Assinala-se este ano o centenário do genocídio arménio no qual as autoridades turcas assassinaram diretamente ou conduziram para o deserto a fim de matar pela fome, sede e exaustão um número que se estima entre os 800.000 e o 1.500.000 seres humanos.
Não foi o primeiro, não foi o último e não foi sequer o maior. É talvez dos mais conhecidos por ter sido aquele que a comunidade internacional havia de declarar como o primeiro caso estudado, confirmado e indiscutível de genocídio, apesar de as autoridades turcas recusarem até hoje reconhecer a evidência.
Do genocídio arménio surgiu uma das muitas vagas de refugiados que deram origem a uma imensidão de comunidades arménias espalhadas um pouco por todo o mundo, e surgiu também um direito internacional de condenação do crime mais hediondo a que a humanidade se tem entregado, bem como de defesa das suas vítimas.
Refugiados arménios, judeus ou os Ahmadiyya – apenas para citar três das comunidades de refugiados mais conhecidas – foram frequentemente a semente de progressos estrondosos nas comunidades em que se integraram.
Em Portugal, a perseguição dos judeus correspondeu ao declínio do país e suponho que não estará esquecido entre nós o facto de o acolhimento de um refugiado arménio de seu nome Gulbenkian ter levado ao que foi a principal chama de cultura durante décadas.
Depois do ataque jihadista do 11 de Setembro de 2001 – e a subsequente ratoeira em que o Ocidente se deixou apanhar no Iraque – a perseguição das minorias étnicas e ou religiosas (que até lá se tinha apenas centrado nos judeus) adquiriu proporções dantescas. Grande parte da minha atividade política desde 2004, e associativa desde 2009 tem sido feita exatamente para chamar a atenção da comunidade internacional para esses crimes do jihadismo, dedicando ao tema nomeadamente o meu livro de 2008, “A outra invasão do Iraque”.
Poucos foram os dirigentes políticos ocidentais sensíveis a essa realidade, sendo a principal das exceções a chanceler alemã Ângela Merkel, especialmente sensível às mulheres perseguidas no Iraque e na Síria pela sua luta pela liberdade. Ela foi a única dirigente europeia a que dediquei uma fotografia no meu citado livro em reconhecimento pela sua discreta mas eficaz intervenção.
Posto isto, se não me surpreende que ela tenha finalmente assumido a causa da solidariedade com os refugiados – já chegou a uma patamar de notoriedade e credibilidade política que lhe permite fazer algo em que acredita sem ter de pensar nos votos que ganha ou que perde – tão pouco me parece salutar que esse interesse pelos refugiados apareça totalmente desenquadrado de uma estratégia política para combater as causas do fenómeno.
A completamente suicida ideia de aquiescer à invasão irano-russa da Síria para resolver o problema, mostra que a chanceler alemã nada percebeu do que se passa por aí, dado que é exatamente o jihadismo imperial iraniano quem direta ou indiretamente causa a perseguição e a fuga.
Entre nós fomos submersos por uma campanha de desinformação tendente a diabolizar os refugiados. Sejamos claros, como é possível ver tanta gente que tem convivido com o drama dos sem-abrigo portugueses sem ter dado qualquer passo para o combater, que os descubra agora como argumento para negar apoio aos nossos semelhantes que fogem da perseguição e da morte?
Confundir a população em fuga – grande parte dela em fuga por não ser muçulmana e outra parte por não partilhar da leitura jihadista dos que colocaram a região a ferro e fogo – com os seus algozes, é um ato de profunda ignorância ou hipocrisia.
A Europa precisa de quem tenha sensibilidade, mas também quem saiba e pense para produzir uma estratégia que defenda a Europa defendendo a população do Grande Médio Oriente.
Bruxelas, 2015-09-13
(Paulo Casaca)
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