
Lembro-me perfeitamente como se fosse o ano passado. Em 1960, a escola, ali na esquina da Praça Velha com a Rua da Cadeia Velha, hoje edifício da Santa Casa da Misericórdia. A porta estreita, o pátio, a sala de aula à esquerda, ao cimo de alguns degraus, airosa e bem iluminada, as casas de banho ao fundo à direita, com bases de cerâmica branca e buracos para as necessidades feitas de pé ou de cócoras. Esta era a escola dos rapazes. A das raparigas era longe, junto do Convento dos Frades. Envergando bata branca e de sacola à bandoleira, íamos a pé, por nossa conta, engrossando a fila de colegas que seguiam para a escola. Não havia cantina, pelo que corríamos a casa para almoçar, para logo sairmos fisgados em mais uns minutos de brincadeira antes da aula da tarde. A professora Sara, — longos cabelos louros apanhados em carrapito —, mandava-nos deveres todos os dias. Contas e outras tarefas consideradas menores eram feitas pelo caminho, na ardósia, — vulgo ‘pedra’ —, ou na sebenta, em pequenos grupos, sentados à soleira de portas ou na banqueta do Largo do Teatro, onde ainda conseguíamos tempo para, conforme a estação do ano, jogarmos o pião, a patela, o esconde-esconde, a coboiada, o vira dos primeiros cromos da bola. E quando um berlinde se escapulia pela sarjeta em frente à loja do sr. João Correia, logo um voluntário subia a íngreme canadinha para entrar no Regato da Refuga e deslizar pelo estreito túnel subterrâneo até descobrir o maroto e trazê-lo de novo ao jogo. Deixávamos a cópia para casa, onde o relativo conforto permitia uma caligrafia mais cuidada no caderno de duas linhas exigido na primeira classe. A caneta de aparo, a tinta azul, os borrões e o mata-borrão viriam pouco depois.
No ano seguinte, aguardavam-nos duas surpresas. Primeiro uma nova cara: o professor Mário, cabelo preto penteado para trás, vincada risca à esquerda. E, creio que depois do Natal, a nossa mudança para o Convento dos Frades. Os largos corredores e a sala escura e húmida não nos deixaram grandes memórias, até porque a nossa segunda classe acolhia alunos de classes à nossa frente.
Em 1962, mais duas novidades: o professor e a escola nova da Relvinha. Sentíamo-nos orgulhosos por estrear aquela escola de rés-do-chão e primeiro andar. Briosos, ajudámos a criar o esboço de um jardim com duas elípticas à frente do edifício. Envergando uma bata branca sempre impecável, o professor Eduardo, corte de cabelo curto puxado para trás, subira a fasquia. Estávamos na terceira e na quarta classe, já quase homenzinhos, pelo que punha os alunos sem erros nos ditados a ‘dar bolos’ aos colegas com erros. Além disso, tínhamos que decorar reinados para os apresentarmos perante a turma. Calhou-me D. João II. Uma vez por semana, parte da aula era substituída pela audição de um programa radiofónico cujo conteúdo se me varreu totalmente. Durante algum tempo, diariamente a meio da manhã, a D. Maria do Rosário Rocha fazia-nos emborcar uma colher de óleo de fígado de bacalhau. Ninguém ousava baldar-se àquela obrigação e então, em fila cerrada, arrastávamos os pés até à colher, fechávamos os olhos, engolíamos aquilo e disparávamos para o recreio das traseiras onde, brincando, tentávamos libertar-nos daquele sabor e cheiro esquisitos. Durante a minha instrução primária, não me lembro de alguma vez os meus pais ou avós me terem levado à escola ou terem sido convocados para qualquer tipo de reunião com os professores. A morte do João Adriano, o melhor dos melhores colegas na aritmética, causou-nos imensa impressão. Como podia um menino de 10 anos ficar doente e rapidamente desaparecer do nosso convívio?
Foi tremendo o salto para o Liceu, hoje Escola Secundária de Antero de Quental. A dez quilómetros de casa, a camionete do Varela, a troco de um passe mensal de cerca de duzentos escudos, despejava-nos em três quartos de hora junto da igreja Matriz de Ponta Delgada. Daí apertávamos o passo até ao liceu.
Tudo era novo para nós: amplos espaços, gente desconhecida, diferentes professores para diferentes disciplinas. Disciplina aperreada, bata branca obrigatória, as turmas das raparigas noutro edifício separado por muro alto. Levávamos, os de fora da cidade, aquilo a que chamávamos lanche e que era o nosso almoço. Tomávamo-lo debaixo do alpendre, sentados numa banqueta. Às 4 horas, terminadas as aulas, corríamos como loucos para apanhar a camionete de regresso à Lagoa. Com sorte, conseguíamos lugar na que seguia para Vila Franca, pelo Pópulo, direta e mais rápida. E sempre aquele cheirinho a ‘café legítimo’ vendido em cartuchos de papel pardo na loja da esquina do outro lado da Praça. Tantas e tantas recordações destes anos de liceu. Ficam para uma próxima oportunidade. Haja saúde.