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O paradoxo socialista

Rúben Cabral
Gestor Empresarial

A vida é construída por um entrelaçado de realidades que vão desde as mais previsíveis às mais inexplicáveis.

O acreditarmos que amanhã de manhã – depois de uma longa noite de escuridão – o sol irá nascer e iluminar todo um novo dia é algo cuja probabilidade é tal que até dizemos que é uma lei da natureza. Quando na equação entra o factor humano, as probabilidades alteram-se e muitas vezes depara-mo-nos com realidades verdadeiramente paradoxais.

Em economia, na teoria do desenvolvimento económico, existe um princípio que procura explicar uma das mais paradoxais realidades da nossa experiência de vida comunitária: o princípio da chamada maldição dos recursos naturais ou paradoxo da abundância.

Basicamente, é uma tentativa de justificar o facto dos países com mais recursos naturais, contrariamente ao que seria de esperar, terem um crescimento económico muito inferior aos países com fracos recursos naturais.

As comunidades que têm recursos de fácil acesso tendem a vendê-los com extrema facilidade sem necessidade da criatividade, eficiência e inovação da iniciativa privada. Fenómenos como autoritarismo, rent seeking e corrupção passam a consumir as receitas e o desenvolvimento económico e social das populações passam para segundo plano.

O que tem isto a ver com a Lagoa?

Ter na sua geografia uma das bacias de terrenos mais férteis da ilha de São Miguel deu-lhe o cultivo próspero do trigo e da vinha. Ter tido um dos melhores portos permitiu-lhe uma pesca abundante, a fácil exportação do trigo e, posteriormente no século XVIII, ser um próspero entreposto da cultura da laranja. A qualidade dos seus terrenos agrícolas permitiu-lhe, até aos dias de hoje, uma produção agrícola de qualidade e uma lavoura de excelência.

A fibra e engenho dos trabalhadores lagoenses permitiu que no século XIX se estabelecessem cá destilarias de álcool e fábricas de cerâmica fazendo da Lagoa um pólo industrial.

E hoje? O que se vende quando se vende a Lagoa?

A marca Lagoa é um produto vendável porque consegue conjugar a história de uma vila que comemora este ano cinco séculos de história com a de uma cidade que há dez anos procura ser pioneira na implementação de políticas de futuro que terão de passar, necessariamente, pela inovação, sustentabilidade, inclusão e conectividade.

Há um quarto de século que a Lagoa dispõe de um pleno de condições para o seu desenvolvimento económico e social. As pessoas vivem num clima de paz social e não existe nenhum elemento de conflitualidade. As pessoas quando são chamadas a participar em contexto cívico, respondem prontamente e disso é prova o número de colectividades existentes.

Com a excepção de duas intempéries que não causaram mais que danos materiais, nenhum cataclismo se abateu sobre o concelho. Antes desta pandemia, nenhuma crise sanitária aconteceu. Nenhuma crise económica própria para além da que teve origem na crise do sub-prime e que foi comum a todas as regiões.

A Lagoa não sofreu de nenhuma crise nos agentes políticos: ao contrário do passado em que o presidente de câmara mudava quase de dois em dois anos, nos últimos 25 anos a Lagoa teve 3 presidentes do mesmo partido e todos eles em projectos de continuidade dos antecessores. Os três contaram com maiorias nos dois órgãos autárquicos e um governo regional da mesma cor partidária. Os orçamentos anuais chegaram este ano quase aos 13 milhões de euros. Passaram-se três programas plurianuais de fundos europeus e vamos a caminho do quarto.

Depois disto tudo o que temos é um orçamento camarário de navegação à vista e um desígnio prioritário que é vender terrenos, que são de todos, a preço de saldo.

A Lagoa cresceu e desenvolveu-se. Isso é inequívoco. Mas todas as condições e recursos de que dispôs proporcionaram o devido retorno a cada um dos lagoenses?

Estarão os lagoenses orgulhosos da sua terra – porque têm todos os motivos para isso – e depois permanecerem condenados ao paradoxo de assistirem à distribuição dos benefícios por uma elite escolhida?

E nada disso é-me estranho porque continuamos a ter no Plano e Orçamento para 2022 festas que dão prejuízo e que só alguns lagoenses podem usufruir, mas todos pagam.

Neste mesmo documento, continuamos a ver o custo do Aquafit em que só alguns lagoenses podem usufruir, mas todos pagam e pagam, ainda mais, aqueles que exploram ou querem explorar um ginásio na Lagoa.

Continuamos a ter um complexo de piscinas municipais de excelência em que só alguns lagoenses podem usufruir, mas todos pagam. Felizmente, já não temos o único alojamento turístico nos Açores a dar prejuízo durante o mais recente boom turístico.

Eu estou convicto de que depois desta longa escuridão irá nascer um novo dia em que os lagoenses comuns voltem a ser herdeiros plenos do que os seus antepassados construíram e serão os destinatários principais da acção política dos seus autarcas.

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