Foi há quase cinco anos que com o apoio das autoridades regionais curdas passei por aqui e trabalhei com algumas das minorias do Norte do Iraque, em particular a comunidade Yazidi.
Era suposto ter voltado em Agosto mas tive que adiar a viagem por motivos de força maior e foi agora que ela se propiciou. Não necessariamente aos mesmos sítios, porque grande parte dos chamados territórios em disputa – uma larga franja de zonas que bordejam as fronteiras oficiais do Curdistão desde a fronteira síria à fronteira iraniana perto de Bagdade – é desde o princípio de Agosto território ocupado pelo chamado Estado Islâmico, incluindo Karakosh, Tal Afar e Sinjar, esta última, a maior cidade habitada por Yazidis.
Se os cristãos, os Shabaks ou os Turcomenos xiitas tiveram a sorte de ser expulsos pelos jihadistas, os Yazidis, comunidade curda que observa uma religião multimilenar oriunda da civilização suméria – foram massacrados em massa; mulheres e crianças escravizadas e obrigadas a renunciar à sua religião sob pena de morte.
Em conjunto com a organização não-governamental alemã “Ponte Aérea do Iraque” que tem como objetivo salvar as vítimas desta moderna escravatura do seu calvário, organizámos um conjunto de encontros e entrevistas em Lalish – centro religioso Yazidi que se encontra a poucos quilómetros da zona ocupada pelos jihadistas e nas principais cidades da região.
A cidade de Sinjar e as aldeias circundantes foram tomadas de assalto na noite de 3 para 4 de Agosto. Apenas alguns habitantes conseguiram fugir com a roupa que vestiam e estão ainda cercados pelos jihadistas nas montanhas. Dos que ficaram, os homens e os jovens foram sistematicamente assassinados por vezes depois de torturados e em cenas em que os familiares foram obrigados a assistir à tortura e assassínio.
Mulheres e adolescentes foram forçados à conversão para o Islão e são obrigadas a rezar cinco vezes por dia. Foram transportadas em camiões e foram circundando entre várias cidades sob controlo jihadista onde foram sendo vendidas. Algumas violadas e outras não a fim de serem vendidas mais caro. As jovens que entrevistámos – com quinze e dezassete anos – estavam em estado psicológico profundamente afetado depois de terem conseguido escapar.
Apesar de terem passado já mais de três meses sobre o massacre pouco ou nada tem sido feito para enfrentar a barbárie. Algumas organizações têm comprado a libertação de escravas, helicópteros têm trazido sobreviventes das montanhas, mas nada se faz para libertar as escravas punir os jihadistas; entender como isto foi possível e tomar medidas para que este crime contra a humanidade seja tratado como tal.
É a ideologia jihadista que quer fazer regressar a humanidade à Idade Média a grande responsável pela situação. Foi essa ideologia que fez do abandono sem defesa dos “infiéis” algo de aceitável e é essa ideologia que considera que a libertação de escravas, com a sua consequente libertação da conversão islâmica, como potencial crime de apostasia.
Enquanto o Ocidente não entender que o combate ideológico ao jihadismo é o mais importante, estamos condenados a não poder ganhar esta guerra.
Lalish, 2014-11-22
(Paulo Casaca)
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