{"id":127538,"date":"2023-09-17T09:52:30","date_gmt":"2023-09-17T09:52:30","guid":{"rendered":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/?p=127538"},"modified":"2024-02-23T11:51:33","modified_gmt":"2024-02-23T11:51:33","slug":"todas-as-pessoas-cultas-que-ha-em-portugal-conheciam-a-natalia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/es\/todas-as-pessoas-cultas-que-ha-em-portugal-conheciam-a-natalia\/","title":{"rendered":"\u201cTodas as pessoas cultas que h\u00e1 em Portugal conheciam a Nat\u00e1lia\u201d"},"content":{"rendered":"<h3 class=\"wp-block-heading\">Carlos Melo Bento nasceu, em casa, na Rua dos Manaias, em 1941, e ali cresceu, em Ponta Delgada. Foi na maior cidade do arquip\u00e9lago que fez a escola prim\u00e1ria e o liceu, at\u00e9 ir cursar Direito para Lisboa. Foi na capital que conheceu Nat\u00e1lia Correia. O Di\u00e1rio da Lagoa (DL) foi ao encontro do advogado que privou com Nat\u00e1lia, saber afinal, quem foi e o que fez a maior poetisa nascida nos A\u00e7ores, numa conversa que come\u00e7ou na Tabacaria A\u00e7oriana e terminou no seu escrit\u00f3rio<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"600\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/carlos-melo-bento-2023-dl.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-127539\" srcset=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/carlos-melo-bento-2023-dl.jpg 960w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/carlos-melo-bento-2023-dl-300x188.jpg 300w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/carlos-melo-bento-2023-dl-768x480.jpg 768w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/carlos-melo-bento-2023-dl-18x12.jpg 18w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>Carlos Melo Bento, 82 anos, \u00e9 advogado e autor de diversas obras no campo da Arqueologia, Hist\u00f3ria dos A\u00e7ores e Biografia <\/sub><mark style=\"background-color:rgba(0, 0, 0, 0)\" class=\"has-inline-color has-cyan-bluish-gray-color\"><sub>\u00a9 CLIFE BOTELHO\/ DL<\/sub><\/mark><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p><b>DL: Como conhece Nat\u00e1lia Correia?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Eu j\u00e1 conhecia a Nat\u00e1lia de vista em Lisboa, mas n\u00e3o sabia quem era. A primeira vez que a vi foi no Tribunal da Boa Hora, porque eu estudava na Faculdade de Direito e, todas as semanas, ia assistir a um julgamento ou outro.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Quando?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Em 1961 ou 62. E vejo aquela senhora de boquilha, uma mulher lind\u00edssima, aos berros: \u201co que \u00e9 que eu n\u00e3o terei de fazer ainda hoje para me esquecer desta espelunca?\u201d. No tribunal, aquilo tinha um claustro, ela aos berros, ouvia-se nas salas. \u201cChampanhe, tragam-me champanhe!\u201d, dizia. E eu estava com o Manuel Pracana, que foi nosso embaixador mais tarde, e disse-lhe: \u201cquem \u00e9 aquela gaja?\u201d. E ele diz-me: \u201c\u00e9 a Nat\u00e1lia Correia, ela \u00e9 l\u00e1 da terra, poetisa, a gaja \u00e9 maluca\u201d, n\u00f3s rapazes com vinte anos. A partir da\u00ed, de vez em quando aparecia um poema dela.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: J\u00e1 se falava nela nessa altura?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, porque ela era da oposi\u00e7\u00e3o ao Salazar e de vez em quando os livros dela eram apreendidos e, claro, a gente via isso nos jornais. O fruto proibido \u00e9 sempre o mais apetecido. \u00cdamos ver o que tinha sido apreendido e o que n\u00e3o tinha sido apreendido. J\u00e1 eu estava formado, a trabalhar em S\u00e3o Miguel e ia \u00e0 Tabacaria A\u00e7oriana, que era do pai do atual dono, Jos\u00e9 Carlos Pacheco. Quando entrei, disse-me: \u201c\u00f3 doutor, chega-te aqui. Tenho um livro que vai ser apreendido pela Pide. Eles v\u00eam buscar daqui a pouco, voc\u00ea se quiser, eu arranjo-lhe\u201d. E eu, claro, \u00e9 proibido, eu quero isso. Era aquela antologia, \u201cPoesia er\u00f3tica e sat\u00edrica\u201d, que tinha sido apreendida. Eu li aquilo de ponta a fio. Foi a primeira obra, n\u00e3o em verso, que eu li dela, uma coisa absolutamente sublime, de uma cultura alt\u00edssima, de uma corre\u00e7\u00e3o de linguagem absolutamente genial. N\u00e3o h\u00e1 ali uma v\u00edrgula fora do lugar, nem h\u00e1 palavra impr\u00f3pria para descrever o pensamento dela. N\u00e3o h\u00e1 um palavr\u00e3o, enquanto que os versos tem tudo do mais ordin\u00e1rio que se possa imaginar, o \u201cPref\u00e1cio\u201d fala sobre isso tudo, mas n\u00e3o diz uma \u00fanica palavra obscena. \u00c9 s\u00f3 poesia, literatura, compara\u00e7\u00e3o, exposi\u00e7\u00e3o, etc. Fiquei fascinado pela senhora, uma mulher inteligent\u00edssima. E pensei: \u201cquando eu puder tenho que conhecer esta mulher\u201d.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: E como se conheceram?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Ela vivia em Lisboa, eu ouvia falar que ela tinha l\u00e1 o Botequim, que ficava na Gra\u00e7a e eu fazia ideia de l\u00e1 aparecer algum dia. At\u00e9 que apareceu o Jos\u00e9 Pracana, que era o fadista, irm\u00e3o dos outros Pracanas de quem sou amigo desde crian\u00e7a. E l\u00e1 fui cumpriment\u00e1-la. Mas nessa altura n\u00e3o sabia qual era a ideologia pol\u00edtica dela em rela\u00e7\u00e3o aos A\u00e7ores. Sabia que ela era da oposi\u00e7\u00e3o, portanto, era democrata, era contra as ditaduras e regimes autorit\u00e1rios como era o caso do salazarismo e do marcelismo.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Nessa altura estavam a surgir as ideias independentistas?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Eu fui, talvez, o primeiro que, em dezembro de 1974, fiz uma confer\u00eancia na Lagoa e disse que, perante a independ\u00eancia de Cabo Verde e de S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, \u201cquem somos n\u00f3s, menos do que eles, para no caso do Povo querer e de Portugal n\u00e3o se opor, de irmos para a independ\u00eancia\u201d, atrav\u00e9s de um referendo. Escrevi isso, publiquei.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa mesma altura, mais tarde viemos a saber que o Dr. Mota Amaral tinha pedido \u00e0 Nat\u00e1lia a letra para o hino dos A\u00e7ores. \u00c9 nessa altura que a Nat\u00e1lia vem c\u00e1.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 n\u00e3o me recordo como fui apresentado, mas ela sabia que eu fazia parte dos presos [pol\u00edticos] que estavam a defender a independ\u00eancia e quis conhecer-me e ao Dr. Jos\u00e9 de Almeida. Ele j\u00e1 era o l\u00edder incontest\u00e1vel da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o A\u00e7oriana (FLA). E come\u00e7amos a conversar, \u00edamos muitas vezes ao hotel Avenida, onde ela ficava com as suas amigas. Eu quis oferecer-lhe as minhas mem\u00f3rias de quando estive preso, um di\u00e1rio que depois publiquei, o \u201cHoras amargas\u201d. Ofereci-lhe o livro e ficamos amigos, porque passei a perceber que ela pensava exatamente como eu. Claro que, com uma dist\u00e2ncia de quil\u00f3metros, a n\u00edvel de cultura em rela\u00e7\u00e3o a mim, eu sentia-me pequeninho ao p\u00e9 dela.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Para j\u00e1, ela tinha uma mem\u00f3ria colossal, lembrava-se das coisas todas e incr\u00edveis que se possa imaginar. E eu tinha um amigo que era muito mais velho, que era o Dr. Sousa de Oliveira, arque\u00f3logo de Vila Franca do Campo. O meu pai era de Vila Franca, eu ia muitas vezes \u00e0 Vila e encontr\u00e1vamo-nos l\u00e1. Eu adoro Hist\u00f3ria e a Arqueologia \u00e9 um ramo da Hist\u00f3ria, portanto, ficamos muito amigos e vim a saber que ele tamb\u00e9m era muito amigo da Nat\u00e1lia e aquela amizade acabou por se generalizar, fez-se um c\u00edrculo de amigos.&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Isso em que altura?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Setenta e cinco. Ningu\u00e9m sabia o que \u00e9 que aquilo ia dar no continente e a determinada altura come\u00e7ou a soar o alarme de que o Partido Comunista e ia tomar conta daquilo e que a Am\u00e9rica j\u00e1 tinha perdido a esperan\u00e7a de recuperar Portugal para a democracia. Portanto, o Partido Comunista ia tomar conta disto. Ela nunca disse isto, mas eu percebi, por entrelinhas, que ela, no caso do comunismo tomar conta do poder em Lisboa, que ela vinha para os A\u00e7ores independentes. Ela deve ter pensado: \u201cmais vale ter aqui uma porta aberta para o caso de alguma agonia\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-center\">\n<p><strong><em>\u201cNunca vi uma mulher t\u00e3o independente\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<cite>CARLOS MELO BENTO<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:25px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p><strong>DL: Nat\u00e1lia conhecia muita gente, n\u00e3o conhecia?<\/strong><strong><br><\/strong>Ela vivia em tert\u00falias do mais culto que Portugal tinha. Todas as pessoas cultas que h\u00e1 em Portugal conheciam a Nat\u00e1lia. Podiam n\u00e3o concordar com ela, mas tinham que se entregar \u00e0quela cultura e \u00e0quele poder de s\u00edntese e \u00e0 poesia dela, que \u00e9 uma coisa esmagadora de beleza, harmonia e de vis\u00e3o. No s\u00e9culo XX n\u00e3o vejo ningu\u00e9m que se aproxime dela. Ela, por exemplo, era muito amiga do professor Vitorino Nem\u00e9sio, tratava-o por Mestre, era disc\u00edpula dele. E quando ele cai de amores pela Marquesa J\u00e1come Correia que, entretanto, com a ajuda dele p\u00fablica \u201cOs amores da cadela pura\u201d, que \u00e9 uma nota autobiogr\u00e1fica escandaloziss\u00edma de uma mulher muito bela, a Marquesa que tinha um conceito de liberdade da mulher que naquele tempo era impens\u00e1vel. Resolvi organizar o um almo\u00e7o no Ilh\u00e9u da Vila. Convidei a Marquesa, o Vitorino, a Nat\u00e1lia e uma quantidade de amigos, uns da FLA e outros que n\u00e3o eram da FLA, trinta ou quarenta pessoas e fizemos um almo\u00e7o, que, ali\u00e1s, foi oferecido pelo professor Teot\u00f3nio, que era um grande cozinheiro. Ele quis oferecer o almo\u00e7o, as comidas que ele cozinhava muito bem e depois no ilh\u00e9u toda a gente tomou banho, bebeu e comeu. E eles, o Vitorino e a Nat\u00e1lia, passaram o tempo todo, ao p\u00e9 de uma mesa de pedra que l\u00e1 tinha, ela sentada no ch\u00e3o, a discutir quest\u00f5es culturais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DL: Juntou-se \u00e0 conversa?<\/strong><strong><br><\/strong>Nem sequer me aproximei, porque, enfim, era uma discuss\u00e3o entre dois colossos da nossa literatura. E a\u00ed \u00e9 que eu vi pela primeira vez que ela o tratava por Mestre. Sendo que ela n\u00e3o respeitava nada, nem ningu\u00e9m, mas o professor Vitorino tratava por Mestre.<br>Depois come\u00e7amos a participar em v\u00e1rias coisas em conjunto, como em coroa\u00e7\u00f5es do Esp\u00edrito Santo, pois ela estava numa fase do seu pensamento em que ela acreditava que a humanidade tinha evolu\u00eddo do s\u00e9culo do Pai, do Filho e que agora \u00edamos entrar na era do Esp\u00edrito Santo. O culto \u00e9 que iria dominar completo o resto da humanidade a partir daqui, e ela cultivava isso quase como se fosse uma uma certeza.<br>Mas ela tinha umas coisas muito engra\u00e7adas. Ela acreditava em bruxas e bruxedos, coisas assim. N\u00e3o sei se era sincero, porque quando falava nisso, tinha sempre um sorriso nos l\u00e1bios, mas a verdade \u00e9 que ela falava nisso e uma vez na minha casa fizeram uma sess\u00e3o com umas cartas, uma esp\u00e9cie de tarot. Ela, aparentemente, levava aquilo a s\u00e9rio. Eu dizia: \u201cuma mulher com esta intelig\u00eancia, \u00e9 imposs\u00edvel. Ela est\u00e1 a gozar com a gente.\u201d Havia ali uma coisa qualquer e, entretanto, eu disse ao Jos\u00e9 de Almeida: \u201cn\u00e3o achas que quando a gente fala com a Nat\u00e1lia temos a no\u00e7\u00e3o de que estamos a falar com um g\u00e9nio?\u201d O Jos\u00e9 de Almeida era uma pessoa especial, n\u00e3o era um cidad\u00e3o vulgar. Tinha carisma e uma das caracter\u00edsticas do carism\u00e1tico \u00e9 colocar-se numa posi\u00e7\u00e3o em que se considera que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m acima dele. Ela arrastava as pessoas atr\u00e1s de si, tinha autoridade na voz e quando fiz aquela pergunta, um bocadinho para pic\u00e1-lo, pensando que tinha que se curvar perante uma realidade que estava a sentir, ele olhou para mim fixamente e abanou a cabe\u00e7a de cima para baixo. E ele sofreu grandemente com a morte dela. N\u00e3o esper\u00e1vamos que ela morresse, foi um choque porque ela enchia-nos a vida e quando chegava era um turbilh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>DL: J\u00e1 sentia isso na altura?<\/strong><strong><br><\/strong>Eu sentia, profundamente. Para mim era um ser superior que ali estava. E ela j\u00e1 era uma mulher com sessenta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"876\" height=\"960\" src=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/dedicatoria-de-natalia-a-carlos-melo-bento.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-127540\" srcset=\"https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/dedicatoria-de-natalia-a-carlos-melo-bento.jpg 876w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/dedicatoria-de-natalia-a-carlos-melo-bento-274x300.jpg 274w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/dedicatoria-de-natalia-a-carlos-melo-bento-768x842.jpg 768w, https:\/\/noticiasquecontam.pt\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/dedicatoria-de-natalia-a-carlos-melo-bento-11x12.jpg 11w\" sizes=\"(max-width: 876px) 100vw, 876px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><sub>Dedicat\u00f3ria, pelo punho de Nat\u00e1lia Correia, em 1982, a Carlos Melo Bento<\/sub><\/figcaption><\/figure>\n\n\n<p><b>DL: Ela vinha c\u00e1 com frequ\u00eancia?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Ela vinha com frequ\u00eancia. Quando o Dr. Mota Amaral pedia para ela vir, ela vinha. Enquanto aquilo n\u00e3o se endireitou no continente ela vinha tamb\u00e9m e no ver\u00e3o ela trazia as suas amigas.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Fala-se que era uma mulher muito independente?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Completamente. Nunca vi uma mulher t\u00e3o independente, tinha uma sabedoria em que as pessoas tinham que se curvar perante aquilo, n\u00e3o havia outra hip\u00f3tese.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Um dia ela publicou a biografia de Cam\u00f5es, \u201cErros meus, m\u00e1 fortuna, amor ardente\u201d, e quando li aquilo pensei \u201cesta mulher \u00e9 que tem raz\u00e3o\u201d, ela pegou nos versos de Cam\u00f5es e traduziu passos da vida de Cam\u00f5es que n\u00e3o podem ter outra interpreta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica sen\u00e3o aquela que a Nat\u00e1lia d\u00e1. Entretanto, quando fui a Lisboa, li que estava em cena uma pe\u00e7a de teatro baseada no poema de Nat\u00e1lia. Fui ver e fiquei desapontado porque a pe\u00e7a n\u00e3o chegava aos calcanhares. E nessa mesma noite, no botequim, entrou um daqueles capit\u00e3es de abril, Vasco Louren\u00e7o. Ele teve no teatro e depois foi para o botequim e come\u00e7ou a fazer um grande elogio \u00e0 pe\u00e7a. E eu disse: \u201cpe\u00e7o imensa desculpa discordar, mas n\u00e3o chegaram nem aos calcanhares da altura da obra de Nat\u00e1lia Correia.\u201d E houve algu\u00e9m que me quis mandar calar e ela, \u201cn\u00e3o, n\u00e3o, deixe falar, quero ouvir as opini\u00f5es todas\u201d. Mas, \u00e0s tantas, ela percebeu que o outro estava zangado e olhou para mim e disse com ar de gozo: \u201c\u00f3 Melo Bento, voc\u00ea anda a fumar marijuana?\u201d<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cN\u00e3o querida, n\u00e3o fumei nada porque eu n\u00e3o fumo. Aquilo que estou a dizer \u00e9 exatamente o que penso. Estou convencido que esta \u00e9 a melhor obra sobre Cam\u00f5es que foi publicada at\u00e9 hoje. \u00c0 moda do Direito, esta \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica\u201d, respondi. Ela adorava os elogios, mas eu n\u00e3o exagerava, n\u00e3o estava a mentir, era o que pensava. Ela aceitava mas n\u00e3o queria que o outro deixasse de ir ao botequim, porque aqueles capit\u00e3es de abril traziam muita gente e clientela importante que lhe davam um renome especial.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Como \u00e9 que funcionava o Botequim, o bar que Nat\u00e1lia abriu e onde decorriam as longas tert\u00falias onde participava?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Era um bar como outro qualquer em que s\u00f3 se ouvia a Nat\u00e1lia. Ela falava muito alto, quando a gente entrava, chamava-nos logo pelos nomes. E ela tinha no\u00e7\u00e3o da sua dimens\u00e3o. Recordo-me de uma discuss\u00e3o que ela teve com algu\u00e9m que lhe tinha feito uma cr\u00edtica em que disse: \u201ceu n\u00e3o me importo, porque voc\u00ea quando morrer vai ter o nome numa travessa e eu vou ter o nome em jardins, avenidas e estradas\u201d.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"><br><\/span><span style=\"font-weight: 400;\">A democracia depois vincou, a Nat\u00e1lia tornou-se uma pessoa muito importante a n\u00edvel nacional, mas sempre connosco da mesma maneira.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Nat\u00e1lia n\u00e3o mudou?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Nada, absolutamente nada. E a gente ia l\u00e1 ao botequim na mesma.<\/span><\/p>\n<p><b>DL: Essa amizade durou quanto tempo?<\/b><b><br><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Desde 1975, at\u00e9 ao fim.<\/span><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Di\u00e1rio da Lagoa foi ao encontro do advogado que privou com Nat\u00e1lia, saber afinal, quem foi e o que fez a maior poetisa nascida nos A\u00e7ores<\/p>","protected":false},"author":2,"featured_media":127539,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[12],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v20.10 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>\u201cTodas as pessoas cultas que h\u00e1 em Portugal conheciam a Nat\u00e1lia\u201d - Not\u00edcias que contam<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Carlos Melo Bento nasceu, em casa, na Rua dos Manaias, em 1941, e ali cresceu, em Ponta Delgada. 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