
Alexandra Manes
É setembro e vestimos o amarelo. Durante algumas semanas, aborda-se a saúde mental, partilham-se frases nas redes sociais, defende-se a prevenção do suicídio e repete-se que é necessário acabar com o estigma. Depois, vem outubro e voltamos à normalidade.
Embora “Setembro Amarelo” seja um alerta para a saúde mental, não esqueçamos que esta doença, não é uma campanha sazonal, que não se adoece apenas em setembro e que não se previne nem se cuida apenas durante um mês.
O verdadeiro teste começa quando estamos perante uma pessoa que está triste, ansiosa, cansada, que repete a mesma história vezes sem conta e que, simplesmente, não consegue fingir que está tudo bem. Nesse momento, demasiadas vezes, a linguagem muda. De repente, essa pessoa é “tóxica”, “negativa”, “dramática” e, embora a narrativa seja a de que é importante falar, surge o afastamento quando ela fala demasiado. Dizemos que ninguém deve sofrer sozinho, mas cansamo-nos de ouvir quem sofre há demasiado tempo, não faltando a afirmação particularmente cruel: “Não se cura quem não quer.”
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 727 mil pessoas morreram por suicídio em 2021, relembrando que o estigma e o silêncio continuam a dificultar a procura de ajuda. Nos Açores, esta realidade é particularmente preocupante. Dados apresentados em 2025 apontam para uma taxa de 14,7 suicídios por 100 mil habitantes, face aos 8,9 no conjunto do país, revelando uma realidade que não permite que o problema seja tratado como uma estatística distante.
Falar de saúde mental não pode significar apenas falar de doença. Temos de falar das condições que a podem destruir: solidão, pobreza, baixos salários, precariedade, assédio moral, ambientes de trabalho tóxicos, sobrecarga e também o peso de cuidar de familiares idosos.
A OMS e a Organização Internacional do Trabalho estimam que a depressão e a ansiedade estejam associadas à perda de cerca de 12 mil milhões de dias de trabalho por ano, alertando, ainda, para riscos psicossociais como cargas de trabalho excessivas, comportamentos negativos e ambientes que provocam sofrimento.
Por isso, quando discutimos produtividade e baixas médicas, seria prudente questionar: quanto da baixa produtividade resulta de pessoas que estão doentes e quanto resulta das condições em que trabalham? O que aconteceu? Quantas “facadas” foram infligidas antes de alguém chegar à situação de não conseguir trabalhar e se deparar com o abismo?
Atualmente, assiste-se à suspeição de pessoas doentes e de especialistas que se tornaram no elo mais fraco, numa Região com dificuldade em captar profissionais e que apresenta uma taxa de suicídio alarmante. No entanto, garanto que o único fingimento da pessoa doente é o de estar bem e que a mesma não está a fugir ao trabalho, mas, sim, literalmente, a tentar recuperar para conseguir voltar a trabalhar e a viver.
Relembrando que a doença mental não escolhe idades, profissões e cargos, ressalvo a importância de se interrogar acerca do ambiente laboral; se as pessoas têm salários que lhes permitam viver; se quem cuida de familiares tem apoio; e se quem adoece psicologicamente encontra tratamento, compreensão e tempo para recuperar.
Devo a vida ao Serviço Regional de Saúde e às especialidades que não desistiram quando eu já o estava a fazer. Sou-lhes muito grata. Mas deixo o alerta: setembro pode ser o mês em que falamos mais alto sobre saúde mental, mas a prevenção começa muito antes. E, sobretudo, continua depois de setembro.
Setembro começa em janeiro e a reflexão que proponho é: o que se permite nos outros onze meses?

Alexandra Manes
Açoriano Oriental de 10 de agosto, notícia de primeira página: “Mulheres participam mais no setor cultural, mas mandam menos.” Uma novidade que só o foi para quem ande alienado. O estudo anunciou o que já sabíamos. Só que há muito mais para se dizer sobre essa cultura, e sobre quem a gere. Até porque, no caso açoriano, quem deveria estar a pensar nas políticas de gestão cultural são mulheres várias, nomeadas para tal função.
O que é preciso, para começo de conversa, é bom senso. Considero-me uma pessoa solidária, principalmente na luta pela igualdade, seja de género ou do que quer que seja, mas não posso em abono da verdade branquear a realidade. As que atrás referi são responsáveis pelo cenário atual, no que concerne à Cultura. Nunca, em cinquenta anos de governos sucessivos, vivemos um tempo tão nefasto para a Cultura.
Veja-se a mais recente pantominice dos nossos governantes insulares. Em resposta a um requerimento que questionava acerca dos muitos investimentos que foram prometidos para 2026, na Cultura, e que ficaram pelo caminho. É que, tanto quanto sei, foram dezenas de candidaturas ao investimento do RJAAC que obtiveram notas altas, com apreciações discriminadas e elogiosas, e foram cortadas. Talvez que a lápis azul, nalguns casos. A história o dirá, se ainda houver história depois da atual política de gestão patrimonial.
O que sabemos agora, pelas palavras do Governo Regional, é que não havia dinheiro para pagar todos os investimentos aceites. Mas isso foi tornado público bem depois de terem enviado as notas boas e os elogios rasgados. Meses depois. Largas semanas volvidas, de trabalho feito pelos/as agentes culturais, criando redes de contacto, promovendo o arquipélago, trabalhando com as comunidades, para agora saberem que tudo o que fizeram já estava condenado à nascença. Provavelmente, a senhora Secretária e a sua equipa sabiam. Mas deixaram a casa arder.
Não perderei tempo a esmiuçar os anúncios em torno dos investimentos financeiros no Conservatório de Ponta Delgada, que serão feitos na sombra desta falta de apoios culturais no resto do arquipélago. Nem valerá muito a pena voltar ao tema da Capital Portuguesa da Cultura e de quanto se gastou para tapar os imbróglios que nos trouxeram até aqui. Nem tão pouco, dos mais de noventa mil euros para a Igreja de São José, em São Miguel. Todavia, importa falar ainda de um assunto que está a ter pouca atenção.
Atendendo ao facto de que metade dos contratos não se encontram disponíveis, na plataforma, e que os que estão, apresentam dificuldades sistemáticas na submissão depois de assinados, tudo indica que a Direção Regional da Cultura se prepara para cancelar o período de candidaturas ao RJAAC, passando-o para janeiro do próximo ano. O que significa, considerando os prazos habituais de resposta, que a maioria dos/as agentes culturais só saberá se teve direito a alguma migalha lá para agosto de 2027, com a maior sorte possível. Passando-se mais de metade do ano da descoberta dos Açores. Passando-se mais de seis meses sem saber se terão sustento, quanto mais cultura para abastecer o coração negro de quem os quer negar existência.
As mulheres mandam menos do que deviam na cultura. Mas, infelizmente, as que mandam, ficam aquém das expetativas. Deixo um apelo para que se faça uma greve geral na Cultura. Uma greve a sério, com impacto significativo, para que quem olha de cima para baixo possa finalmente perceber que as e os agentes culturais do nosso arquipélago são gente.

Alexandra Manes
Já escrevi acerca do facto de vivermos tempos de escárnio e maldizer sem precedentes, devido às potencialidades das redes sociais. Sempre que alguém acorda com uma indisposição, é a sanidade coletiva que sofre com os humores do reino.
Todavia, há momentos que continuam a surpreender, pela forma como somos confrontados/as com o que algumas pessoas chamariam de ‘escasso’, que é como quem diz infelicidade de pensamento.
Conheço Joel Neto de forma periférica. Nos últimos anos, aproximamo-nos, fruto de uma amizade e respeito que cresceu pelas posições que assumiu, enquanto acérrimo defensor de mais bom senso junto dos/as governantes da direita nos Açores. Com o tempo, o jornalista e escritor tornou-se num dos pilares do combate ao conservadorismo que cresce entre nós. Sem receio, nem rodeio, chateou amizades antigas e enfrentou poderes vigentes. Pelo meio, ainda houve tempo para ajudar a criar uma das mais importantes estruturas culturais da Região, na Lar Doce Livro.
Por isso mesmo, o primeiro conselho deste texto é para o Joel. É um alerta de que a página de Wikipédia de seu nome está desatualizada. Não só não refere o aumento do número de membros da família, como também afirma que integra o Conselho Regional de Cultura, algo que, tanto quanto me é possível saber, não é verdade.
É que Joel Neto foi parte integrante do começo dessa estrutura, e foi também voz de recomendação nesse setor, em vários momentos da história das nossas ilhas. O reconhecimento veio pelas mãos de quem o afastou, e tentou sanear e censurar, pelas mãos que manuseiam o Palácio Bettencourt, e pelos sussurros das sombras que ali habitam. Foi retirado do Conselho de Cultura, e há até quem diga que houve tentativas de remover os seus livros de lugares-chave da nossa praça.
Nesse mesmo comprimento de onda, voltou recentemente a ser alvo de uma campanha concertada de ataques e escárnios, frequentemente provenientes de vozes que respeito e sei serem melhores do que isso. Nas redes sociais, a crueldade das palavras agravou-se e os espinhos das frases feitas atingiram, em toda a linha, uma família, um homem livre e uma boa vontade de denunciar a injustiça.
Conheço bem algumas das pessoas que agarram a lança que nele se espetou. Transformo-me conselheira, para deixar uma mensagem clara. Este não pode ser o caminho. Nem de quem governa, nem de quem quer governar. Nunca poderá um governante atacar um governado, de cima para baixo, ainda mais quando resulta do ato de assumir as dores de quem, oportunamente, pode espetar a lança no governante.
Voltaire falou, um dia, da impunidade dos tiranos e da mediocridade dos que se fingem inocentados. Sousa Lara, atual ideólogo dos salazaristas, ficou na história pela perseguição infundada que fez no tempo em que era Secretário, ao escritor que foi depois prémio Nobel, José Saramago. D. Duarte, rei quatrocentista, escreveu o Leal Conselheiro para nos avisar sobre a ética, a moral e a falta delas nos corredores do poder.
O conselho, portanto, não pode ser outro senão o do bom senso. Já muito se falou. Se queremos unir o arquipélago nos dias e nas efemérides que se seguem, é preciso afastar desleais conselhos e pensamentos artificiais que nos prejudiquem.
Qualquer outra possibilidade terminará numa terra de cegos. Ainda há tempo para deixar de lado os rancores. Citando Jénifer, ou a Princesa de França: “Numa ilha, as coisas esquecem-se mais depressa.” Que saibam esquecer a guerra, para trabalhar a paz.

Alexandra Manes
9 de junho. António José Seguro deu um passeio coreografado pelas ruas de Angra e da Praia, com sorrisos largados, abraços pontuados. Acompanhou-se pelas presidentes de Câmara, pela chefe de gabinete, pela Margarida (que nunca será primeira-dama) e pela representante da República. Foi ao Basílio Simões tirar fotos com a Dona Serafina. Falou com a Sandra Serpa da Olhar Poente, com atenção e preocupação. Esteve na Avós por Linhas e Travessas, a conversar e a ouvir. Tomou chá com Mota Amaral, na mesa preparada pela Soraia e acompanhado pela Dona Helena.
Foi um dia histórico para a Terceira, e um dia de homenagem aos Açores, devidamente feita entre o povo, o primeiro dia de Seguro como presidente do afeto insular, terminando a noite na Livraria da Marta e do Joel, onde Margarida Maldonado decidiu ficar de pé, e dar a sua vez, porque não precisa sentar-se ao lado do marido para existir. Provavelmente, sem se aperceber, um dia dedicado à mulher. Seguro não o referiu, mas quem viu de fora, reconheceu a postura oposta ao machismo primário de Rebelo de Sousa, nos comentários aos decotes, e outras tolices. Seguro retomou uma tradição de outros tempos socialistas, em que as esposas deixaram de ser luz de cabeceira para terem voz ativa. Lembro Maria Barroso ou Maria José Ritta.
10 de junho amanheceu com nevoeiro, para que pudessem conhecer bem a realidade insular. Só lhes faltou rumar às Flores, para perceber o que é ser Bruma. O dia prosseguiu com a chegada do primeiro-ministro e de outras figuras que vieram aparecer nas câmaras. Mas, há uma diferença a assinalar. Miguel Monjardino embalou a vocação marítima de Portugal, sem cometer o erro saudosista de usar a mensagem pessoana para tapar o sol com a peneira. Antes pelo contrário. Miguel foi assertivo na sua narrativa de que o passado é uma ferramenta, que devemos estimar com cuidado, e utilizar para combater os adversários da liberdade e da democracia. Reforçou-se com a baía de Angra do Heroísmo, e a arqueologia subaquática, numa clara alusão ao Museu Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, que o povo açoriano já reivindicou através de uma petição pública.
Foi essa a estruturante e decisiva linha de pensamento do 10 de junho em Angra do Heroísmo. Não foi um corta-fitas. Foi um trampolim para o futuro do arquipélago e de Portugal. O século do Mar, conforme Miguel Monjardino lhe chamou, reconhecendo assim que o papel destas ilhas deve ser o oceano, e não as múltiplas e erradas tentativas de fazer delas porta-aviões dos americanos. Tomando o exemplo do Museu Nacional e da Arqueologia, o que ficou subentendido foi a necessidade de apostar nas ciências, sejam elas humanas, sociais, naturais ou formais. O século do Mar pode ser o século dos Açores e da sua verdadeira autonomia, porque somente quando reconhecermos que é o mar que nos dignifica poderemos virar costas às mentalidades que querem importar de outros mundos, e cumprir a nossa verdadeira açorianidade.
Seguro complementou com um discurso mais poético, necessário para equilibrar a verve reformista e progressista que o antecedeu. A visita presidencial prosseguiu. Ladeada por mulheres de relevo. Coroada pelo espírito da missão marítima que nos falta abraçar. Episódio caricato foi o de uma mulher se aproximar de Seguro para tirar uma foto, pedindo a Aguiar Branco, que ali se encontrava, para o fazer, como se ele fosse um assessor presidencial. Foi preciso vir aos Açores, e conhecer a mulher açoriana, para descobrir um trabalho que lhe fica bem.

Alexandra Manes
No mesmo ano, em que se comemoram os 50 anos da nossa Autonomia, celebramos os 50 anos da Universidade dos Açores, uma conquista da Democracia e da Autonomia, da qual é essencial destacar o seu papel determinante para a nossa região, bem como a excelência do seu corpo docente, cujo seu maior desafio se prende com o carácter da sua tripolaridade.
Ao longo das últimas décadas, assistimos ao esvaziamento do Polo de Angra do Heroísmo com a saída de cursos como o de Educação Básica e seu mestrado e o de Gestão, este último bastante contestado. O de enfermagem, vai resistindo… Pelo Faial, houve a possibilidade de o curso de Ciências do Mar ser deslocalizado para Ponta Delgada, mas, devido a questões óbvias e à luta de docentes e investigadores(as), resistiu ao processo de contenção de custos e está onde deve estar e que, embora com pouco, produz Ciência reconhecida a nível mundial.
Foi neste contexto de celebração, que fui alertada para a realidade, que afeta a vida de muitas pessoas, mesmo sendo facilmente varrida para debaixo do tapete quando é tempo de discursos e frases feitas. Numa Região, cada vez mais dividida, há atitudes e estratégias de gestão que se refletem na falta de coesão, e que são menos notadas, todavia, igualmente sentidas pela população residente. É importante que se assuma o facto de que, de forma sistemática e propositada, a academia insular parece ter esquecido a sua raiz tripartida, cimentando-se em torno de um modelo de centralização, anacrónico, que não pode ser ignorado.
Na verdade, em pleno séc. XXI, com ferramentas proporcionadas pela evolução tecnológica, a Uaç contraria a coesão que se exige num território descontínuo e disperso, pela falta de resposta consistente no E-learning, impossibilitando a frequência, por exemplo de Mestrados, a pessoas de outras ilhas. Bem sei que esse impedimento resulta, não somente da concentração de respostas em Ponta Delgada, mas, também, da exigência de regras de acreditação de cursos oferecidos nessa modalidade pela agência A3ES. No entanto, cedemos a essas dificuldades ou esforçamo-nos para ultrapassar esse obstáculo?
Susana Mira Leal foi reeleita por maioria, por lista única. A nova e antiga reitora voltou a sublinhar querer diversificar e descentralizar a instituição, com maior abertura de cursos e modalidades digitais e híbridas. Só que bastará a qualquer possível aluna ou aluno uma breve consulta das normas institucionais e regulamentares em vigor, para perceber que uma boa parte do funcionamento da UAç vive impedido de funcionar à distância. Qualquer pessoa adulta, sob o Estatuto Trabalhador-Estudante, que almeje realizar um mestrado ao longe, terá que se preparar para duras provas.
Claro que restam sempre hipóteses funcionais para quem segue a teoria do empreendedorismo sem razão. Demissão e alterar a residência fiscal, seguir os percursos académicos da Aberta, ficando limitados às respostas. Ou não estudar, e deixar-se estar caladinhas e subservientes, que é como o sistema gosta. A decadência deste modelo é mais uma prova silenciosa do estado a que este Estado chegou. Vivemos a medo, sem saber como avançar, sempre retidos por algemas invisíveis, da centralização, do capitalismo e do absurdismo de aceitar que a aposta na valorização académica é só para algumas pessoas. Quebrar o ciclo da pobreza estrutural dos Açores passa pela Uaç, mas não podemos aceitar que para a frequentar, sejamos potenciais números nas estatísticas da pobreza.

Alexandra Manes
Hugo acordou e abriu as persianas. Recebeu uma mensagem do patrão que informava que naquele dia ia fazer mais três horas, dentro do banco de extraordinárias. Estava perto do final do ano e ainda não tinha cumprido as 150 horas extra que a empresa aprovara, sem a autorização expressa dos trabalhadores. Quem se recusar já sabe: “a porta da rua é serventia da casa”.
No andar de baixo do prédio, Rosário passara a noite em branco. Roía as unhas, até à pele, enquanto pensava no que ia dizer naquela entrevista de emprego que estava programada para daí a duas horas. Uma oferta rara naqueles dias. Um contrato a prazo, sem qualquer regalia, e com a possibilidade de terminar a meio, se a patroa o entender. Mas, como Rosário estava a entrar no mercado de trabalho, as suas opções estavam limitadas a ofertas daquele género. Era isso, ou escravatura. E ela roía as unhas, na dúvida sobre qual a melhor tortura.
Do outro lado da cidade, numa casinha pequenina, com o telhado a cair e manchas de humidade, o casal Esteves discutia de forma acesa. Carla tinha descoberto que o Luís tinha sido despedido e não lhe tinha dito nada. Quando confrontado, desatou a chorar e admitiu que tinha ido para a rua. A empresa mudara de política interna. Fora substituído por um computador. E ainda lhe disseram que era justa causa. Carla não podia acreditar. Tal coisa não poderia ser verdade. Não viviam num mundo desumano assim, pois não?
Aquela manhã chegara a Portugal, e não veio pela calada. Veio vestida com nuvens cinzentas e pacotes apresentados pela Spinumviva, com a validação dos amigos que já não são nem do centro, nem cristãos. Não esquecer os sanguinários partidários da filosofia de Milei, capazes de explorar tudo para justificar vidas humanas com números imaginários. E, claro, sentados nas sombras, a aplaudir, estavam os senhores do ódio. Aqueles que se arrogam de serem machos, mas que deixam o cravo afrouxar e morrer nas suas mãos.
Chamaram-lhe, eufemisticamente, pacote laboral. Uma medida de marketing, certamente patrocinada pela consultadoria de uma empresa digna de futuro primeiro-ministro. Na verdade, é a sangria do povo. Uma última investida junto dos direitos que conquistamos há mais de cinquenta anos, a ferro e fogo. É uma armadilha e uma morte anunciada para o que resta dos pobres e remediados em Portugal. Montenegro está disponível para assinar este acordo com os grandes senhores do patronato, desde que lhe garantam um lugar na mesa, em anos vindouros. Um acordo miserável, parafraseando o outro que acha que a Revolução é brinquedo.
Quando celebramos as datas que andam por aí por estes dias, não se trata de um apagar de velas, e de um sorriso acéfalo. Honrar o 25 de abril e, principalmente, o 1 de maio, é levar a luta para a rua. O país está à beira de acordar com mais horas de trabalho e menos direitos para a classe operária. Mais cego, é quem não o quer ver. Eles estão a aproveitar esta luta para destruir o que resta do sindicalismo. E mais cego é quem ainda não vê. Estamos condenados a cair, mas não precisamos de nos deixar ficar no chão. Juntem-se, este ano, e sempre que for necessário. Marchem junto às casas dos ministros. Não se calem em frente aos fachos e aos patrões. Somos seres humanos. Mulheres e homens com direitos. Obriguem-nos a temer a realidade que não querem que se saiba: o povo é soberano. E o povo tem fome de viver.

Alexandra Manes
Aos Açores compete ter a noção mínima e não aplaudir aqueles que põem o mundo em chamas só porque depois aparecem com um balde. Assim deve ser, em qualquer contexto, mas neste momento particular da nossa tímida história, talvez seja importante falar às claras, citando a coragem dos nossos vizinhos ibéricos.
Neste caso, é sobre a emboscada à SATA, o assunto da Ryanair e do Subsídio que agora é Mecanismo, que escrevo. Após anos de péssima gestão e de empurrões sucessivos, em nome de problemáticas constitucionais e integridades territoriais, voltamos, mais ou menos, à estaca zero, com o acréscimo de termos perdido mais umas quantas valências associadas à nossa acessibilidade. O Governo Regional é, em primeira instância, o grande culpado, e os partidos que o sustentam não possuem qualquer legitimidade para se fustigar, por terem tentado interromper a enchente a meio da inundação que criaram.
Na verdade, e contrariamente à realidade da Madeira, o caso açoriano, ao abrigo da extrema bem direita que o sustenta, foi preparado propositadamente, para que se possam manobrar negociações entre o setor privado, o semipúblico e o grande buraco que lhes interessa que cresça. Para a governança neoliberal da Secretaria das Finanças, que anda de mãos bem dadas à Senhora Secretária da Mobilidade “Só Para Alguns”, a realidade que almejam criar é cada vez mais evidente.
Está é cada vez mais selvagem. Mas os neoliberais continuam a achar que o conseguem domar, até porque normalmente quando se afastam dos cargos há uma posição a abrir na direção das empresas e fundações de amizade do peito.
A realidade é esta: a SATA é um problema alimentado pelas forças mais conservadoras da sociedade civil açoriana, que se entrelaça partidariamente.
A SATA é um problema porque querem que seja, da mesma maneira que o Subsídio de Mobilidade só levantou comichão quando foi preciso usar o umbiguismo institucional do centralismo lisboeta para escudar os erros a nível local. Lisboa, claro está, responde sempre ao repto de nos oprimir. Mas isso não pode legitimar os partidos açorianos, que agora surgem de balde na mão, para apagar uma parte ínfima do fogo que vão ateando na Região.
A acessibilidade não pode ser a bandeira de governos que, sistematicamente, se vão esquecendo de partes dos seus territórios. De pouco ou nada nos serve a organização de encontros e eventos na ilha das Flores, quando as estimativas mais simpáticas apontam para anos de trabalho até que volte a ter uma operacionalidade mínima no seu porto comercial. Apregoar aos sete ventos as virtudes do setor espacial em Santa Maria não servirá para nos fazer esquecer os barcos que para lá deixaram de operar, ou as milícias políticas que continuam a destruir a sua sustentabilidade orçamental interna.
A reconquista de algumas das coisas boas que o Subsídio nos trazia, limitando-se essencialmente a repor o que já antes acontecia, é apenas um placebo para a população, e uma forma de granjear alguns votos, principalmente para os que temem perder o seu lugar. A remodelação está ali à espreita, e as facas serão longas. Não haverá Mecanismo que salve da incompetência.
Termino, relembrando a data histórica de 1974, a qual Sophia Andresen tão bem nos descreve “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo“. 25 de Abril, sempre!

Alexandra Manes
Por estes dias, recebi um pedido para assinar uma petição pública defendendo a continuidade da Hora do Conto, na Biblioteca Pública e Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro. Muitas das pessoas que lerem este texto também terão recebido. Assumo a incredulidade só com o título. Então não há dinheiro para pagar uma hora do conto?
Foi um susto passageiro. Agravou-se rapidamente. É que, como muitas e muitos açorianos, eu também tenho ouvidos nos corredores do Palacete Silveira e Paulo. E não são os ouvidos que as teorias da conspiração podem fazer crer. São ouvidos discretos. Em todos os sentidos da palavra. O que me chegou foi a informação, já desmentida, numa breve resposta ao Diário Insular, mas que me parece bater certo com este cancelamento da Cultura. A nova diretora regional, depois de ter demorado meio semestre a tomar posse, reuniu as suas chefias para informar que, em 2026, não há dinheiro. Sim, leram bem. Este ano, as bibliotecas e museus da Região vão congelar muitos dos seus planos de atividades, algo que, perante o Diário Insular, a Secretaria se escudou de confirmar… ou desmentir.
Comecei por pensar que poderia ser um ato performativo, estilo instalação artística, a modos que invisível, para celebrar os 50 anos da Autonomia e a efeméride da Capital Portuguesa da Cultura. A nossa liberdade permite que nada façamos! Algo assim, meio para o abstrato. Mas não. É informação transmitida em nome da Senhora Secretária, que nem esteve na reunião. Não há dinheiro para a Cultura. Outra vez. E desta vez nem o arroz escapa. Prato vazio para quem quer usar os nossos serviços externos para representar o arquipélago.
Agora, entendo a “fuga” da anterior diretora da cultura, provavelmente por antever a crise profetizada. Não se esperava era que fosse desta dimensão. Ao que é possível apurar, junto de quem de direito, os diretores e as diretoras estão de cabelos em pé. Dezenas de fornecedores de serviços, alguns deles apalavrados e outros com compromisso firmado, receberam nota de cancelamento. Entre eles, a hora dos contos infantis na biblioteca de Angra. São as crianças que perdem. Os adultos. Os turistas. Segundo consta, a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo já terá indicado a sua disponibilidade para assegurar a manutenção da Hora do Conto, resolvendo mais um imbróglio da ineficácia governamental. Assim o espero. Caso contrário, fica tudo ao abandono, como se fosse um cenário de guerra ou uma autoestrada depois do rio galgar. Esta é a política do governo de Bolieiro, secundada pela extrema direita e validada pela atual diretora e pelas suas chefias diretas, que nada fazem para apaziguar as direções dos museus e bibliotecas. Cancelem. Esqueçam. A cultura agoniza. Tal como num conto infantil do século passado, são os vilões de cinema que se levantam para nos engolir. Deixo um abraço solidário a quem trabalha na Direção Regional da Cultura e não tem culpa de nada. Querem fazer, mas não vos deixam. Eu sei. Desejo-vos força e resiliência. Tal como nos contos infantis, um dia esta sombra irá passar. Bem que há abaixo-assinados a pedir o regresso de D. Sebastião. Até lá, é aguentar.
Já agora, talvez fosse interessante conhecer a distribuição das verbas orçamentadas entre o Teatro Micaelense e as restantes ilhas, no contexto regional, após os cortes transmitidos.

Alexandra Manes
A democracia morre na escuridão. É esse o lema que permanece na montra do afamado jornal The Washington Post, e que simboliza aquilo que melhor representa o espírito livre do jornalismo. Na prática, o Post é agora o braço armado do bilionário Jeff Bezos, que controla a sua linha editorial de forma inflexível. Com a ascensão do ditador Trump à Casa Branca, e a queda das máscaras dos oligarcas americanos, o jornal passou a assumir uma postura clara, contra quem é adversário do dinheiro, procurando sempre favorecer os interesses do senhor do novo fascismo que agora emana das sedes do poder, nos Estados Unidos, para o resto do mundo.
A democracia morreu, às claras, e ninguém a conseguiu salvar. Lá. E cá? A realidade é inevitável, mesmo que continue a surpreender os mais distraídos desta vida, quando escutam debates e procuram soluções impossíveis de encontrar. Portugal, tal como o resto do mundo, segue a rota de colisão dos americanos. A polarização alcançou proporções monumentais e é agora quase impossível voltar ao que era dantes. Assim, o nosso país corre o risco sério de ser governado por um salazarista convicto, apoiado por neonazis e outros que tal, nos próximos dez anos, se não o for já agora, com as presidenciais de domingo, dia 8.
E o que é que isso tem a ver com o Washington Post? Quase tudo. Nos últimos tempos, graças ao esforço dantesco de algumas personalidades da nossa praça digital, conseguimos apurar a quantidade de vezes que o Ventura foi entrevistado. Às vezes, estão a transmitir uma conversa com ele, em direto, enquanto em rodapé vai passando mais informação sobre o seu gangue de alegados criminosos, e nos jornais de tiragem em papel, aludirem à sua ascensão e suposta inteligência. Quem o ouve com mais atenção sabe que ele não é tão brilhante como o querem vender. Mas, isso não interessa. O que vende é a polémica. O imediatismo. A luz dos holofotes jornalísticos que esmaga a democracia com mais força do que alguma escuridão poderia imaginar.
Já não me restam muitas dúvidas acerca do futuro estatuto de primeiro-ministro de Ventura. Espero apenas que seja como o primeiro mandato de Trump, e que o consigamos impedir de alcançar o segundo. Entristece-me ver como a comunicação social foi transformada, de pilar da democracia para instrumento deste novo poder, que joga com as regras velhas do absolutismo e dos salazarentos dossiers do dinheiro. Aprofundo a minha depressão ao perceber as ameaças que sofre o jornalismo. Problema profundo, com raízes nas dificuldades da periferia, aprofundadas pelas crises e finalmente cimentados em regras e estatutos que promovem o imediatismo e combatem a reflexão de acalmia.
Assim, resta-me apelar a que continuem a pensar pela sua cabeça e desconstruam as mentiras virais. A partir de hoje, serei mais concisa na minha opinião. Três mil e quinhentos caracteres. Eu respeito a lógica e reconheço o esforço hercúleo da comunicação social escrita na manutenção de espaço para as reflexões, mas aborrece-me a ideia de que só posso escrever dentro de uma baliza. A democracia morre, em jaulas. Esperemos que não seja o caso. E, no domingo, não se esqueçam de votar, e de votar com democracia, luz e humanidade, porque hoje são garrafões de água, mas futuramente sabemos nós se teremos acesso ao copo de água?

Alexandra Manes
8 de janeiro, mais uma novidade desastrosa que nos atinge como um murro, proveniente da terra outrora arrogada de Liberdade e prosperidade para todos e todas. Numa operação especial, que poderia ser de Vladimir ou Kim, mas foi antes promovida pelo companheiro de carreira ditatorial, Donald, a polícia política do ditador avançou para Minneapolis e disparou, a sangue-frio e sem motivo evidente, contra uma mãe de família.
Bem sei que, ao lerem estas linhas, reconhecerão a factualidade das mesmas, sem que seja preciso que as elenque, novamente. Mas, importa chamar os bois pelos nomes, e os fascistas pelos crimes. O que se passa nos Estados Unidos, com uma crescente e gritante impunidade, é fascismo na sua forma mais pura, decalcada do projeto primeiramente preparado por eles, e agora executado pelos seus lacaios.
Regressemos a uns meses atrás, quando o Projeto 2025 começou a ser implementado, com alguma vergonha e pudor, cavalgando a onda de violência que se foi levantando, incentivada pelas redes sociais, contratadas pelos financiadores de Trump. Por essa altura, o caminho ainda era feito entre pessoas com alguma fibra moral, e lacaios sem compaixão. Havia meios termos. Aparente esperança, para as pessoas que nunca leram livros de história, ou pensaram para lá do seu pequeno mundo.
Só que Trump está muito velho. Literalmente a cair de podre, em alguns momentos das últimas semanas. E os sanguinários que escolheu para o seu gabinete sentem o sangue na água. Estão prontos para tomar o poder, e assegurar a conquista que lhes falta fazer. Não a do país, mas a da alma da Nação, que morrerá debaixo de um manto de corrupção e ganância, muito comum a estes regimes.
Ninguém inventou a roda. Nos últimos dias, o que cresceu foi apenas a falta de vergonha, potenciada pela conquista da Venezuela, numa invasão dedicada à manipulação do resto do mundo, que parece ter resultado, até certo ponto, com a conivência do regime que Maduro alimentou até à sua morte política.
Assim, voltamos ao presente, para recordar as principais personagens deste círculo do Inferno de Dante. Na Casa Branca, Karoline Leavitt e Stephen Miller, próximos do ditador, e com o ouvido dele à sua disposição. Ela é a manipuladora principal da comunicação oficial, com menos de trinta anos e uma já vasta carreira de mentiras, sustentada numa aparente e total falta de moralidade. Ele, é um monstrengo, que ao que tudo indica já nasceu assim, sanguinário e cheio de vontade de conquistar o seu próprio país.
Leavitt foi literalmente instrumentalizada por homens mais velhos, que a rodeiam há muito tempo, e que a guiaram até ao pódio da comunicação de Trump, onde ela papagueia o que é necessário, e mente a olhos vistos. O grande truque do fascismo é dizer que o azul é, na verdade, verde. E os seus apoiantes acreditarem. É esse o trabalho dela. Miller, por sua vez, é o arquiteto da destruição da paz social, que propositadamente provoca os americanos para gerar uma onda de caos inevitável, e invocar, assim, a sua polícia política para resolver o assunto aos tiros.
A juntarem-se a esses inenarráveis seres, temos de falar de Kristi Noem. A tal ICE, de que ouvimos falar, e que é a verdadeira força fascista dos americanos, na atualidade, é comandada por Noem, uma mulher desprezível, capaz das maiores mentiras para promover o discurso oficial do partido e destruir o seu próprio país. Foram esses os atores que se juntaram, com o apoio de bastidores de muitos outros, para tentar, uma vez mais, lançar a guerra civil nos Estados Unidos. Desta vez, deram mais um passo para lá da linha vermelha. A polícia política assassinou uma mulher, a sangue-frio, e devidamente filmado. A transmissão do evento, provocou o caos no país, que se revoltou contra Trump e os seus cães-de-fila. É o que eles querem. A guerra final. E possivelmente vão conseguir.
Quem morreu foi Renee Good, uma mulher de trinta e sete anos, mãe de filhos, poetisa, apaixonada por livros e pela vida. Quem a conhece, diz que nunca foi particularmente ativista, mas que se preocupava cada vez mais com o que se passava no país. Ressentia-se por viver num estado ditatorial, coisa que é perfeitamente compreensível. Foi assassinada, pouco depois de ter deixado o filho de seis anos na escola, quando observava uma das operações de destruição social promovidas pela ICE, de forma pacífica, e sem envolvimento direto na mesma.
Noem diz que é mentira. Que a inocente era afinal uma terrorista. Miller defende o assassinato. Sublinha que a América é uma Nação de força, onde manda quem tem a arma maior. E Leavitt escreve os discursos do seu paizinho Donald, apelando a que o eleitorado acredite na mentira, e veja em Renee Good uma inimiga mortal.
Karolinne Leavitt está grávida, ao que parece. Mas nem por isso se compadeceu com o assassinato de uma mãe de filhos. É essa a verdadeira face do decadente império que se vai destruindo a si próprio. É esse o resultado de séculos de desinformação e ignorância generalizada. Os Estados Unidos não são a Alemanha de Hitler. Estão mais próximos do Império Romano, que ao cair levou consigo as suas gentes, deixando apenas ruínas e estátuas para trás. De Roma, resta apenas a história da sua sanguinária existência. Dos Estados Unidos, esperemos que nada reste, quando isto terminar. É duro, mas é necessário. Renee Good, se ainda estivesse viva, imagino que conseguisse compreender.