
As águas das Piscinas Municipais da Lagoa serviram de cenário, ao final da tarde de desta quinta-feira, 26 de março, para uma das propostas mais audazes da atual edição do Festival Tremor. Num esforço de descentralização cultural que carateriza o evento, a organização escolheu este complexo balnear pela sua profunda ligação à paisagem vulcânica, propondo uma experiência imersiva onde som e natureza se cruzam. Segundo a nota enviada às redações, a iniciativa, que contou com a parceria da Câmara Municipal da Lagoa, reforça o compromisso de criar momentos artísticos únicos fora dos circuitos habituais, aproveitando a relação direta deste espaço emblemático com o mar.
O cartaz na Lagoa dividiu-se em dois momentos. A tarde começou com os «Use Knife», um projeto que une o percussionista iraquiano Saif Al-Qaissy ao duo belga Kwinten Mordijck e Stef Heeren. A banda apresentou uma sonoridade que cruza vozes árabes e sintetizadores analógicos, num confronto entre a tradição e a eletrónica industrial, descrito pela organização como um “ritual poderoso e urgente”. Logo de seguida, o ritmo acelerou drasticamente com a prestação de «DJ Travella», que trouxe à Lagoa o singeli. Este género musical, nascido nos bairros populares da Tanzânia, carateriza-se por uma velocidade vertiginosa — chegando a atingir os 180 batimentos por minuto — e por uma energia crua que transforma espaços em pistas de dança futurista.
Esta ocupação das Piscinas Municipais destaca-se pela forma como o Tremor utiliza a arquitetura natural da ilha para potenciar as suas propostas. Ao integrar o experimentalismo europeu e os ritmos acelerados africanos num espaço de lazer quotidiano, o festival reafirma a sua identidade de exploração do território. Para os espetadores que encheram o recinto ao pôr do sol, a simbiose entre a “fúria” rítmica do singeli e o cenário das rochas vulcânicas da Lagoa ofereceu uma dimensão sensorial e identitária que define o espírito de proximidade deste festival.