
É um dos nomes açorianos mais conhecidos no mundo do voleibol. Carlos Raposo Dias da Silveira, 48 anos, nasceu e cresceu em Ponta Delgada, rodeado de desporto. Foi jogador profissional durante 30 anos, tendo conquistado mais de 100 internacionalizações e seis títulos de campeão nacional. Passou por vários clubes, dois dos quais no estrangeiro. Neste momento, é treinador numa academia que fundou e presidente da Associação de Voleibol de São Miguel. Atualmente produz pranchas de surf e outros utensílios em madeira de criptoméria. Carlos Silveira já foi também homenageado enquanto atleta, tendo um pavilhão municipal desportivo em Ponta Delgada recebido o seu nome.
DL: É especialmente conhecido pela sua carreira como jogador profissional de voleibol mas quem é Carlos Silveira?
Sou natural de São Miguel. Até aos 14 anos vivi em Ponta Delgada. Nessa idade comecei a ir para o continente para as seleções nacionais. Aos 16 fui para Lisboa, para o Sporting e estive muitos anos fora. Houve um período em que retornei à ilha durante três anos para abraçar o projeto da Associação Antigos Alunos (AA Alunos). Depois voltei a sair novamente e estive mais cinco anos fora. No regresso, estabeleci-me em Ponta Delgada e fiquei.
Neste momento, o meu dia a dia divide-se por várias áreas. Tenho um trabalho convencional, na Cooperativa Kairós. Para além dessa atividade, tenho outras, que considero passatempos ou part-time,tenho uma academia de voleibol, trabalhamos com os escalões de formação, femininos.
Depois, por uma situação de lazer e gosto, e porque permite uma proximidade com o meu pai, tenho a parte de construir pranchas de surf e utensílios em madeira de criptoméria. Mais recentemente, convidaram-me para fazer parte dos órgãos sociais da Associação de Voleibol de São Miguel. Gosto muito de me envolver nas coisas. É difícil dizer “não”. Neste momento, já não jogo voleibol, formalmente.
Tenho duas filhas e neste momento as duas jogam voleibol. No entanto, em termos familiares, nunca foi um objetivo nosso. A mãe também está ligada ao desporto e é professora de Educação Física. Elas sempre praticaram várias modalidades desde pequenas e sempre lhes foi dada essa oportunidade de poderem experimentar. A parte do voleibol penso que acabou por surgir um pouco pela envolvência do pai e de me irem ver jogar. Acabou por ser um percurso natural.
Tenho o grau mais elevado de título de treinador de voleibol, que me permite treinar qualquer escalão em Portugal e a seleção nacional. Tenho várias formações em diversas áreas, como em treino funcional, crossfit, gestão de recursos humanos.
A minha grande paixão, em termos académicos, nunca foi nenhuma dessas áreas, mas arquitetura. Isso espelha um pouco a minha pessoa. Em tudo o que faço, sou muito competitivo e gosto de aprender com quem sabe, para fazer bem feito. Até determinada altura posso ser autodidata, mas chega a um patamar em que percebo que se tem de recorrer a quem sabe.
DL: Como surgiu o desporto na sua vida?
Sempre estive rodeado de atividades desportivas. No caso do voleibol, não me recordo como surgiu. O meu pai fez carreira profissional no exército, como músico. O exército, já naquela altura, tinha a tarde desportiva. Ia com o meu pai e fui vivenciando aquela atividade. Sempre estive muito próximo das atividades físicas, bastante pelo acompanhamento do meu pai. O meu pai, para além da atividade no exército, sempre esteve ligado a outras modalidades desportivas e sempre foi uma pessoa muito ativa.
A determinada altura, tive de fazer escolhas. Toda a gente me conhece pelo voleibol, mas antes disso estive ligado ao atletismo e aos 11 e aos 12 cheguei a ir a provas nacionais. Num ano, fui vice-campeão de salto em altura e no outro fui vice-campeão de arremesso de bola. Antes do atletismo, estive no futebol e fui federado. Para além disso, ainda hoje jogo golfe. Também já joguei ténis, padel e desportos de raquetes.
Considero-me uma pessoa do desporto, bastante competitiva naquilo em que me meto. Tive a felicidade de, dentro da minha carreira do voleibol, poder experimentar outros desportos e ter outras vivências.
Hoje em dia, jogo muito menos do que jogava há cinco ou 10 anos. O que tenho como requisito é, dentro das atividades que faço, tentar tirar o máximo de prazer.

“Para além de tudo o que o desporto nos dá em termos materiais,
CARLOS SILVEIRA
a parte das relações humanas tem um peso muito grande”
DL: Foram muitos anos como jogador federado, tendo passado por vários clubes, nacionais e estrangeiros. Conseguiu mais de 100 internacionalizações e seis títulos de campeão nacional. Conte-nos sobre a sua carreira profissional no voleibol.
Como federado, joguei vólei até 2021, até aos 46 anos. O meu primeiro clube federado foi o AA Alunos. Devia ter cerca de 11 anos. Depois transitei para o Vólei Clube, onde iniciei a minha carreira enquanto sénior. No ano antes de ir para o continente, joguei nos seniores no AA Alunos em 1992/93. No ano seguinte fui para o Sporting, onde fiquei só um ano. Depois estive nove anos consecutivos no Castelo da Maia, tendo voltado a São Miguel, ao AA Alunos, durante um ano.
Fui para o estrangeiro e a experiência foi bastante boa. Estive no Chipre, durante três anos. No meu primeiro ano lá fomos campeões e no segundo ganhámos a Super Taça e a Taça. No terceiro ano, só ganhamos a Taça. Depois desse desafio, fui para a segunda divisão francesa, para o GFC Ajaccio, num projeto onde o objetivo não era ganhar, mas disputar o título. Ganhamos o campeonato e subimos à primeira liga.
Depois recebi uma proposta do Clube K, para me inserir naquele projeto a longo prazo.
No Clube K houve momentos muito bons, acima das expectativas. Por fim, acabei por sair, em 2018. Foi na altura em que criei a Academia Carlos Silveira. Nesse ano, também joguei em Santa Maria, nos Marienses. Entretanto, fui novamente convidado a voltar ao Clube K, como atleta, na época 2019/20 e aceitei e fiz parte também da equipa técnica.
DL: Que balanço faz da sua carreira enquanto jogador federado?
O balanço é muito positivo, porque me deu oportunidade, no auge da minha carreira e capacidade enquanto atleta, de jogar com e contra os melhores do mundo daquela altura. Tive também a oportunidade de criar amizades, de várias zonas do mundo, que ainda hoje se mantêm. Para além de tudo o que o desporto nos dá em termos materiais, a parte das relações humanas tem um peso muito grande. Pra mim, isso é o que tem maior valor.
DL: Sobre a Academia Carlos Silveira, como tem sido a evolução deste projeto?
Na época de 2020/21 tínhamos apenas um escalão, de sub-12. No pós-covid, demos continuidade, com um universo de 12 atletas, mas no ano a seguir já tínhamos quase 30, em 2021/2022. Hoje temos 70 atletas. Foi sempre a crescer. Agora só temos feminino. Para o masculino temos procura, mas não temos enquadramento técnico. Não há técnicos na ilha. Também é preciso arranjar espaços para treinar e não há. Neste momento temos um problema muito grande em termos de instalações. Há muita procura, mas não há um parque desportivo que consiga alocar toda a procura. Não temos a atividade toda concentrada em apenas um pavilhão.
Temos também uma atividade, para os pais, uma vez por semana, que surgiu por interesse dos próprios pais, para promover o convívio entre eles. Nas atividades que promovemos, temos cerca de 100 pessoas a participar, no total.
Temos um projeto: criar instalações próprias. No entanto, neste momento não temos capacidade financeira para financiarmos totalmente o projeto.
Nesse projeto temos uma visão macro, em termos da envolvência do que é que pode ser a academia, ou seja, pretendemos ter um espaço para a atividade base, que é o voleibol de formação, e que tenha também uma área social, que permita, não só os atletas, como as famílias, poderem ter uma zona de convívio. O ideal seria depois surgir o complemento, em que os pais possam desenvolver atividade física, enquanto as filhas estão a praticar vólei.
É um projeto que não depende só de nós, depende também da abertura de municípios e do tecido empresarial. Neste momento, sou treinador da equipa que deu origem à academia.
DL: Como observa o atual panorama do voleibol nos Açores?
O vólei está numa situação que considero de transição. Temos bastantes clubes e praticantes. Face a esse crescimento, neste momento existe um desfasamento entre a procura e aquilo que os clubes têm capacidade para oferecer, seja em número de treinadores, seja de espaços para praticar. Estamos numa situação problemática, mas desafiante. Se tivermos capacidade de ir solucionando esses problemas, podemos elevar o nosso patamar competitivo. É preciso não desistirmos e construirmos uma envolvência à volta da modalidade que seja sempre construtiva.