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Festas do Divino Espírito em Santa Cruz na Lagoa: “há sempre o milagre da multiplicação”

Foram servidas mais de mil sopas gratuitas do Espírito Santo numa festa onde o valor do voluntariado e da partilha está bem presente. A tradição tem já várias décadas

Festas na Lagoa fazem-se com a ajuda de dezenas de voluntários © SARA SOUSA OLIVEIRA
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João Alegre fala com emoção do que vive há quase duas décadas sendo voluntário das Festas do Divino Espírito Santo da Santa Casa da Misericórdia de Santo António, na Lagoa, ilha de São Miguel. “O espírito voluntário muito forte é um dos sinónimos do Espírito Santo. Desde que estou cá, apesar de distribuirmos tanto, sempre sobra. Já participo há 18 anos nestas festas, mais dois e faz vinte, e mais quantidade ou menos quantidade nunca me lembro de chegar ao fim e dizer que faltou isso ou faltou aquilo. Há sempre o milagre da multiplicação, é uma festa muito especial”, diz, visivelmente emocionado.

Este funcionário da Santa Casa da Misericórdia de Santo António confessa que a sua ligação espiritual é antiga: “sempre tive devoção ao Espírito Santo. Eu sempre vi que há uma partilha de tarefas entre a comunidade que pertence aqui à irmandade e também a funcionários da Santa Casa que se disponibilizam de forma voluntária”, destaca.

O voluntariado põe estas festas de pé. Helena Alcaidinho é uma dos cerca de 50 voluntários desta festa. “O Espírito Santo é alegria, é vida, é fé, é esperança, é muita coisa mas tem que ser vivido com muita fé, com muita esperança. E ele está ali iluminado desde sexta-feira, está iluminado para nos ajudar”, diz ao Diário da Lagoa (DL).

A azáfama na “Casa da Partilha”, em Santa Cruz, onde se confeccionam as tradicionais sopas do Espírito Santo, é grande. E foi lá que encontrámos o homem que trouxe a receita das sopas para a Lagoa: José Carreiro. “Nasci entre sopas. E a partir daí, quando vim para aqui, porque não sou de cá, falou-se nas sopas, ninguém conhecia, ninguém sabia o que era. Falei com o mordomo, na altura, e disse-lhe, eu posso fazer. Hoje sinto muito prazer em dizer que, se se faz sopas hoje no concelho da lagoa, eu é que sou o primitivo”, diz. A receita veio com ele, da sua terra: “os temperos são de Água Retorta. E já é uma tradição aqui com quase 40 anos. Comecei a fazer isto aqui há 40 anos, em 1987, 1988. As pessoas começaram a gostar. O valor de tudo isto é esta gente toda aqui, por amor, por gosto, e às vezes curiosidade também, para ver como é que se faz, e as coisas vão-se fazendo, resolve-se a faz-se. Claro que tem de ser com muita ajuda porque é uma festa grande”. 

Para o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Santo António, instituição organizadora das festas, o domingo de Pentecostes “é o dia da partilha, o dia da união, faz parte dos estatutos da Santa Casa e já há 23 anos que estamos cumprindo a nossa festa estatutária, está dentro da nossa missão, de servir, partilhar por isso é uma festa onde tentamos envolver todos os colaboradores, toda a gente, toda a comunidade”. António Augusto Borges sublinha que foram servidas entre “1100 a 1200 sopas”. “Temos 480 quilos de carne. Toda a gente, durante toda a tarde pode comparecer, enquanto tivermos sopas vamos servir por isso toda a gente está convidada, toda a comunidade, fazer uma festa aberta a todos, todos, todos”. O responsável destaca a importância dos que contribuem: “esta festa vive toda do voluntariado. Ainda hoje levantaram-se às três e meia da manhã, estiveram cá, ontem, anteontem, amanhã, são todos voluntários, toda a gente é bem vinda, todos são poucos nesta grande festa”. 

A Praça da República encheu-se com centenas de pessoas que vieram de propósito degustar as sopas e participar nas festas. “Todos os anos eu venho, venho para estar aqui no convívio, para dar folga às panelas e a mim”, conta Lúcia Alcaidinho ao DL.

Isaura Cabral também gostou do que provou na praça: “o meu marido vem cantar para o Grupo de Cantares de Santa Cruz e eu aproveito e venho com ele. Gosto da partilha, de estarmos conversando, convivendo, vendo pessoas conhecidas no domingo de Pentecoste, gosto”. Partilha e convívio andaram de mãos dadas nestas festas, de todos, e para todos, tipicamente açorianas.

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