
Não é sobre estatísticas. Não é sobre o peso do metal das medalhas ou as datas precisas de campeonatos regionais. O projeto que nasceu de um convite para o álbum dos 500 anos do Concelho de Lagoa transformou-se em algo muito mais profundo: uma radiografia da alma de um povo. “O meu propósito era humanizar a informação”, explica o autor, Marcelo Borges, que dedicou quase dois anos a escavar memórias que o betão do tempo ameaçava enterrar.
“O meu pai, desde de cedo, levou-me para o desporto, acompanhava-me muito. Quando me fizeram o convite, disse que aceitaria ir nesse propósito, mas num propósito mais de humanizar a informação”, explica o autor.
A história do desporto na Lagoa começa com um ato de sobrevivência psicológica. Em 1522, após o terramoto devastador que arrasou Vila Franca do Campo, o capitão donatário Luís Gonçalves encontrou no “jogo de canas” — uma disputa de perícia a cavalo — a forma de demover as pessoas de abandonarem a ilha. O desporto foi, ali, a primeira ferramenta de reconstrução social.
Recorda os tempos idos em que em 1905 foi instalado um campo de cricket no jardim do Rosário, pela câmara municipal.
Em 1917, foi criado o Eden Park. Onde antes se empilhava carvão para a Fábrica do Álcool, nasceu um espaço de lazer vanguardista com o primeiro ginásio público ao ar livre. Foi ali que as famílias se reuniam, onde as senhoras faziam renda enquanto assistiam aos primeiros jogos de futebol, e onde a dinâmica social da rua ganhou uma nova vida.
O livro “Breve História da Cultura Desportiva na Lagoa”, editado pela Câmara da Lagoa, destaca um período áureo: a era das grandes indústrias. A Fábrica do Álcool e a Fábrica do Sabão (Provimi) não eram apenas polos económicos, mas o coração pulsante do desporto. Os operários terminavam turnos exaustivos e corriam para os treinos. O autor recorreu sobretudo a testemunhos orais, a livros e à imprensa da época.
“O que mais me agradou foi confirmar a resiliência dos lagoenses”, afirma Marcelo Borges. As histórias de bastidores são comoventes: dirigentes que transformavam as suas próprias casas em sedes de clubes e treinadores “vanguardistas” que, perante a escassez, davam “quadradinhos de marmelada” aos atletas para garantir que tinham calorias para competir. É este “ADN” de sacrifício que explica como clubes com poucos recursos conseguiram, tantas vezes, bater-se contra gigantes.
Se outrora era preciso esperar horas para conseguir um lugar nos polidesportivos de Santa Cruz ou do Rosário, hoje o silêncio nas ruas preocupa. O autor aponta para um “desligamento” das novas gerações, provocado não só pelos ecrãs, mas por uma alteração na dinâmica familiar.
“Eu não ouço as bolas a baterem na rua”, lamenta, recordando o tempo em que o sentido de pertença era tão forte que os próprios alunos tomavam a iniciativa de decorar os pavilhões escolares com azulejos. Para o autor, o desporto não é apenas exercício físico; é uma lição de cidadania e de dever sobre o direito.

A obra, que agora integra a coleção da Biblioteca Tomás Borba Vieira, não pretende ser um ponto final. Com atletas como Natacha Candé e Apollo Caetano a reescreverem a história no presente, o livro serve como um estandarte para que os clubes não deixem perder os seus arquivos orais, sendo a história atual um desenrolar constante de novos marcos. “O livro já está desatualizado”, diz Marcelo Borges, assumindo que é a própria história a acontecer. O autor espera que este trabalho incentive outros a escreverem sobre modalidades específicas antes que a memória dos dirigentes mais antigos se perca.
Numa altura em que a informação digital é efémera, este resgate das fontes orais e dos periódicos antigos (como “O Lagoense” de 1905) é um presente para a Lagoa de amanhã eternizando assim a história da cultura desportiva no concelho.

A Câmara Municipal da Ribeira Grande prepara-se para reforçar as políticas de proteção ambiental através de uma nova parceria estratégica com a Casermel – Cooperativa de Apicultores e Sericicultores de São Miguel, CRL. Num recente encontro de trabalho entre o executivo municipal e a direção da cooperativa, foram lançadas as bases para uma colaboração que visa não só a preservação das abelhas, mas também a valorização do mel enquanto produto de excelência da região. Segundo nota de imprensa enviada pela autarquia, o presidente Jaime Vieira destacou o papel vital destes polinizadores no equilíbrio dos ecossistemas locais, sublinhando que “as abelhas são fundamentais para a polinização, um processo indispensável à reprodução de inúmeras espécies vegetais, incluindo culturas agrícolas essenciais à nossa alimentação”.
Face a este diagnóstico, o Município assumiu o compromisso de identificar áreas específicas no concelho com condições ideais para a polinização, prevendo-se ainda a plantação de espécies florais em espaços públicos para potenciar a biodiversidade. Esta estratégia estende-se à gestão dos espaços verdes municipais, que passará a ser feita com um foco acrescido na sustentabilidade e no suporte à vida apícola. Uma das medidas mais inovadoras em análise é a criação de um apiário comunitário, pensado para ser um centro de aprendizagem e literacia ambiental, onde a comunidade poderá compreender melhor o ciclo de vida das abelhas e a importância dos produtos derivados da colmeia.
Para além da vertente ecológica, a iniciativa pretende dar um impulso económico aos produtores locais, incentivando o consumo de mel como um alimento de elevado valor nutricional e medicinal. Jaime Vieira reforçou a necessidade de integrar este produto numa dieta equilibrada, garantindo que o município apoiará a divulgação de quem trabalha no setor. O autarca concluiu a reunião com um olhar sobre o futuro, afirmando que o apoio a estas causas é um imperativo geracional, pois “proteger as abelhas é garantir o futuro dos nossos ecossistemas e das gerações vindouras”.

Miguel S. Albergaria
Professor na Escola Secundária de Lagoa
Em época de IV Revolução Industrial – com a introdução da IA, especialmente quando em convergência com a robótica, a IoT, as bioengenharias e as nanotecnologias nas nossas práticas sociais – em vista de mantermos algum controlo do processo a favor da maioria de nós (idealmente, de todos), temos de o acompanhar compreensivamente. Um tipo de raciocínio de que dispomos para o efeito é o da analogia com inovações tecnológicas anteriores. É certo que a força destas inferências naquele caso não será grande, uma vez que a força de uma analogia varia inversamente com o grau de novidade do termo em causa, e a IA capaz de aprendizagem é uma boa candidata ao título de maior novidade tecnológica desde as pedras lascadas. Mas, para evitar a volatilidade das especulações concetuais, não temos muito melhor do que esse tipo de inferências.
Recorrerei, assim, ao caso da substituição do sistema tradicional de ordenha e maneio do gado nos Açores, assente na energia humana e animal, por um sistema mecanizado (v. “The design of sociotechnical systems and the mechanization of the Azorean milking system”, in ResearchGate). Para apontar dois episódios desse caso que me parecem ilustrativos de outros dois aspetos de como estas inovações, efetivamente, ocorrem.

Um é o relato do atual dirigente de uma das associações de lavradores açorianos do seu primeiro encontro com as máquinas de ordenha móveis, que ainda caracterizam o sistema de ordenha mecanizada no arquipélago.
Era ele jovem, e ajudava um amigo na ordenha manual da manada do pai deste outro rapaz. Esse lavrador fora hospitalizado, mas ainda assim manteve a introdução de uma máquina de ordenha na sua lavoura, que contratualizara com a empresa fornecedora do equipamento. Chegaram então os técnicos com a máquina à pastagem onde se encontravam os dois rapazes, em plena ordenha. Explicaram o modo de operacionalização desse sistema técnico, porventura também o seu funcionamento, e os rapazes, no dizer do atual engenheiro e dirigente associativo, perceberam quase nada. Um dos técnicos achou que o melhor seria fazerem uma demonstração prática. Mal ligou o aparelho, as vacas fugiram espalhando-se pela pastagem. Os rapazes levaram a tarde toda a reuni-las. (Anoto que uma descarga de adrenalina inibe a descida do leite para os canais no úbere, a ordenha não há de ter sido grande coisa nessa tarde.) Enfim, a habituação dos animais levou dias, necessitando de muita paciência dos dois novos operadores da máquina.
Ou seja, nem sempre os agentes da inovação tecnológica são os seus promotores – o lavrador estava no hospital, e os rapazes não estavam preparados para aquela inovação – de forma que o processo se pode tornar descontínuo ou segmentado. Os técnicos talvez saibam tudo sobre a máquina que lhes diz respeito, e alguma coisa sobre comunicação com os eventuais operadores, mas se lhes faltar a perceção de que, além da mesa de design e da oficina, outros elementos podem condicionar a inovação tecnológica efetiva, podem não antecipar a possibilidade de eventos como a reação das vacas ao som da máquina. De qualquer forma, tudo acabou bem? Pois acabou, mas graças a uma competência pessoal (soft skill) que nem teria sido relevada previamente pelos técnicos na sua comunicação, e que só contingentemente era possuída pelos dois inesperados recetores do equipamento: a paciência – em relação àqueles esquecidos terceiros elementos do sistema sócio-técnico-animal.
Moral da história: conceber ou planear será útil, ou até necessário para a inovação tecnológica, mas não é suficiente para esta última.
O âmbito do outro episódio é hoje especialmente caro na academia, mas fora dela também não o deveremos desconsiderar: a questão de género neste tipo de processos.
Um dos obstáculos à inovação acima referida era a excessiva fragmentação da propriedade rural e a diminuta dimensão dos respetivos blocos. A este respeito, um técnico de um instituto público envolvido na promoção do emparcelamento rural açoriano, desde meados da década de 1980, contou-me o protocolo retórico que, informalmente, acabara por ser desenvolvido e implementado nesse instituto:
1.º passo: durante a semana, ir à pastagem e apresentar os procedimentos de emparcelamento ao lavrador, ao que este, se não negasse logo, diria ter de pensar. Neste caso – 2.º passo: à saída, como quem se lembra de um pormenor secundário, dizer-lhe que seria sempre precisa a assinatura da esposa, pelo que se lhe pedia licença, a ele marido, para ir falar também com ela. Dada a deferência, a resposta tenderia a ser afirmativa. 3.º passo, então o decisivo: numa hora em que fosse provável que o homem não estivesse em casa, ir explicar detalhadamente a proposta à senhora. Ela concordaria ou não. Se concordasse, o 4.º passo seria ir à pastagem, uns dias depois, receber a aceitação do lavrador.
Contei este episódio numa recente conferência internacional sobre história rural, pois diversos investigadores se tinham manifestado interessados no trator como símbolo do poder masculino etc. Imediatamente, uma austríaca com investigação creio que no mundo rural polaco e um belga que apresentara uma comunicação precisamente sobre a múltipla simbologia do trator apontaram traços equivalentes a esse episódio micaelense. E um suíço, que antes assinalara que a tratorização fora feita no seu país sob o lema da poupança das crianças e mulheres ao trabalho físico nos campos, libertando-os para a escola, e para o cuidado da casa de família precisamente quando a máquina compensaria a menor força física média das mulheres, reconheceu que, todavia, a contabilidade das explorações agrícolas, e assim boa parte das decisões de gestão, continuara a ser feita maioritariamente pelas mulheres.
O que retiro de episódios como estes é que, bastas vezes, o que é masculino será a expressão pública do poder, mas isto não se identifica necessariamente com o exercício do poder decisório. A relação ternária ‘homem – artefacto tecnológico ou plano técnico – mulher’ pode ser diferenciada não apenas pela diferença entre as relações binárias que comporta (homem-artefacto, artefacto-mulher, mulher-homem), mas ainda por uma multiplicação de níveis dessas relações além daquele que é manifesto. Não sendo límpido quem ou o quê decide exatamente sobre o quê.
Em suma, faz sentido usar uma palavra como “realidade”, para designar algo mais complexo e fluido do que a limpidez das lestas palavras com que se lhe quer dar forma.

Álvaro Borges
O atual conflito no Médio Oriente, que envolve o Irão, os Estados Unidos e Israel, é uma flagrante violação do direito internacional.
O Direito Internacional, isto é, o conjunto de regras que devem reger todos os países no seio da comunidade internacional, está praticamente esvaziado no seu plano conceptual e normativo.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas é hoje um “órgão tetraplégico”, sem capacidade de decisão, desatualizado face aos tempos atuais, com novas potências emergentes sem assento nesse órgão.
O Presidente Donald Trump ridiculariza a função fulcral do Conselho de Segurança da ONU ao criar o seu próprio “Board of Peace”, a 15 de janeiro de 2026, um comité de estrutura internacional que tem como objetivo declarado promover a estabilidade, restaurar uma governação fiável e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos. Este novo organismo tem como presidente vitalício, sem grandes surpresas, o próprio Donald Trump.
Quanto à atual guerra que vivemos e aos efeitos que sentimos, como a subida em flecha dos preços dos combustíveis, das prestações da habitação e do custo de vida generalizado, estes resultam de um somatório entre a guerra da Ucrânia e, agora, um conflito desnecessário com o Irão.
O Estreito de Ormuz, por onde passam navios que transportam cerca de um quinto do petróleo mundial, encontra-se fechado por imposição do Irão.
Os Estados Unidos e Israel estão a levar a cabo uma guerra que não conseguem ganhar, porque não detêm supremacia total. Os seus objetivos falharam: o regime não caiu, o seu líder foi substituído pelo próprio filho, as populações não se revoltaram e a sociedade civil ocidental manifesta-se contra uma guerra na qual não vê qualquer benefício nem vantagem para a paz mundial.
Aquilo que foi apresentado como uma “obliteração” no ano passado, sob o pretexto de uma alegada arma nuclear do Irão, algo semelhante à narrativa proclamada em 2003 relativamente ao Iraque, revela-se um falhanço em toda a linha para os Estados Unidos e Israel.
Sem apoio significativo dos seus aliados ocidentais, nem mesmo de alguns dos seus parceiros do Golfo, o Irão consegue sobreviver com o apoio indireto dos seus principais aliados, a China e a Rússia.
A utilização da Base das Lajes, ao abrigo do protocolo entre Portugal e os Estados Unidos, e a permissão do Estado português para que os EUA utilizem a base militar de forma adequada, necessária e proporcional aos seus objetivos, com alcance estritamente militar, demonstram que Portugal não detém capacidade diplomática para negar acesso, como fizeram Itália, Espanha ou o Reino Unido às suas bases. Tal deve-se às nossas dependências económicas, sociais e culturais em relação aos EUA e ao receio de eventuais retaliações.
Não tenhamos ilusões: a guerra com o Irão é um fracasso e só poderia ser ganha em termos militares, algo que não desejamos, pois seria uma carnificina. Através de meios militares no terreno, ou seja, boots on the ground, uma presença militar seria o único caminho para que os EUA e Israel pudessem declarar vitória, como afirmou Donald Trump ao New York Post, a 2 de março deste ano. Mesmo assim, subsistem grandes dúvidas quanto a esse objetivo, dada a enorme complexidade e dimensão territorial do país.
Compreendemos e aceitamos que grande parte dos países ocidentais, incluindo Portugal, se coloquem à margem desta guerra, que constitui uma flagrante violação do direito internacional. Podemos dizer que finalmente aprendemos com a farsa da guerra do Iraque em 2003. No entanto, não podemos ignorar a enorme hipocrisia do mundo ocidental quando o Irão matou deliberadamente mais de 30 000 pessoas, segundo o jornal The Guardian, em janeiro de 2026, tendo sido necessário recorrer a reboques para transportar os mortos.
Além disso, o posicionamento dos aliados ocidentais não é uniforme, refletindo interesses estratégicos distintos e diferentes leituras do conflito. Países como Portugal tendem a adotar posições cautelosas, procurando equilibrar compromissos internacionais com considerações diplomáticas e económicas.
Não obstante, subsiste uma questão central: a coerência moral da comunidade internacional. A condenação de determinadas ações contrasta, por vezes, com o silêncio ou a ambiguidade perante outras situações igualmente graves, o que alimenta perceções de seletividade e hipocrisia.
Assim, mais do que uma resposta simples, este conflito coloca um dilema complexo. Se, por um lado, a defesa da dignidade humana e da estabilidade internacional exige ação, por outro, a intervenção militar acarreta riscos elevados e consequências imprevisíveis. Perante este cenário, torna-se essencial privilegiar soluções diplomáticas e multilaterais, ainda que deficitárias, como forma de evitar uma escalada com custos humanos e globais incalculáveis.
Se somos defensores da dignidade da pessoa humana, será esta uma altura para nos juntarmos aos Estados Unidos e a Israel com o objetivo de devolver essa dignidade ao povo iraniano? Temos muitas dúvidas.

Bruno Pacheco
Sou cidadão do mundo, socialista formado politicamente nos movimentos soberanistas e independentistas açorianos do início da década de noventa. Luto, desde sempre, por uns Açores melhores e que sejam local de eleição para os optaram por aqui viver.
Contudo, fico “incrédulo” ao ver os posicionamentos “Açor-cêntricos” de alguns dos nossos governantes, baseados na retórica fácil e sem a devida sustentação técnica e científica sobre o nosso “valor intrínseco”. Como se diz nas arquinhas da vida… muito parla più.
Há um traço recorrente no discurso político regional, enraizado numa linha académica que vigora desde 1976, que importa desmontar (para nosso bem): o Açorianocentrismo acrítico, essa convicção quase dogmática de que os Açores ocupam um lugar central no mundo, não por evidência cientificamente demonstrada, mas por insistência repetida baseada apenas no nosso capital histórico.
Valorizar os Açores é legítimo. É imprescindível e necessário. O problema começa quando essa valorização deixa de assentar em dados, análise técnica e fundamentos científicos, passando a viver apenas de retórica política e de autoafirmação vazia baseada apenas na nossa geografia. Confunde-se orgulho com sobranceria, estratégia com propaganda. E, pior ainda, transforma-se uma agenda de desenvolvimento numa narrativa de autocelebração permanente.
A verdade é simples: relevância geoestratégica, importância ambiental ou potencial económico não se proclamam… demonstram-se. Demonstram-se com indicadores sólidos, estudos comparativos internacionais, políticas públicas avaliadas e resultados mensuráveis. Sem isso, tudo o que resta é discurso. E, por si só, o discurso não atrai investimento, não fixa talento e não cria prosperidade sustentável.
O episódio da saída da Ryanair dos Açores é um exemplo paradigmático dessa falta de noção do ridículo. Em vez de uma análise fria sobre competitividade, custos operacionais, massa crítica de procura ou enquadramento regulatório, assistimos a reações inflamadas, muitas vezes desconectadas da realidade do setor da aviação. Os nossos governantes pensaram que os “O’Leary” andavam a fazer bluff e que, no final, viriam “comer na nossa mão”, e ficaram a ver a banda passar pela avenida. Errado, como se viu!
Mas, mais grave do que a saída em si, foi a forma como foi enquadrada: uma mistura de indignação e, depois, incredulidade, como se o mundo tivesse falhado aos Açores. Esta postura revela uma visão fechada, quase insular no pior sentido da palavra, em que se assume que a centralidade é um dado adquirido e não uma conquista permanente. Um reflexo de quem fala muito para dentro e pouco para fora e da evidente falta de mundividência dos nossos governantes.
O recente episódio protagonizado pelo Presidente do Governo, à saída do Conselho Superior de Defesa Nacional, é mais uma expressão do açorianocentrismo sem urbanidade. À saída de uma reunião realizada ao abrigo do segredo de Estado, tivemos uma proclamação da nossa centralidade geoestratégica e da nossa importância vital para a República Portuguesa, acrescentando que a futura Lei das Finanças Regionais deve incorporar essas variáveis para fins de financiamento. Como sabem, aqui no Torreão, desde o início, abordaram-se os temas do “capital natural” e do “capital estratégico” como vetores para o financiamento da Região Autónoma. Contudo, temos de seguir um caminho sério, tecnicamente e cientificamente sustentado, que nos permita entrar nessa discussão com a certeza do que “queremos ter e porque é que queremos”. A centralidade geoestratégica não se afirma em declarações: mede-se, compara-se e prova-se com métricas objetivas reconhecidas internacionalmente.
Deste modo, recomenda-se ao Sr. Presidente do Governo que, em vez de “furar o segredo de Estado”, dê orientações para que se proceda a estudos sérios e cientificamente credíveis, de forma a podermos apelar a esta retórica, mas com sustentação e evidências.
Se queremos um projeto de futuro para os Açores, ele tem de assentar no realismo, nas exigências técnicas e na capacidade de integração global. Menos retórica, mais evidência. Menos autocomplacência, mais ambição sustentada. Mais avaliação independente, mais transparência e mais cultura de resultado. Caso contrário, continuaremos presos a um discurso que soa bem cá dentro, alimenta egos e ciclos políticos de curto prazo, mas que, lá fora, ninguém leva a sério e, pior do que isso, ninguém tem incentivo para contrariar.
O mundo não começa nem acaba nos Açores. E reconhecer isso não diminui a Região, mas, pelo contrário, é o primeiro passo para afirmá-la com seriedade. Porque só quem entende o seu lugar relativo consegue, de facto, ambicionar mais e negociar melhor.

O futuro da lavoura açoriana está a ser testado, palmo a palmo, nos campos de ensaio da ilha. O recente “Dia de Campo” promovido pela Associação Agrícola de São Miguel (AASM) transformou-se num retrato vivo dos desafios e das esperanças de um setor que é um dos motores da economia regional. Entre técnicos e sementes experimentais, dezenas de produtores procuraram respostas para uma equação cada vez mais difícil: como produzir com excelência num cenário de alterações climáticas e preços de mercado asfixiantes.
Lucas Pereira tem 24 anos. É lavrador e tem por sua conta cento e cinquenta vacas de leite na Povoação. Veio até ao campo de Santana ver as novidades que existem para alimentar os seus animais. “Vim para perceber quais são os melhores alimentos para o gado”, começa por dizer ao Diário da Lagoa. O produtor de leite diz que gosta de estar atualizado sobre o que vai surgindo de novo, em termos de alimentação para a lavoura, mas queixa-se que o preço do leite pago ao produtor é insuficiente: “torna-se muito difícil para um jovem agricultor com os preços que estão a praticar atualmente, se o preço do leite fosse mais bem pago, as ajudas do governo não eram necessárias”, acredita.
A ouvir atentamente os técnicos da AASM estão várias dezenas de produtores que vieram de toda a ilha. José Henrique vem da Lomba da Maia onde tem uma exploração com 52 vacas. Quis vir ver “as sementes novas” que “em princípio, têm melhor qualidade”. Aquilo que é possível ver nos pastos da AASM são diferentes tipos de erva que, à primeira vista, parecem iguais. Mas a sua composição difere e muito e cada uma tem uma finalidade diferente. “Os nossos ‘azevins’ duram apenas um ano e a gente tem aqui permanentes que duram até quatro anos”, diz José Henrique, otimista no que vai vendo pelas pastagens.
A agricultura nos Açores encontra-se num ponto de viragem histórico, onde a intuição tradicional dá lugar ao rigor científico como única via de sobrevivência económica. Jorge Rita, presidente da Associação Agrícola de São Miguel, defende que o investimento em campos experimentais e na seleção de sementes não é um luxo, mas uma necessidade estratégica para blindar o setor. Segundo o dirigente, o trabalho desenvolvido nestas parcelas de ensaio, em parceria com empresas globais e universidades, tem um propósito pedagógico claro: “Para depois vendermos, primeiro temos que semear e fazer a experimentação”, afirma, sublinhando que o foco principal é “promover a confiança” junto de quem trabalha a terra. Para Jorge Rita, é fundamental que o agricultor tenha a garantia da qualidade e saiba exatamente qual será o produto final e a sua capacidade nutritiva antes de realizar o investimento na sementeira, algo que só é possível através da análise das variáveis de cada variedade de gramínea testada localmente.

Esta aposta na vanguarda tecnológica surge num contexto de urgência climática que já não pode ser ignorado no arquipélago. O presidente da Associação Agrícola de São Miguel alerta para a necessidade premente de obter sementes “mais resistentes às alterações climáticas”, capazes de suportar as condicionantes de um ambiente em mutação onde a temperatura da água do mar já atinge os 27°C e o aquecimento do ar fustiga as pastagens tradicionais. “Nós, com a experimentação, estamos a antecipar-nos”, explica Jorge Rita, recusando uma postura meramente reativa. O dirigente destaca que o solo é a maior riqueza da região e que a sua preservação ambiental, aliada a uma correção técnica adequada, é o que permitirá adaptar as melhores sementes à realidade de cada microclima das ilhas. A eficiência nutricional destas plantas é o que, em última análise, valoriza o leite e a carne, criando um ciclo de produtividade que começa na raiz e termina na competitividade da exploração.
No que toca à radiografia do setor, Jorge Rita apresenta números que ilustram a magnitude da responsabilidade agrícola na economia regional. Os Açores contam atualmente com um universo de 10 a 12 mil agricultores, dos quais 2.400 são produtores de leite — um número que ganha especial relevo quando comparado com os 1.400 produtores leiteiros de todo o Portugal Continental. No entanto, este volume não apaga as dificuldades de um quotidiano que o dirigente descreve como sendo de uma “exigência brutal”. Além da asfixia burocrática e da escassez de mão de obra, os produtores enfrentam a volatilidade extrema dos preços de venda. Para Jorge Rita, a manutenção do rendimento reside na margem de eficiência: “tudo aquilo que nós semeamos, tudo aquilo que nós colhemos, é a forma que semeamos, é a forma que colhemos”, resume, enfatizando que ferramentas como sementes mais resilientes permitem ganhos que podem salvar a margem de lucro num mercado onde o preço do leite continua a ser o grande défice regional.
A renovação geracional e a proteção contra catástrofes naturais são outras frentes de batalha essenciais apontadas pelo presidente.
Um dos maiores entraves identificados é a ausência de seguros agrícolas transversais que cubram sementeiras e colheitas. Jorge Rita critica a dependência de ajudas públicas após intempéries, defendendo que o seguro agrícola é “indispensável para a confiança de todos”. Para o dirigente, a falha reside na articulação entre entidades públicas e seguradoras em entender a especificidade do setor, sendo urgente criar mecanismos que protejam o investimento contra furacões ou secas extremas.
Em suma, Jorge Rita reconhece que a transição para uma agricultura mais moderna e diversificada enfrenta a barreira de uma “sociedade muito conservadora”, tipicamente açoriana, onde as mudanças exigem um esforço contínuo de comunicação e formação. O dirigente nota que o setor da carne está a emergir com força e que as produções hortícolas devem continuar a crescer como alternativas viáveis ao monocultivo do leite. A visão do presidente da Associação Agrícola de São Miguel é de um otimismo cauteloso mas determinado: o futuro depende da capacidade de aliar a experiência acumulada de gerações ao conhecimento científico, garantindo que a excelência do produto açoriano se traduza em dignidade e lucro para quem garante a segurança alimentar da região todos os dias do ano.

A Diocese de Angra vive a Semana Santa de 2026 sob a proposta de transformação de D. Armando Esteves Domingues: a busca pela vitória do “Homem Novo”. Nas mensagens e celebrações que marcaram os últimos dias em São Miguel e na Terceira, o prelado tem insistido que a Páscoa não pode ser um conjunto de ritos isolados, mas sim uma “peregrinação espiritual” que resulte numa mudança concreta de vida, assente na oração e, sobretudo, na caridade ativa.
Este percurso culminou esta quinta-feira, 2 de abril, com a celebração da Missa da Ceia do Senhor na Sé de Angra, onde o Bispo uniu o simbolismo do altar ao “chão da vida”, lavando os pés a 12 homens em situação de sem-abrigo acompanhados pela associação Novo Rumo.
Na manhã da passada terça-feira, durante a Missa Crismal, o Bispo já havia deixado um aviso ao clero e aos fiéis sobre os perigos do “narcisismo” e da autorreferência. D. Armando alertou para a tentação de uma “pastoral de sobrevivência” ou de isolamento, exacerbada pelos desafios da insularidade e pela falta de meios. Em contrapartida, propôs uma “fidelidade que gera futuro”, baseada na fraternidade presbiteral e na consciência de que o ministério sacerdotal só faz sentido se estiver mergulhado no povo e atento às suas feridas. Para o prelado, a unção recebida pelos padres deve ser o “óleo da alegria” que toca rostos concretos: idosos sós, famílias em dificuldade, migrantes e vítimas de abusos.
A dimensão social tem sido, aliás, o fio condutor de todas as intervenções deste período pascal. A Renúncia Quaresmal deste ano, destinada às populações afetadas por calamidades via Cáritas e Diocese de Leiria, reforça o apelo à compaixão que o Bispo detalhou na Ceia do Senhor. Ao ajoelhar-se perante os mais pobres, D. Armando recordou que a Eucaristia exige uma “gramática de Cristo”: aproximar-se, tocar e servir sem julgar. “A Eucaristia sem caridade é vazia”, afirmou, sublinhando que ser cristão nos Açores hoje passa por ser “pão que se reparte”, garantindo que a esperança da Ressurreição chegue efetivamente a quem mais precisa de sentir a ternura do “Bom Pastor”.
Segue-se agora a Sexta-feira Santa, com a celebração da Paixão do Senhor, incluindo a Liturgia da Palavra, a Adoração da Cruz e a Comunhão, às 15h00.
A Vigília Pascal, considerada “a maior de todas as vigílias do ano”, integra a Liturgia da Luz, da Palavra, Batismal e Eucarística, a partir das 21h00.
As celebrações culminam no Domingo de Páscoa, com missa de Páscoa às 11 horas. Todas serão presididas pelo bispo D. Armando Esteves Domingues.

Clife Botelho
Diretor do Diário da Lagoa
Em dezembro de 2019, assumimos um compromisso: dar continuidade a este projeto até que o jornal alcançasse, pelo menos, uma década de existência. Hoje, olhamos para trás com o orgulho de quem não só cumpriu essa meta, como a superou. Consolidámos um espaço de referência na nossa comunidade, somando já 12 anos de história pautados pela defesa da Verdade e da Liberdade.
A minha jornada na liderança deste periódico intensificou-se em julho de 2021, quando assumi a direção editorial. Antes disso, já trabalhava arduamente como responsável pela editora proprietária, prestando apoio à nossa jornalista Sara Sousa Oliveira e a todos os que dedicam o seu tempo a acreditar, connosco, que é possível. Da Sara, recebi um projeto alimentado por uma esperança renovada e uma visão de futuro clara: as notícias que contam.
Desde o início, o nosso trabalho tem sido um verdadeiro laboratório de media. Decidimos inovar, arriscar e, acima de tudo, aprender com os desafios que o jornalismo de proximidade nos impõe. E aprendemos que o jornalismo só é pleno quando compreendemos que ele não é, nem pode ser, um negócio, pois na verdade é um serviço público que exige altruísmo e a entrega constante de quem o faz — um compromisso para com todos aqueles que nos leem, aqui nas ilhas ou na nossa diáspora.
É, assim, com o sentimento de dever cumprido que anuncio a minha saída das funções de diretor. Passo agora o testemunho à Sara, que assume a direção para voltar a liderar os destinos editoriais deste projeto. Natural de Santa Cruz, na Lagoa, a Sara conta com mais de uma década de experiência em órgãos de comunicação social nacionais, além de estar na estrutura do Diário da Lagoa há seis anos.
Como ela costuma referir, gosta “mais de ouvir do que de falar” e “as pessoas são sempre a melhor parte das histórias” que cruzam o seu caminho. “O entusiasmo de poder contar o que acontece” à sua volta é o que a move. Assim, o jornal volta a ter a sua liderança e uma abordagem diferente, mas que, na minha modesta e suspeita opinião, só tem a ganhar.
Quanto a mim, manter-me-ei na editora, mas noutras funções. Somos uma família que luta diariamente para “pôr o pão na mesa”, como tantas outras no mundo. As nossas origens são humildes e tudo o que conquistámos foi fruto do esforço e da educação que os nossos pais nos deram — valores que transmitimos hoje aos nossos dois filhos, por isso somos responsáveis por projetos de pessoas para pessoas, porque somos, na sua essência, uma família.
Nesta nova fase, a Sara assume a responsabilidade pelos projetos jornalísticos e eu ficarei focado na área de comunicação e marketing. Embora o jornalismo seja um serviço público, o marketing garante os recursos necessários para que a nossa redação permaneça livre e totalmente independente de pressões externas. Trata-se de assegurar a viabilidade para que o rigor informativo continue a ser a nossa única bússola.
O jornal continua em boas mãos, fiel às suas raízes e adaptado aos desafios dos novos tempos. Agradeço a confiança de todos os colaboradores, leitores e amigos que me acompanharam nesta direção. Seguimos juntos. Obrigado a todos!

Hélio Ponte nasceu em Vila Franca do Campo no ano de 1976, onde viveu até 2004, mas sem nunca perder a ligação à terra de origem. Atualmente vive na Ribeira Grande com a esposa e o filho. Toda a família e ascendentes são de Vila Franca do Campo.
Viveu uma infância normal, sem luxos, no berço de uma família humilde. Enquanto criança, passou muito tempo com os amigos, em particular no cais do Tagarete, mantendo sempre uma estreita ligação à igreja, inicialmente como acólito.
Filho de pai pescador e uma de família ligada ao mar, viu o pai mudar de vida quando passou a motorista marítimo, mas sem perder o ‘chão’ de água. A mãe, doméstica, tratava das lides da casa.
É o filho mais velho de três – irmão de Raquel e José Mário – e o seu percurso académico começou na então Escola Primária de Vila Franca do Campo (atualmente EB1/JI Prof. António dos Santos Botelho), Escola Preparatória de Vila Franca do Campo (agora designada de EB/S Armando Cortês-Rodrigues), Escola Secundária Antero de Quental e, mais tarde, Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (atualmente Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores).
Nesta entrevista, fala da fé, da romaria, do ser romeiro, do ser enfermeiro e de como a ciência e a fé se podem complementar na salvação de pessoas.

DL: Quando decidiu ser enfermeiro?
O meu ensino secundário, por vários fatores, não foi totalmente linear. Alguns sobressaltos, dúvidas talvez típicas da idade. Nunca fui um “aluno de excelência”, mas tinha consciência que sempre dei o meu melhor. Em 1997 fiz exames nacionais e iniciei o curso de enfermagem nesse mesmo ano, ainda como curso de bacharelato terminando em 2000, mas tivemos oportunidade de fazer de imediato o ano complementar de formação em enfermagem que terminou em 2001 dando-nos a equivalência a licenciatura. Nesta altura já enfermeiros formados há vários anos já estavam a regressar aos bancos da universidade para obterem a mesma equivalência. Foi uma mais-valia ter-nos sido dada essa oportunidade.
DL: Foi algo que já queria ou foi uma oportunidade de carreira/estabilidade?
Um misto de ambas. Talvez tenha descoberto essa apetência bem tarde ou, se calhar, até foi no momento certo, será sempre uma incógnita, mas não me arrependo de nada e tenho a certeza que faço-o com rigor e dedicação. Não gosto de falar do termo “vocação”, acho demasiado forte e não acho que se adeque por completo a esta profissão. É, acima de tudo, necessário o saber, saber estar e saber ser. Na altura era uma profissão com muita saída e colocação garantida. Também foi uma oportunidade de estabilidade de carreira e rapidamente (em menos de um ano) entrei para os quadros do HDES.
DL: Sempre trabalhou na mesma área ou tem vindo a mudar de área?
Desde que comecei a exercer atividade profissional foi sempre nesta área e na mesma instituição, o HDES.

DL: Ser romeiro foi uma decisão repentina ou já tinha outros familiares romeiros na família que o foram “puxando” para a romaria?
A pergunta foi muito bem colocada: desde quando és romeiro e não desde quando vais de romeiro. São duas perspetivas completamente diferentes porque a romaria é uma vivência para a vida e não só aqueles oito dias. Acaba por ser uma conduta e não um mero rito anual de penitência. Até podemos questionar o porquê deste penitenciar nos dias de hoje, mas não é uma procura de sacrifício desmedido porque, acima de tudo, quer-se misericórdia e não sacrifícios. Acaba também por ser um “peso” e responsabilidade porque somos logo apontados ao mínimo deslize no dia a dia. Não participamos numa romaria por sermos “santos e exemplo” (nunca haveria romarias assim), vamos na mesma por termos um propósito e um chamamento. Obviamente que há, infelizmente, quem se desvie do que é fazer e estar numa romaria.
Nunca tive familiares próximos que fossem romeiros na altura em que comecei. Fiz a minha primeira romaria em 2006 e desde então nunca mais deixei a mesma. Só me arrependo de não ter começado mais cedo. No entanto, tal não foi possível por múltiplos fatores, especialmente os estudos. Vila Franca do Campo só retomou as romarias no ano de 2000 depois de um grande interregno desde 1979 e, em boa hora, voltaram nas pessoas dos irmãos Carlos Saêta, José Pimentel e Hermínio Sousa, ficando depois entregue ao nosso atual mestre, irmão Carlos Vieira, e melhor entregue não poderia ficar.
Sempre gostei de ver os ranchos de romeiros, sempre tive a minha ligação à igreja e aos seus movimentos, como acólito, escuteiro e no Grupo de Jovens Vicentinos, mas nunca surgira oportunidade de o concretizar. Depois de ler o livro “Diário de uma Romaria”, de 2005, do irmão mestre Carlos Vieira, foi o incentivo que faltava. Não me sentia necessariamente afastado da igreja nessa altura, mas faltava algo e a romaria foi o que faltava.
Lembro-me perfeitamente da minha primeira romaria. A minha primeira pernoita de sempre na Fajã de Cima foi mesmo um testar das forças e de força de vontade, não pela família que nos recebeu que foi de um carinho formidável, mas por outros fatores desde água fria e eu, por respeito e ainda acanhado e novato, tive vergonha de dizer, desde barulho de vizinhos…dormi pouco ou mesmo nada. Na madrugada seguinte, no Alto da Mãe de Deus, em Ponta Delgada, só me apetecia vomitar. Não estava fisicamente bem e questionei mesmo o que eu fazia ali. Foi o primeiro e único momento desde que sou romeiro que essa “tentação” de sair da romaria me passou pela cabeça. Não estava mesmo bem. Mas os irmãos mais experientes foram sempre me incentivando. A refeição na paragem na Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição foi o volte-face. Desde então que não consigo imaginar um ano sem ter essa semana de isolamento e introspeção. Sei bem ao que me vou sujeitar, ao desconforto, à dor, a poucas horas de sono, a dias que podem ser mesmo violentos. Sim, dependendo de várias circunstâncias, uma romaria pode mesmo ser violenta física e psicologicamente. Os três anos de interregno devido à pandemia não foram fáceis de lidar.
DL: Sendo um homem da medicina, onde por vezes se operam verdadeiros milagres que salvam pessoas, até onde vai a medicina e onde começa a fé/devoção das pessoas?
Numa das reuniões de preparação da romaria falamos precisamente disso, do equilíbrio entre a fé e a ciência. Faz-se a comparação com as duas asas de uma ave. A mesma só voa em segurança se as duas asas estiverem bem. Uma asa é a razão (a ciência) e a outra é a fé (Deus). É perfeitamente possível esse equilíbrio desde que vejamos esse equilíbrio na base da complementaridade e não do conflito. São duas formas complementares de se buscar a verdade. O próprio Einstein via a ciência e a racionalidade do universo como evidência no limite de algo superior, de uma inteligência criadora. Várias pessoas ligadas à igreja foram também cientistas como Georges Lemaître, sacerdote, que desenvolveu a teoria do Big Bang, do átomo primordial. A ciência explica como aconteceu e a fé o porquê de acontecer. A ciência não tem de anular a fé, nem vice-versa. Na nossa civilização ocidental, se é que é permitido usar esta expressão sem que me atirem sete pedras, a criação de universidades cristãs são o exemplo de como a fé cristã pode fomentar o conhecimento e desenvolvimento científico. A meditação também é vista como ciência da mente.
Entendo que consegui uma formação catequética e católica lúcida no sentido de entender que há espaço para a fé e a ciência conviverem e complementarem-se uma à outra. Efetivamente, já fui questionado nesse sentido, não necessariamente apenas relacionado com a profissão que exerço, mas porque há uma correlação muitas vezes errada com o grau de ensino e a crença numa religião, credo ou fé. Uma não invalida a outra, mas é certo que me baseio no dia-a-dia na evidência científica no exercício da minha profissão.

DL: Já teve algum paciente que pensou que poderia não sobreviver e, sem que nada aparente o pudesse justificar, recuperou-se?
Sim, várias vezes. Cada pessoa tem mecanismos fisiológicos ou condicionantes provocados por doença que originam diferentes formas de adaptação à alteração do seu estado normal de saúde como situações de traumatismo grave, por exemplo, em especial das células nervosas. Neste preciso momento em que partilhamos estas ideias acredito que está a acontecer uma situação destas num caso extremamente delicado e instável.
Mas voltando ao tal equilíbrio necessário entre a fé e a ciência, a primeira também pode influenciar decisões relacionadas com o prolongamento de medidas de suporte artificial de vida ou até mesmo interrupção da mesma em casos extremos. Há sempre a questão de tratamentos ou prolongamento dos mesmo que se transformam em autêntica distanásia. A dignidade até no morrer está acima de tudo, e um morrer sem dor acima de tudo. É lícito usarmos a fé para manter medidas desproporcionadas ao doente que até podem atentar à dignidade humana? É o tal equilíbrio que é necessário.

DL: A fé salva pessoas?
Sendo católico não posso excluir isso, mas como disse anteriormente, no dia-a-dia, baseio-me na evidência científica no exercício da minha profissão. A fé, numa vertente catequética também é falada nas nossas reuniões de preparação. É o acreditar sem ver. É um dom gratuito da graça de Deus e não o resultado de obras humanas, a tal dicotomia entre a ciência como evidência e a “falta” da evidência que é a fé, o acreditar sem ver. Mas a fé também pode ser intelectual, não tem necessariamente de estar ligada a uma crença ou religião, mas também a uma filosofia de vida, por exemplo. A mesma promove a ligação a algo maior que não se vê, o tal acreditar sem ver. Pode trazer paz e conforto em momentos difíceis, de forma alguma está descartado que a fé não desempenhe o seu papel na recuperação de uma doença, nem que seja no conforto e esperança.
Este é um facto real. Um Cavaleiro da Ordem de Santiago de Compostela, residente em Ponta Delgada, em 2013 confiou fervorosamente a oração ao nosso rancho por um bisneto que tinha nascido com várias complicações. Os médicos tinham muitas reservas sobre a sobrevivência do mesmo. Na romaria de 2014 esta intenção foi rezada fervorosamente, assim como todas as outras, e a verdade é que o menino é hoje uma criança saudável. O seu bisavô testemunhou esta vivência à Ordem. A mesma atribuiu a Medalha de Ouro da Ordem ao Rancho de Vila Franca do Campo. Terá sido só a medicina? A oração e a fé? Ambas juntas? Dá que pensar estas e muitas outras situações. Como já foi dito numa romaria “busca-se também aqui o que a Ciência não resolve!”
Outra situação que também dá que pensar. Na igreja da Senhora do Rosário na Povoação há uma imagem invocada como Senhora do Ó ou Senhora do Parto. Invocada para que a futura mãe tenha uma “hora pequenina” (parto sem dificuldade) ou por quem não consegue engravidar. Duas situações ocorreram em que após anos a tentar engravidar, mesmo com o auxílio de medicação tal não aconteceu e após o pedido de oração do nosso rancho à mesma imagem no ano seguinte estava-se a agradecer a concretização do pedido de oração. Inclusivamente este ano uma das mães levou a sua menina à igreja acompanhando-nos na oração.

A Câmara da Lagoa deu início à programação do mês de abril com a colocação de uma instalação literária na zona da Galera, na Caloura, em Água de Pau. A estrutura evoca um excerto da obra de Fernando Aires (1928-2010), autor que utilizou recorrentemente este cenário nas suas prosas diarísticas. Segundo a nota de imprensa enviada pelo município, o projeto pretende colocar o texto em diálogo com o território, permitindo ao observador confrontar a escrita do autor com o espaço físico que a inspirou.
Le design da peça é da autoria de Pedro Martins, que concebeu a instalação como uma moldura sobre o horizonte. Segundo o autor do projeto, a peça funciona como um ponto de observação que convida a uma reinterpretação do espaço, utilizando cores que procuram harmonizar-se com os elementos naturais envolventes, como o mar e a luz solar. A vereadora com o pelouro da Educação e Cultura, Albertina Oliveira, afirmou que a iniciativa procura a valorização conjunta do património natural e cultural, destacando a ligação histórica do escritor àquela zona do concelho da Lagoa.
O projeto teve origem numa proposta de Onésimo Teotónio de Almeida e a sua concretização será complementada, em data posterior, com uma sessão de caráter pedagógico. Este encontro contará com a participação do proponente e de Maria João Ruivo, filha de Fernando Aires, com o objetivo de abordar o enquadramento biográfico e literário do escritor. A instalação integra-se na estratégia municipal de promoção da leitura e de sinalização de figuras relevantes do panorama cultural açoriano através da geografia do concelho.