
«O meu amigo Henrique Levy é um camoniano, um dos melhores poetas e romancistas da nossa atualidade, um editor exímio, que tem viabilizado a existência e a continuidade, com um rigoroso critério de seleção, à publicação de uma poesia de qualidade. Estuda imenso, pois de outra forma não é possível escrever bem. É educadíssimo, utópico, objetor de consciência. Seria incapaz de pegar numa arma. Um irmão na minha vida. Temos uma cumplicidade imensa que até no silêncio comunica.»
ÂNGELA DE ALMEIDA
DL: É um camoniano. De onde vem a paixão por Camões?
Camões, para mim, é uma pessoa de família. É um poeta que faz parte do meu quotidiano. Não há nenhum dia em que, antes de adormecer, não leia, como uma oração, um soneto de Camões. É alguém com quem convivo diariamente. Muitas vezes, dou por mim a ter de gerir pequenos dramas interiores e questiono-me: Que resposta daria Camões a uma situação análoga? Depois, adapto o pensamento do poeta à nossa época, e geralmente encontro uma via ponderada para a resolução de situações que a vida, de quem pensa e se põe em causa, lhe vai exigindo. A poesia de Luís de Camões apresenta uma identificação tão grande com a Humanidade, que facilmente, nela nos revemos. Camões foi um homem extraordinário, cheio de valores e um grande estudioso. Um homem muito interessado pela cultura clássica mas, essencialmente, um humanista. É isso que eu procuro ser: um humanista, e como Camões, um homem do mundo.
Luís de Camões é, sem dúvida, o melhor poeta da literatura ocidental. A sua poesia é sempre atual, por isso é que nos revemos naquela leitura onde nos encontramos e procuramos ensinamentos para as nossas vidas. É para isso que viemos ao mundo: para chegarmos de uma maneira e partirmos muito melhor do que chegámos. Essencialmente, para melhorarmos a capacidade de amar as pessoas com as quais nos cruzamos.
DL: Foi professor em Lisboa. Sentiu-se mais professor ou estudioso?
Durante vinte e quatro anos dei aulas no Curso de Ciências da Comunicação da Universidade Autónoma de Lisboa. Ajudei a formar dezenas de jornalistas. Ministrei as disciplinas de Gramática da Comunicação, Língua e Cultura Portuguesas e Escrita Criativa. Foram anos muito importantes para a minha formação, pois convivi com excecionais mestres e alunos que me levaram a estudar várias matérias. Investiguei e estudei muito para depois refletir, partilhar e discutir com os alunos as conclusões a que tinha chegado. Nesse sentido, devo aos meus alunos ter apurado o espírito de investigador e mantido a constante curiosidade que me tem levado à busca de conhecimento. A minha base de estudo é a linguística. Estudei linguística para melhor entender a organização do pensamento humano, as diversas culturas e religiões, e, por conseguinte a literatura e as restantes artes.
DL: Nasceu em Lisboa, mas tem nacionalidade cabo-verdiana. A ligação Cabo Verde, Lisboa e Açores, como é que acontece?
Sou um autor cabo-verdiano. Não me identifico como autor português. A minha identidade e forma de sentir o mundo estão muito mais próximas da cultura caboverdiana. Faço parte dos dois milhões de caboverdianos que vivem em todos os cantos do mundo. Somos uma Nação que não cabe no seu território. Ser caboverdiano foi um dos melhores legados que o meu pai me deixou. Os meus avós eram caboverdianos e meu pai nasceu em Cabo Verde. Só a minha geração é que não, porque o meu pai veio estudar para Lisboa, casou, fez vida e ficou.
A minha opção por viver nos Açores tem exatamente o propósito de tentar perceber aquilo que se pode fazer pelos territórios insulares que formam a Macaronésia. Eu acho que falta cumprir a Macaronésia e, no futuro, o tempo vai dar-me razão. A autonomia que a República concede aos Açores e à Madeira não ajuda ao desenvolvimento destes arquipélagos. Os povos que habitam os arquipélagos que compõem a Macaronésia exigem que se desenvolvam laços de identidade cultural, política e social. Repare como estes quatro arquipélagos vivem de costas voltadas: os açorianos desconhecem a realidade caboverdiana, madeirense e das Canárias. Com a Madeira, Canárias e Cabo Verde passa-se a mesma coisa. O desenvolvimento harmonioso destas regiões e de Cabo Verde, como país, não pode deixar de passar por um profundo intercâmbio cultural, económico e político. O futuro da Humanidade são os oceanos, por essa razão os Açores e todos os restantes três arquipélagos da Macaronésia vão ser espaços importantíssimos para o desenvolvimento dos povos que os habitam.
No caso dos Açores, a República domina as leis que dizem respeito às águas territoriais destas nove ilhas no meio do oceano, mas, em troca de tamanha riqueza, envia parcas esmolas. Na verdade, o povo destas ilhas há 500 anos que é autónomo, no sentido em que esgravatou a vida com as mãos e sobreviveu a todas as intempéries. É um povo heróico! Por vezes, nem sequer pensamos nisto, mas se percebermos a situação geográfica destes nove grãos de terra espalhados no Atlântico, neste momento com cerca de 241 mil almas, somos levados a deduzir que se trata de gente extraordinária cujos antepassados foram igualmente admiráveis. Só um povo heróico sobreviveria a tantas dificuldades geográficas e a uma organização social baseada na exploração de quase todos por um ínfimo número de senhores terratenentes. Foi, também, esta resiliência dos açorianos que me cativou muito e que me levou a fixar na ilha de São Miguel.

DL: Como decide fixar-se nos Açores?
Desde 1989, que vinha, todos os anos, passar férias nos Açores. Quando tive oportunidade de voltar a assentar arraiais noutro lugar, escolhi estas ilhas.
Os Açores são o lugar onde quero morrer. Sou um cabo-verdiano que se sente açoriano. E repare que eu não lhe digo “que me sinto português”. Para mim, Portugal foi o país onde nasci, mas que sempre me acolheu como um imigrante. Como todos os humanos, também eu pertenço ao mundo. E assim é que está bem, não devia haver fronteiras. Como é possível existirem pessoas que consideram outras como ilegais? Não há sobre a Terra quem possa ser ilegal. Como humanista, tenho pautado a minha vida a lutar pelos direitos de todas as pessoas a uma existência com dignidade. Amando e compreendendo todas as vivências específicas das várias culturas existentes nos cinco continentes. Partindo sempre do princípio que cultura não são só manifestações artísticas. Interessa-me muito a cultura popular. Perceber como é que as pessoas organizam o seu pensamento. Estudar as suas línguas. Com e como cozinham. As tradições que pretendem deixar às gerações vindouras. Como ocupam o espaço. A forma escolhida para se organizarem socialmente. A relação que mantêm com as divindades… Pois tudo isto, também, é cultura.
DL: Vivemos numa altura em que se fala de falta de apoio à Cultura e se diz que a cultura está em crise. Como vê a situação atual?
Quando se fala de apoio à cultura, o que eu penso, imediatamente, é na falta de apoio para que as pessoas tenham melhores condições de vida. Apoiar a cultura é governar no sentido de dar dignidade humana a cada um dos cidadãos açorianos. Tudo fazer para combater a forma miserável como vive, ainda, o açoriano, cinquenta anos depois de uma Revolução Popular. Em cinquenta anos somos a região do país com mais abandono escolar. O acesso à saúde é cada vez mais difícil e desigual. Satisfazer as necessidades básicas das populações é dar-lhes a oportunidade de poderem ser agentes de cultura. As pessoas precisam de estar bem para se encontrarem com elas próprias e terem disponibilidade para se interessarem por bens culturais. E depois, se houver unidade, se as pessoas se juntarem umas às outras, apercebem-se imediatamente, da sua força. Que está nas suas mãos pôr cobro a desmandos e injustiças que impedem o progresso da sociedade açoriana como um todo.
Nos Açores, por exemplo, o que é o culto do Espírito Santo senão um processo que cumpre a função de mostrar desejo pela verdadeira igualdade em busca da sabedoria? Não há nada mais maravilhoso na cultura açoriana do que o culto do Divino Espírito Santo.
DL: Criou uma editora em 2020, a única nos Açores exclusivamente de poesia. Como surgiu esse desafio?
A editora N9na-Poesia inaugurou-se com a edição do livro A Sibylla – Versos Philosophicos, de Marianna Belmira de Andrade, uma jorgense que, em 1884, escreveu e editou um épico, absolutamente superior, com 1250 versos. A obra foi votada ao esquecimento pela generalidade da crítica, o eco dos seus versos, apesar de indiscutível qualidade, não chegou ao continente português, e esbarrou na indiferença da maioria dos literatos açorianos. É um poema extraordinário escrito pela mais singular voz da poesia açoriana, mas até ser por mim editada, Marianna foi votada ao silêncio e ao esquecimento, próprios de uma sociedade misógina que tende a silenciar o feminino. Nesse épico Marianna Belmira de Andrade reprova a sociedade terra-tenente açoriana, a Igreja Católica e a instituição monárquica, responsabilizando-as pelo atraso do país, da pobreza e das desigualdades sociais. A autora revolta-se contra a condição das mulheres e o papel doméstico para que são relegadas, sendo-lhes negado o direito à instrução, o acesso à cultura, bem como o desempenho de qualquer função social relevante. É num contexto social em que vigora ainda um conservadorismo feroz que emerge a voz de Marianna Belmira de Andrade votada durante séculos não só ao isolamento geográfico, mas também ao arcaísmo sócio-cultural da condição de mulher em geral e da insular em particular.
Em A Sibylla, a autora afirma-se feminista, anticlerical e ecologista – é algo de uma novidade extraordinária. Fascinado com o achado, resolvi estudar a autora e editar a obra, tendo-a dotado de 163 notas. Como não encontrei editora interessada na publicação deste livro, decidi criar a N9na-Poesia, como uma editora dedicada exclusivamente à poesia de grande qualidade. É, por isso, graças à obra poética de Marianna Belmira de Andrade e ao apoio da Nova Gráfica, na pessoa de Ernesto Resendes, que temos, nos Açores uma editora dedicada exclusivamente à poesia.
DL: Em declarações à RTP Açores, quando ganhou o Prémio Literário Natália Correia, disse: “eu não sei respirar sem escrever”. Continua a sentir o mesmo?
Com certeza. Escrever é como respirar. Escrevo todos os dias. Levanto-me cerca das três e meia da manhã, antes das quatro já estou a escrever até por volta das oito. É um ritual diário. Geralmente, não volto a escrever. Aproveito o resto do dia para ler, investigar, pensar, nadar na piscina da Lagoa, conhecer a realidade da vida das pessoas e conviver com os amigos; mas não para escrever. Deito-me cedo e como não tenho necessidade de dormir muito, os meus dias são longos e muito diversificados. Escrevo entre as quatro e as oito horas da manhã, pois, o mundo, a essa hora, não nos pede nada. Há um silêncio absoluto e muito bonito. Porque é um silêncio de esperança. Anuncia-se um novo dia. Depois começam os sons próprios do despertar da Natureza; o alegre chilrear dos pássaros e o cantar dos galos. Tenho doze gatos, a essa hora, ainda estão todos a dormir. Há, em casa, uma tranquilidade que me é necessária. Muitas vezes, quando o dia começa a nascer, saio de casa para me despedir da Lua que se põe de um lado e receber o Sol que nasce do outro. Este ritual dura de cinco a dez minutos. Normalmente, acompanhado de uma chávena de café, sento-me num banco de pedra e faço orações que lanço ao novo dia.
DL: Quando venceu a segunda edição do Prémio Literário em 2022, disse também que saberia, dentro de dois ou três anos, se o prémio teria importância. Valeu a pena?
Para mim, foi uma honra o romance Vinte e Sete Cartas de Artemísia ter sido agraciado com o Prémio Natália Correia. Lembro-me de ter pensado: a partir de hoje tenho a responsabilidade moral de ir ao encontro da confiança que em mim foi depositada, ao ver um romance, de que sou autor, ser distinguido com o Prémio Literário que transporta o nome de uma das nossas maiores poetisas e pensadoras. Apesar de não estar preocupado em ter visibilidade como autor, é gratificante ver um certo reconhecimento público, depois de tantos anos dedicados à literatura e à cultura. A atribuição deste importante Prémio não teve grande visibilidade na Região nem na República. Pelo contrário, foi amplamente divulgado em Cabo Verde, em Macau e até no Egipto através da Rádio Cairo que me entrevistou.
Não tenho como objetivo, cativar o leitor da atualidade. O leitor que idealizo não é meu contemporâneo. Escrevo para a memória futura dos povos.
Em 2023 publiquei Bento de Góis: uma longa caminhada na Ásia Central. Três meses depois, este romance entrou no Plano Nacional de Leitura, mas, pasme-se, não faz parte no Plano Regional de Leitura. Não podemos esquecer que Bento de Goes é o maior herói açoriano; não há nenhum outro que se lhe compare. A maior parte das vezes, os responsáveis políticos açorianos maltratam as mais notáveis figuras da História e da Cultura dos Açores. Insultam os açorianos, silenciando os seus heróis e poetas. Por incúria, ou ignorância, enaltecem, o que nos chega de fora. Como exemplo, basta referir Antero de Quental há anos silenciado pela academia, pois não há vontade política de homenagear e divulgar a obra de Antero, por ser um autor, tal como Natália Correia e muitos outros, que nos obriga a pensar e depois de confrontados com a realidade, ter mais consciência social e política para exigir a alteração do estado de coisas.
Manter o povo na ignorância continua a ser o desígnio dos governos da Região, pois sabem que um povo informado e culto nunca elegeria governos incapazes.

DL: Envolve-se com as suas personagens?
Sim, muito. E isso pode ser devastador. Por essa razão, enquanto estou a escrever ficção, socorro-me, em simultâneo, da escrita da poesia que me permite reorganizar emocionalmente. Penso que o escritor, o ficcionista, o artista – se quiserem – é alguém que passa por diferentes formas de humor. Há momentos de enorme exaltação e outros em que se fecha sobre si mesmo. Normalmente, estou sempre em grande exaltação. Só me sinto abatido quando o destino das personagens da história que estou a contar é brutal. Por exemplo: neste momento, encontro-me a escrever um romance que me obrigou a estudar, profundamente, o quotidiano dos presos políticos no Tarrafal, tendo de ler mais de 100 testemunhos de presos dessa colónia penal, em Cabo Verde. Cheguei a pensar desistir de escrever este romance, mas percebi que, por mais doloroso que fosse, para poder fazer um trabalho credível, tinha de conhecer o depoimento de todos os homens que, abnegadamente, entregaram as suas vidas para que os portugueses pudessem alcançar a liberdade e os povos colonizados por Portugal conhecessem a autodeterminação.
DL: Hoje em dia, sabemos o que é a liberdade? Cumpriu-se Abril?
Essa pergunta não é fácil. De qualquer modo vou tentar responder. Há certamente, diferentes conceitos de liberdade. Enquanto os trabalhadores anseiam por um tipo de liberdade que lhes permita exigir melhores salários e condições de trabalho, os donos das fábricas e os proprietários das terras anseiam pela liberdade de poderem aumentar os lucros e por conseguinte terem mais poder para oprimirem quem trabalha. Ainda há os que lutam por outros diferentes tipos de liberdade… Pôr o voto numa urna não é um exercício de liberdade, a maior parte das vezes, não passa de uma forma de legitimar regimes que se recusam a governar para o progresso dos povos, tendo antes o objetivo de manter um poder que oprime esse mesmo povo. Poderia dar dezenas de exemplos. Repare: a um trabalhador açoriano, o salário não lhe chega. Não se trata de um desempregado; é um pai ou mãe de família cujo ordenado não é suficiente para fazer face às despesas do quotidiano. Assim, temos muitos trabalhadores na miséria e a depender de ajuda alimentar, ou de outras, para poder sobreviver. É necessário que as pessoas tenham esta consciência, que tenham uma consciência de classe, porque só assim é que podem lutar por uma vida melhor e por justiça social, ou então, vamos continuar, nos próximos 50 anos, com os mesmos problemas sociais de hoje.

DL: É um homem de Fé?
Com certeza. Mas em quem? Em quê? Sou um homem de fé no Sublime, no Mistério, naquilo que não entendo e que não confronto. Mas não a fé no dogma criado por humanos. Nunca confronto o mistério; não saberia viver sem ele. Por exemplo: o mistério da transfiguração de Cristo, para mim, tem de ser mantido como algo que a ciência não poderá nunca explicar. Para muitos depende da Fé, para mim é uma questão estética. Procuro sempre sentido para a vida em coisas misteriosas. Não procuro respostas para os assuntos encobertos pela poesia, pela filosofia, pela teologia que encaro como os grandes mistérios da Humidade. Costumo dizer que Deus é como um amigo imaginário com quem aprendemos a comunicar com quem partilhamos os nossos problemas. E quando crescemos, transportamos esse mesmo amigo, da infância para a fase adulta, criando com Deus uma relação de quase chantagem: prometemos isto, se nos der aquilo. Se me der saúde, pagarei com uma rota de joelhos, à volta de um santuário. Não seria muito mais bonito fazer uma promessa a Nossa Senhora ou ao Senhor Santo Cristo, e o pagamento dessa promessa ser recitar poemas em voz alta no recinto de Fátima ou no Largo de São Francisco? Essas entidades, certamente que ficariam muito mais satisfeitas, muito mais consoladas do que se o pagamento das promessas for com sofrimento e muita dor. Deus é alegria e libertação. Não O devemos presentear com dor e sofrimento! Também já fiz promessas. Com certeza que sim, sou humano como os outros e tenho Fé. Mas tudo o que prometi fazer foi exatamente ler poesia: entrar num templo, independentemente da religião, e, em voz baixa, meditando, ler poemas perante o silêncio, aí encontrado. Tenho a certeza de que esta troca, para a divindade, é muito mais exaltante. Porque todos os deuses foram criados na medida da necessidade da Humanidade e não pretendem ser veículos de sofrimento, mas de libertação, sabedoria e compaixão.
DL: É a ideia de que Deus é amor numa espécie de energia feminina?
Sim. O Espírito Santo é isso mesmo. Uma energia feminina e criadora que pretende libertar o Homem de todo o género de opressão.