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Empresa de transporte de crianças denuncia pagamentos em atraso

Várias escolas de São Miguel estão em falta com o pagamento que está a colocar em causa o transporte de pelo menos 17 alunos de educação especial

Empresa “Os Bambinos” transporta crianças de vários pontos da ilha em época escolar © DL

A empresa de transporte de crianças “Os Bambinos” queixa-se que tem pagamentos em atraso por parte várias escolas da ilha de São Miguel.

“As escolas não pagam desde setembro, nomeadamente a Escola das Laranjeiras e a Escola Secundária Antero de Quental e nós estamos a sustentar esta situação, não pode ser, é insustentável para nós que somos microempresas” diz Sónia Câmara, proprietária da referida empresa.

“Estamos a falar de 17 alunos de educação especial. As outras escolas só pagaram o mês de setembro e já estamos em dezembro. É uma situação complicadíssima que piora de ano para ano. Não podemos estar a pagar para trabalhar”, lamenta a proprietária de “Os Bambinos”.

Sónia Câmara diz que são muitos os encargos que tem para assegurar. “Se eu quero ter funcionários, tenho que pagar. E se o governo quer que eu transporte as crianças eu tenho que receber, isso é tão óbvio. Estou a pedir que me paguem pelo menos o mês de setembro e outubro”.

“A Escola Canto da Maia e a Secundária da Lagoa já pagaram o mês de setembro, o que é muito pouco. É aflitivo. As empresas de transporte de crianças estão numa situação bastante aflitiva. Hoje já não transportei as crianças da Escola das Laranjeiras, o que lamento muito, custa muito, eles têm de ir para a escola, mas é insustentável, não consigo”.

Contactada pelo Diário da Lagoa, a secretaria regional da Educação esclarece que “toda a faturação registada até setembro de 2025, inclusive, no âmbito da Ação Social Escolar, onde se incluem os transportes escolares, já foi processada e paga pelos fundos escolares aos fornecedores. Excetuam-se duas escolas, a ES das Laranjeiras e a ES Antero de Quental, devido a um registo incorreto da faturação efetuado pelas próprias escolas.”

A mesma secretaria diz ainda que se encontram “neste momento, em processamento as transferências relativamente ao pagamento da faturação do mês de outubro, esperando-se o seu pagamento brevemente”. 

Presépio das Furnas comemora 50 anos de vida

© DIREITOS RESERVADOS

A comemorar meio século de vida, um dos mais singulares presépios do arquipélago foi inaugurado no dia 7 de dezembro com as atuações do Grupo Folclórico das Camélias e da Sociedade Harmónica Furnense.

O presépio das Furnas conta com muitas lâmpadas, led’s e centenas de figuras com algumas modificações e inovações, indica a nota de imprensa da autarquia. A organização é da Câmara Municipal da Povoação, que conta com a parceria da Junta de Freguesia de Furnas.

Durante a quadra natalícia estará prevista animação aos fins de semana na zona das Caldeiras a partir das 20h30. Assim sendo, no dia 13 de dezembro atuará Marisa e Renato e no dia 27, David Rita.

A própria paisagem geotérmica com fumarolas, depósitos minerais, água a borbulhar e o cheiro característico do enxofre criam um ambiente único, valorizado por este cartaz turístico, desta altura festiva, que todos os anos atrai milhares de visitantes à apelidada “Sala de Visitas dos Açores”.

O Presépio das Caldeiras da Furnas surgiu em 1975, pelas mãos de um grupo de jovens, intitulado Juventude Democrática Furnense (JDF) que tinha dotes para as artes da pintura e da música. Deste grupo fundador fizeram parte nomes como Gualberto Nicolau, Luís Humberto Carreiro, Paulo Fernando Melo, José Manuel Pereira Costa, António Cabral da Costa, José da Costa Casado Júnior e José Francisco Almeida. Inicialmente o grupo levou a cabo o projeto com fundos próprios. Depois contou com o apoio da antiga Casa da Cultura. Uns anos mais tarde passou a ter a colaboração da Junta de Freguesia de Furnas e depois o financiamento da Câmara Municipal da Povoação, ação que se mantém até aos dias de hoje.

Dizem os mais antigos que o Presépio terá começado apenas com a recriação da Sagrada Família, numa gruta natural, entre fumarolas e pequenos cursos de água quente, que maravilhavam os visitantes. Ano após ano, foi crescendo, recebendo novas figuras, episódios bíblicos e luzes que lhe deram brilho e enriqueceram um cenário em constante transformação, onde a magia acontece em cada quadra natalícia.

Paulo Fernando Melo, nos Estados Unidos da América, desejou felicitações pelo 50º Aniversário do Presépio e recordou as noites que o grupo passou a pintar as primeiras imagens para aquele que viria a ser uma das maiores atrações de Natal dos Açores.

Durante a quadra do Natal, o Presépio das Caldeiras das Furnas ficará iluminado continuamente na noite da consoada e também a mesma situação acontecerá na véspera de fim de ano e no próprio ano novo. Nos restantes dias, a iluminação estará disponível das 18h00 à 01h00.

Antigamente… era assim

“Para onde foram as algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras…”

António Xonina na apanha de musgo ou algas marinhas © ARQUIVO ROBERTO MEDEIROS

Havia um tempo em que o mar não era apenas horizonte: era vizinho, confidente, mestre silencioso. Nas nossas ilhas, cada onda contava uma história, cada rocha guardava memórias de mãos que sabiam tocar o mundo sem o quebrar. Antes que os dias corressem apressados como correm hoje, havia homens e mulheres que acordavam com o sussurro do Atlântico e adormeciam com o sal impregnado na pele. Para as famílias dos pescadores do porto da Caloura, o mar não era paisagem; era vida, ofício, poesia.

Entre essas atividades, uma cintilava pela delicadeza do gesto: a apanha do musgo, ou das algas marinhas que o Atlântico deixava agarradas às pedras, como se fossem cartas do tempo. Era um trabalho de paciência e precisão, feito ao compasso das marés, com conhecimento transmitido de geração em geração. Quem o praticava sabia decifrar o mar como quem lê um livro antigo: as correntes, as marés, o cheiro do vento, cada detalhe era lição.

Em São Miguel, os mergulhadores-de-polvos e os pescadores mais velhos — aqueles que já não navegavam para o largo nos barcos de boca aberta da Caloura, de Água de Pau ou do Porto dos Carneiros, no Rosário da Lagoa — encontravam no musgo uma ligação silenciosa ao oceano e, ao mesmo tempo, um sustento para as famílias. O musgo era colhido com cuidado, levado para terra e estendido ao sol, formando mantas ou tapetes que secavam lentamente, absorvendo a luz e a memória do mar.

Havia uma empresa que comprava todo o musgo ou algas marinhas apanhadas nos Açores durante o período de colheita. Como o «musgo» era muito rico em nutrientes, tinha vários destinos, sendo o principal o fabrico de medicamentos. A empresa Pereira e Pereira, pertencente ao Grupo Bensaúde — atualmente dono do Centro Comercial Parque Atlântico e do Hiper Continente, em Ponta Delgada — recolhia todo o musgo apanhado na ilha de São Miguel pelos mergulhadores e pescadores mais idosos. Depois, exportava-o para a produção de medicamentos, perfumes e até complementos alimentares. No Continente, por contraste, o musgo era usado para fertilizar os campos agrícolas, prática que nunca se implementou nos Açores. No arquipélago, durante mais de 400 anos, os agricultores utilizavam tremoceiros, faveiras e molheiros para fertilizar as suas terras, até à chegada dos fertilizantes químicos.

Nos anos 60, 70 e 80, este ritual era visível nas ruas de Água de Pau: moto-triciclos carregados de sacas desciam e subiam ruas como a Portela, o Cerco, a Galera e os Ferreiros, espalhando tapetes de musgo sobre calçadas e passeios. Homens como o o Ti António Xonina, o Ti Manuel Madeira, o Morreira, o Zé “vira-o-bolo”, o Subica ou o Zé da Glória Giganta trabalhavam com mãos calejadas, mas delicadas, espalhando vida e história. Para muitos aposentados e famílias numerosas, esta atividade era um complemento económico modesto, mas vital — cada tapete estendido era um poema silencioso de sobrevivência e engenho, cada saco transportado, uma ponte entre o homem e o oceano.

Na Caloura, quando ia aos banhos com familiares e amigos, dizia-se que o mar tinha preferência por Ti António Xonina. Talvez porque ele falava pouco, talvez porque sabia ouvir. Ajoelhava-se, colhia o musgo como quem recolhe memórias líquidas, e enchia o saco de serapilheira sem pressas, como se cada fio esverdeado escuro guardasse um segredo. Quando o vento soprava, parecia que as algas chamavam por ele, sussurrando histórias de marés antigas.

A costa sul transformava-se em cenário vivo: sombras inclinadas, o brilho molhado das pedras, o marulhar ritmado das ondas. Era quase uma coreografia, uma dança antiga entre o mar e aqueles que dele dependiam. Depois vinha a tarde, e o musgo estendia-se ao sol como roupa lavada, libertando um cheiro de sal, vento e esperança.

Hoje, tudo isso pertence à memória. O mar continua imenso, igual a si mesmo, mas a apanha do musgo desapareceu. Já não há mãos a decifrar as marés, nem rostos a contemplar o reflexo da vida no musgo. Restam apenas fotografias antigas, onde o sol, o mar e as pessoas parecem conspirar para eternizar um mundo perdido. Recordar é um ato de ternura e respeito: é lembrar que fomos capazes de viver em harmonia com o oceano, e que essa harmonia é um património que não se pode esquecer.

Agora… é assim

O que antes era paciência e cuidado transformou-se numa invasão. As praias açorianas, incluindo a Caloura em Água de Pau, são hoje invadidas por toneladas de algas Sargassum. O mar devolve-nos esta massa vegetal, densa e implacável, como se quisesse dizer que a natureza se cansa da exploração. O acesso à água é dificultado, o prazer de estar à beira-mar é roubado, e os municípios enfrentam encargos enormes para retirar o excesso.

Estas algas provêm do Mar dos Sargaços, vasto Atlântico central, mas não são apenas mensageiras do mar: são sinal de desequilíbrio. Nutrientes excessivos provenientes de fertilizantes industriais, produção intensiva de gado, desflorestação e erosão do solo transformam o oceano numa máquina que gera vida e caos em simultâneo. Onde antes se lia o mar com olhos atentos, hoje o mar lê-nos e responde com invasão.

O contraste é brutal: antigamente, mãos humanas recolhiam o musgo com reverência; hoje, o mar devolve-nos invasões que ninguém pediu. A riqueza que antes era partilhada entre comunidades agora é explorada por interesses distantes, e a natureza paga o preço da ganância. O oceano, que outrora ensinava, alerta-nos agora: o seu silêncio já não esconde a degradação e o desequilíbrio.

Antigamente… era assim. Agora… é assim

Recordar não é nostalgia: é aprender. O musgo colhido com paciência, as mãos calejadas e delicadas, os rostos iluminados pelo sol e pelo mar são património vivo da nossa identidade. Se quisermos proteger o futuro, precisamos de ouvir o oceano, respeitar o equilíbrio e recordar o que ele nos deu. Antigamente, o homem lia o mar; hoje, o mar lê o homem e mostra-lhe as consequências da sua cegueira.

E talvez, se aprendermos a olhar de novo, possamos ainda transformar a invasão em aviso, a memória em sabedoria, e o oceano em parceiro, como foi sempre.

Proteger a saúde mental nas épocas festivas

Matilde Dias Pereira
Especialista em Psicologia Clínica no Hospital CUF Açores

A época natalícia é, para muitos, sinónimo de alegria, partilha e celebração. Contudo, nem todos vivem este período da mesma forma. Por diversos motivos, o Natal e o Ano Novo podem ser emocionalmente desafiantes, despertando mais tristeza, ansiedade ou solidão do que sentimentos positivos.

As festividades podem intensificar memórias dolorosas, como perdas recentes ou antigas, acentuando sentimentos e emoções como frustração ou melancolia. Para quem está em tratamento psicológico ou psiquiátrico, ou a atravessar processos de luto, este pode ser um período de grande vulnerabilidade, frequentemente associado ao desejo de isolamento.

Nestas situações, é importante que cada pessoa faça escolhas que a deixem confortável. Da mesma forma, familiares e amigos devem procurar respeitar o espaço e o ritmo de quem enfrenta maior sofrimento emocional. Sugiro, por isso, algumas estratégias que podem ajudar a promover o seu bem-estar nesta fase:

Aceite as suas emoções. As emoções funcionam como sinais internos que nos mostram o que precisa de cuidado ou mudança. Permita-se sentir tristeza, saudade ou cansaço, sem a obrigação de aparentar bem-estar apenas porque é Natal.

Procure conforto. Explore atividades de que goste e que lhe trazem tranquilidade, ou adapte tradições à sua realidade atual, trazendo um sentido pessoal às celebrações.

Invista em momentos de conexão. Pequenos gestos contam, como uma chamada, uma mensagem ou a participação em atividades de pequena escala que podem ajudar a quebrar o isolamento.

Cuide de si: O autocuidado é muito importante, como ter tempo para si, fazer exercício físico, dormir tempo suficiente, hidratar-se, fazer refeições com calma e procurar atividades que lhe sejam prazerosas. Esteja atento a sinais como alterações de sono e apetite, cansaço excessivo, choro fácil ou sentimentos de desespero e, se os identificar, procure ajuda de um profissional. Esta é uma das formas mais importantes de autocuidado, pois cuidar de si e da sua saúde mental não é egoísmo, é amor-próprio.

Para quem aprecia o Natal mas sente ansiedade nesta altura, deixo algumas estratégias úteis:

Estabeleça limites realistas. Não exija perfeição a si próprio, nem se sinta obrigado a corresponder ao que os outros esperam de si nesta quadra. Preparativos, encontros familiares, eventos sociais ou profissionais podem ser emocionalmente exigentes se não respeitar os seus limites.

Fale abertamente. Uma das formas de preservar o amor-próprio, é estabelecer limites. Seja franco e aberto com familiares e amigos, comunicando sentimentos e perspectivas (não expectativas), para evitar tensões desnecessárias.

Planeie tudo o que puder. Organize as suas compras, presentes, eventos e refeições recorrendo a listas para que não se sinta sobrecarregado e ansioso. Estabelecer limites realistas pessoalmente, socialmente e financeiramente, pode trazer-lhe muita paz.

Foque-se no presente. O futuro constrói-se nos pequenos “agoras”. Manter-se consciente do momento ajuda a gerir melhor as tarefas e a viver cada situação com presença e intenção.

Seja gentil. Acima de tudo, consigo próprio. Reconheça as suas limitações e valorize o que realmente importa.

O Natal é, acima de tudo, uma altura de paz. Permitamo-nos vivê-lo à nossa maneira, mas também permitindo aos outros as suas escolhas, sem julgamento. Quando valorizamos quem somos e o que temos, abrimos espaço para mais leveza, gratidão e serenidade nesta época especial. Feliz Natal e um Bom Ano Novo!

COP ou jardinagem?

Maria Chaves Martins
Licenciada em Direito

Vivemos um momento decisivo, em que o planeta exige uma resposta coletiva e concludente à crise socioambiental instituída: a emergência climática.

Foi com esse intuito que, na Amazónia, foi realizada, no mês passado, a COP30, norteada pela justiça e financiamento climático, urgência da transição energética e relevância do Oceano na regulação do clima, com destaque para o Mar dos Açores devido à rede de Áreas Marinhas Protegidas. Nessa COP, mais de 111 países entregaram relatórios de metas climáticas (representando 71% das emissões globais).

A COP – core da luta global pela emergência climática, fez 30 anos – de (de)feitos.
Em 1995, Berlim lançou a COP1 e os alicerces do Protocolo de Kyoto. Assim, em 1997, da COP3 saiu o primeiro tratado para reduzir as emissões de Gases com Efeito Estufa – GEE’s: Protocolo de Kyoto. Seguiu-se, em 2015, a COP21 com o mítico Acordo de Paris: primeiro acordo, com força jurídica, para enfrentar a crise climática, e avocou o objetivo de reduzir a emissão de GEE’s para limitar o aumento da temperatura a 2ºC – ponto de não retorno que, se transposto, provoca transformações climáticas irreversíveis e em larga escala.

Na COP28, em 2023, os países comprometeram-se a triplicar as energias renováveis, e, na COP29, a triplicar o financiamento climático. Mas, em 30 anos, quem esteve na mesa das decisões? Na COP28, 2456 participantes estavam ligados à indústria fóssil, um número 7 vezes superior aos participantes nativos. Na COP29, o número de delegados ligados à indústria – 1773, foi maior que a soma dos delegados dos 10 países mais expostos às alterações climáticas.

É inexequível a resolução de um problema com a mentalidade e interesses que estiveram na sua origem. Repetir erros com novas palavras. A essência da COP submergiu nas chávenas de chá servidas a empresários com as mãos sujas de petróleo ou agrotóxicos, que chegaram ao evento em jatos privados.

A COP é palco de autopromoção ou mudança? Enquanto Lula convocava o mundo para a luta climática, o Governo Federal autorizava a perfuração do rio Amazonas. Porém a comunicação social silenciou não só a punção do Amazonas, como a desflorestação. Talvez por ter sido patrocinada por grupos de interesses, especialmente do agrotóxico, como a Bayer. Mas, os povos indígenas reivindicaram o seu lugar na COP30, exigindo o reconhecimento do seu território, a participação na tomada de decisões e proteção da floresta. É impossível falar em justiça climática sem falar em justiça social: “Ecologia sem luta de classes é jardinagem”.

Quem são os que mais poluem e os que mais sofrem com as alterações climáticas?
Tuvalu, um pequeno país, é “o” símbolo do paradoxo climático: o que menos contribuiu para o aquecimento global, é o primeiro a poder desaparecer. Um exemplo na neutralidade carbónica, menos de 0,003% das emissões mundiais. Porém, a crise climática não é neutra. É uma crise de desigualdade e de género, sobretudo, feminino.

A COP30 repudiou o obscurantismo, rejeitou os que desacreditam a ciência, que controlam algoritmos, semeiam o ódio e difundem o medo. O combate às alterações climáticas ameaça interesses instalados que pagam aos partidos para que os seus ganhos perpetuem, protegendo o modelo económico vigente, baseado na sobre-exploração. Os EUA abandonaram o Acordo de Paris para favorecer o sector dos combustíveis – ExxonMobil, Chevron, etc, são patrocinadores da campanha do Presidente.

Os negacionistas refutam a emergência climática por conveniência, para manter o “status quo” dos grupos dominantes que beneficiam com as desigualdades. A inação climática espelha a crise de valores e de poder, e a solução é civilizacional. Quem tem o poder de mudança? Ou será a mudança climática a vingança da Terra?

Terceiro Fórum das Migrações promoveu debates e revelou dados sobre imigração no arquipélago

© DIREITOS RESERVADOS

O terceiro Fórum das Migrações dos Açores, promovido pela Direção Regional das Comunidades, do Governo dos Açores, reuniu autoridades públicas e empresariais, representantes de associações e membros da comunidade migrante para ouvir especialistas sobre migração, identidade e cooperação lusófona. O evento, realizado nos dias 19 e 20 de novembro, na Universidade dos Açores, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, teve transmissão online e destacou o crescimento da imigração no arquipélago.

O diretor regional das Comunidades, José Andrade, definiu o Fórum como “um espaço anual de partilha e reflexão entre poderes públicos e parceiros privados”. Segundo este responsável, o fenómeno migratório é um indicador de prosperidade e desenvolvimento para o arquipélago.

Durante o evento, foram apresentados dados que revelam a presença de oito mil imigrantes nos Açores, provenientes de 100 países. O Brasil lidera, com quase 20% desse total, seguido por Alemanha, Estados Unidos, Espanha, China, Cabo Verde, Itália e Reino Unido. Dados recentes também apontam a existência de 1.341 alunos estrangeiros nas escolas públicas, sendo 338 brasileiros. Entre os 197 formandos nas escolas profissionais, 98 são cabo-verdianos.

No encerramento, José Andrade entregou certificados do “Curso de Português para Falantes de Outras Línguas” a 18 formandos, com idades entre 19 e 77 anos, de várias nacionalidades, residentes nos concelhos de Angra do Heroísmo e Praia da Vitória. As aulas foram realizadas na ilha Terceira, com organização da Associação dos Imigrantes nos Açores (AIPA). O projeto foi financiado pela Direção Regional das Comunidades.

Presente no evento, a presidente da Associação “Mais Lusofonia”, Sofia Lourenço, classificou o Fórum como “irrepreensível” e destacou os “testemunhos da comunidade que todos os dias trabalha e sente as migrações diretamente, promovendo e buscando o desenvolvimento para todos, das pessoas, independente do seu local de origem, raça ou credo”.

Roberto Medeiros leva exposição do Diário da Lagoa e Presépios com a identidade lagoense aos EUA

A memória e a tradição da Lagoa estão em destaque em Massachusetts com exposição dos 11 anos do Diário da Lagoa e o tradicional Presépio lagoense

Roberto Medeiros recebe a visita da luso-americana Joan Borhsword, na exposição do Diário da Lagoa na Portugalia Marketplace © DIREITOS RESERVADOS
A cultura e a memória da Lagoa, nos Açores, estão em destaque nos Estados Unidos da América (EUA) graças à iniciativa do cronista Roberto Medeiros. A exposição do Diário da Lagoa, juntamente com a mostra do presépio típico da Lagoa, tem despertado grande curiosidade e interesse na comunidade imigrante açoriana e luso-americana.
 
A mostra jornalística foca-se na exibição de crónicas de Roberto Medeiros, o cronista mais antigo com presença regular no Diário da Lagoa (DL), evocando a história e os desafios dos 11 anos do jornal. A seleção inclui primeiras páginas dos jornais dos últimos onze anos e constitui um retrato da vida e do percurso do periódico, bem como das histórias contadas pelo cronista da Vila de Água de Pau.
 
A exposição do DL rumou aos EUA para ser exibida em dois locais distintos em Massachusetts: na Portugalia MarketPlace, em Fall River, e na Biblioteca da Casa da Saudade, em New Bedford.
 
Exposição do Presépio da Lagoa, por Roberto Medeiros, na Biblioteca da Saudade em New Bedford © DIREITOS RESERVADOS
Em grande destaque na mostra cultural está o Presépio da Lagoa, um símbolo de tradição que viaja para a América há 26 anos. Roberto Medeiros salienta que “a arte bonecreira da Lagoa exporta muito mais do que arte sacra, transportando consigo a memória, a identidade e a alma da região”. O cronista reforça ainda que “onde existir um presépio na América, há um pedacinho da Lagoa, dos Açores de Portugal”.
 
O evento é enriquecido com a exibição de uma mostra de Obras da História da Arte pelo artesão bonecreiro residente do Museu de Lagoa, João Arruda. A iniciativa visa, desta forma, reforçar os laços culturais e a manutenção das raízes açorianas na diáspora açoriana.

Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira disponibiliza acervo em braille

Coleção inicial de 40 obras adaptadas para leitores com deficiência visual e amblíopes dispõe de uma seleção que abrange literatura infantil e obras de ficção para o público adulto

© CM LAGOA

A Biblioteca Municipal Tomaz Borba Vieira, na cidade da Lagoa, disponibiliza ao público um novo acervo dedicado a pessoas com deficiência visual. Segundo nota de imprensa da Câmara Municipal, a coleção é composta por livros em braille e edições adaptadas para amblíopes.

O acervo inicial da Biblioteca Municipal integra 40 monografias e alguns periódicos, com uma seleção que abrange literatura infantil e obras de ficção para o público adulto.

A apresentação formal do novo material decorreu numa cerimónia que contou com a presença da vereadora com o pelouro da Educação e Cultura, Albertina Oliveira, representantes da ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal e uma turma de alunos da Escola Básica Integrada de Lagoa.

A vereadora Albertina Oliveira afirmou que este investimento reforça a função da Biblioteca Municipal como um “espaço democrático de conhecimento, onde a leitura e a cultura são direitos de todos”. A mesma responsável sublinhou que a iniciativa se alinha com políticas públicas que visam assegurar a acessibilidade e a inclusão.

A autarquia, citada na nota da Câmara, salienta que a introdução deste acervo é vista como o “início de um projeto contínuo” para a expansão progressiva da coleção, com o objetivo de a tornar mais representativa para todos os leitores.

Foi ainda destacado o papel da colaboração da ACAPO, considerada essencial para a divulgação do novo acervo e para a dinamização de futuras atividades na Biblioteca da Lagoa.

Concurso de Iluminação de Natal “Remédios e Santa Cruz a brilhar”

© JF SANTA CRUZ

Pelo quinto ano consecutivo, a Junta de Freguesia de Santa Cruz, no concelho da Lagoa, promoverá o Concurso de Iluminação de Natal “Remédios e Santa Cruz a brilhar”. 

Com esta iniciativa, pretende-se manter uma das tradições tão característica da época Natalícia, bem como incentivar a comunidade local a decorar as suas habitações e jardins, de forma que a freguesia ganhe cor e brilho, nos dias de festa.

Os interessados em participar no concurso, poderão fazer a sua inscrição até ao dia 12 de dezembro, na Junta de Freguesia de Santa Cruz, haverá prémios monetários para os vencedores. 

“Espero que a Ouvidoria dê pequenos passos para que se faça uma caminhada capaz de perdurar”

Nos 40 anos da Ouvidoria da Lagoa, o novo Ouvidor, o padre Gil da Silva, fala dos desafios e do futuro das várias paróquias sem esquecer a questão da pobreza

Padre Gil da Silva tem 42 anos e é Ouvidor pela primeira vez © CLIFE BOTELHO

Aos 42 anos assume pela primeira vez a função de Ouvidor, sendo responsável pelas sete paróquias da Ouvidoria da Lagoa. Gil da Silva é padre nas freguesias do Livramento e mais recentemente no Cabouco. Nasceu no Canadá, filho de pais emigrantes, e depois de passar pelo continente, através da Congregação da Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus, mais conhecidos por Dehonianos, regressou aos Açores e esteve à conversa com o Diário da Lagoa.

DL: É a primeira vez que é ouvidor. O que é que é ser Ouvidor?
Ser ouvidor, como o próprio nome indica, é ser aquele que escuta, aquele que escuta os seus colegas padres, aquele que de certa forma também recebe muito da ajuda dos colegas padres. Termos um olhar, um horizonte, um pouco mais abrangente e olharmos para o lado, para que todas as paróquias olhem umas para as outras com este olhar, como Cristo também nos olhava, com um olhar de amor, com um olhar capaz de sermos capazes de construir uma coisa simples, que é uma comunidade consciente de que é batizada.

DL: Que significado têm estes 40 anos da Ouvidoria da Lagoa?
Um significado profundo de comunhão, de reconhecer que temos paróquias, temos comunidades cristãs que vivem de modo particular num ritmo normal de vida cristã e que são capazes de pensar uma Igreja cada vez mais abrangente. Quase numa tentativa de pensar-se numa Igreja que não é só a minha casa, não é só a minha paróquia ou comunidade, mas que há outras comunidades que vivem a mesma fé. 

DL: E que desafios é que a Ouvidoria enfrenta?
O desafio de pensar que não vive só para si própria. O desafio de pensar-se como uma comunidade cristã, o desafio de nos desinstalarmos. E isso pode começar — e começa sempre — quando nós saímos de casa. Desinstalarmo-nos do conforto da nossa casa e irmos à igreja, este templo, esta casa onde se pretende viver a fé. É este desafio de nos desinstalarmos e irmos a outras comunidades celebrar a mesma fé. Porque às vezes é tão difícil  mas o Evangelho interpela-nos sempre a nos desinstalarmos e a não olharmos só o nosso cantinho. 

DL: Na sua homilia, o Bispo de Angra abordou a questão da pobreza. É um tema que merece ainda mais atenção na Lagoa?
Em toda a parte. Contudo, todos nós reconhecemos que a Lagoa tem situações de pobreza que até são gritantes e que necessitam da nossa atenção, sem dúvida nenhuma.
E quando digo pobreza, não digo só a económica, a financeira, a habitacional. Falo também desta pobreza a que o Papa faz referência na sua mensagem, que é o não reconhecer a presença de Deus, que também é um tipo de pobreza. Digo isto no sentido de que quem tem Deus na sua vida deveria ter esse olhar distinto e diferente para qualquer pessoa. E, provavelmente, um olhar um pouco mais próximo, um olhar mais atencioso, e é desta riqueza que falo, que é quem tem Deus.
Há que olhar também para esta situação. E todas as comunidades devem ter em atenção estas situações, porque também o Papa diz que os pobres não deviam ser olhados como objetos da nossa ação, mas como sujeitos ativos, porque também são nossos irmãos.

DL: Segundo o site da agência de notícias Igreja Açores, a Ouvidoria da Lagoa “regista grandes bolsas de pobreza”. Como é que nós podemos fazer com que essas bolsas de pobreza diminuam?
Uma das coisas que nós devemos é investir na Educação, começa por aí. Olhar para as nossas crianças e jovens e termos esse cuidado constante na Educação. Não é fácil, porque isto é uma questão que às vezes passa de geração em geração.
Começava por aí e pela capacidade de nós ajudarmos e, depois, consequentemente, porque não implica só as crianças e os jovens, implica também os pais a fazer este caminho.
Depois, se vamos falar de uma parte um pouco mais concreta da vida das pessoas: condições de trabalho, que, aparentemente, parece que não falta trabalho, mas há falta de trabalhadores. Mas, lá está, é preciso também esta parte educativa para capacitar para esses trabalhos.
Depois, a questão da Habitação, que realmente é permanente e não é só no continente, mas aqui também, com a Habitação como está, é impensável uma família, mesmo com os dois a trabalhar, pedir empréstimo para uma casa pelo valor atual. Eu apostava mais e mais na Educação.

DL: Para terminar, o que é que espera para o futuro da Ouvidoria da Lagoa?
Espero que seja um momento para estarmos juntos, para refletirmos sobre a Ouvidoria, sobre as nossas comunidades cristãs e para nos desafiarmos a dar esperança a quem não tem, alento a quem nos pede, um olhar positivo das coisas.
Porque uma das coisas que se nota muitas vezes é não valorizarmos as pequenas coisas que fazemos. Por isso mesmo, vislumbro e espero que a Ouvidoria dê pequenos passos para que se faça uma caminhada capaz de perdurar e de responder aos desafios que todos nós vivemos e que também queremos lançar com uma esperança para todos, que é esta presença de Cristo e esta alegria de sermos positivos nas coisas que nós fazemos.