
O município do Nordeste promoveu um evento cultural de comemoração dos cinquenta anos de carreira literária do escritor João de Melo e de lançamento de uma obra editada pela autarquia e da autoria de Mafalda Vicente. Sob o título “As paisagens não existem sozinhas”, inspirado numa frase do livro “Açores: o segredo das ilhas”, do escritor João de Melo, foram dois dias dedicados à literatura, ao território e à paisagem.
Para a celebração das bodas de ouro da carreira literária do escritor João de Melo, natural do Nordeste, freguesia da Achadinha, vários convidados partilharam as suas experiências de trabalho baseadas na obra do autor, havendo ainda uma apresentação focada nos livros que compõem a vasta carreira literária do escritor.
Teresa Viveiros foi uma das convidadas com a apresentação do seu projeto “A mala pedagógica: João de Melo, de menino a escritor”, inspirado na história de vida de João de Melo, assim como Bárbara Mesquita, que foi ao Nordeste exprimir como as palavras de João de Melo a tocaram e ajudaram a desenvolver a sua tese de doutoramento sobre as paisagens da vinha da ilha de Santa Maria.
Zeca Medeiros, que em 2002 adaptou para televisão o romance “Gente Feliz Com Lágrimas”, retratando o drama de uma família açoriana marcada pela emigração e pelas feridas do passado, e de Urbano Bettencourt, amigo de longa data de João de Melo, com uma apresentação sobre os cinquenta anos de carreira literária do escritor João de Melo, também marcaram presença.
O evento cultural prosseguiu no sábado, com a apresentação do livro editado pela Câmara do Nordeste e da autoria de Mafalda Vicente, “Cronologias do Nordeste, Abordagem histórica e cronológica à evolução territorial do concelho”.
O vice-presidente da Câmara do Nordeste, Marco Mourão, destacou o valor da obra de Mafalda Vicente para a bibliografia do concelho do Nordeste e salientou o empenho e o brio que a autora, arquiteta na autarquia há vários anos, depositou neste livro e no trabalho que executa no município.
O escritor João de Melo, autor do prefácio, fez a apresentação da obra, e vários outros convidados integraram um debate, nesta mesma sessão, sobre “Paisagem, território e identidade: obstáculos e desafios da história local”.
Fizeram parte do painel, Nuno Costa, presidente da secção regional da Ordem dos Arquitetos, João Pedro Regalado, professor da Geografia na EBS do Nordeste, o escritor João de Melo, Mafalda Vicente, arquiteta na Câmara do Nordeste, Bárbara Mesquita, investigadora em Geografia Humana, e Rui monteiro, arquiteto paisagista.

Com partida dos Ginetes, Pedro Paulo Câmara veio ao nosso encontro na cidade da Lagoa. A disponibilidade reflete o seu compromisso com a preservação do património cultural, onde se dedica a resgatar o legado de autores esquecidos, como Armando Côrtes-Rodrigues. O escritor argumenta que é um trabalho para “fazer justiça” à história e para garantir que a memória seja preservada.
Ao Diário da Lagoa (DL) começa por revelar que o seu interesse pela leitura e escrita começou na infância, inspirado em revistas que a sua avó recebia em casa, como a Reader’s Digest, e, principalmente, num baú de papéis antigos que um dia encontrou no granel da família. Aprofundou o gosto pela escrita na adolescência e na universidade, mas só publicou o seu primeiro livro aos 31 anos, após um período que considerou essencial para o seu amadurecimento. “Não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo.”, afirma.
Através de sua tese de mestrado, Pedro Paulo Câmara dedicou-se a um estudo especializado sobre Armando Côrtes-Rodrigues, escritor do século XX que, segundo ele, estava “garantidamente escondido”. A investigação resultou na publicação da obra Violante de Cysneiros: o outro lado do espelho de Côrtes-Rodrigues.
A paixão é o que impulsiona a sua intensa rotina e, ao nosso jornal, confessa que dorme poucas horas, pois o seu cérebro está sempre a criar novas ideias. Costuma organizar a cabeça durante a sua viagem de 30 quilómetros para o trabalho e no regresso a casa, que considera “altamente terapêutica”.
Influenciado pela sua dedicação ao escutismo, confessa: “Não tenho muitos medos e gosto de novos desafios”.
DL: Como se apresenta quando está fora da ilha?
Quando me perguntam de onde é que eu venho, eu digo sempre que venho dos Açores, antes de dizer de Portugal. Eu sinto que isso alimenta a magia e a curiosidade das pessoas. Sou um açoriano de corpo e alma, em permanente construção. Tenho dentro de mim a tranquilidade da lagoa das Sete Cidades e a energia da Ferraria.
DL: Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos. O amadurecimento é crucial para um escritor?
Eu acho que não existe a necessidade de sermos precipitados. Tudo tem o seu tempo. No meu caso, precisei de um período de amadurecimento e ainda preciso. Sou um autor em permanente construção. Se me perguntar se o meu primeiro livro é o meu melhor, claro que não é, mas foi o mais importante. Foi o que me deu a coragem de enfrentar o público e um possível “não” de um editor.
DL: Uma parte do seu trabalho centra-se na investigação de autores açorianos. Porquê?
É uma forma de fazer justiça. A única forma de sobreviver à morte é mantermo-nos vivos na memória dos outros. Autores como Armando Côrtes-Rodrigues estiveram, de facto, desaparecidos. O meu trabalho é trazer esse legado para a modernidade. Eu quis tirar a sua produção literária do obscurantismo e revelá-la ao público, como fiz com Violante Cysneiros: Obra reunida, ou, como ainda recentemente aconteceu com Armando Côrtes-Rodrigues, Obra Dramática Dispersa, que reúne textos dramáticos inéditos do autor.
DL: Já sabemos que tem uma rotina intensa. De onde vem toda essa energia?
A massa que produz tudo isso é a paixão. É a única possível. Sou profundamente apaixonado por tudo aquilo que eu faço. A única forma de eu conseguir descansar é anotando as ideias que surgem à noite, para que não fiquem a remoer na cabeça.
DL: Hoje em dia estamos ligados às novas tecnologias. De que forma afeta aquilo que é? Eu acho que tudo deve ser colocado em perspetiva. Na década de 80 e 90, o facto de não ter tecnologias não me afetou em nada. Hoje, para dar aulas, produzir livros, estar em contacto com o mundo e fazer investigação, o computador e o telemóvel são vitais. Uso-os como um aliado. Divulgo o meu trabalho através das redes sociais, que também são um bom instrumento. Tento não ser dependente, mas nem sempre é exequível. Muitas vezes, estamos de forma irrefletida a fazer scroll ou perdidos numa quantidade de reels. Lembro-me do meu primeiro telemóvel e do meu primeiro computador, mas, também, da minha máquina de escrever. A verdade é que só tive uma máquina de escrever quando fui para a universidade e o computador no segundo ano. Nos meus primeiros trabalhos do secundário usávamos decalques com papel vegetal. Atualmente, para os trabalhos do ensino básico, já se usam três mil estratégias distintas, desde um PowerPoint a um Prezi. Muitas coisas mudaram, mas gostei de ter vivido naquela altura sem estes acessos todos. Fez-me desenvolver competências importantes.
DL: E isso reflete-se na sua escrita, por exemplo?
Sim, sem margem para dúvidas. A minha escrita reflete a minha forma de ver o mundo.
DL: Escreve com caneta ou com teclado?
Prefiro escrever com caneta, num caderno, quando é prosa ou poesia. Para investigação, com muitas obras em PDF e bibliografia aberta, escrevo no teclado.
DL: Como vê a relação dos jovens com a leitura hoje em dia?
Uma grande parte dos meus alunos tem uma quase antipatia natural pela leitura e leem, apenas, as obras a que estão obrigados e que o Programa apresenta. Eu acredito que a responsabilidade de incentivar a leitura não é só da escola, mas da família. Muitas vezes, um aluno abandona a leitura porque o livro obrigatório não lhe interessa e ainda não descobriu o seu género ou o autor que o faça apaixonar pela leitura.
DL: Enquanto houver leitores há esperança? Qual a sua mensagem para quem se preocupa com a cultura?
Sim, “enquanto houver leitores, há esperança”. Os autores estão a fazer por isso e eu sou um deles.

Quem sou eu?
Sou um exagero ambulante. Como pessoa, sou o caos organizado pelo amor, uma tempestade que se acalma quando encontra um olhar sincero. Como escritor, sou a tentativa de transformar esse caos em palavras que respirem, que gritem, que amem. Escrevo porque só assim me sinto inteiro. Há quem viva a vida a tentar sobreviver; eu escrevo para tentar viver melhor. A minha escrita é um reflexo do que sou: imperfeito, apaixonado, intenso. Quero que cada palavra minha faça alguém sentir, mesmo que seja raiva, porque pior do que sentir algo é não sentir nada.
O que o Benjamin me ensinou?
Ensinou-me que o amor não precisa de explicação. Que ser pai é desaprender a viver sozinho, porque, a partir do momento em que nasce um filho, já não existimos apenas para nós. Ele ensinou-me que a vida é feita de detalhes pequenos que, no fundo, são enormes. Que um sorriso pode salvar um dia inteiro. Que um abraço pode ser casa. Que o tempo passa depressa demais e que estar presente é a única forma de realmente viver. Com ele aprendi a amar de forma incondicional, a aceitar que o erro faz parte do crescimento e que amar alguém é desejar que seja sempre maior do que nós.
Como surgiu a escrita?
Surgiu como tudo o que é inevitável: sem aviso. Eu era um miúdo que se encantava pelas palavras, que descobria na literatura uma forma de fugir e, ao mesmo tempo, de me encontrar. Sempre escrevi para tentar compreender a vida, para tentar organizar o caos dentro de mim. Inspiro-me na vida, que é o maior livro já escrito. Nos olhares que se cruzam sem se verem. Nos amores que nascem sem se entenderem. Nas dores que ninguém vê, mas que estão lá. Escrevo porque, se não escrevesse, sentiria que não estava a viver por completo.
Como lido com críticas?
Mal, como qualquer ser humano. Dói sempre saber que alguém não gostou do que escrevemos, porque cada palavra que coloco no papel vem de mim. Mas aprendi que as opiniões são como os ventos: algumas ajudam a navegar, outras apenas fazem barulho. Nem todas merecem ser escutadas. Algumas são construtivas e ajudam-me a crescer; outras são apenas ódio disfarçado. Não posso escrever para agradar a todos, porque, se o fizesse, deixaria de escrever para mim. E a única forma de ser verdadeiro é escrever sem medo, aceitando que nunca vamos ser unânimes – e ainda bem.
Sobre “O Hospital de Alfaces”
É um livro sobre o que nos salva. Sobre o absurdo e o essencial. Sobre o que parece estranho, mas é profundamente humano. É uma viagem ao improvável, mas que, no fundo, é muito mais real do que parece. Fala de um hospital onde a cura acontece de formas inesperadas, onde a esperança se veste de surpresa. Foi um dos livros que mais me desafiaram a escrever, porque me obrigou a questionar tudo aquilo que damos por garantido. No fundo, é um livro sobre o que significa realmente estar vivo – e o que estamos dispostos a fazer para continuar a estar.
Ser escritor é ser intenso
Sempre. Porque escrever é arrancar o coração e colocá-lo em cada palavra. Sem intensidade, a escrita é um corpo sem alma. Ser escritor é viver em extremos: ou se sente tudo, ou não se sente nada. Escrevo com todas as células do meu corpo, porque não sei fazer de outra forma. Cada texto é um mergulho sem saber se há água. Cada livro é um grito que espero que alguém escute. Escrever é sentir tudo ao mesmo tempo e tentar transformar isso em algo que faça sentido. É loucura, é amor, é necessidade. Ser escritor é ser vivo em dobro.
O efeito dos meus livros nas pessoas
Saber que um livro meu aproxima pessoas é um dos maiores presentes que posso receber. A escrita é um abraço em forma de palavras. É uma ponte entre quem lê e quem sente. Saber que “Prometo Falhar” serviu para fortalecer a vossa amizade enche-me de gratidão. A literatura tem esse poder incrível: faz-nos sentir menos sozinhos. E, no fundo, todos escrevemos – e lemos – para isso: para nos encontrarmos no outro. Obrigado por partilhares essa história comigo.
Os meus emojis para si.
Porque palavras às vezes são demasiado pequenas. Um emoji pode ser um afago, um “estou aqui”. E estou. Mesmo sem saber quem és, soube que as palavras precisavam de um toque extra, de um sinal silencioso de que eram para ti. Porque escrever não é apenas colocar palavras no mundo – é fazer com que alguém se sinta visto. E se, de alguma forma, esses emojis foram um empurrão, fico feliz. Talvez a literatura seja isso: um conjunto de pequenos empurrões na direção certa.
A nova geração e a escrita
Escrevem como vivem: intensamente, com urgência, com sangue. E isso é maravilhoso. A literatura precisa sempre de novas feridas e novas curas. Vejo uma geração que já não tem medo de se expor, que não quer apenas contar histórias, mas senti-las. Isso faz-me acreditar que a escrita nunca vai morrer, porque enquanto houver quem queira transformar dor em arte, a literatura continuará a respirar. Cada época tem os seus escritores, e cada escritor tem o seu tempo. O importante é continuar a escrever, a arriscar, a encontrar novas formas de fazer com que as palavras nos salvem.
O meu futuro
Continuar a escrever. Continuar a amar. Continuar a falhar. Porque é falhando que prometo continuar. O futuro, para mim, é um livro que ainda não escrevi. Sei que quero continuar a ser alguém que acredita no poder das palavras, que não tem medo de errar, que vive com intensidade. Quero escrever histórias que façam alguém sentir-se menos sozinho, que sirvam de abrigo, de espelho, de impulso. Não sei onde estarei amanhã, mas sei que estarei sempre onde a escrita me levar. Enquanto houver algo para contar, eu estarei aqui.
Poderia descrever um tanto sobre o Pedro, ou poderia ser só mais um Pedro, mas nunca será um resumo. O Pedro, além de escritor e orador, foi dos muito poucos que me deu conforto na escrita e, só por isso, tem todo o meu respeito e admiração.
A humanidade que é escassa em muitos, transborda no Pedro.
Obrigada Pedro.