
O projeto “Novas 7 Maravilhas de Portugal” nasceu em 2007, inspirado na eleição das “Novas 7 Maravilhas do Mundo”, com o objetivo de promover e valorizar o património nacional. Em 2026, regressa para uma nova edição, novamente assente no voto popular, com destaque, desta vez, para as maravilhas culturais.
Dividido em sete categorias, o concurso integra, na fase regional, três monumentos lagoenses: o Convento da Caloura, na categoria “História”, a Igreja de São José, na Ribeira Chã, na categoria “Século XX”, e o Convento de Santo António, na categoria “Religião”. É até 22 de agosto que decorre a fase regional do concurso, estando as meias-finais agendadas para 5 de setembro, em Portugal Continental.
Foi em 1641 que nasceu um convento que viria a marcar a história cultural, social e religiosa da Lagoa. Isabel Albergaria explica que o Convento de Santo António surgiu como o primeiro construído na sequência da criação da “Província de São João Evangelista”. A primeira fundação foi, afirma, “resultado de uma doação feita pelo terceiro conde de Vila Franca do Campo, Dom Rodrigo da Câmara, pertencente à família dos capitães do donatário de São Miguel”.
Mas a história do convento não se resume à sua criação original. Ao longo dos séculos, o espaço sofreu alterações, tanto nas suas funções como na própria construção, e o monumento que hoje conhecemos teve, na sua origem, uma localização diferente.
Segundo Isabel Albergaria, o espaço exato onde terá sido construído o primeiro convento permanece incerto, embora haja “quase um consenso” de que terá sido construído “mais abaixo do atual” edifício, na zona do Jardim dos Frades. Após um dos acontecimentos mais marcantes da história do monumento, a erupção do Pico João Ramos, em 1652, que destruiu por completo a estrutura inicial, um novo convento viria a ser erguido, em 1749, financiado, desta vez, pelo quarto conde da Ribeira Grande, Dom José Teles da Câmara. “Esta [erupção] foi um momento muito marcante, porque determinou, de certa maneira, o fim de um ciclo”, explica a docente.
Foi a partir de 1832, ano em que o “decreto liberal de Mouzinho da Silveira” ditou o “fim dos conventos masculinos”, que o Convento de Santo António passou a assumir outras funções. O espaço, cuja tutela foi adquirida pela Câmara Municipal da Lagoa já no século XXI, acolhe hoje a Biblioteca Tomás Borba Vieira, o arquivo histórico e o núcleo museológico do presépio, mas teve, ao longo dos anos, outras utilizações: “foi um ensino preparatório, um quartel, um tribunal”, afirma a professora.
Para Isabel Albergaria, a diversidade de usos que o espaço foi assumindo ao longo do tempo permitiu manter a sua dimensão “educativa, pedagógica, criativa e espiritual”, tornando-o num edifício vivo, com função, utilidade e vivência.

A presença dos franciscanos foi igualmente importante na história do concelho. A sua função de “hospedaria”, destaca a professora, era fundamental para aqueles que atravessavam a ilha. “Devido à sua localização entre Ponta Delgada, Vila Franca do Campo e Ribeira Grande, os frades acolhiam muitos viajantes que faziam esta circulação”, diz ao nosso jornal.
Os franciscanos acompanharam, desde cedo, o povoamento e assumiram diversas tarefas, desde o ensino “das primeiras letras” a novos frades e também aos mais pobres, até à assistência e à caridade, passando ainda por uma forte ligação à vida comunitária, “através da criação de procissões quaresmais”.
Isabel Albergaria defende que reconhecer estas diferentes dimensões da presença franciscana é fundamental para compreender a história do concelho lagoense e preservar uma parte menos conhecida do seu património.
O Convento de Santo António destaca-se dos restantes conventos franciscanos de São Miguel e, apesar das várias transformações que atravessou ao longo dos séculos, o monumento lagoense mantém hoje o seu “caráter”. É um edifício que não perdeu os seus espaços principais, como o claustro e, “sobretudo, a igreja”, cuja peculiaridade Isabel Albergaria realça ao longo da nossa entrevista.
A sua fachada barroca, marcada pelo trabalho de cantaria artística em torno da janela principal, salienta-se no exterior da igreja, mas é o contraste com um interior “erudito e sofisticado” que contribui para a sua “originalidade arquitetónica”. Falamos, assim, de uma igreja de nave única, antecedida por uma galilé e com um grande coro alto que se prolonga sobre esta. Destaca-se ainda a presença de confessionários laterais embutidos na parede, um aspeto que, embora não seja único, é, refere a professora, “bastante raro”, e de uma Capela-Mor de configuração verdadeiramente singular. “Esta é uma grande construção com uma igreja magnífica. A sua arquitetura é um dos aspetos distintivos do Convento de Santo António”, afirma.
A presença do Convento de Santo António numa iniciativa como as “ Novas 7 Maravilhas de Portugal” permite colocar um património repleto de história no “mapa”. “É uma grande chamada de atenção. O conferir de notoriedade a este património de grande relevo”, defende Isabel Albergaria, que deixa como mensagem final a importância de aproveitar esta iniciativa para abrir os braços à curiosidade e ao conhecimento sobre o espaço.
Assim, a professora convida todos a visitar o Convento de Santo António e a sua igreja, como forma de se aproximarem da história do concelho. “O convento é uma parte importante da comunidade. É uma parte importante do património comunitário”, conclui.
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