tomaz Vieira d\u00e1 continuidade \u00e0 hist\u00f3ria contada pelas tintas de Domingos Rebelo, com a obra Os <em>Regressantes<\/em>, mostrando que a partida trazia, n\u00e3o raras as vezes, o almejado regresso.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Esta ilha \u00e9 feita de lagoas, guardi\u00e3s das mem\u00f3rias de vulc\u00f5es, que nos entram na retina sempre que as contemplamos. A este prop\u00f3sito Raul Brand\u00e3o escreveu \u201cquase tenho medo de falar de uma paisagem que hoje, mais do que nunca me parece irreal\u201d<em>. <\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">Esta ilha, este mar. \u00c9 comum de quem n\u00e3o tem alma de ilh\u00e9u recorrer a Fernando Pessoa e dizer que \u201cprimeiro estranha-se, depois entranha-se\u201d. A mim, entranhou-se quando nasci. N\u00e3o foi este peda\u00e7o de terra que escolhi para nascer, mas foi onde escolhi ficar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00c9 que, para al\u00e9m de tudo isto, aqui eu tenho o som. O mais belo som do mundo: que \u00e9 o da \u00e1gua salgada a bater no calhau de pedra rolada.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000000;\">Teresa Viveiros<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000000;\"><a style=\"color: #000000;\" href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Conjunto de obras que integram a exposi\u00e7\u00e3o No Princ\u00edpio (2000) e que t\u00eam como refer\u00eancia a erup\u00e7\u00e3o do vulc\u00e3o submarino da Serreta que se desenvolveu entre 1998-2001 (localiza\u00e7\u00e3o: 10 km a oeste da Ilha Terceira).<\/span><\/em><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Jos\u00e9 Saramago escreveu em tempos um artigo intitulado Palavras para uma cidade que \u00e9, segundo o dizer do pr\u00f3prio, uma carta de amor \u00e0 cidade de Lisboa. Inspirada no seu artigo, a Junho de 2013 escrevi uma carta de amor \u00e0 ilha que me serviu de ber\u00e7o. 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