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Duas mãos

Beatriz Moreira da Silva

E se nunca déssemos as mãos,
entrelaçar os dedos no calor;
E se fôssemos só nós,
perdidos nos ponteiros do relógio.

E o tempo que nos passa pela sombra,
não daríamos conta;
Nem saberíamos os arrepios de perto,
que com o toque desaparece.

E se déssemos só uma mão,
ao primeiro embale caíamos no chão;
Um de nós firme embora o impulso,
outro deitado destruído no fundo do poço.

E se déssemos as duas mãos,
devagarinho de mansinho entrelaçadas;
Firmes d’hirtas e inderrubáveis;
seríamos a construção mais bonita e sólida de um simples para sempre.

EU

Beatriz Moreira da Silva

Eu não pertenço aqui,
não reconheço caras ou feições de figurinos anfitriões;
Não conheço a instância da conexão,
alheia de quem sorri na imersão do aceitável.

Sob reflexo d’basalto,
nem reconheço os caminhos;
Talvez nunca tenha concebido direções,
mediante a necessidade constante de não tirar os olhos do chão.

Eu não pertenço ao limite,
do permissível e d’outrora aceitável;
Nem sei onde pertenço,
apenas consinto o que penso.

Eu nunca sei onde vou,
apenas sei como aqui estou;
D’leme ao d’vento,
Sei quem eu sou.

(A)MAR(TA)

© DIREITOS RESERVADOS

A coragem de não agradar, parte do pressuposto da ânsia alheia de juízos subestimados entre o sofá e um encosto, isto é, sarcasticamente subjugando metáforas de quem julga de fora.

A Marta – É a primeira vez que falo de e por alguém. Não que, de intermédios necessite.

Creio que, por muitas cabeças, é conhecida pela mulher de um jogador profissional iraquiano, Osama Jabbar Shafeeq Rashid. Atualmente no Erbil Sport Club em meia posição, de pé destro. Outrora fosse, sem desmerecimento, de quem venho falar.

A Marta – a quem prometi dar tinta para canhões – empresária, mãe de dois, e então mulher do Rashid, sobressaiu-me entre conversas de como é ser, no mais íntimo possível, mãe de um menino com espectro do autismo (não verbal).

O Noah, nasceu em plena pandemia. Não olhar para as outras crianças e abanar com as mãos quando entrava na água, foram os primeiros sinais de alerta.

A Marta desistiu da sua carreira, para acompanhar o Osama que, na altura, estava a morar no Dubai.

Não fazia sentido ficarem separados. Tinham um bebé pequeno e entre ficar nos Açores, a deixa-lo numa creche para ir fazer turnos na companhia aérea, optou pela sua felicidade: ficarem todos juntos. Já moraram na Turquia, nos Emirados Árabes Unidos, em Portugal e, atualmente, no Iraque.

Para além de estarem a viver num país de extrema pobreza, culturalmente muito difícil de contornar, o mais difícil é não existirem estruturas de suporte para o Noah. Não dormir, ter insónias, são uma constante nos seus dias. Dorme cerca de quatro a cinco horas.

Atualmente pondera o seu regresso a Portugal, para garantir toda a dinâmica devida do dia a dia do Noah: creche, terapia ocupacional, da fala e musicoterapia.

Admira-me a sua leveza, aparente, de viver a vida. Afinal, ser mãe atípica é combater todos os estereótipos ainda que, para isso, seja necessário dar a volta ao mundo.

A Marta, transborda um exemplo de empatia, sororidade. É mais do que a mulher de um futebolista, até porque a carreira no futebol não vai a prolongamento e, no final de contas, o que conta e cura: o amor.

Será sempre mais fácil render uma guerra, do que predominar a subtileza de enfrentar estigmas na maternidade. Lamentavelmente fomentados de mulheres para mulheres, onde um mero comentário advindo de um ser mortal – essa parte acho que não tem noção – paira no embale de tantos outros. É quase como levar um tiro, mas a dor é maior – profunda.

Escrever tanto em pouco texto, não é, de todo, tarefa fácil, sobretudo quando se começa com a conclusão moral do início para o fim.

Na prosa

Beatriz Moreira da Silva

De todas as verdades que se contam em prosa, há uma realidade paralela, que se cruza nos entre laços daquilo que escolhemos, porque no lado paralelo da vida, há quem nos salve e por vezes seguir em reta é o fim.

Como desde o início em diante seguíssemos sem pontos parágrafos, em estátuas congeladas sem sentido.

Na prosa, surgem emoções de um intrínseco mais ou menos inerente, eloquente, daquilo que nos está na garganta em nó. Como nos sonhos corremos entre forças que nos prendem e nunca há previsão da meta, como caímos de um precipício lentamente sem lesão, sem dor, mas com marca. Continuamos, porque entre viver na prosa e escrever prosa há sempre algo que nos separa, que nos distingue, que nos aflige em limites de caracteres. Como se a tinta acabasse em segundos dos anos que temos por escrever: Não é um dom! É ser humano! É saber as nossas fragilidades enquadradas nas de entre outros. É saber que será lido e revivido ao ritmo de cada um, em compassos diferentes, mas que toca no ponto mais profundo da alma ainda que emersa e desprovida.

Na prosa, somos psicólogos heterónimos. Suscitará sempre algo incomum aos olhos de quem não sabe sentir ou fingir, de quem questiona se imagina ou se sonha, se cala ou consente.

Em prosa, haverá sempre um sexto sentido, um arrepio, um suspiro que nos fará ficar em silêncio entre o texto e os holofotes.

De prosa se fazem pensamentos que temos no silêncio, comuns aos entre nós, porque só se erguem os vivos e quem já foi não volta mais.

Vitória

Beatriz Moreira da Silva

Um dia destes vou contar-te uma história,
d’onde era fácil encenar a sorrir;
Esboço d’uma fase repulsa de memória,
q’não devia ter durado nem perto de meia hora.

Batucos soarão que não estava sozinha,
chorando gritos sem escrúpulos mascarados de marfim;
Calmaria não confronta, não embala nem demonstra,
sobrepôs-se devaneios por pensar em mim.

Aterramento d’falhar naquela porta,
d’onde ojeriza tudo o que nunca nos fez deixar por um fim;
Não valeu o esforço mascarado de remorsos,
d’que já não importa nem retorno por um triz.

Soçobrar lentamente num vazio,
q’de copo cheio mereceu partir;
D’bocados putrefatos não se mendigam caminhos,
fétidos intoxicam o advir.

Nas cicatrizes diagrama de vitória:
E agora? Onde começa a história?

Já não importa!

Paraquedas

Beatriz Moreira da Silva

Cansaço de receitas caseiras,
decorar auto diagnósticos;
Mesinhas de cura,
prescritas de outros tempos.

Trocar os planos c’mundo a desabar,
agarrar mãos antes do dia acabar;
Egoísmo incomodar,
por não se saber acomodar.

Chega de mansinho e pequenino,
difícil ser colo de alguém:
Quem nos preparou?
Ninguém nos contou!

Preocupação constante,
que arde em cada mísero aranhão.
E nós? Caladas na solidão,
lendo cores d’coração.

Correr no sufoco d’saber se respira,
não dormir angustiada,
porque te sentes noite e dia:
Coitada está perdida!

Ingratidão com comparações,
que não equivalem milhões;
De bom senso guarde opinião,
fique com ela na sua tradição.

Ser mãe é não saber estar de folga,
correr a toda a hora mesmo que ninguém te reconheça;
Estás mais bonita após maternidade!
E antes não tinha qualidade?

Maior benção da vida,
não te tira alma nem te coloca ira;
Se te portas fecharem,
agradece o desapego de quem nunca vai entender o que é ser amigo no desespero.

Tomar conta do mundo na eterna e mais vincula responsabilidade,
de amparar, acartar e consolidar;
Embalar d’consolo sob efeito de amar, de enraizar emoções e recordações,
que no futuro serão performance do teu trabalho, mesmo que te digam que falhaste.

Se vos parece um monólogo é assim que nos sentimos quando vos falham os olhos.