
Clife Botelho
A saúde de uma democracia local não se mede pela harmonia das suas reuniões oficiais, mas pela capacidade da imprensa em fazer as perguntas difíceis. Defender o sigilo das fontes e o acesso à informação é defender o direito de todos sabermos o que é feito com o que é nosso.
Fui diretor deste jornal e tenho orgulho nesse facto. Agora como leitor e aos olhos de quem acompanha a vida pública local e sabe que o equilíbrio entre quem governa e quem informa é, por natureza, exigente. Devo alertar que nos últimos tempos, paira no ar uma tendência preocupante: a de confundir o escrutínio jornalístico com uma espécie de “ruído” indesejado. Como cidadãos e leitores, importa lembrar que um jornal que incomoda é, quase sempre, um jornal que está a cumprir o seu dever.
Enquanto fui diretor ouvi, por vezes, críticas à utilização de fontes que preferem o anonimato ou assistimos à criação de novas regras que limitam a memória visual e sonora daquilo que deveria ser o expoente máximo da transparência: as reuniões onde se decide o futuro do concelho. Mas a verdade é que o sigilo profissional não é um capricho dos jornalistas; é a última linha de defesa do cidadão comum que, temendo consequências, decide não baixar os olhos perante o que considera estar errado.
Quando se tenta deslegitimar uma notícia com base na “formalidade” da denúncia ou se fecham portas ao registo direto dos debates, não é apenas o jornalismo que perde — é a comunidade que fica mais cega. A transparência não pode ser seletiva, nem a liberdade de informar pode estar refém da conveniência de quem ocupa as cadeiras do poder.
Continuo a gostar do jornalismo de proximidade e irei sempre defendê-lo, mesmo apenas como cidadão, porque ele é o espelho da nossa realidade, com as suas virtudes e as suas falhas. Por isso, como leitores, cabe-nos valorizar a coragem de quem mantém o compromisso de investigar e relatar, mesmo quando o ambiente se torna mais restritivo. No final do dia, a liberdade de imprensa não pertence aos jornais; pertence a cada um de nós que acredita que a gestão da coisa pública deve ser feita à luz do dia, sem muros nem sombras.
Agora, numa perspetiva de quem fica de fora da redação, resta-me manter a esperança de que o 25 de Abril continuará a cumprir-se, mas esta é uma conquista que exige que continuemos atentos perante factos daquela que é uma nova ditadura nos dias de hoje: a do silêncio imposto e da opacidade conveniente.

O Núcleo de Estudantes de Relações Públicas e Comunicação (NURP) da Universidade dos Açores assinalou o seu 20.º aniversário com uma visita ao Parlamento Europeu, em Bruxelas. Segundo nota de imprensa enviada pela organização à redação do Diário da Lagoa, esta deslocação concretiza uma ambição traçada desde a génese do projeto, permitindo a uma comitiva composta por membros do núcleo e alunos convidados uma imersão direta nos bastidores do poder legislativo europeu. A viagem, que surge num momento de maturidade da organização, foi viabilizada através de um convite endereçado pelo eurodeputado André Franqueira Rodrigues.
Para o presidente do NURP, Vítor Rigueira, a passagem pela capital da União Europeia reveste-se de um simbolismo profundo para a história do grupo. “Celebrar 20 anos em Bruxelas é o culminar de um projeto sonhado desde a nossa fundação. Esta oportunidade, gentilmente viabilizada pelo Eurodeputado André Franqueira Rodrigues, permitiu-nos elevar o prestígio da nossa organização e oferecer-nos uma visão privilegiada sobre o futuro da Europa”, destaca o dirigente. A agenda da comitiva não se esgotou no hemiciclo, incluindo passagens pelo Museu da Segunda Guerra Mundial e uma exploração do património histórico de Bruxelas, elementos que reforçaram a componente formativa da missão.
O impacto da experiência entre os jovens participantes foi notório, com vários estudantes a sublinharem a importância de conhecer in loco os mecanismos de decisão que moldam o continente. Julia Félix descreveu a vivência como uma “visão renovada” da cidadania, enquanto Hulda Duarte classificou a observação do funcionamento da União Europeia como algo que “se deveria ver pelo menos uma vez na vida”. No plano académico, Daniela Costa reforçou que conhecer um espaço tão central para a política internacional foi “incrível” e enriquecedor. Mesmo para quem não estuda política diretamente, como é o caso de Julia Belo, a visita permitiu “ver ao vivo artigos históricos que estudamos na sala de aula”, provando a transversalidade desta iniciativa.
A componente histórica, particularmente a visita ao museu, mereceu elogios rasgados de Roena Medeiros e Laura Medeiros, que destacaram a forma envolvente como a história da Europa é ali retratada. Por sua vez, Edna Ferreira salientou o privilégio que esta oportunidade representa para os jovens açorianos, dada a descontinuidade territorial. O balanço final, partilhado por Maria Silva, fundiu a aprendizagem institucional com o espírito de grupo, fator essencial no associativismo. Após o sucesso desta missão em Bruxelas, o NURP já olha para o futuro com novas metas, mantendo a ambição de visitar brevemente a Assembleia da República e a Assembleia Legislativa Regional dos Açores, reforçando o seu papel de ponte entre a juventude e os centros de decisão política.