
Ao revisitar a história desta vila, deixo-me entrar no túnel do tempo, embarcando numa caravela que, na segunda metade do século XV, partiu de Portugal rumo à costa sul da ilha de São Miguel. À medida que nos aproximamos, a embarcação desliza ao longo das escarpas e falésias de lava, revelando grutas e cavernas ocultas pelo tempo. Ao longe, diviso a silhueta de um penedo que lembra a quilha de uma galera, enquanto formações rochosas se erguem como um anfiteatro natural.
À medida que nos aventuramos mais, a falésia torna-se imponente, adornada por carrancas esculpidas pela lava. Então, diante de nós, desdobra-se uma baía serena, onde duas praias se encontram. Numa pequena enseada, uma gruta esconde-se à espera da maré cheia, quando as águas a preenchem e permitem a entrada de pequenas embarcações, tornando-a ainda mais mágica.
Ao nos aproximarmos da segunda praia, protegida pelo abraço da baía, avistamos uma cascata cristalina que se desprende da rocha, criando uma calheta que rasga a areia. O fio de água doce corre suavemente até se fundir com o mar, num espetáculo de beleza e harmonia que o tempo jamais apagará.
A bordo da caravela, viajavam distintos morgados, como Manuel Afonso Pavão e João Jorge, acompanhados de famílias de renome — Oliveiras, Araújos, Sousas —, todos em busca de um lugar onde pudessem erguer uma nova vila. A fertilidade dos solos e a abundância de recursos hídricos seriam determinantes na escolha do local.
Por fim, aportaram. Desembarcaram com a solenidade própria da época e, diante da imponência da natureza, tomaram posse daquela terra promissora. Naquela manhã luminosa, desenhava-se o início de uma nova história — a história de um povo que, entre campos férteis e águas cristalinas, faria daquele recanto o seu lar. Da Ponta da Galera à imponente serra, que para sempre se gravaria na memória como a Serra de Água de Pau.
Foi ali, nas proximidades, que Manuel Afonso Pavão se estabeleceu com a sua família, munido de uma carta régia que lhe concedia o direito de ocupar as terras que desejasse. Ao lugar que escolheu foi dado o nome de “Porto Manuel Afonso Pavão” e, mais tarde, passou a ser chamado de “Jubileu”, talvez em referência ao meio século de paz e segurança que a imponente rocha proporcionou ao povoado, protegendo-o dos ataques piratas. Hoje, passados 510 anos, como Vila, aquele recanto é conhecido como Baixa da Areia.
Com o tempo, Água de Pau começou a atrair novos colonos vindos de Portugal. Nas caravelas que atracavam na ilha de São Miguel, chegavam também, com frequência, escravizados de origem mourisca, trazidos para ajudar a desbravar a terra. Em outros casos, o reino enviava diretamente prisioneiros de má índole, numa tentativa de povoar e explorar aquelas paragens.
Foi por isso que Manuel Afonso Pavão ordenou a construção de uma armação no topo da rocha mais alta junto ao porto, onde se ergueriam um laço e uma forca, para que qualquer visitante de má-fé soubesse, à primeira vista, que ali imperava a lei. Até hoje, esse lugar é conhecido como Terra-da-Forca.
Com o passar do tempo, a comunidade cresceu, e o povoado expandiu-se. Os recém-chegados começaram por abrir atalhos e veredas, que mais tarde se transformariam em ruas. Seguindo as diretrizes do reino, um padre e um encarregado da administração local tomaram para si a tarefa de planear a disposição das ruas e a construção das primeiras habitações da vila nascente.
Após o Jubileu, o povo subiu a encosta, desbravando caminho pelos “Barrancos”, onde outrora corria uma ribeira de forte caudal. Foi ali que se estabeleceram os ferreiros, dando origem à rua que, naturalmente, passou a ser conhecida como a “Rua dos Ferreiros”.
Num largo que mais tarde se tornaria a Praça, o padre e o representante do reino, seguindo a margem direita da ribeira e escolhendo um ponto elevado, decidiram erguer a igreja dedicada à Senhora dos Anjos. A sua posição dominante permitia que o repicar do sino ecoasse por toda a vila e que a silhueta da igreja fosse avistada de qualquer ponto. A rua que ligava a igreja à Praça viria a chamar-se Rua da Trindade, nome inspirado na pequena ermida ali erguida, fruto da devoção de um dos habitantes.
A partir da Praça, as demais ruas foram tomando forma, desenhando os contornos da vila que, desde o século XV, passou a ser conhecida como Freguesia de Água de Pau (1505). Mais tarde, em 1515, por alvará do rei D. Manuel I, foi elevada a vila e tornou-se sede de concelho. A razão para tal distinção residia na extraordinária fertilidade das suas terras e na abundância dos seus recursos hídricos. Assim se fez jus ao seu nome – Água de Pau –, uma terra abençoada, rica em águas e abraçada por uma serra generosa em madeira
Os primeiros habitantes de Água de Pau, figuras influentes e próximas da corte, fixaram-se nesta terra e, entre eles, destacavam-se alguns dos mais ilustres pauenses, que foram armados cavaleiros e partiram para defender o reino e as praças conquistadas no Norte de África. Ao regressarem, trouxeram consigo o brasão de mérito, uma distinção que foi concedida à Igreja da Senhora dos Anjos e que ainda hoje pode ser admirada no altar principal.
O historiador Carreiro da Costa, ao abordar a criação do concelho de Água de Pau, sublinha que “a proximidade de Água de Pau em relação a Vila Franca do Campo – então capital da ilha –, o prestígio e a influência das suas personalidades mais proeminentes e o consequente progresso social e económico da localidade terão sido fatores determinantes para que Água de Pau fosse a primeira a conquistar o estatuto de vila, precedendo a Lagoa. Assim, a 28 de julho de 1515, cerca de sete anos antes da Lagoa, Água de Pau foi elevada a vila e tornou-se sede de um concelho com meia légua de raio”. [Cf. Carreiro da Costa, Memorial da Vila da Lagoa e do seu Concelho, Ponta Delgada, 1974, p. 13].
A extinção do concelho de Água de Pau, em 1853, pode ser compreendida à luz do seu notável desenvolvimento industrial nos séculos XVIII e XIX. Como argumenta Fátima Sequeira Dias, foi precisamente esse crescimento que garantiu a permanência do concelho até meados do século XIX, apesar da sua reduzida extensão geográfica. Com 30 moinhos de água e 12 fábricas de peles, a vila destacava-se como um importante polo económico da região. [Cf. Fátima Sequeira Dias].
Hoje, convido-vos a dar um novo salto no tempo e a redescobrir a Vila de Água de Pau com um olhar renovado. Percorrer as suas ruas e trilhos é embarcar numa viagem em que a natureza abraça a história, oferecendo cenários que acalmam a alma e revigoram o espírito. Um refúgio de serenidade infinita, onde cada recanto conta uma história e cada paisagem convida à contemplação.
Não perca a oportunidade de explorar o Caminho da Vila, passear pelas Murtas e pelo Jardim, conhecer Lourinhos, Junqueiras e a misteriosa Janela do Inferno. Encante-se com as nascentes da Ribeira das Cales, de Lourinhos, do Espigão e da Ribeira do Lance, onde a natureza exibe a sua pureza.
Deixe-se envolver pela beleza singular do Portinho da Caloura, do Castelo, do Cinzeiro, da Galera, do Cerco, do Jubileu e da Baixa D’Areia. Converse com os habitantes acolhedores e descubra os antigos topónimos que ecoam as pegadas dos nossos antepassados.
E, claro, não se esqueça de provar a frescura da água pura dos nossos quatro fontanários públicos: o do Pataco (no Largo de S. Pedro), o da Praça, o da Senhora dos Anjos e o da Canadinha-do-Porto. Há mais de um século, a água fresca da Serra corre 24 horas por dia, um presente da natureza que nos une ao passado.
Venha sentir a alma de Água de Pau.
A Vila de Água de Pau é um dos segredos mais bem guardados do concelho da Lagoa e da ilha de São Miguel, um verdadeiro tesouro de beleza natural. Quem a visita, leva consigo uma experiência inesquecível. É aqui que se encontra a Caloura, um autêntico paraíso único nos Açores, onde a pobreza não tem lugar.
Que privilégio é ter nascido na minha querida Vila de Água de Pau!
Guardas encantos sem igual.
Teu povo orgulha-se de ti,
Pois os séculos por ti passaram
E marcas profundas deixaram.
Quando, lá do mar, te avistaram,
Sem saber aonde chegavam,
Entre si se questionavam:
“Será isto Água ou será Pau?”
E, juntos, concordaram:
Seria, para sempre, ÁGUA DE PAU.
[In Livro, “Antes Que A Memória Se Acabe – Crónicas de Água de Pau vol II – de RoberTo MedeirOs, publicado em 30 de maio de 2025]

DL: Como está a ser a receção ao livro “Antes Que a Memória Se Apague II – Crónicas de Água de Pau”?
Muito boa. Corresponde às minhas expetativas, pois os pauenses têm demonstrado que continuam interessados em conhecer a sua história. E, também, as pessoas que vivem fora de Água de Pau e na diáspora açoriana.
DL: O livro foi também lançado nos Estados Unidos da América.
Sim, fiz três lançamentos. E nos três tive sempre muita gente. Primeiro, no restaurante Cotali Mar, em New Bedford, o segundo, na Portugália Marketplace e o terceiro, na biblioteca Casa da Saudade, em New Bedford, ou seja, duas vezes em New Bedford, duas vezes em Fall River. E tive sempre um público entusiasmado e que queria saber mais alguma coisa. Perguntaram-me quando é que aquele livro seria publicado em inglês, e eu expliquei que, por enquanto, não é publicado na Língua Inglesa, porque as crónicas foram obtidas através de entrevistas orais, a pessoas de certa idade, inclusive algumas centenárias.
DL: Isso revela que há interesse da parte das gerações mais novas?
Sim. Então eu expliquei que é tudo publicado em português, para que essas pessoas que me passaram essas crónicas possam ler ainda o livro na Língua Portuguesa já que foram portugueses, açorianos e pauenses, que me contaram essas histórias, pessoas que estão radicadas na América, no Brasil, na Austrália, na Califórnia…
DL: Onde pode ser encontrado o livro?
Deixei o livro à venda na Portugália Marketplace em Fall River, também no salão de cabeleireiro do David Loureiro. Aqui na ilha de São Miguel, as pessoas podem contactar-me pelo Facebook para adquirir o livro mas também na DS Seguros, em Água de Pau, na rua da Trindade nº 4 e, igualmente, no posto de abastecimento de combustíveis local.
DL: Continua a ser uma espécie de embaixador da Cultura Açoriana nos Estados Unidos da América (EUA)?
Continuo. Recentemente uma delegação de estudantes da escola de Rabo de Peixe viajou comigo e estivemos dez dias nos EUA.
DL: E gostaram?
Sim, gostaram e prepararam uns números de teatro e música que foram associados igualmente ao lançamento e aos lugares onde participamos. Portanto, correu tudo muito bem e, por causa disso, fui à televisão, aos canais da diáspora açoriana e depois também tive uma reunião com o presidente das grandes festas do Espírito Santo que me pediu colaboração.
DL: Que projetos tem para o futuro?
Vão viajar comigo, agora em agosto, artesãos para apresentar os seus trabalhos nos Estados Unidos. São de Água de Pau, Ponta Delgada, da Praia da Vitória e do Porto.
As pessoas procuram-me porque eu não digo, eu faço. É muito diferente, eu faço porque tenho amigos, tenho gente na América com quem assinei vários protocolos de colaboração e que depois de sair da câmara pediram: “não nos deixe, diga só o que precisa”. E quando chego lá tenho viatura e tudo o que é preciso. Por isso continuo a trabalhar com as comunidades e com as nossas escolas de São Miguel e com os artesãos dos Açores. Então tenho que fazer sempre aquilo que posso porque eu gosto de fazer isso.
DL: Tem já dois livros publicados. Já começam a pedir o terceiro?
Sim, em abril de 2026 vou lançar o meu próximo, o terceiro livro, “Antes que memória se apague”, que vai ser sobre metáforas, expressões típicas e alcunhas de Água de Pau. Porque antigamente as pessoas em Água de Pau chamavam-se todas João, José, Manuel, Artur, ou seja, os nomes eram sempre iguais, então para os distinguir tínhamos que pôr uma alcunha. E isso não tem nada de mal.
DL: E depois a seguir vem o quarto livro?
Daqui a dois anos, em 2027 só sobre a história da Água de Pau. Desde o povoamento até à atualidade, a parte histórica.
Na semana passada, na América, falei com o meu patrocinador para apoiar um livro sobre as comunidades. É um amigo que tenho na América, um empresário que me garantiu que já tenho algum apoio. E tenho porque as pessoas veem o trabalho realizado.
Inclusive, nesta última viagem tive um caso engraçado que também está relacionado com o Diário da Lagoa.
Nós fizemos escala em Lisboa, vindos de Boston, e enquanto esperávamos pelo voo para Ponta Delgada, encontramos dois casais, que são daqui de São Miguel, pessoas já de idade. E começamos a falar sobre o livro. E um deles disse: “há também um jornalista que escreve para o Diário da Lagoa sobre as histórias de Água de Pau”.
E eu perguntei: “Como se chama esse jornalista?” Ao que ele respondeu: “Roberto Medeiros”. Desatei a rir, claro, pois respondi: “sou eu” [risos].
Ele depois ainda me disse: “eu pensava que fosse um jornal da câmara”. Eu disse-lhe: “não, o Diário da Lagoa é um jornal independente, não é da câmara”.
DL: Portanto, o balanço é muito positivo?
Foi muito positivo. Eu tenho sido um veículo de ligação na aposta na cultura e na educação. E tenho tido a sorte de ter bons amigos, porque quando eles também viajam até aos Açores, recebemos muito bem, e para qualquer lado que eu vou, valorizo sempre o trabalho da autarquia e dos autarcas lagoenses porque sem o apoio da Câmara Municipal também, eu não teria saído daqui. Na altura e no início, tal como depois de 2010, quando eu saí da Câmara, continuei a fazer exatamente o que fazia antes. Por exemplo, as exposições de presépios. E agora, quando chegar em agosto aos EUA, vou comprar as passagens para voltar lá em novembro, para fazer outra vez o presépio da Lagoa, no Portugália Marketplace e na biblioteca da Casa da Saudade. Tenho um presépio com 500 peças e outro com 850 peças. Isso tudo para promover sempre a cultura lagoense, os presépios e os bonequeiros da Lagoa. Portanto, há muita coisa que eu continuo a querer fazer antes que a memória se apague.