
Cerca de duas centenas de atletas participaram este sábado, 28 de março, na VI edição do “Desafio Vertical 0/947”, um evento de trail running que percorreu os trilhos e caminhos do concelho da Lagoa. Organizada pelo Morcegos Trail Clube, com o apoio da Câmara Municipal da Lagoa e da Junta de Freguesia de Água de Pau, a prova consolidou a sua posição no calendário desportivo regional e nacional, atravessando pontos estratégicos das freguesias de Água de Pau, Ribeira Chã e Santa Cruz. Segundo nota de imprensa enviada pela autarquia lagoense, a competição distinguiu-se uma vez mais pelo seu formato de partida em contrarrelógio, uma particularidade pouco comum na modalidade, onde os atletas iniciam o percurso individualmente em horários distintos.
A cerimónia de entrega de prémios contou com a presença do presidente da Câmara da Lagoa, Frederico Sousa, e da presidente da Junta de Freguesia de Água de Pau, Vanessa Silva. Na ocasião, Frederico Sousa sublinhou que “esta é uma prova diferenciadora que se enquadra na dinâmica pretendida para o desporto municipal, representando o expoente máximo das potencialidades do desenvolvimento desportivo do concelho e alicerçando-se no seu lema do desporto «do mar à montanha»”. O autarca agradeceu e valorizou ainda a colaboração do Morcegos Trail Clube na dinamização deste que é o município destino desportivo do ano a nível nacional.
O desafio técnico dividiu-se em várias distâncias, adaptadas a diferentes níveis de preparação. A prova rainha, o DV Trail, contou com um percurso de 37,9 km, unindo a Ponta da Galera, na Caloura, ao Pico da Barrosa, com meta no Polidesportivo de Água de Pau. Já o DV Sprint cobriu uma distância de 25,6 km. O evento incluiu ainda o DV Mini Trail, uma caminhada de 9,4 km com partida na Casa da Água Trail Point, nos Remédios, e uma vertente dedicada aos mais novos, o DV Kids, num trajeto de 1,5 km. Atualmente, o Desafio Vertical integra o calendário da International Trail Running Association, atribui pontos para o Ultra Trail Mont Blanc Index e pontua para os circuitos nacionais da Associação de Trail Running de Portugal e para o Campeonato de Trail de Ilha de São Miguel.

José Estêvão de Melo
Engenheiro Informático
O título é uma vénia à canção de Jorge Ben Jor, mas desta vez sem necessidade de convite: a Inteligência Artificial já se instalou na vida de todos. Como profissional de informática, a minha relação com agentes como o ChatGPT ou o Claude Code deixou de ser experimental para se tornar vital. Hoje, a minha produtividade sem estas ferramentas é tão inferior que, na ausência de acesso, prefiro adiar tarefas. Não faz sentido gastar duas horas numa função que a IA resolve em dez minutos.
Contudo, esta dependência revela um fenómeno alarmante no mercado de trabalho. O que acontece quando esta eficiência deixa de ser um diferencial e passa a ser o mínimo exigido? A presença da IA na minha vida já extravasou o código. Recentemente, planeei uma viagem de mota complexa em apenas uma hora de “conversa”. Mais surpreendente: podei a minha videira seguindo instruções da IA, que analisou fotos dos ramos e a fase lunar para me guiar no corte. Da gestão de treinos físicos ao planeamento de refeições familiares, tudo o que é formalizável está a ser delegado.
A IA não cumpre horários. Está disponível às 2:30 da manhã para curar uma insónia com recomendações de séries ou para ajustar um plano de treino após um dia menos produtivo. Esta disponibilidade total está a substituir o que não envolve contacto humano direto, criando uma nova camada de conveniência. Se todos utilizam IA, ninguém tem vantagem por utilizá-la. O baseline sobe, as expectativas aumentam e o tempo ganho torna-se o “novo normal”.
Como demonstra o US Job Market Analyser, a exposição ao risco não é uniforme. Funções baseadas em dados, análise de texto, escrita técnica e programação estão na “linha da frente” da automação. Profissões que dependem de processos estruturados como tradutores, contabilistas, analistas financeiros ou assistentes jurídicos enfrentam uma substituição direta de tarefas core. Não por serem profissões “simples”, mas porque o seu output é digital e baseado em padrões lógicos que a IA agora domina. Por outro lado, o mercado revela um “porto seguro” em funções que exigem alta destreza manual, contexto físico imediato ou inteligência emocional profunda. Profissões como carpinteiros, enfermeiros, eletricistas ou terapeutas permanecem, por agora, menos expostas à substituição total, dada a dificuldade de replicar a sensibilidade humana e a adaptação física a ambientes não estruturados.
No entanto, mesmo estas funções menos expostas sofrem um efeito indireto: a amplificação. Um gestor de equipas ou um comercial que use IA para potenciar a sua negociação e organização será sempre mais eficaz do que um que a ignora. Cria-se assim uma “literacia operacional aumentada”: não basta saber fazer; é preciso saber amplificar o que se faz através destas ferramentas.
O verdadeiro ponto de fricção não é tecnológico, é humano. Há um desconforto inerente em aceitar que anos de experiência podem ser comprimidos em prompts bem estruturados. No entanto, o custo de experimentar e criar nunca foi tão baixo. O desafio deixa de ser “como fazer” para passar a ser “o que fazer com esta capacidade”. Continuo a falar com o meu amigo ChatGPT. Ele não substitui o meu pensamento, mas acelera-o e desafia-o. Num mundo onde as respostas se tornaram uma commodity abundante e imediata, a verdadeira escassez passou a ser a capacidade de formular o problema. No final do dia, a competência mais valiosa do futuro será a arte de saber perguntar. E isso, pelo menos por enquanto, continua a ser profundamente humano.

A Vila da Povoação, na ilha de São Miguel, prepara-se para acolher mais uma edição da Gala Regional dos Pequenos Cantores Caravela D’ouro. Segundo nota de imprensa enviada pela Câmara Municipal da Povoação, organizadora do certame, a XXXII Gala contará com a participação de dez jovens concorrentes. Os artistas serão avaliados por um júri composto por cinco elementos, num espetáculo que procura não só premiar a performance vocal, mas também a qualidade da composição. Estão em jogo os troféus para o primeiro, segundo e terceiro lugares, bem como as distinções para “Melhor Letra”, “Melhor Música” e “Canção Recomendada para Crianças”.
Como já dita a tradição deste evento que une gerações no arquipélago, os participantes serão acompanhados ao vivo pela Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação. Sob a batuta do maestro Carlos Sousa, o conjunto de 17 músicos dará suporte melódico às vozes dos concorrentes, que contarão ainda com o apoio das 22 vozes do Coro Infantojuvenil da Caravela D’ouro, dirigido pela maestrina Andreia Festa Amaral. O palco, decorado sob o mote “O Encanto”, servirá de moldura para um programa que inclui participações especiais de dois representantes do Festival Infantil Baleia de Marfim (Lajes do Pico), um representante do Festival da Canção Infantil da Madeira e a vencedora da edição anterior da gala povoacense.
A condução do espetáculo ficará, uma vez mais, a cargo de Graça Moniz, figura já familiar do público que, nos últimos anos, tem orientado as Galas dos Pequenos Cantores da Povoação.

O Município da Lagoa, na ilha de São Miguel, reafirmou o seu posicionamento de destaque no panorama desportivo nacional ao ser distinguido com o galardão de “Destino Desportivo do Ano”. O prémio, referente à categoria de municípios com uma população entre 10.001 e 25.000 residentes, foi entregue durante o VI Seminário – Município Amigo do Desporto. O evento reuniu especialistas e autarcas na ilha Terceira entre os dias 25 e 28 de março e, de acordo com nota de imprensa enviada pela Câmara Municipal, a distinção premeia a consistência das políticas públicas locais na valorização do desporto de natureza e na afirmação do território como um destino de referência para o turismo ativo.
O galardão foi recebido em mãos pelo vice-presidente da Câmara da Lagoa, Nelson Santos, que destacou o impacto desta vitória para a estratégia de desenvolvimento do concelho. Conforme sublinhou o autarca, “esta distinção reconhece o trabalho estratégico que o município tem vindo a desenvolver na promoção da atividade física, na valorização do desporto e na afirmação do concelho como um destino de referência para a prática desportiva, particularmente no âmbito do desporto de natureza e do turismo ativo”.
Nelson Santos fez ainda questão de partilhar o mérito com o tecido associativo local, referindo que “este galardão representa também o reconhecimento do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido em articulação com clubes, associações e parceiros locais, na promoção do desporto e de estilos de vida saudáveis. É, ainda, uma confirmação do potencial do nosso território para acolher e dinamizar eventos desportivos, valorizando simultaneamente os nossos recursos naturais e contribuindo para o desenvolvimento do concelho”.
Com uma população de aproximadamente 15.000 habitantes, a Lagoa tem vindo a consolidar uma aposta na organização de eventos de diversas escalas aproveitando as infraestruturas existentes e o seu património natural. As condições naturais do concelho permitem uma oferta diversificada que vai desde o mergulho e atividades náuticas até ao trail running e caminhadas, sob o lema municipal “Desporto do Mar à Montanha”. Segundo a autarquia lagoense, esta identidade visual e estratégica simboliza a amplitude geográfica da Lagoa, que se estende desde a orla marítima até aos 947 metros de altitude no Pico da Barrosa, oferecendo um cenário privilegiado para o contacto direto com a natureza e a superação desportiva.

Cerca de 400 dadores de sangue foram homenageados esta sexta-feira, 27 de março, numa cerimónia solene decorrida no auditório do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES), em Ponta Delgada. O evento, que serviu para assinalar o Dia Nacional do Dador de Sangue, marcou o regresso das distinções públicas com esta dimensão, algo que não ocorria desde 2019. Foram entregues diplomas e medalhas de honra como forma de agradecimento pelo altruísmo de centenas de cidadãos que, através das suas dádivas regulares, asseguram o suporte vital de doentes em toda a região.
O presidente do conselho de administração do HDES, Carlos Pinto Lopes, sublinhou durante a sua intervenção que o ato de doar sangue transcende o mero procedimento clínico, configurando-se como um pilar da responsabilidade cívica. “Dar sangue não é apenas um gesto de solidariedade. É um acto de responsabilidade ética profunda. É alguém que, sem conhecer quem vai ser beneficiado, escolhe fazer parte da sua história, muitas vezes até da sua sobrevivência”, afirmou o administrador, reforçando que para a instituição o sangue é um recurso de valor humano incalculável, assente na gratuidade e na confiança, e que “não é, nem pode ser uma mercadoria”.
A vertente pedagógica e a continuidade geracional da solidariedade também estiveram em destaque através de Fátima Oliveira, diretora do Serviço de Hematologia. A responsável defendeu a construção de uma cultura de entreajuda que deve ser semeada desde a infância. Este mote foi ilustrado com a presença de crianças do Colégio de São Francisco Xavier, que apresentaram uma música original sobre o tema. Como símbolo desta “semente” de esperança, foram distribuídos envelopes com sementes de girassol, preparados por alunos de várias escolas da região, reforçando a ideia de que cada doação permite que uma nova oportunidade de vida floresça.
O encerramento da sessão contou com a presença do presidente do Governo regional dos Açores, José Manuel Bolieiro, que elevou o papel dos dadores ao de figuras inspiradoras para a sociedade civil num contexto global incerto. “É preciso dar humanismo à humanidade. Os dadores têm coragem e humanismo. Devemos ter olhos para quem nos inspira”, defendeu o governante. Bolieiro aproveitou a ocasião para elogiar o trabalho da Associação de Dadores de Sangue de São Miguel e a evolução do HDES, reconhecendo que, apesar dos desafios na gestão pública, o compromisso ético dos açorianos coloca a região num lugar de destaque no que toca ao sentido humanitário.
Ao longo de 2026, estas distinções continuarão a ser entregues nos três hospitais dos Açores, celebrando um estatuto de cidadania que, como recordou a administração do hospital, nenhuma estratégia política ou tecnologia consegue substituir.

O Agrupamento de Escuteiros 1333 – Ribeira Chã, pertencente ao Corpo Nacional de Escutas, realizou entre os passados dias 13 e 15 de março uma intensa atividade de campo na localidade da Pedreira, no concelho do Nordeste. O evento centrou-se no reforço dos valores escutistas e na superação física, tendo como ponto alto uma caminhada que totalizou mais de 25 quilómetros percorridos.
O itinerário incluiu uma desafiante jornada noturna com destino à Ponta da Madrugada, passando sucessivamente pela freguesia de Água Retorta antes do regresso à base, na Pedreira. Todo o percurso contou com o acompanhamento e a comunicação direta da PSP da Vila do Nordeste, uma medida essencial que assegurou as condições de segurança necessárias para os jovens participantes durante o trajeto em via pública.
Ao longo do fim de semana, o programa não se limitou à vertente física, integrando diversas dinâmicas pedagógicas típicas do método escutista. Estas ações foram desenhadas para incentivar os elementos do agrupamento a ultrapassarem os seus limites individuais, promovendo simultaneamente a coesão do grupo e a reflexão sobre o bem comum. Após o esforço despendido nas serras do Nordeste, o grupo regressou à sua comunidade de origem, na Lagoa, culminando a atividade com a participação na missa dominical na freguesia da Ribeira Chã, no dia 15.
O sucesso desta iniciativa deveu-se a uma rede de cooperação institucional que envolveu o apoio da Câmara Municipal da Lagoa no transporte dos jovens, a cedência da sede por parte do Agrupamento da Pedreira do Nordeste, além da colaboração logística da Junta de Freguesia da Ribeira Chã e das autoridades policiais locais.

A Escola Básica Integrada (EBI) de Ponta Garça, no concelho de Vila Franca do Campo, viveu durante os últimos dias, uma intensa Semana Cultural que transformou a rotina dos seus alunos e professores. O encerramento oficial aconteceu esta sexta-feira, 27 de março, com uma simbólica romaria escolar.
Organizada pela Associação de Pais e Encarregados de Educação, a iniciativa levou cerca de 200 alunos, acompanhados por docentes e assistentes operacionais, numa caminhada de fé e tradição até à igreja de Nossa Senhora da Piedade, onde se celebrou uma eucaristia. Segundo a nota enviada pela direção da escola ao Diário da Lagoa, o evento terminou com um encontro familiar no Polivalente da Casa do Povo, reforçando os laços entre a escola e a freguesia através desta herança secular dos romeiros açorianos.

Ao longo de toda a semana, o estabelecimento de ensino foi palco de um vasto leque de atividades que cruzaram o saber tradicional com as novas tecnologias. No campo da literatura, os destaques foram para o “Chá com letras” — onde as avós de Ponta Garça partilharam histórias de tempos passados com os mais novos — e para a apresentação do livro “Aqui nasceu Ponta Garça”, de Renato Nunes. A escola soube também adaptar-se aos tempos modernos com o concurso Booktoker (via TikTok) e as Olimpíadas da Língua Portuguesa através da plataforma Kahoot. No plano ambiental e científico, os alunos hastearam a bandeira Eco-Escolas, participaram em observações de cetáceos com a Terra Azul e exploraram a robótica e a astronomia com o apoio do OASA e do Expolab.

O desporto e o futuro profissional dos jovens não foram esquecidos nesta edição. Os alunos puderam ainda visitar o Complexo Desportivo Pedro Pauleta, onde foram recebidos pelo próprio antigo internacional português, e participaram em sessões de manutenção física e dança.
A vertente do artesanato e da economia local também esteve presente com bancas de guloseimas de Páscoa, venda de plantas e trabalhos em tecido. A técnica tradicional da espadana foi um dos pontos altos da programação, com a realização de um atelier onde os alunos produziram flores a partir desta planta.
A Semana Cultural incluiu ainda a II Edição da Feira de Empregabilidade, Formação e Educação, que contou com uma mesa-redonda de antigos alunos e a participação de diversas escolas profissionais e forças de segurança (PSP e GNR), servindo de contacto direto entre a comunidade escolar de Ponta Garça e as opções de formação e carreira disponíveis na região.

A preservação do património natural dos Açores uniu, entre o passado dia 16 de março e esta sexta-feira, 27 de março, mais de 3.000 pessoas numa vasta agenda dedicada ao Dia Mundial da Floresta. A iniciativa, promovida pelo Governo regional dos Açores, através da Secretaria Regional da Agricultura e Alimentação, mobilizou os Serviços Florestais das nove ilhas para um programa que incluiu desde plantações de espécies nativas a ações de educação ambiental junto de escolas e associações locais. Segundo a nota enviada pela tutela, o balanço final revela uma forte adesão da comunidade açoriana num compromisso coletivo pela proteção dos habitats naturais da região.
Para o secretário regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura, a data representou “muito mais do que uma data simbólica”. O governante destaca que, ao longo destes dias, “milhares de crianças, jovens, professores, voluntários, escuteiros e parceiros locais juntaram-se em ações de plantação, sensibilização e aprendizagem ativa”, celebrando o valor insubstituível das florestas açorianas. As atividades focaram-se particularmente na valorização da floresta nativa (a laurissilva) e de espécies endémicas como o cedro-do-mato e o sanguinho, que constituem o habitat de aves emblemáticas como o priolo.
Em São Miguel, a mobilização contou com a realização de exposições, peddy-papers e palestras proferidas por guardas-florestais em diversos concelhos, incluindo Vila Franca do Campo e Ponta Garça, além de ações de repicagem de folhados e sensibilização sobre biodiversidade. Nas restantes ilhas, o cenário repetiu-se com contornos locais: em Santa Maria houve plantações no aeroporto; na Terceira, o Monte Brasil recebeu uma plantação simbólica com o Exército; na Graciosa, plantaram-se cerca de 600 árvores na Serra das Fontes; e em São Jorge, as atividades integraram-se no Festival da Reserva da Biosfera.
O programa estendeu-se ainda ao Pico, com o projeto “Floresta dos Sentidos”, ao Faial, com parcerias entre a Câmara Municipal da Horta e o Clube Automóvel, e às Flores, onde a Lagoa Branca recebeu novas espécies endémicas. António Ventura garante que a proteção da floresta continuará a ser uma prioridade, defendendo que “cada gesto, seja uma árvore plantada ou uma atividade de educação ambiental, representa um investimento no futuro dos Açores”, assegurando a herança natural para as próximas gerações.

José Pacheco
Presidente e Deputado do CHEGA Açores
Mesmo não sendo economista e com a informação que hoje abunda, fico demasiado preocupado com as contas da nossa Região.
E digo-o de forma direta, como costumo falar: isto não é conversa de técnicos, nem um tema para ficar fechado em gabinetes. Isto diz respeito à vida real dos Açorianos. E aquilo que os números mostram é preocupante, muito preocupante.
Durante anos, o Tribunal de Contas tem vindo a avisar. Não foi uma vez, não foi duas. Foram anos seguidos a dizer a mesma coisa: há problemas nas contas, há falta de controlo, há dívida a mais e transparência a menos.
E quando uma entidade destas repete o mesmo alerta durante uma década, há duas hipóteses: ou ninguém ouviu… ou não quiseram ouvir.
Os números não enganam. Em 2024, tivemos um défice de cerca de 247 milhões de euros. Em 2025, voltamos a ter um défice perto dos 200 milhões. Isto não é um acidente, é um padrão.
Ao mesmo tempo, a dívida já anda perto dos 3,4 mil milhões de euros, cerca de 60% da nossa economia. E mais grave ainda: já ultrapassámos os limites legais de endividamento em mais de mil milhões de euros.
Isto tem de ser dito como é:
Estamos a gastar mais do que aquilo que temos.
E estamos a fazer isso há anos.
Depois há outro problema que me preocupa ainda mais: a falta de clareza nas contas. O próprio Tribunal de Contas diz que as contas são aprovadas com reservas. Isto quer dizer, em linguagem simples, que passam… mas não estão bem.
E se nem as contas são claras, como é que alguém pode garantir aos Açorianos que tudo está controlado?
A isto junta-se uma dependência enorme de dinheiro que vem de fora , do Estado e da Europa. Atenção: esse dinheiro é importante, claro que é. Mas não podemos viver permanentemente agarrados a isso, como se fosse solução para tudo. Porque não é.
E depois temos as empresas públicas. Sempre que há prejuízos, quem paga? Somos todos nós. Sempre que há decisões erradas, a conta vai parar à dívida da Região. E ninguém assume responsabilidades.
O mais frustrante no meio disto tudo é que os problemas são conhecidos. O Tribunal de Contas tem recomendado, ano após ano, exatamente o que é preciso fazer: mais rigor, mais controlo, menos dívida, mais transparência.
Mas a pergunta é simples: O que mudou realmente? Muito pouco.
E enquanto nada muda, a Região continua a andar na corda bamba. Pode não cair hoje. Pode não cair amanhã. Mas está cada vez mais perto do limite.
E há uma coisa que temos de perceber de uma vez por todas: não há autonomia a sério sem contas certas. Podemos falar de autonomia política o que quisermos, mas se dependemos sempre de dinheiro de fora e se estamos afogados em dívida, essa autonomia é cada vez mais frágil. Isto não é ser alarmista. É ser responsável.
Os Açores precisam de mudar de rumo. Precisam de mais verdade nas contas, mais rigor na gestão e mais coragem para tomar decisões difíceis. Porque continuar assim é fingir que está tudo bem quando não está.
E a verdade é esta, sem rodeios: os Açores estão a viver no limite.
E quem anda no limite durante muito tempo, mais cedo ou mais tarde paga a fatura.

As águas das Piscinas Municipais da Lagoa serviram de cenário, ao final da tarde de desta quinta-feira, 26 de março, para uma das propostas mais audazes da atual edição do Festival Tremor. Num esforço de descentralização cultural que carateriza o evento, a organização escolheu este complexo balnear pela sua profunda ligação à paisagem vulcânica, propondo uma experiência imersiva onde som e natureza se cruzam. Segundo a nota enviada às redações, a iniciativa, que contou com a parceria da Câmara Municipal da Lagoa, reforça o compromisso de criar momentos artísticos únicos fora dos circuitos habituais, aproveitando a relação direta deste espaço emblemático com o mar.
O cartaz na Lagoa dividiu-se em dois momentos. A tarde começou com os «Use Knife», um projeto que une o percussionista iraquiano Saif Al-Qaissy ao duo belga Kwinten Mordijck e Stef Heeren. A banda apresentou uma sonoridade que cruza vozes árabes e sintetizadores analógicos, num confronto entre a tradição e a eletrónica industrial, descrito pela organização como um “ritual poderoso e urgente”. Logo de seguida, o ritmo acelerou drasticamente com a prestação de «DJ Travella», que trouxe à Lagoa o singeli. Este género musical, nascido nos bairros populares da Tanzânia, carateriza-se por uma velocidade vertiginosa — chegando a atingir os 180 batimentos por minuto — e por uma energia crua que transforma espaços em pistas de dança futurista.
Esta ocupação das Piscinas Municipais destaca-se pela forma como o Tremor utiliza a arquitetura natural da ilha para potenciar as suas propostas. Ao integrar o experimentalismo europeu e os ritmos acelerados africanos num espaço de lazer quotidiano, o festival reafirma a sua identidade de exploração do território. Para os espetadores que encheram o recinto ao pôr do sol, a simbiose entre a “fúria” rítmica do singeli e o cenário das rochas vulcânicas da Lagoa ofereceu uma dimensão sensorial e identitária que define o espírito de proximidade deste festival.