
“Há um nervoso miudinho no momento em que as vacas são avaliadas. Até já deixei de passar as vacas, já deixei de as passar porque uma pessoa sente uns nervos terríveis”. A confissão de Paulo Rita, sai-lhe naturalmente. Assim como é muito natural o amor que sente pelos seus animais. “Passar as vacas” significa, neste contexto, fazê-las desfilar perante um júri internacional que as avalia no Concurso Holstein Frísia, promovido e organizado pela Associação Agrícola de São Miguel. “A minha vocação foi sempre as vacas. Depois fui para a América. Tive lá oito meses na América, com 20 anos. Depois voltei para trás para a tropa mas sempre com as vacas no coração, sempre. Depois o meu pai tinha um taxi. Ele disse queres as vacas ou os táxis? Eu disse, não quero nada disso, quero as vacas. Depois casei com a minha esposa que é luso-canadiana mas sempre com as vacas no coração e na cabeça”, conta o produtor agrícola ao Diário da Lagoa (DL).
A paixão de Paulo Rita por estes animais é mais do que visível. Participa nestes concursos “há mais de 30 anos”, diz. “Já fui campeão nesta feira, sete vezes”, diz ao Diário da Lagoa. “Isso é um bicho que está cá dentro connosco, eles são a montra daquilo que fizemos todo o ano. Depois como ando já há muitos anos nisto é o tal gosto pelas vacas fez com que ganhasse vários concursos”. Mostra-nos a Miranda, uma das meninas dos seus olhos. “Tenho aqui esta novilha que se chama Miranda que já é duas vezes campeã jovem”. Mas afinal, qual é o segredo para produzir tantas campeãs?, perguntámos. “Temos uma genética de longa data. Depois a gente conserta os touros com a vaca para fazer a vaca que a gente acha ideal, e depois é o momento dela: tem de estar confortável, ter a barriga cheia, estar bem, todos estes pormenores contam muito para que elas sejam campeãs. Depois é a mais bonita. Isto é como nas passarelas: é igual, só que é em termos de vacas”, diz-nos, a rir.
No discurso de apresentação do evento, o presidente da Associação Agrícola, Jorge Rita, admitiu que “estes eventos custam dinheiro, fazer um evento com esta dimensão e esta mística não se faz em mais parte nenhuma, não se faz em nenhum país. Podem ter maior dimensão até podem ter melhores vacas mas o ambiente que se cria nesse espaço, com a mística que se cria, com as famílias envolvidas neste espaço é muito bonito”. O responsável sublinha que “os juízes que nos visitam” sublinham precisamente a qualidade do que encontram nos Açores. Para Jorge Rita, “todo o investimento que é feito na agricultura, há sempre retorno na economia regional”.
“Temos um total de 221 animais a concurso, de 50 explorações leiteiras, animais de carne também porque este é um setor emergente nos Açores e que começa a ter alguma sustentabilidade e algum trabalho a ser feito de valorização. É importante também que nós estejamos todos a dar nota e o foco também neste setor da atividade que é muito importante da região que vai ser visível para a excelência dos animais que nós temos o concurso”, defende o responsável.
Matilde Moniz é estudante do curso de agropecuária e ajuda o pai na sua exploração em São Brás, no concelho da Ribeira Grande. É uma das várias, mas ainda poucas mulheres, no setor. “O que me fascina mais é a conexão com os animais em si e essa ligação com os animais. O meu pai é lavrador, sempre cresci no meio disso, desde pequena, desde os três anos ia com ele para as vacas. Ele participa no concurso desde 2008 e sempre me lembro de vir com ele”, conta ao DL. Trouxeram sete animais para o concurso no pavilhão da Associação Agrícola de São Miguel. “Escolhemos as vacas pela sua beleza, temos de escolher o úbere da melhor forma, as pernas. Esteticamente a vaca tem de ser bonita”, diz a jovem.
Por entre vacas, palha, água e ração, está Paulo Pacheco. É empresário agrícola na Maia. Diz que “está nas vacas” desde pequeno, há pelo menos 50 anos, meio século de vida. Tantos anos quantos aqueles que tem. “Gosto de apresentar os meus animais, deste convívio com as pessoas. É uma competição para mostrar a nossa genética, o que temos. É difícil o apuramento e é preciso sorte. E é preciso apostar muito na genética, isto não é dois e dois são quatro. Tem a sua ciência, boa estrutura, bom carácter leiteiro, é isto que conta aqui para o concurso. Trago sete animais a concurso”, conta ao DL.
Alice Laje também é estudante de agropecuária na Ribeira Grande. “Estou a cuidar das vacas, para elas não se sujarem. É um setor que eu gosto, é o meu sonho, trabalhar com animais de porte grande. É uma área que me fascina, tanto a parte animal como a parte vegetal, as plantas, o clima, as terras, como se deve cuidar, como é processo de crescimento delas, como é que se desenvolvem”. Por aqui, a ligação aos animais e à natureza é forte.
A dureza desta vida foi reconhecida pelo presidente do Governo dos Açores. No seu discurso de abertura do concurso, José Manuel Bolieiro destacou a importância dos jovens no setor: “Permitam-me destacar, com algum enlevo emocional e convicto, a juventude que aqui está presente. Que alegria foi ver entrar uma dimensão geracional que não só está comprometida na sua qualificação profissional de todo, como também com o setor agrícola, com o setor da economia produtiva dos Açores. Nós somos o que fomos, mas seremos sobretudo por aquilo que queremos ser”, sublinhou o presidente açoriano.

O setor agrícola micaelense volta a centrar as atenções no Recinto da Feira, em Santana, com a realização do XXII Concurso Micaelense da Raça Holstein Frísia entre os dias 15 e 17 de maio. Segundo a nota de imprensa enviada pela organização do evento, o certame assume-se como um dos principais pontos de encontro para criadores e produtores da região, prevendo-se a participação de um total de 221 animais. Destes, 182 pertencem à raça Holstein Frísia, provenientes de 50 explorações leiteiras distintas, aos quais se juntam 15 exemplares da raça autóctone Ramo Grande, 10 da raça Aberdeen Angus e sete juntas de bois.
A abertura oficial das portas está agendada para as 12h00 de sexta-feira, dia 15 de maio, marcando o arranque de um programa que privilegia o apuro genético e o trabalho dos produtores locais. Durante a tarde de sexta-feira, o foco incidirá sobre as vitelas e novilhas, no âmbito do XVIII Concurso Juvenil e da primeira fase do concurso sénior. Já no sábado, 16 de maio, o recinto de Santana recebe as vacas em lactação, num momento de particular relevância técnica, a par dos julgamentos dedicados às raças Ramo Grande e Aberdeen Angus.
Para além da vertente competitiva e técnica, que inclui workshops direcionados para os profissionais do setor e exposições de bovinos, o evento foi desenhado para atrair o grande público e as famílias de toda a ilha de São Miguel. O recinto contará com animação infantil, uma zona gastronómica de “comes e bebes” e diversos momentos musicais. O grande destaque do cartaz de entretenimento é o concerto de João Pedro Pais, que subirá ao palco principal no sábado, às 22h30. Com esta iniciativa, a organização reforça o convite à comunidade para conhecer de perto a realidade agrícola regional, promovendo um evento de entrada livre que valoriza a herança rural e a vitalidade da pecuária açoriana.

A Associação Agrícola de São Miguel (AASM) anuncia a realização do XI Concurso Micaelense Holstein Frísia de Outono, que decorrerá entre os dias 28 e 30 de novembro de 2025, no Parque de Exposições de São Miguel, no recinto da feira, em Santana, na Ribeira Grande.
O evento volta a reunir criadores, produtores e entusiastas da raça Holstein Frísia, “numa mostra de excelência genética do setor leiteiro açoriano” indica a AASM.
A edição deste ano contará igualmente com a presença de um juiz de reconhecida experiência internacional, reforçando o prestígio do certame.
O programa do XI Concurso Micaelense Holstein Frísia de Outono tem início a 28 de novembro, com a inauguração oficial às 16h00, seguida da eleição do melhor apresentador jovem e adulto às 17h00, e do concurso de vitelas e novilhas às 18h00.
O momento mais aguardado do evento terá lugar no sábado, 29 de novembro, a partir das 19h00, com o concurso das vacas em lactação.
Ao longo da noite, serão avaliados os diferentes animais, sendo no final eleita a vaca Grande Campeã, distinção que marca o ponto alto do XI Concurso Micaelense Holstein Frísia de Outono.
No domingo, 30 de novembro, decorrerá a partir das 11h00 a cerimónia de entrega dos prémios do Concurso Bovino, momento que encerra formalmente esta edição. O evento tem entrada livre.