
Ana Rita Arruda
Especialista em Psicologia Clínica com formação em Neuropsicologia
Hospital CUF Açores
Na nossa sociedade, estar sempre ocupado passou a ser entendido como “viver bem”. Saltamos de mensagem em mensagem, de tarefa em tarefa, de ecrã em ecrã, muitas vezes sem uma verdadeira pausa. A sensação de ter a mente sempre ligada tornou-se familiar para muitos de nós: mesmo quando o corpo para, o pensamento continua a correr. E ainda que o cérebro humano seja extraordinariamente adaptável, isso não significa que possa, de alguma forma, beneficiar deste funcionamento em esforço contínuo.
Estar permanentemente em modo de resposta não é saudável para o cérebro. O excesso de estímulos, a pressão para sermos produtivos e a ocupação constante dificultam a atenção, aumentam o cansaço mental e reduzem a capacidade de organizar a informação que recebemos ao longo do dia. Quando tudo parece urgente, torna-se mais difícil distinguir o essencial do acessório. E isso tem consequências não apenas no rendimento, mas também na memória, no humor e na forma como lidamos com o stress.
O cérebro não funciona num único registo. Há momentos em que está orientado para o foco, para a resolução de problemas, para a tomada de decisões e para a resposta às exigências do quotidiano, mas também há momentos em que precisa de abrandar. Durante períodos de repouso mental, continua ativo, mas de outra forma: organiza informação, consolida memórias, integra experiências e recupera recursos importantes para voltar a concentrar-se. As pausas não são, por isso, uma perda de tempo. São parte de um funcionamento cerebral saudável.
Cada vez mais pessoas descrevem a dificuldade de não conseguir desligar, ou de estarem sempre a pensar em tudo ao mesmo tempo. Muitas vezes, não se trata de falta de capacidade, mas de um cérebro sobrecarregado, com pouco espaço para respirar. Sem pausas, a atenção torna-se mais frágil, a memória mais dispersa e a gestão emocional mais difícil. Ficamos mais reativos e irritáveis e com menos tolerância ao cansaço e à frustração.
Felizmente, o cérebro mantém ao longo da vida uma notável capacidade de adaptação. Os nossos hábitos diários moldam, pouco a pouco, a forma como ele funciona. Dormir com regularidade, fazer pausas, aprender coisas novas, mexer o corpo, cultivar relações e reduzir a sobrecarga mental são medidas que podem proteger a saúde cerebral e contribuir para uma longevidade com mais qualidade de vida.
Viver mais não basta. Importa viver melhor. E cuidar do cérebro não exige mudanças radicais. Às vezes, começa com decisões pequenas: fazer uma pausa curta sem telemóvel, caminhar alguns minutos, respeitar o descanso, fazer uma tarefa de cada vez, criar momentos de silêncio. Num mundo que glorifica a pressa, talvez parar seja, afinal, uma das formas mais inteligentes de cuidar da mente.

Ana Moutinho
Especialista em Pediatria no Hospital CUF Açores
O engasgamento em bebés é um dos maiores receios dos pais – e com razão, já que se trata de uma situação de emergência.
Nos primeiros meses, o bebé ainda está a aprender a coordenar a sucção, a deglutição e a respiração. Na segunda metade do primeiro ano de vida, quando começa a explorar o meio que o rodeia, pequenos objetos podem tornar-se em potenciais perigos.
As causas mais comuns que dão origem a este tipo de episódios incluem: um fluxo de leite demasiado rápido, uma posição inadequada durante a alimentação, a oferta de alimentos não apropriados à idade, e o acesso a pequenos objetos que são levados à boca.
É importante distinguir o engasgamento de um vómito ou regurgitação, pois no engasgamento verdadeiro, o bebé pode ficar silencioso, com dificuldade em respirar, com tosse ineficaz, ou coloração arroxeada dos lábios – a que chamamos cianose.
Recordo um caso, relatado pelos pais de um bebé de seis meses, que passaram por um susto durante a introdução de alimentos sólidos. Ofereceram um pedaço de maçã crua “para ele experimentar” e quando o bebé o levou à boca, engasgou-se e deixou de conseguir chorar. Felizmente, o pai tinha assistido a uma formação de primeiros socorros e soube agir de imediato. O desfecho foi positivo, mas poderia ter sido diferente.
Este caso ilustra dois pontos essenciais, quando falamos de engasgamento em bebés: a prevenção e a preparação para agir.
Algumas medidas simples reduzem significativamente o risco. No caso da alimentação através de biberão, é importante garantir que o fluxo é adequado, ou seja, que não existe uma saída do leite demasiado rápida. Na introdução dos alimentos sólidos, o bebé deve sempre ser alimentado sentado e com supervisão. Por outro lado, é importante evitar alimentos duros, redondos ou pequenos (como uvas inteiras ou cenoura crua), cortar os alimentos em pedaços apropriados e adaptar a textura à idade. A recomendação é que a introdução alimentar respeite o desenvolvimento do bebé, privilegiando texturas macias e seguras.
Mas, mesmo seguindo todas as medidas preventivas, pode acontecer um episódio de engasgamento. Nesse caso, o que fazer? Se o bebé estiver a tossir eficazmente e a chorar, os pais devem manter a calma e permitir que ele tente expelir o objeto sozinho, sob vigilância. Mas se não conseguir respirar, chorar ou tossir, se apresentar cianose, ou se houver perda de consciência, é necessário agir.
Em primeiro lugar, o bebé deve ser colocado de barriga para baixo, sobre o antebraço, com a cabeça mais baixa do que o tronco. Nessa posição, aplicar até cinco pancadas firmes entre as omoplatas. Se este procedimento não resultar, o bebé deve ser colocado de barriga para cima para realizar até cinco compressões torácicas, no centro do peito, com dois dedos. Os cuidadores devem alternar estas duas ações até à desobstrução das vias aéreas do bebé, ou até à chegada de ajuda médica, que deve ser acionada através do 112.
Ter formação em suporte básico de vida pediátrico aumenta a confiança e melhora a capacidade de resposta em situações críticas. O engasgamento é assustador, mas a informação certa faz toda a diferença. Se prevenir é o primeiro passo, saber agir pode salvar uma vida.

Gonçalo Fernandes de Freitas
Neurocirurgião especialista em patologia da coluna
no Hospital CUF Tejo, Hospital CUF Sintra e Hospital CUF Açores
Falar de cirurgia da coluna é falar do tratamento de problemas muito comuns, como as hérnias discais, o estreitamento do canal vertebral ou o deslizamento de vértebras, alterações frequentemente associadas ao desgaste natural da coluna ao longo da vida.
Apesar de serem situações bem conhecidas pela medicina, a cirurgia da coluna continua rodeada de receios e ideias feitas que nem sempre correspondem à realidade. Muitos destes mitos resultam de experiências isoladas ou de relatos antigos, que não refletem a evolução significativa desta área nas últimas décadas. Hoje, graças à maior experiência dos cirurgiões, ao volume elevado de procedimentos realizados e aos avanços tecnológicos, a cirurgia da coluna é, na grande maioria dos casos, um tratamento seguro e eficaz.
Um dos receios mais frequentes é o risco de paralisia. No contexto das doenças degenerativas da coluna, esse risco é atualmente muito baixo, com uma incidência inferior a 1%. Outro mito comum é a ideia de que a cirurgia só deve ser considerada quando a dor se torna insuportável ou quando já existe dificuldade em andar. De facto, o tratamento destas patologias começa, quase sempre, por uma abordagem conservadora, que inclui medicação, fisioterapia e adaptação temporária da atividade física, com bons resultados na maioria dos doentes. No entanto, quando estas medidas falham ou quando existe compressão prolongada dos nervos ou da medula, a cirurgia pode ser necessária para evitar danos irreversíveis e permitir a recuperação.
Há também quem acredite que a cirurgia da coluna “não resulta”. Tal como em qualquer tratamento médico, o sucesso depende de um diagnóstico correto, de uma técnica adequada e de um acompanhamento pós-operatório estruturado. Quando bem indicada, a cirurgia apresenta taxas de sucesso elevadas a longo prazo, sobretudo quando integrada num plano de reabilitação que inclui fisioterapia e vigilância clínica.
Outro mito persistente é o de que não é possível retomar uma vida normal após uma cirurgia à coluna. O objetivo principal da intervenção cirúrgica é aliviar a dor, melhorar a função e proteger as estruturas nervosas. Com técnicas cada vez menos invasivas e melhores cuidados anestésicos, muitos doentes recuperam rapidamente, regressando gradualmente às suas atividades diárias. A maioria consegue retomar a sua rotina entre algumas semanas e alguns meses, dependendo da complexidade da cirurgia.
Existe ainda a ideia de que quem é operado uma vez terá inevitavelmente de ser operado novamente. Embora a coluna sofra um processo natural de envelhecimento, a maioria dos doentes não necessita de novas cirurgias. Por fim, importa reforçar que nem toda a dor nas costas exige avaliação por um neurocirurgião. No entanto, sintomas como perda de força, alterações da marcha, formigueiros persistentes, dor noturna intensa ou alterações do controlo urinário ou intestinal justificam uma observação médica especializada atempada.
Estar atento aos sinais do corpo e não adiar a avaliação médica é um passo essencial para proteger a saúde da coluna e garantir melhor qualidade de vida a longo prazo.

O Hospital CUF Açores, na cidade da Lagoa, anunciou esta terça-feira, 28 de outubro, a criação de uma Unidade de Sono.
Segundo nota de imprensa enviada ao nosso jornal, a nova unidade tem como objetivo assegurar uma resposta “focada no diagnóstico, tratamento e acompanhamento das doenças do sono”.
De acordo com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, mais de metade da população portuguesa assume não dormir bem, o que, segundo o médico pneumologista com competência em Medicina do Sono e coordenador da Unidade do Sono do Hospital CUF Açores, Tiago Sá, “revela a dimensão e a importância deste problema de saúde pública, muitas vezes associado a outras comorbilidades, tais como doenças cardíacas, doenças metabólicas, doenças neurológicas, condições psiquiátricas e obesidade”.
A criação da Unidade do Sono permite um acompanhamento multidisciplinar que interliga diferentes especialidades, promovendo uma resposta adaptada a cada pessoa: “Existe agora uma equipa dedicada e articulada que define, em conjunto, a decisão terapêutica mais adequada a cada caso, tornando o tratamento mais célere, eficaz e personalizado”.
A nova unidade dispõe de salas técnicas para exames diagnósticos, tecnologia de última geração e consultas dedicadas, integrando especialistas em Cirurgia Maxilo-Facial, Endocrinologia, Medicina Dentária, Neurologia, Nutrição, Otorrinolaringologia, Pneumologia, Psicologia Clínica e Psiquiatria, para o diagnóstico e tratamento integrado de diversas patologias. A sua atuação abrange os distúrbios respiratórios do sono, incluindo apneias obstrutiva e central do sono, insónias e hipersónias, bem como os distúrbios de movimento relacionados com o sono, como a síndrome das pernas inquietas, parasónias e alterações do ritmo circadiano.
“Todas estas condições afetam não apenas o descanso noturno, mas também a saúde física, mental e a qualidade de vida”, alerta o coordenador da Unidade do Sono do Hospital CUF Açores, aconselhando que “na presença de sintomas como sonolência diurna excessiva, fadiga ou ressono intenso acompanhado ou não por pausas respiratórias noturnas, seja procurada ajuda especializada”.
Com esta nova resposta assistencial, o Hospital CUF Açores reforça a sua aposta em cuidados de saúde diferenciados, especializados e próximos, disponibilizando à população açoriana uma unidade de referência que contribui para a melhoria do bem-estar, do descanso noturno e da qualidade de vida.

Luís Bernardo
Especialista em Cirurgia Geral com competência em Senologia
no Hospital CUF Açores
Tradicionalmente, o cancro da mama era associado a mulheres no pós-menopausa. No entanto, uma tendência global e preocupante aponta para o aumento do número de casos em mulheres cada vez mais jovens, abaixo dos 40 ou 45 anos e ainda em idade pré-menopáusica. Estes diagnósticos representam um desafio único pelos aspetos biológicos, clínicos e psicossociais envolvidos.
Estudos em vários países, incluindo Portugal, revelam um aumento ligeiro mas constante da doença em idades abaixo dos 50 anos. As razões não são totalmente claras, mas ligam-se a fatores de risco modificáveis. Muitas vezes, estas mulheres são diagnosticadas em estádios mais avançados da doença, considerando que a mamografia só é recomendada a partir dos 45-50 anos, e que a densidade mamária pode mascarar lesões que, nesta faixa etária, tendem a ser mais agressivas.
Face a esta realidade, há aspetos fundamentais a reter quando falamos em deteção precoce, a começar pela consciencialização: a auto-palpação regular e a atenção a sinais como nódulos, alterações da pele ou do mamilo devem ser valorizadas, mesmo sem antecedentes familiares. Também a Imagiologia tem um importante papel na deteção precoce do cancro da mama, sobretudo em mulheres com forte história familiar ou mutação genética conhecida, uma vez que a ressonância magnética mamária é mais eficaz do que a mamografia ou a ecografia em mamas densas. É também aconselhada a realização de testes genéticos, cada vez mais comuns em doentes jovens, considerando o impacto que estes testes podem ter nas decisões terapêuticas e na prevenção familiar.
Importa também falar da prevenção desta doença oncológica. Reduzir o consumo de álcool, manter um peso saudável, praticar exercício físico regular e promover a amamentação são medidas protetoras. Para mulheres portadoras de mutações, podem ainda ser consideradas estratégias de redução de risco, como a mastectomia profilática, sempre avaliadas em consulta especializada.
Um fator que merece destaque é o tabagismo. Embora a relação entre fumar e cancro da mama tenha sido durante muito tempo discutida, a evidência atual mostra um aumento de risco entre 10% e 15%, sobretudo quando o hábito começa antes do primeiro parto. O tecido mamário jovem, ainda em diferenciação, é mais vulnerável aos agentes cancerígenos. Quanto maior o número de cigarros e o tempo de consumo, maior o risco. Mesmo o fumo passivo aumenta a probabilidade da doença em mulheres expostas desde cedo.
O papel dos cigarros eletrónicos e do tabaco aquecido ainda não está totalmente esclarecido, mas os líquidos usados contêm nicotina e outros químicos nocivos, levantando sérias preocupações quanto à saúde mamária. A recomendação é clara: evitar também estas formas de consumo, especialmente por mulheres jovens.
Embora o risco associado ao tabaco seja inferior ao que se verifica no cancro do pulmão, ele é real e relevante. Deixar de fumar – ou nunca começar -, é uma das medidas mais importantes para reduzir a probabilidade de desenvolver cancro da mama e para melhorar o prognóstico em caso de diagnóstico da doença. Os benefícios de parar de fumar iniciam-se de imediato e aumentam com o tempo.
Em conclusão, mudar aquilo que podemos mudar e vigiar aquilo que devemos vigiar é uma mensagem simples, mas que pode vir a salvar vidas.

Eduardo Ferreira
Especialista em Otorrinolaringologia
no Hospital CUF Açores
A perda de audição no adulto é uma queixa muito frequente nas consultas de Otorrinolaringologia. Vários fatores podem estar envolvidos no surgimento da surdez, que pode iniciar com uma simples gripe ou ser provocada por algum tipo de traumatismo do ouvido, pelo uso de determinados medicamentos ou, até, devido a um acidente vascular cerebral.
A perda de audição, que pode ser súbita ou progressiva, inclui quadros de surdez que implicam uma compensação, que pode ser alcançada através de uma prótese auditiva externa, como um aparelho auditivo convencional, ou implantes colocados cirurgicamente, como é o caso dos implantes cocleares. Por outro lado, existem também situações em que a audição pode ser recuperada através de tratamentos farmacológicos ou de pequenas intervenções cirúrgicas.
Por exemplo, algumas pessoas desenvolvem um crescimento exagerado do osso do canal auditivo externo (onde se acumula a cera), que pode provocar uma oclusão total. Esta situação é mais frequentemente verificada em quem está muito exposto a água fria, como os surfistas, mas pode ocorrer sem qualquer causa identificável. Nestes casos, pode ser feita uma cirurgia de “ampliação” deste canal, um procedimento simples e seguro quando feito em quadros menos avançados.
Também os quadros de otite crónica, quando desvalorizados, podem levar à destruição do tímpano e dos pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo). Para reduzir a probabilidade disso acontecer, é importante prevenir e tratar atempada e adequadamente as infeções frequentemente associadas.
Num ouvido não infetado, as cirurgias de reparação do tímpano têm riscos relativamente pequenos e podem ser feitas, frequentemente, em regime de ambulatório.
Por outro lado, há casos em que se verifica um crescimento anormal de pele no ouvido médio, implicando uma cirurgia mais complexa. Esta cirurgia tem como objetivo principal deixar o ouvido médio sem resíduos de pele, ou seja, totalmente livre de doença – chamada colesteatoma. Na ausência de cirurgia, a doença vai continuar a progredir, destruindo cada vez mais o ouvido, com risco de infeções quase constantes, agravamento da surdez, paralisia facial e vertigem.
Outros casos de surdez poderão dever-se à fixação de um dos ossículos do ouvido médio. Neste contexto, poderá ser feita uma cirurgia com restauração da mobilidade dessa cadeia ossicular, procedimento que conta com uma taxa de sucesso bastante elevada, pois consegue melhorar significativamente a audição em cerca de 90% dos casos.
Por fim, quando em vez de um ouvido médio bem ventilado, observamos um preenchimento por líquido seroso que se mantém após medicação, pode ser necessário efetuar uma drenagem. Este cenário é muito comum em crianças e envolve a colocação de tubos no tímpano. Em adultos com uma surdez persistente após uma otite média aguda, essa drenagem também pode estar indicada. Por outro lado, adultos com líquido no ouvido médio sem qualquer causa aparente deverão ser avaliados por um especialista, para excluir uma possível causa tumoral.
A conclusão é clara: antes de pensar em aparelhos auditivos, há outras possibilidades a explorar. Diagnosticar precocemente e conhecer as várias opções terapêuticas pode fazer toda a diferença na qualidade de vida de quem começa a manifestar perda de audição.

Os profissionais do Hospital CUF Açores, na cidade da Lagoa, ilha de São Miguel, foram homenageados na segunda-feira, 23 de junho. Tratou-se de uma demonstração pública de reconhecimento pelo apoio prestado ao Serviço Regional de Saúde (SRS) após o incêndio que afetou gravemente o Hospital do Divino Espírito Santo.
A cerimónia decorreu nas instalações da CUF Açores, após uma reunião entre o presidente do Governo regional dos Açores, José Manuel Bolieir e o CEO da CUF, Rui Diniz. Para além da homenagem aos profissionais envolvidos, o momento serviu também para assinalar os 80 anos da fundação da CUF.
“Quero deixar uma palavra de gratidão e reconhecimento. O que cada um fez, fez bem”, afirmou o presidente do Governo regional, dirigindo-se aos profissionais da CUF.
Segundo comunicado do Governo dos Açores, o incêndio no HDES “obrigou à evacuação total da unidade hospitalar, envolvendo centenas de doentes e profissionais. Graças à resposta rápida e eficaz das estruturas de saúde da região, em estreita articulação com o setor privado, foi possível assegurar a continuidade dos cuidados sem consequências graves para os utentes”.
José Manuel Bolieiro, salientou, assim, que o sucesso da operação foi fruto de uma ação coordenada, onde todos deram o melhor de si.
“Foi uma situação de calamidade. Mas correu bem porque houve esforço, entrega e profissionalismo”, sublinhou, acrescentando ainda que, “não houve facilitismos, houve virtude na forma como foi enfrentada a dificuldade”.
O líder do executivo açoriano destacou ainda a forma como a CUF acolheu os utentes, garantindo condições de dignidade e qualidade clínica.
O executivo sublinha, em comunicado, que a homenagem foi também ocasião para reforçar o compromisso do Governo dos Açores com uma estratégia de colaboração entre os setores público, privado e social da saúde. O governante defendeu um modelo de complementaridade que potencie recursos e capacidades, assegurando uma rede de resposta mais robusta e integrada.
“Queremos um SRS musculado, preparado para responder à essência, e a essência não se pode limitar ao mínimo”, referiu.
O presidente do Governo regional deixou, por fim, uma mensagem de estímulo: “Cada situação é uma oportunidade de aprendizagem. Continuaremos a trabalhar para uma saúde mais preparada, mais humana e mais próxima”.

Vera Costa Santos
Especialista em Gastrenterologia
Hospital CUF Açores
A esteatose hepática, conhecida como fígado gordo, corresponde à acumulação de gordura no fígado. Já a doença hepática estetatósica associada a disfunção metabólica (previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico), refere-se à presença de esteatose hepática em doentes com fatores de risco cardiometabólicos (como diabetes e obesidade) e surge na ausência de outras causas para a acumulação de gordura no fígado, como o consumo significativo de álcool. Atualmente, é a doença hepática crónica mais frequente.
Por norma, a esteatose hepática não provoca sintomas, sendo diagnosticada através da realização de exames de imagem, como a ecografia. Inicialmente, as análises podem ser normais. Apenas quando a esteatose provoca inflamação do fígado (esteatohepatite) é que os parâmetros hepáticos se mostram alterados, sendo nesta fase que aumenta o risco de progressão para fibrose, cirrose e cancro do fígado.
Quando se deteta esteatose hepática num exame de imagem, é importante investigar a sua causa e realizar exames para avaliar a presença de fibrose hepática. Por outro lado, na população de risco (com diabetes, obesidade ou com alterações nas análises do fígado), deve ser feito o rastreio da esteatose e a avaliação da fibrose.
A presença de fibrose no fígado pode ser estimada, numa fase inicial, através de sistemas de pontuação (scores) nas análises feitas ao sangue, seguindo-se, muitas vezes, da realização de uma elastografia hepática transitória (FibroScan). O Fibroscan é um teste simples, rápido e indolor, semelhante a uma ecografia, que avalia a existência de fibrose ou, em casos mais graves, cirrose hepática. Esta avaliação é muito importante, pois permite determinar o risco de complicações, definir o tipo de acompanhamento e a necessidade de tratamento.
Importa reter que o álcool provoca alterações hepáticas muito semelhantes às encontradas na doença hepática esteatósica metabólica, pelo que é importante excluir, pela história clínica, o consumo excessivo de álcool.
A melhor forma de prevenir a doença hepática esteatósica metabólica e as suas complicações passa pela escolha de uma dieta saudável e pela prática de exercício físico regular, reduzindo assim a prevalência da diabetes mellitus, da obesidade, da dislipidemia e da hipertensão.
Uma vez diagnosticada a doença hepática, importa garantir o seu acompanhamento e controlo das doenças cardiometabólicas associadas. Perder entre 5% a 10% do peso corporal ajuda a reduzir a gordura no fígado e a diminuir o risco de inflamação e fibrose. Em pessoas com diabetes, poderão ser prescritos medicamentos para controlar o açúcar no sangue. Já em casos de obesidade, entre outras terapêuticas, pode ser considerada uma abordagem endoscópica ou cirúrgica para perda de peso.
Quando a doença hepática evolui para cirrose, poderão ser necessários fármacos para reduzir ou tratar as suas complicações. Em casos mais graves, poderá estar indicado o transplante hepático.
O controlo de fatores de risco e o acompanhamento da doença hepática são fundamentais para evitar a sua progressão para cirrose ou cancro.
Cuide do seu fígado, mantenha hábitos de vida saudáveis e um seguimento médico regular.

Joaquim Amaral
Especialista em Otorrinolaringologia
no Hospital CUF Açores
Por ser mais do que um meio de comunicação, a nossa voz merece atenção e cuidado, pois pequenas mudanças podem ser sinais de alerta para problemas mais graves. Assim, todos os anos, a 16 de abril, é assinalado o Dia Mundial da Voz, para sensibilizar para a importância de preservar a saúde vocal e conhecer as principais doenças que a podem afetar.
A voz desempenha, desde os primeiros segundos de vida, um papel determinante na comunicação e expressão humana. É usada para falar, para transmitir emoções, como instrumento musical e até espiritual, e é instrumento de trabalho de várias profissões. A voz dá-nos identidade e poder, e tem a capacidade de refletir o estado da alma (“a voz é o espelho da alma”).
Produzida na laringe, pela vibração das cordas vocais ao passar o ar na expiração, a voz ganha os seus contornos característicos pela articulação dos músculos da face, boca e faringe e a sua ressonância ao nível da faringe e fossas nasais.
Para que todo este processo ocorra de forma perfeita, devemos ter alguns cuidados com a nossa voz, protegendo os órgãos que a geram. Aqui ficam algumas recomendações que devemos seguir no nosso quotidiano.
Em primeiro lugar, é importante garantirmos a nossa hidratação ao longo do dia, através do consumo de água, de forma a mantermos as cordas vocais lubrificadas, especialmente se utilizarmos a voz na nossa profissão.
É, ainda, importante aquecermos e relaxarmos os músculos do pescoço e do abdómen antes de cantar ou de falar por longos períodos de tempo, assim como evitar gritar ou falar demasiado alto, uma vez que isso poderá traumatizar as cordas vocais e provocar fadiga vocal. Para melhorar o controlo vocal e evitar a fadiga dos músculos fonatórios, é também recomendado utilizar o abdómen durante a respiração.
Não fumar é essencial para prevenir as doenças da laringe. Já no que diz respeito a bebidas alcoólicas, o seu consumo deve ser feito de forma moderada para evitar prejudicar as cordas vocais. Também excessos alimentares – ou alimentos que promovem o refluxo gástrico – podem causar inflamações na laringe.
Não ter atenção a estas recomendações pode trazer consequências, podendo facilitar o surgimento das doenças benignas mais comuns, como nódulos das cordas vocais, pólipos e laringites crónicas ou, ainda, doenças malignas, como o cancro da laringe.
Um dos principais sintomas de doença da laringe manifesta-se através da rouquidão, que se instala rapidamente na maioria das doenças da laringe, sejam elas malignas ou benignas, não devendo, por isso mesmo, ser um sintoma descartado. Outros sintomas podem manifestar-se através da dor de garganta recorrente, da sensação de ter “algo estranho” na garganta, tosse crónica e da necessidade de pigarrear ou clarear a voz com frequência.
Felizmente, a maioria das doenças da laringe é facilmente identificada através de um exame simples, a laringoscopia, e devemos procurar ajuda médica sempre que houver uma rouquidão que dure mais do que três semanas ou persistência dos outros sintomas.
Quando detetadas precocemente, a maioria das doenças que afetam a voz são facilmente tratadas com medidas higieno-dietéticas, medicação, Terapia da Fala e, em alguns casos, cirurgia, com excelentes resultados apontados. Adiar o diagnóstico pode agravar a doença e, consequentemente, o seu prognóstico.
Ame a sua voz, cuide da sua voz.

Tiago Fernandes
Especialista em Oftalmologia
no Hospital CUF Açores
Caro leitor, se o seu filho tem mostrado dificuldades em focar objetos distantes, como o quadro da escola ou a televisão, ou se tem começado a semicerrar os olhos para ver objetos que antes observava com clareza, este artigo foi escrito para si.
A miopia é um erro refrativo, ou seja, uma condição ocular onde a imagem não é corretamente focada na retina, a camada interna do olho responsável pela visão de detalhes, fazendo com que as crianças com miopia tenham dificuldades em ver objetos distantes com clareza, mas que a visão de objetos próximos seja, normalmente, nítida.
A miopia ocorre quando o olho é demasiado longo ou quando o poder de focagem do olho, exercido pela córnea (a camada transparente na frente do olho) e pelo cristalino (a lente natural do olho), é excessivo. Este fenómeno faz com que a imagem seja focada no plano à frente da retina, causando dificuldades de visão à distância.
Tal como muitas outras condições, a miopia resulta da conjugação entre fatores genéticos e ambientais. A prevalência da miopia é especialmente elevada na Ásia, o que indica uma forte predisposição genética. Contudo, fatores ambientais também são determinantes, e um dos principais fatores ambientais é o tempo reduzido que as crianças passam ao ar livre. Neste sentido, um estudo mostrou que as crianças que passam entre 10 a 14 horas por semana ao ar livre têm menor risco de desenvolver miopia, mesmo que apresentem outros fatores de risco, como o uso excessivo de dispositivos de perto ou histórico familiar de miopia.
Embora a relação entre o uso de dispositivos digitais e o desenvolvimento da miopia seja ainda debatida, está comprovado que o tempo excessivo em atividades de perto (como o uso de telas) contribui para o seu aumento e progressão.
Nos últimos anos, a consciencialização sobre a necessidade de controlar a progressão da miopia tem aumentado, uma vez que cada vez mais crianças estão a desenvolver miopia cada vez mais cedo. Importa dizer que esta doença não se limita à dificuldade em ver ao longe; a sua progressão pode levar a complicações graves, como descolamento de retina, glaucoma e catarata, que podem causar perda irreversível da visão. Além dos custos médicos com consultas e tratamentos, a miopia tem um impacto significativo na qualidade de vida e na produtividade laboral.
A correção óptica da miopia pode ser feita com óculos e lentes de contacto. Embora a cirurgia refrativa seja uma opção para adultos com graduação estável, a sua aplicação em crianças é controversa, sendo indicada apenas em casos de miopia elevada e quando outras formas de correção não são viáveis. Entretanto, novas abordagens terapêuticas têm surgido, não apenas para corrigir a visão, mas também para retardar a progressão da miopia, nomeadamente as lentes de óculos e lentes de contacto com desfoque periférico, uso de gotas com atropina diluída ou então ortoqueratologia. Acresce que, em alguns casos, pode ser necessário combinar tratamentos para, em conjunto com algumas mudanças de comportamento, potencializar os resultados.
Cada criança é única e o tratamento da miopia deve ser adaptado às suas necessidades específicas. Consultar um oftalmologista é fundamental para obter uma orientação adequada. Proteger a visão do seu filho é essencial para o seu desenvolvimento e bem-estar. Quanto mais cedo a miopia for diagnosticada e tratada, melhores serão as perspetivas para a saúde ocular no futuro.
Se suspeitar que o seu filho possa estar a sofrer de miopia, não hesite em procurar ajuda médica. Um diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para garantir a saúde ocular e evitar complicações a longo prazo.