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Da ilha Terceira para o Mundo: Maria Bettencourt

Pisou o palco pela primeira vez aos 10 anos num concerto dos Extreme em Santa Maria. Maria Bettencourt, 31 anos, é um espírito livre, nasceu e cresceu rodeada de música, numa família de músicos. Quisemos saber mais sobre a artista terceirense

© CLICK ERNESTO

DL: Quem é a Maria Bettencourt?
Esta é a pergunta mais difícil que me podem fazer. Falar de nós próprios é sempre complicado. Sinto sempre que estou a dar uma pancadinha nas minhas próprias costas. Temos sempre a tendência de falar nos defeitos e deixar de fora as virtudes.
Se tivesse que me resumir como pessoa, diria que sou extremamente perfeccionista e exigente comigo própria, especialmente a nível profissional, muito impaciente, organizada e super metódica. Tenho uma grande paixão pela música e sou dedicada às causas da saúde mental. A família é das coisas mais importantes na minha vida e sou leal àqueles que me rodeiam. 

DL: Embora pública a origem da sua veia artística, conte-nos como foi o início e a sua progressão artística?
A minha paixão pela música começou em criança. Cresci rodeada de músicos, tanto o meu pai como a minha mãe cantavam, portanto a música sempre esteve muito presente na minha vida. 
Subi ao palco pela primeira vez com apenas 10 anos, ao lado dos Extreme, no Festival Maré de Agosto. Três anos depois comecei a fazer concertos de covers acústicos e de rock com o meu pai, Luís, por todos os Açores, Portugal Continental e Estados Unidos.
Em 2015 iniciei o meu projeto de música original, apresentando os temas ao vivo nos Açores, Portugal Continental, Califórnia, Boston, NYC e Londres.
Em 2019 lancei o meu álbum de estreia, autointitulado, que inclui músicas como Sold Your Soul, Drift Away e Free.
Na altura de começar a promover o meu álbum, acontece a covid e todos os planos foram por água abaixo.
Entretanto, acabei um pouco por desistir da música, mesmo sem me aperceber, fruto da minha saúde mental. Sofro de ansiedade desde os meus 6 anos de idade e passei um período menos bom entre 2020 e 2024.
Hoje em dia, com a ajuda de terapia e muito trabalho a nível pessoal, posso dizer que a vontade de fazer música continua bem viva e estão a caminho futuros projetos.

DL: Sendo descendente de verdadeiros artistas, como os descreve?
Não somos de todo uma família normal, mas nenhuma o é.
Nasci e cresci no meio de música, portanto todo esse ambiente sempre foi o meu normal. Era a nossa natureza. Cedo percebi que não era essa a realidade de toda a gente o que me fez perceber o quão sortuda fui e sou por ter influências tão próximas com as quais pude e posso conviver de perto. Sei que a maior parte das pessoas apenas conhece o Nuno, mas a verdade é que todos os meus tios e pai me influenciaram de uma forma ou outra. O meu tio Roberto é o primeiro tio do qual eu tenho memória de ver em cima de um palco. É graças a ele que hoje em dia os Beatles são a minha maior referência musical. E da de toda a família, provavelmente.
Todas as nossas reuniões sempre foram recheadas de música, sempre se tocou e cantou. Mas, e é muito importante dizer, não é apenas a música que nos conecta. Vai para além disso. A música é apenas uma fatia do bolo.

DL: Qual o papel do seu pai na sua carreira?
É muito simples. Sem Luís Bettencourt, não haveria Maria, a artista. Não por imposição dele, pois ele nunca me tentou forçar a enveredar por este caminho. Todas as decisões foram minhas mas esteve sempre do meu lado, para me apoiar nas minhas escolhas e para me amparar quando as coisas não corriam como esperado.
Sempre foi o meu mentor. Foi ao lado dele que comecei a minha carreira, foi também com ele que produzi o meu primeiro álbum, tive a sorte de o ter também como compositor. Conseguimos sempre separar a relação de pai e filha da relação de colegas de trabalho. É incrível receber o respeito dele como meu igual. E considero-me incrivelmente sortuda por poder trabalhar com ele e partilhar o palco com ele.

DL: Sente que nasceu numa ilha pequena para demasiado talento?
Primeiro que tudo, muito obrigada pelo elogio! Não acho que os Açores, ou cada ilha por si própria, sejam pequenos para os artistas insulares. Não é o tamanho geográfico que dita o talento, mas sim as influências que nos rodeiam. Na Terceira, passando sobretudo pela influência norte-americana, graças à Base das Lajes como também a cultura e tradições de cada ilha. A música é uma coisa que está muito enraizada nas nossas vidas, tendo por exemplo as filarmónicas e suas escolas, bailinhos de Carnaval da Terceira, todos os festivais que aconteceram pela mão do meu pai e não só. Para não falar também da evolução da internet. Hoje em dia, com um simples clique, conseguimos fazer a nossa música chegar a qualquer canto do mundo.
Não considero mesmo que as ilhas sejam pequenas para todos os talentos que cá existem. Prova disso são pessoas como O Cristóvam ou a Sara Cruz que têm feito chegar a sua arte a tanta gente. Contudo, acho sempre importante sair da ilha, mesmo que temporariamente, para expandir horizontes. Como disse Saramago, é preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós. Acho que ao sairmos, valorizamos ainda mais este cantinho do céu.

DL: Como se sente em palco?
Sempre tive um à vontade muito grande em palco. Acho que é natural. Nunca senti a necessidade de criar um personagem para subir ao palco. O que veem é o que eu sou. E vão encontrar, além de uma Maria segura e espontânea, uma Maria que é também muito tímida.
Acho importante mostrar e, acima de tudo, ter confiança, mesmo que haja nervosismo à mistura. Só assim se cria uma relação e conexão verdadeiras com o público.

DL: A Maria é irreverente. O que tem a dizer sobre isso?
Não sei o que a Beatriz considera irreverente, mas sim, pode-se dizer que sou uma pessoa um pouco fora da caixa, diferente do que a sociedade espera de uma mulher.
Sempre me senti à vontade para conquistar a liberdade de me exprimir da forma como quero, seja na forma de vestir, na forma de ser ou de pensar. 

DL: Sei que, questionar a um artista, de onde surge a inspiração é algo complexo. Contudo, ao que se agarra enquanto cria?
Como falei antes, sofro de ansiedade desde criança. E muitas das coisas que escrevo são sobre isso. Acho sempre mais fácil escrever sobre o menos bom, os meus demónios. Acho que por ser uma parte tão grande da minha vida, as palavras saem e fluem mais facilmente.
Mas também gosto do aspeto de contar uma história nas minhas letras.
Ao final do dia, quero apenas escrever algo com o qual as pessoas se possam identificar.

DL: O que está por vir?
Gostava muito, mas está no segredo dos Deuses. Posso só dizer que o Rock está vivo e recomenda-se.

DL: O que sente ao ouvir “More Than Words”?
Para ser honesta, não tenho a relação que a maior parte das pessoas tem com este tema. Provavelmente por já o ter ouvido demasiadas vezes. Não é todo o meu tema favorito e sinto que os Extreme são muito mais que o More Than Words. Claro que é inegável o sucesso que este tema lhes trouxe. Dito isto, tenho um orgulho enorme no meu tio Nuno e acho sempre incrível que um tema de um pequeno do Poço d’Areia, da Praia da Vitória, continue nas bocas do mundo.

DL: Qual a sua meta enquanto artista? Onde gostava de estar no futuro?
Não penso muito nisso, sinceramente. O mundo da música não é fácil e garantias não existem. Espero só poder continuar a fazer música e tudo o resto será sempre um bónus.

O que diz a família e os amigos sobre a Maria Bettencourt?

© CLICK ERNESTO

«Falar da Maria como filha não me é fácil, pois fomos embalados por uma amizade em redor das músicas onde tudo vale menos tirar os olhos. Tem sido uma amiga nas descobertas e aprendizagens musicais. Naturalmente como em todas as relações de Pai e Filha, momentos de teimosia, discussões de faca e alguidar (salve seja), chegar a um acordo, nem sempre é ponto assente. Mas na verdade, não tem de o ser. Como filha preocupa-se com a saúde do velhinho. Nas músicas, claro que tenho inveja de não ter a coragem física e intelectual que a Maria tem nos palcos. Aliás, na família dos palcos, só ela e os tios, Paulo e Nuno têm essa, talvez inquietação saudável de estar perante um público. Filha de peixe sabe nadar, é mentira. Vai de cada qual e aprende-se por muito de vontade e dedicação própria. Para já não sou grande peixe, e se o fosse, teria sido pescado por uma traineira espanhola no tão controlado mar dos Açores. Respeito como ela pensa a música e a escrita e sobretudo como é exigente (por vezes em demasia) consigo própria. É a Maria.»

LUÍS GIL BETTENCOURT, PAI

«O que dizer sobre a minha Maria… É linda, amiga, e de um coração bondoso. Protetora e defensora da família, dos amigos e amiguinhos especiais de quatro patas. É organizada, perfeccionista, até demais, e muito exigente consigo própria. Vê-la no palco a fazer o que mais gosta, enche-me o coração.»

SÃO GARCIA, MÃE

«A Maria tem todos os ingredientes e caraterísticas para ser uma das mulheres mais importantes do rock and roll. Voz, claro, mas será sua paixão que a definirá. Ah, também não é assim uma má afilhada.»

NUNO BETTENCOURT, TIO E PADRINHO

«Falar da Maria Bettencourt é falar de uma parte de mim. Crescemos juntas, e desde cedo percebi que ela era diferente — intensa, apaixonada, com uma sensibilidade rara e um talento que se impõe mesmo no silêncio. Para mim, ela é mais do que uma afilhada; é uma irmã de coração, de vida, daquelas que escolhemos e com quem partilhamos tudo: risos, lágrimas e playlists dramáticas.
A Maria tem aquela luz que não se aprende nem se inventa — nasce com ela. É generosa, teimosa quando acredita em algo, e profundamente leal aos seus. Vive a vida com emoção à flor da pele, e isso transparece em tudo o que faz, especialmente na música. Quando canta, é como se nos abrisse a alma dela. É impossível ficar indiferente. E mesmo fora do palco, ela tem esse dom raro de nos fazer sentir vistos, ouvidos e amados.
Mas o que mais me comove na Maria não é só o talento, é a forma como ama. Ama os seus com uma entrega total, e tem uma capacidade de cuidar que me toca profundamente. Ela inspira-me todos os dias — pela coragem com que segue o seu caminho, pela força com que enfrenta as adversidades e pela verdade com que vive. Vive de forma intensa, e é essa intensidade que torna a sua arte tão autêntica.
É uma amiga que está sempre lá — com um abraço, uma gargalhada ou uma mensagem a horas indecentes com uma ideia genial (ou completamente disparatada).
Ser parte da vida da Maria é um presente. E ver o quanto ela tem crescido — como mulher, artista e pessoa maravilhosa que sempre foi — enche-me de orgulho. E, claro, estou sempre por perto — para a apoiar, para a aplaudir, e (por que não?) para relembrar alguns episódios embaraçosos, como toda boa amiga faz. PS.: you know I freaking love you.»

MARIANA MONIZ MARTINS, A AMIGA DE SEMPRE