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Açores: Entre o luxo turístico e a precariedade jovem

Beatriz Moreira da Silva

Tenho 32 anos. Vivi 12 em Portugal Continental. Por motivos de força maior regressei aos Açores. Trabalhei em alguns locais, contratos de curta duração e, até mesmo, na ausência deles.  

Colaborei por livre e espontânea vontade com jornais, incluindo o Diário da Lagoa. Foi a única “entidade” capaz de me formar, guiar e dar oportunidade. Consegui a minha carteira profissional de colaboradora de informação. É certo que foi fruto do meu trabalho, mas só foi possível pelas pessoas que o suportam. Suportam com trabalho, com dedicação, com inúmeras privações de sono. A verdade é que as notícias surgem sempre e, cada vez mais, o jornal ganha destaque, alcança objetivos e mantém-se firme, única e exclusivamente por quem o gere e pelos seus colaboradores.  

Há dez anos, em Castelo Branco, escrevi um livro infantojuvenil intitulado Uma Família Açoriana. Editado em 2025 e lançado no mesmo ano. Contou com a apresentação do Clife Botelho e da Marta Ferreira – julgo que não necessitam de apresentações.  

Engraçado! Trata-se de parte da nossa história enquanto açorianos e da Saudade.  A adesão foi maioritariamente pela sala cheia no lançamento. Questiono-me onde andam os pais? – mas este assunto já são outros quinhentos.  

Dei algumas entrevistas de leves aparições – pelo menos chegou ao continente.  

O discurso parece oscilar, mas com propósito – “A menina trabalha aqui? Mas não tinha escrito um livro? Não colabora para o jornal?”.  Questões inapropriadas, mas que merecem as minhas repetitivas respostas: Não estou rica; não me apontaram uma arma à cabeça para vir trabalhar ou enviar currículo. 

O discurso já vos faz sentido? 

O que é nosso, do nosso trabalho, da nossa dedicação é, sem dúvida, o nosso maior mérito. E é trabalho! 

Não sei como e a que ponto chegamos, mas sei que vivemos sem oportunidades. Ora temos excesso de habilitações, ora não sabemos, mas também não nos querem ensinar. Afinal querem o quê? Qual é o problema? 

Lamento que os Açores continuem poucochinhos – só para alguns. Lamento sobretudo, que a maioria dos jovens não tenha capacidade para comprar uma casa, porque os Açores destacaram-se com subidas de preços anunciados superiores a 20%, com Ponta Delgada a superar os 4.000€/m². Relembrando que a Área Metropolitana de Lisboa registou valores médios de 4.322€/m² em janeiro de 2026. 

Agora questiono: Está tudo bem?  

Recém-licenciados, não esperem uma vaga exclusivamente na vossa área, a menos que possuam património. Aos que trabalham horas infinitas na hotelaria e com retribuições de meio tostão, aos que trabalham arduamente a recibos verdes, aos artistas, aos que não vos dão oportunidade, o mundo é grande e generoso, desde que corram atrás. Talvez a ausência surta efeito.  

Os Açores já não são “o local ideal para criar filhos”, a partir do momento que se esquecem dos que cá nasceram e aqui querem permanecer.

Aos que ficam ou, pelo menos, que ainda permanecem, vamos continuar a redigir a verdade, porque o jornalismo não é um combate de egos, até porque todos temos espelhos em casa.

“«Uma família açoriana»: Acredito que serão mais adultos a precisarem deste livro, do que necessariamente crianças”

Livro da autora ribeiragrandense foi apresentado em Ponta Delgada e contou com a presença de Clife Botelho, diretor do Diário da Lagoa, e Marta Ferreira, mãe e amiga da autora que partilhou a sua história de vida e já passou por vários países

Livro infantil de Beatriz Moreira da Silva foi apresentado na livraria Letras Lavadas em Ponta Delgada © DL

A saudade é tema central no novo livro infantil de Beatriz Moreira da Silva, o primeiro da autora de “Uma família açoriana”.

“A saudade ensina-nos, o livro é a prova disso. Não se trata de ser fácil, trata-se de fazê-lo com amor e dedicação. Escrever, corrigir, ouvir muitos “nãos” fizeram parte do percurso. Ninguém acreditou mais do que eu e, sobretudo, mais do que quem cá já não está – o meu avô”, explica a autora micaelense, natural da Ribeira Grande, sobre o seu mais recente livro.

A sessão de apresentação da obra, que decorreu na Livraria Letras Lavadas, em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, no passado mês de novembro, contou com a presença da autora, do diretor do Diário da Lagoa (DL), Clife Botelho e da lagoense Marta Ferreira, mãe e amiga de Beatriz Moreira da Silva.

“Já saí dos Açores para acompanhar o meu marido em várias peripécias, aventuras que me levaram a morar no Médio Oriente com dois filhos pequenos sendo que um deles é autista. E também eles com duas nacionalidades, tal como a Violeta [personagem do livro]”, começa por contar Marta Ferreira.  

“Este livro aborda um tema muito atual que é a emigração. E para o qual toda a gente tem sempre uma opinião. Mas somente quem tem coragem, carrega uma mala com os poucos pertences e vai em busca de um futuro melhor, somente quem é audaz sabe o que é deixar o conforto do nosso lar, das nossas raízes, da nossa comida, amigos, família, da nossa casa vivermos distantes ultrapassando obstáculos infinitos e muitas vezes para um bem necessário, longe do nosso marido dos nossos filhos”, diz a amiga da autora. 

Marta vive atualmente em São Miguel mas conta que já viveu no Iraque, na Turquia, no Uruguai e no continente português. “O meu marido é jogador de futebol profissional e nós andamos sempre a mudar de país. Foi muito complicado porque o Noah tendo recebido um diagnóstico de autismo – e ele tem autismo clássico já comprovado – não foi fácil encontrar as terapias e as condições necessárias para o nosso filho. Fui para o Iraque e não achei que o país ou aquela cidade nos desse as melhores condições para o desenvolvimento do meu filho e há cerca de dois anos que eu vivo sozinha com os meus dois filhos e o meu marido trabalha no Iraque. Portanto, eu sei bem o que é saudade e os meus filhos também sabem” contou Marta Ferreira na sessão de apresentação do livro.

© DL

“Muitas vezes nós dizemos que a palavra saudade não tem tradução para outras línguas e em português temos dificuldade em explicar o seu significado mas acho que o título deste livro traduz muito bem: «Uma família açoriana». Qual é o açoriano que não tem um familiar longe ou que não passou por uma experiência de saudade?”, questiona o diretor do DL. 

E prossegue: “acho que é o que nos une a todos e faz com que estes pontinhos aqui no meio do mar tenham algo em comum. Podemos não conhecer alguns de nós aqui presentes, mas todos temos algo em comum e que será exatamente isto, a saudade por alguém. E o livro traduz isso numa linguagem adequada à idade dos nossos filhos”, considera.

“Acredito que serão mais os adultos a precisarem deste livro do que necessariamente crianças”, diz Beatriz Moreira da Silva, uma vez que “os adultos, na sua maioria, ainda estão presos a uma infância. Libertá-la e abraçá-la fará com que os nossos descendentes não sofram o peso do passado e sejam livres no futuro” considera.

E “porquê falar de sentimentos ou emoções?” questiona a autora na entrevista que deu  ao DL. “Uma criança com três anos tem cerca de 80 por cento do seu cérebro desenvolvido, não tem capacidade para saber gerir frustrações. Dar a conhecer é tão importante como respirar, portanto não nos devemos coibir de permitir sentir, demonstrar compreensão, abraçar, ficar apenas ali no chão a dar o conforto”.

E é ao filho de quatro anos e ao avô que dedica a sua primeira obra, que se encontra à venda em diferentes livrarias online e na loja da Letras Lavadas, no coração de Ponta Delgada.

Letras Lavadas acolhe lançamento do livro “Uma família açoriana”

Livro de Beatriz Moreira da Silva vai ser lançado no próximo dia 29 de novembro pelas 15 horas

© DL

O livro “Uma família Açoriana” da autoria de Beatriz Moreira da Silva, colaboradora do Diário da Lagoa (DL), vai ser lançado oficialmente no próximo dia 29 de novembro, pelas 15 horas, na Livraria Letras Lavadas, no centro histórico de Ponta Delgada. Vai ser apresentado por Clife Botelho, diretor do DL, e pela lagoense, Marta Ferreira.  

Trata-se de uma obra infantil sendo esta a primeira de Beatriz Moreira da Silva. Segundo a autora, “a saudade ensina-nos, o livro é a prova disso. Não se trata de ser fácil, trata-se de fazê-lo com amor e dedicação. Escrever, corrigir, ouvir muitos «não’s» fizeram parte do percurso. Ninguém acreditou mais do que eu e, sobretudo, mais do que quem cá já não está – o meu avô. Transcrever o que sentimos e poder partilhá-lo é a maior benção. Ninguém está sozinho. No fundo somos todos iguais”.

“Porquê falar de sentimentos ou emoções?”, questiona a autora. “Uma criança com três anos tem cerca de 80% do seu cérebro desenvolvido, não tem capacidade para saber gerir frustrações. Dar a conhecer é tão importante como respirar, portanto não nos coibirmos de permitir sentir, demonstrar compreensão, abraçar, ficar apenas ali no chão a dar o conforto. Não se trata de descer ao nível da criança, ela é que está sã e nós só temos de lhes preparar para voar, ainda que com obstáculos pelo percurso”, diz.

O livro infantil “Uma família açoriana” foi escrito em 2015, em Castelo Branco, mas só agora foi editado pela editora Flamingo. Conta a história de uma menina, Violeta, que “tem a sorte de pertencer a dois países. Nascida em Toronto mas com alma açoriana” pode ler-se na sinopse.  

O lançamento do livro tem entrada livre.

Nevoeiro

Beatriz Moreira da Silva

Enquanto não houve descanso,
o céu chorava dias cinzentos;
Seríamos nós os aplausos d’tempestade;
a conta gotas de pingas d’gente.

Talvez fosse prova d’nevoeiros,
ou trovoadas de raiva d’interesseiros;
Escassez de um nada que sempre tropeçou no mundo;
Não é assim tão estranho ser-se meio gente quando não se vê o profundo.

Enquanto não houve nada,
as estrelas sussurravam;
d’que nos pertence surgirá sempre consequente;
d’aquilo que abraçamos no escuro com a força d’que estamos seguros.

(Há)Vento

Beatriz Moreira da Silva

Quando vem o vento,
colmatados na luta da mais valia de quem derruba primeiro;
Se medir forças com o vento é ofegante como gente,
padecer de opinião alheia é esganar um ego.

Outrora falando com o vento,
na leveza de se saber ser sem parecer,
ágil na subtileza do quão gratificante é se conhecer;
Saber se abraçar e se sentir,
na força interna que nenhum vento embala mas acalma.

Ser na singularidade das coisas banais,
que o vento sustenta, acalenta e aumenta;
Como se a culpa do vento se tratasse,
ao invés d’firmeza d’que se é por mais tornados que se entoasse.

O vento nunca vai a julgamento, quando se dança a mesma valsa que em nós já é samba.

Antes que chova

Beatriz Moreira da Silva

No sobressalto d’despertador,
que já nem atinge o mau humor;
O efeito habituou-se na corrida, na pressa, no suposto atraso que está por vir;
ainda nem o toque nos acordou.

Outrora já estava na hora,
não deveríamos ir já embora?
Quebrando o pequeno almoço,
vestindo o casaco roto.

Ainda nem no primeiro pestanejo entramos,
mas já mergulhamos em prantos;
Na pressa do ir e já nos esquecemos por onde fugir,
Tal soa a correria em plena escadaria.

Já chegamos, onde estamos,
ainda nem soou aquele som irritante,
atrasados na hora a contar cada segundo;
Mal adormecemos e já pensamos nos próximos submundos.

Chega a hora de acordar,
não era já hora de jantar ?
Afinal onde estamos,
vivendo em tantos solavancos?
– já tocou o despertador e nem chegamos a pousar sob o cobertor, mas temos de ir antes que chova.

Sem fim

Beatriz Moreira da Silva

N’o amor da minha vida,
pelo meio do desastre;
Descobri que outrora já havia de ser para mim,
súbito e irreverente o meu descendente.

Sob percalços d’obstáculos,
na angústia do suspiro q’errasse;
Sobressais muito além do que previ,
profundo enérgico e com fome do mundo vens ser meu testemunho – o amor é mesmo assim.

Sob doces olhos expressivos,
eu sempre soube que eras destemido;
No abraço apertado de quem é pequeno mas age alto,
soas-me toque d’alguém que já não está aqui.

Na herança da bondade resiliente,
como quem vem com tudo sem precedente;
Chegou um furacão d’entro de mim,
reiterando o universo d’um amor sem fim.

Da tua mãe

Recados para dar

Beatriz Moreira da Silva

Popular d’censura e repreensão,
d’sonhos de insígnias por lembrança;
Palavras de frustração, dor e ilusão;
para quem nunca pediu permissão.

D’solução haveria um caderninho,
para espremerem a podre língua d’tanta frustração;
Algo por dizer não exige silêncio,
de liberdade não se fazem recados mal denunciados.

D’incapacidade de equilibrar malogro,
calai-vos ou recorram ao caderninho esponjoso;
Abortem-se nas próprias palavras,
que d’revés outrora vos salve abraço caloroso.

Ainda há recados para dar?

Para Sempre

Beatriz Moreira da Silva

Como o sol está para a lua,
em sintonia d’encontros;
Que nunca se perdem,
d’efémeros pontos.

Enriquecedor e terno momento,
quando se ouvem corações em ritmos diferentes;
Assim como o sol está pra’lua;
Sempre presente.

Conduzir em obscuro,
espelhando a força d’existência;
Exigindo resiliência;
Amando em cada sequência.

D’infinito a incondicional,
engolindo a vulnerabilidade exposta;
Tal como o sol está pra’lua,
só fazem sentido os dois para sempre.

Enaltecer a Certeza

Beatriz Moreira da Silva

Eu nasci na freguesia de São José,
na Ilha de São Miguel;
como a maioria d’écada,
ao limite dos anos noventa.

Cobertos d’basalto,
embebidos em sal d’mar alto;
Sou da Costa Norte,
prezo a sorte d’bravura d’gente do mar.

Eu dei trabalho a crescer,
demorei a entender onde pertencia por fim;
Agradeço aos Professores em maioria dos Açores,
por me fazerem acreditar d’que é possível ir além de sonhar .

Eu, como os escritores, atores e encenadores,
somos alvo d’gozo de espectadores d’bancada;
Afinal quem gosta de poesia, de um papel ou de um guião d’entrada?
se calhar não sabeis a vossa estrada.

Nós não pedimos Hollywood,
nem aplausos d’salto alto para continuarmos por aqui;
Agradecemos apreciação d’quem sabe sentir com os pés no chão,
d’gente intensa que nunca nos abraça sem emoção.

Permaneceis sem saber que continuamos sempre a aprender,
a estudar antes de vos vir falar;
Agradecemos o conforto antes da decomposição do nosso corpo;
outrora chegarão em vão com lamúrias do que fizemos com respiração.

Estimamos o silêncio que nos faz pensar,
d’que nunca podemos deixar de entoar;
Nós precisamos de vos ensinar o que vai além da depreciação d’loucura;
seremos sempre humanos intensos, emergentes no amor de criar.

D’repente no hall de entrada,
d’onde a porta tanto se abre como encrava;
Soou-me em subtileza,
enaltecer a certeza d’onde quero e sei estar.