
Ana Rita Arruda
Especialista em Psicologia Clínica com formação em Neuropsicologia
Hospital CUF Açores
Na nossa sociedade, estar sempre ocupado passou a ser entendido como “viver bem”. Saltamos de mensagem em mensagem, de tarefa em tarefa, de ecrã em ecrã, muitas vezes sem uma verdadeira pausa. A sensação de ter a mente sempre ligada tornou-se familiar para muitos de nós: mesmo quando o corpo para, o pensamento continua a correr. E ainda que o cérebro humano seja extraordinariamente adaptável, isso não significa que possa, de alguma forma, beneficiar deste funcionamento em esforço contínuo.
Estar permanentemente em modo de resposta não é saudável para o cérebro. O excesso de estímulos, a pressão para sermos produtivos e a ocupação constante dificultam a atenção, aumentam o cansaço mental e reduzem a capacidade de organizar a informação que recebemos ao longo do dia. Quando tudo parece urgente, torna-se mais difícil distinguir o essencial do acessório. E isso tem consequências não apenas no rendimento, mas também na memória, no humor e na forma como lidamos com o stress.
O cérebro não funciona num único registo. Há momentos em que está orientado para o foco, para a resolução de problemas, para a tomada de decisões e para a resposta às exigências do quotidiano, mas também há momentos em que precisa de abrandar. Durante períodos de repouso mental, continua ativo, mas de outra forma: organiza informação, consolida memórias, integra experiências e recupera recursos importantes para voltar a concentrar-se. As pausas não são, por isso, uma perda de tempo. São parte de um funcionamento cerebral saudável.
Cada vez mais pessoas descrevem a dificuldade de não conseguir desligar, ou de estarem sempre a pensar em tudo ao mesmo tempo. Muitas vezes, não se trata de falta de capacidade, mas de um cérebro sobrecarregado, com pouco espaço para respirar. Sem pausas, a atenção torna-se mais frágil, a memória mais dispersa e a gestão emocional mais difícil. Ficamos mais reativos e irritáveis e com menos tolerância ao cansaço e à frustração.
Felizmente, o cérebro mantém ao longo da vida uma notável capacidade de adaptação. Os nossos hábitos diários moldam, pouco a pouco, a forma como ele funciona. Dormir com regularidade, fazer pausas, aprender coisas novas, mexer o corpo, cultivar relações e reduzir a sobrecarga mental são medidas que podem proteger a saúde cerebral e contribuir para uma longevidade com mais qualidade de vida.
Viver mais não basta. Importa viver melhor. E cuidar do cérebro não exige mudanças radicais. Às vezes, começa com decisões pequenas: fazer uma pausa curta sem telemóvel, caminhar alguns minutos, respeitar o descanso, fazer uma tarefa de cada vez, criar momentos de silêncio. Num mundo que glorifica a pressa, talvez parar seja, afinal, uma das formas mais inteligentes de cuidar da mente.

Filipa Brum Cabral
Psicóloga Clínica no Hospital CUF Açores
As férias são, por definição, um convite ao descanso. Projetamos dias mais leves, longos e prazerosos. É uma oportunidade para abrandar o ritmo, especialmente aquele ligado ao trabalho, e recuperar do cansaço e do stress acumulados.
Mas nem sempre é assim. Por vezes, o humor não se sincroniza com o descanso. O que esperamos das férias não se realiza e os pensamentos oscilam entre o que ficou por fazer e o que está por vir. A intenção de parar existe, mas desligar nem sempre acontece.
Por que é tão difícil desligar? Esta dificuldade reflete um modo de funcionamento altamente estimulado, marcado pela hiperdisponibilidade. Vivemos num estado de alerta quase contínuo, acelerados entre tarefas, com o sistema nervoso ativado para o modo de fazer. Quando este estado se prolonga no tempo, o organismo permanece em prontidão, preparado para reagir, mas sem oportunidade para recuperar.
A mudança de ritmo nas férias pode ser desconfortável. Corpo e mente mantêm-se alinhados com o ritmo do trabalho, mesmo estando fisicamente afastados. Nos primeiros dias, é comum descansarmos o corpo, mas a mente permanece ocupada. Além disso, surge a pressão de “aproveitar bem” as férias, como se até o descanso tivesse de ser produtivo.
Desligar exige treino. Não é automático e começa antes das férias. Sempre que possível, é importante planear a ausência com antecedência, delegar tarefas, comunicar com clareza que estará indisponível, ativar uma resposta automática no e-mail profissional e indicar um contacto alternativo para situações urgentes. Se puder, mantenha essa resposta ativa também no primeiro dia de regresso. Essa margem ajuda a retomar com calma e evita uma sobrecarga imediata.
Durante as férias, o convite é estar presente. Sem expetativas rígidas, culpas ou autocrítica. Seja qual for o destino, permita-se olhar com curiosidade e abertura. O essencial é desacelerar e ativar os sentidos. Observar, cheirar, saborear, escutar, tocar. Fazer menos para sentir mais. Criar margens entre atividades. Reservar tempo sem planos e permitir-se não responder de imediato. Se for mesmo necessário manter algum contacto com o trabalho, é importante definir um horário específico e proteger o restante tempo para estar verdadeiramente consigo e com os outros.
Recomeçar também implica gentileza. Nos primeiros dias de regresso, preencher o tempo com tarefas simples e administrar a energia de forma gradual pode ser uma forma de prolongar os efeitos do descanso.
E se há uma mensagem essencial, talvez seja esta: não espere pelas férias para descansar. O verdadeiro descanso nasce da capacidade de fazer pausas dentro da própria rotina. Micro-pausas, respiração consciente e práticas de autocuidado tornam mais fácil a transição para um estado de maior equilíbrio. São gestos pequenos, mas com impacto duradouro.
Ainda assim, se notar que o cansaço persiste, que a irritabilidade se torna frequente ou que a sensação de estar sempre em falta é permanente, mesmo nos dias de pausa, isso pode ser sinal de sobrecarga emocional. Nestes momentos, procurar apoio psicológico pode ser um passo importante.
Lembre-se, cuidar da saúde é um compromisso contínuo, que se constrói ao longo de todo o ano.