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Dor crónica na mulher: quando sofrer em silêncio não pode ser normal

João Borges
Coordenador da Unidade de Medicina da Dor
Hospital CUF Açores

Muitas mulheres habituaram-se a conviver com a dor. Dores menstruais incapacitantes, desconforto pélvico persistente, dores nas costas, no pescoço ou em várias partes do corpo são frequentemente encaradas como algo “normal” ou inevitável. Mas a verdade é que a dor persistente nunca deve ser ignorada.

Considera-se dor crónica aquela que se mantém durante mais de três meses. Embora possa afetar qualquer pessoa, é mais frequente nas mulheres. A ciência mostra que fatores biológicos, nomeadamente as alterações hormonais ao longo da vida, influenciam a forma como a dor é sentida e processada pelo organismo. No entanto, a explicação não se resume à biologia.

Durante décadas, a dor feminina foi frequentemente desvalorizada. Muitas mulheres ouviram que os seus sintomas eram consequência do stress, do cansaço ou da ansiedade. Embora estas condições possam coexistir e influenciar o bem-estar, não devem servir para descredibilizar queixas legítimas. Esta tendência para minimizar o sofrimento pode atrasar diagnósticos e impedir o acesso atempado aos tratamentos adequados.

A realidade é que existem diversas doenças que afetam sobretudo as mulheres e que podem provocar dor crónica. É o caso da fibromialgia, da endometriose, de algumas doenças ginecológicas, de alterações do pavimento pélvico ou da dor que pode surgir após tratamentos oncológicos, nomeadamente após cirurgia da mama.

O impacto destas condições vai muito além do desconforto físico. A dor persistente interfere com o sono, o trabalho, as relações pessoais, a atividade física e a saúde emocional. Muitas mulheres veem-se obrigadas a reduzir o ritmo de vida ou a abdicar de atividades que antes lhes davam prazer, o que pode gerar sentimentos de frustração, isolamento e perda de qualidade de vida.

O diagnóstico nem sempre é simples. Em muitos casos, são necessárias avaliações por diferentes especialidades médicas até se identificar a origem do problema. Mesmo quando não é possível eliminar totalmente a dor, existem atualmente várias estratégias que permitem controlá-la de forma eficaz.

O tratamento moderno da dor assenta numa abordagem multidisciplinar, envolvendo diferentes profissionais de saúde. Para além da medicação, podem ser recomendadas intervenções como fisioterapia, apoio psicológico, aconselhamento nutricional e procedimentos minimamente invasivos que ajudam a reduzir a intensidade da dor e a recuperar a funcionalidade.

Importa recordar que o objetivo nem sempre é atingir uma situação de ausência total de dor. Muitas vezes, o maior sucesso consiste em devolver autonomia, capacidade de trabalho, participação social e bem-estar. Em suma, permitir que a pessoa volte a viver com qualidade.

A mensagem principal é simples: sentir dor de forma persistente não é normal e não deve ser encarado como uma condição inevitável. Procurar ajuda especializada é o primeiro passo para obter respostas e encontrar soluções. Nenhuma mulher deve resignar-se a viver limitada pela dor.

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