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Luís Filipe Borges: “não há maior desafio do que criar algo literalmente do zero”

Açoriano, multifacetado e conhecido dos palcos na televisão portuguesa na área do entretenimento e da comunicação, Luís Filipe Borges esteve à conversa com o Diário da Lagoa

© DIOGO ROLA

Nasceu e foi “criado na Terceira, concebido em São Miguel”, começa por contar Luís Filipe Borges ao Diário da Lagoa (DL). Aos 47 anos diz que se sente “orgulhoso” e um “apaixonado conhecedor de todos os quartos da nossa casa arquipelágica”, considerando-se por isso um “açoriano universal”. Entre risos revela, igualmente, que nas palavras de sua mãe – quando esta está chateada – que é alguém que “não quer mesmo morrer estúpido”.
É licenciado em Direito mas enveredou por outros caminhos, demonstrando a capacidade multifacetada, primeiro como o anfitrião das quatro séries do “talk-show” A Revolta dos Pastéis de Nata, na RTP2. Depois, no mesmo canal, apresentou o programa de “stand-up comedy” Sempre em Pé. Participou ainda em O Homem que Mordeu o Cão, na TVI, Feitos ao Bife e co-apresentou, com Fernando Casqueira, Conta-me História, ambos na RTP1. Apresentou também o 5 Para a Meia-Noite e foi co-apresentador do programa de rádio 5 Para o Meio-Dia. Colabora com a imprensa, tem vários livros publicados e mais recentemente estreou-se como realizador de filmes ao lançar uma curta, rodada na ilha do Pico, intitulada de “First Date”, uma comédia romântica que já chegou inclusive às casas de cinema na diáspora, onde recebeu a nomeação de “Best Director” na categoria de curtas-metragens no New Bedford Film Festival.

DL: Como foi sair da ilha Terceira?
Horrível. Não queria, porque tinha uma péssima experiência com as idas regulares ao continente (o meu pai é Beirão) e, na verdade, só fui porque todos os meus amigos iam… Não quis ficar sozinho atrás [risos]. Ironicamente, hoje em dia, desse grupo de velhos compadres do liceu restam apenas eu e outro na capital. E, se a minha vida profissional o permitisse, já viveria no Pico há pelo menos meia dúzia de anos.

DL: Como foi o seu percurso no mundo da televisão?
Gosto de lhe chamar um “acidente feliz”. Nunca me passara pela cabeça dar a cara em TV. O que queria era viver da escrita. Curiosamente, foi uma crónica diária de humor que publicava num diário lisboeta já defunto que me levou a receber o convite para gravar um piloto do que viria a ser o meu primeiro programa como apresentador, A Revolta dos Pastéis de Nata. A partir daí, uma data de outras coisas bonitas aconteceram – sobretudo durante um período de pelo menos 12 anos.

DL: Sendo apresentador e guionista, como enquadra a versão stand-up comedy?
De modo muito natural, uma vez que o stand-up comedian é, no fundo, um argumentista de humor que desenvolveu o necessário par de tomates para se expor perante plateias. E alguns dos mais corajosos que conheço são mulheres. As suas palavras, a sua atitude, um microfone e nenhuma quarta parede.

DL: Como consegue cativar as pessoas na arte de fazer rir?
Se soubesse a fórmula científica estaria muito provavelmente a responder a esta entrevista desde uma penthouse no Upper West Side [risos]. Há gostos para tudo, Portugal tem uma diversidade de propostas na comédia verdadeiramente riquíssima, sobretudo tendo em conta a dimensão do país, e ocupo com abnegação o meu humilde lugar. Uma das coisas mais importantes para se ter, penso, é capacidade de autodepreciação; outra, é compreender que o público é tal e qual os cães… farejam o medo. Se te topam inseguro, voz trémula, micro a estremecer, engasgado… escolhe outro caminho para a tua vida.

DL: Prefere televisão, rádio, teatro, cinema ou ser escritor?
Tenho uma curiosidade infinita por tudo o que possa ser protegido pelo gigante guarda-chuva da Comunicação. Porém, de pistola apontada à cabeça e só podendo escolher uma, diria escrever. Sem dúvida. Porque não há maior desafio do que criar algo literalmente do zero, começando naquela página em branco impassível, com o cursor a piscar como quem diz “Então? E agora?”. Além disso, seja TV, rádio, teatro, cinema ou o que for, tudo (t-u-d-o) começa pela escrita.

DL: Quem são ou foram as suas referências para o seu desenvolvimento pessoal versus profissional?
Herman José, Dave Chapelle, Jon Stewart e Conan O’Brien. No pessoal, sem dúvida alguma o melhor professor que tive na vida, António Bulcão, faialense, advogado, músico, escritor, ainda hoje – sem tirar nem pôr – um dos melhores cronistas que este país tem, e responsável pela primeira vez que pisei um palco e participei na criação de um espetáculo: uma homenagem a Natália Correia, poucos meses após a sua morte.

DL: Fale-nos acerca do podcast Homens de uma Certa Idade.
Chegamos a um momento da vida em que só queremos trabalhar com quem nos faz bem, acrescenta, motiva. O Raminhos recebeu um convite do Observador para o seu universo de podcasts, queriam saber o que ele tinha na manga, e de imediato falou connosco (até porque já partilháramos a experiência dos espetáculos “3 é Demais”). Eu por acaso até tinha este título na gaveta há algum tempo, propusemos e foi aceite de imediato. Têm sido uns meses absolutamente excecionais. E gravamos às oito da manhã o que, no caso dos três, implica acordar às seis e um quarto para estar a horas no estúdio em Alvalade [risos].

DL: O que pensa sobre o António Raminhos e o Marco Horácio e como é a logística de cooperação entre vós?
São dois dos melhores seres humanos que alguma vez conhecerei e a nossa colaboração assenta na espontaneidade e numa regra simples: se dois concordam, mas o outro não, não se avança. No caso do Homens de uma Certa Idade temos um esquema básico de pousio: em cada episódio um de nós é responsável pelo tema/pergunta com que arrancamos, bem como pela escolha das três pessoas a quem pedir respostas a essa mesma pergunta (por mensagens via áudio de Whatsapp), e ainda pela música com que nos despedimos no final. Depois é só deixar rolar e o nosso conhecimento mútuo, experiência e amizade fazem o “resto”. Mesmo assim, acho que ainda não passou uma semana sem que um de nós tenha surpreendido os outros com uma informação sobre si completamente nova ou insólita [risos].

DL: Seria inédito questionar se prefere a ilha de São Miguel ou a Terceira, mas o que absorveu da sua recente visita aos micaelenses?
Sou completamente apaixonado por São Miguel, com receio de que o avassalador aumento da vaga turística nestes últimos anos tenha implicações nefastas para o seu ecossistema e, por consequência, para a sua população. Proponho que todos, micaelenses ou não, acompanhem (e apoiem) o extraordinário trabalho que tem sido levado a cabo pelo Blue Azores.

DL: Como foi mostrar o melhor da sua terra ao seu “brother from another mother”?
Temos ainda um longo caminho por diante, uma vez que ainda só rodámos em São Miguel (a ilha que o Raminhos conhece melhor, de longe) e o programa só estreará lá para setembro/outubro do próximo ano. Mas diria que, como sempre, e após pelo menos 20 anos de amizade, largas centenas de espetáculos juntos, ‘n’ projetos e cumplicidade, só poderia ser uma experiência absolutamente revigorante, plena, de dois velhos companheiros com uma química à prova de bala. E foi obviamente maravilhoso e gratificante apresentar-lhe pessoas como o Luís Banrezes, Eugénia Contente, João Moniz, Eleonora Marino Duarte, Pedro Almeida Maia, Paula Gouveia, Sidónio Bettencourt, Sara Massa, Zeca Medeiros, Katia Guerreiro, entre outros.

DL: Conte-nos o motivo do seu adereço icónico, a boina.
Já tem sido raríssimo usar boina, embora continue a adorar chapéus, mas a razão é tão simples quanto esta: o cinzentismo do curso de Direito (pelo menos entre 95 e 2000). Queria algo que me distinguisse da marralha de rapazinhos armados em sérios, com blazers e pastinhas executivas logo aos 18, 19 anos, quais doutores-proveta.

DL: Ainda acha que “desilude a família desde 1977”?
No sentido em que me tornei o primeiro “Dr.” da mesma, mas depois “marimbei-me” de imediato na licenciatura, sim [risos].