
O município da Lagoa aprovou um apoio à paróquia de São José para a reconstrução da torre da igreja de São José, na Ribeira Chã. Este investimento está inserido nas medidas de apoio a atividades de interesse municipal, de natureza social, cultural, desportiva, recreativa, educacional e outras.
Neste âmbito, foi assinado um contrato-programa entre o presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, e o pároco da Ribeira Chã, padre João Furtado. Este contrato, de 27,500 euros, incluiu o apoio financeiro para o desenvolvimento da festa religiosa anual da freguesia e a reparação da torre da igreja, que se encontra num nível avançado de degradação.
Inaugurada em 1967, a igreja de São José foi edificada após a chegada do padre João Caetano Flores à freguesia da Ribeira Chã, em 1956, sendo uma obra que resultou da persistência e esforço dos seus paroquianos, do pároco e das entidades oficiais. Projetada pelo arquiteto Eduardo Read Henriques Teixeira, o edifício religioso apresenta um estilo moderno, que traduz a inovação e a intemporalidade do seu autor.
Além disso, a igreja de São José está classificada como imóvel de interesse público, com uma área de delimitação classificada e respetiva zona de proteção de 50 metros, caracterizando-se pelo seu conceito modernista, onde se pode constatar, uma certa imaterialidade religiosa.

O presidente da Câmara Municipal da Lagoa, Frederico Sousa, reuniu-se com a Comissão Diocesana de Bens Culturais de Angra, organismo responsável pela salvaguarda, conservação e valorização do património artístico, documental e arquitetónico da Igreja a nível local.
Durante o encontro, foi destacado o papel fundamental da comissão, frequentemente organizada como secretariado ou departamento diocesano, na proteção e gestão dos bens culturais eclesiásticos.
Entre os principais temas abordados, sublinhou-se a importância da inventariação rigorosa dos bens religiosos, sendo este processo de registo essencial não só para prevenir furtos e perdas, mas também para garantir uma conservação adequada e uma valorização sustentada do património.
O encontro permitiu ainda consolidar estratégias de cooperação e partilha de boas práticas, visando uma gestão mais eficaz e consciente destes bens, que constituem um património cultural e espiritual de elevado valor.
Por fim, importa salientar que o município da Lagoa tem vindo a adotar boas práticas na conservação e salvaguarda do património religioso, nomeadamente através da promoção de ações de sensibilização, como a iniciativa “Cuidar para preservar: boas práticas na limpeza do património religioso”, dinamizada pelo Museu da Lagoa – Açores, que capacitou os participantes com noções essenciais de conservação preventiva em espaços de culto e respetivos bens culturais.
Paralelamente, destaca-se a valorização e proteção de bens classificados de interesse público no concelho, como a ermida de Nossa Senhora dos Remédios, a igreja do convento de Santo António, a ermida de Nossa Senhora do Cabo, em Santa Cruz, a igreja de São José, na Ribeira Chã, e ainda o órgão histórico da igreja de Nossa Senhora do Rosário, reforçando o compromisso com a preservação de um património que constitui parte integrante da identidade e memória coletiva.

O bispo de Angra afirmou, na alocução que fez na Celebração da Paixão do Senhor, na Sé de Angra, que qualquer instrumentalização de Deus para justificar a guerra ou a violência é um “ultraje” e uma “traição blasfema”, recuperando uma ideia repetida pelo Papa Francisco.
Na celebração, também conhecida como Hora Santa por marcar a hora da morte de Jesus, D. Armando Esteves Domingues afirmou que a verdadeira “grandeza e autoridade” residem em servir e proteger a vida, e não em dominar ou destruir.
Na cruz, Cristo entra “na solidão dos inocentes e transforma o desespero em oração”, afirmou destacando que este é “o critério ético maior daqueles a quem se confia a autoridade e o poder nas decisões que têm a ver com todos”.
A instrumentalização de Deus para justificar a guerra, a violência ou a imposição “é uma negação radical e definitiva da sua lição”.
“Não existe Deus da guerra e qualquer violência em nome Dele é um ultraje contra Deus, é uma traição blasfema a Deus”, enfatizou numa alocução muito centrada na necessidade da paz.
“Rezemos pela paz e por quem decide. Façamo-lo unidos ao clamor dos povos feridos, dos jovens enviados para matar e morrer, das mães e pais que enterram filhos, das crianças mortas e feridas”, pediu o bispo de Angra.
O prelado recordou que “mesmo entre ruínas e lágrimas, há sinais de Ressurreição: gestos de proteção, corredores humanitários, voluntários, padres, médicos, famílias que acolhem, comunidades que partilham, pessoas que arriscam a paz, homens e mulheres que escolhem salvar em vez de destruir”.
Sublinhou, por isso, que a hora da crucificação de Jesus é também a hora central da história da humanidade e da nossa própria história.
“É a hora em que, sofrendo livremente na cruz uma morte cruel, Jesus nos diz duas coisas: em primeiro lugar, diz-nos quem é Deus, o Pai, disposto a seguir o filho até ali, até ao alto da cruz, para demonstrar que Ele é todo e só amor e perdão; em segundo lugar, diz que o segredo da justiça, da paz e da fraternidade é dar a vida”, explicou.
“A cruz de Jesus não nos autoriza a colocar Deus no banco dos réus e a perguntar diante do sofrimento: ‘Onde está Deus?’. Ela convida-nos antes a perguntar: onde estamos nós diante do sofrimento, nosso e dos inocentes, e o que fazemos para não acrescentar mais sofrimento e mais morte à morte?” acrescentou, terminando com um apelo à oração pela paz.
No contexto do Ano Jubilar Franciscano, pelos 800 anos da morte de São Francisco, D. Armando Esteves Domingues recordou a oração do santo, pedindo que cada um se torne instrumento de paz, levando amor onde há ódio, perdão onde há ofensa, esperança onde há desespero e luz onde há trevas.
Na sexta feira a coleta da celebração reverteu a favor da Terra Santa. Num contexto de guerra persistente no Médio Oriente, o Dicastério para as Igrejas Orientais renovou o apelo anual à ajuda, convidando à oração intensa pela paz, especialmente após incidentes que ameaçaram a celebração pascal na região.
“As armas continuam a disparar, as pessoas continuam a morrer”, recordou o cardeal Claudio Gugerotti, destacando o sofrimento silencioso das populações locais e o impacto na presença cristã, ameaçada pela instabilidade e pelo radicalismo religioso.
Os fundos recolhidos destinam-se a apoiar projetos em Israel, Palestina, Jordânia, Síria, Líbano e Egito, incluindo distribuição de alimentos, medicamentos, manutenção de escolas, bolsas de estudo e habitação social.

Hélio Ponte nasceu em Vila Franca do Campo no ano de 1976, onde viveu até 2004, mas sem nunca perder a ligação à terra de origem. Atualmente vive na Ribeira Grande com a esposa e o filho. Toda a família e ascendentes são de Vila Franca do Campo.
Viveu uma infância normal, sem luxos, no berço de uma família humilde. Enquanto criança, passou muito tempo com os amigos, em particular no cais do Tagarete, mantendo sempre uma estreita ligação à igreja, inicialmente como acólito.
Filho de pai pescador e uma de família ligada ao mar, viu o pai mudar de vida quando passou a motorista marítimo, mas sem perder o ‘chão’ de água. A mãe, doméstica, tratava das lides da casa.
É o filho mais velho de três – irmão de Raquel e José Mário – e o seu percurso académico começou na então Escola Primária de Vila Franca do Campo (atualmente EB1/JI Prof. António dos Santos Botelho), Escola Preparatória de Vila Franca do Campo (agora designada de EB/S Armando Cortês-Rodrigues), Escola Secundária Antero de Quental e, mais tarde, Escola Superior de Enfermagem de Ponta Delgada (atualmente Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores).
Nesta entrevista, fala da fé, da romaria, do ser romeiro, do ser enfermeiro e de como a ciência e a fé se podem complementar na salvação de pessoas.

DL: Quando decidiu ser enfermeiro?
O meu ensino secundário, por vários fatores, não foi totalmente linear. Alguns sobressaltos, dúvidas talvez típicas da idade. Nunca fui um “aluno de excelência”, mas tinha consciência que sempre dei o meu melhor. Em 1997 fiz exames nacionais e iniciei o curso de enfermagem nesse mesmo ano, ainda como curso de bacharelato terminando em 2000, mas tivemos oportunidade de fazer de imediato o ano complementar de formação em enfermagem que terminou em 2001 dando-nos a equivalência a licenciatura. Nesta altura já enfermeiros formados há vários anos já estavam a regressar aos bancos da universidade para obterem a mesma equivalência. Foi uma mais-valia ter-nos sido dada essa oportunidade.
DL: Foi algo que já queria ou foi uma oportunidade de carreira/estabilidade?
Um misto de ambas. Talvez tenha descoberto essa apetência bem tarde ou, se calhar, até foi no momento certo, será sempre uma incógnita, mas não me arrependo de nada e tenho a certeza que faço-o com rigor e dedicação. Não gosto de falar do termo “vocação”, acho demasiado forte e não acho que se adeque por completo a esta profissão. É, acima de tudo, necessário o saber, saber estar e saber ser. Na altura era uma profissão com muita saída e colocação garantida. Também foi uma oportunidade de estabilidade de carreira e rapidamente (em menos de um ano) entrei para os quadros do HDES.
DL: Sempre trabalhou na mesma área ou tem vindo a mudar de área?
Desde que comecei a exercer atividade profissional foi sempre nesta área e na mesma instituição, o HDES.

DL: Ser romeiro foi uma decisão repentina ou já tinha outros familiares romeiros na família que o foram “puxando” para a romaria?
A pergunta foi muito bem colocada: desde quando és romeiro e não desde quando vais de romeiro. São duas perspetivas completamente diferentes porque a romaria é uma vivência para a vida e não só aqueles oito dias. Acaba por ser uma conduta e não um mero rito anual de penitência. Até podemos questionar o porquê deste penitenciar nos dias de hoje, mas não é uma procura de sacrifício desmedido porque, acima de tudo, quer-se misericórdia e não sacrifícios. Acaba também por ser um “peso” e responsabilidade porque somos logo apontados ao mínimo deslize no dia a dia. Não participamos numa romaria por sermos “santos e exemplo” (nunca haveria romarias assim), vamos na mesma por termos um propósito e um chamamento. Obviamente que há, infelizmente, quem se desvie do que é fazer e estar numa romaria.
Nunca tive familiares próximos que fossem romeiros na altura em que comecei. Fiz a minha primeira romaria em 2006 e desde então nunca mais deixei a mesma. Só me arrependo de não ter começado mais cedo. No entanto, tal não foi possível por múltiplos fatores, especialmente os estudos. Vila Franca do Campo só retomou as romarias no ano de 2000 depois de um grande interregno desde 1979 e, em boa hora, voltaram nas pessoas dos irmãos Carlos Saêta, José Pimentel e Hermínio Sousa, ficando depois entregue ao nosso atual mestre, irmão Carlos Vieira, e melhor entregue não poderia ficar.
Sempre gostei de ver os ranchos de romeiros, sempre tive a minha ligação à igreja e aos seus movimentos, como acólito, escuteiro e no Grupo de Jovens Vicentinos, mas nunca surgira oportunidade de o concretizar. Depois de ler o livro “Diário de uma Romaria”, de 2005, do irmão mestre Carlos Vieira, foi o incentivo que faltava. Não me sentia necessariamente afastado da igreja nessa altura, mas faltava algo e a romaria foi o que faltava.
Lembro-me perfeitamente da minha primeira romaria. A minha primeira pernoita de sempre na Fajã de Cima foi mesmo um testar das forças e de força de vontade, não pela família que nos recebeu que foi de um carinho formidável, mas por outros fatores desde água fria e eu, por respeito e ainda acanhado e novato, tive vergonha de dizer, desde barulho de vizinhos…dormi pouco ou mesmo nada. Na madrugada seguinte, no Alto da Mãe de Deus, em Ponta Delgada, só me apetecia vomitar. Não estava fisicamente bem e questionei mesmo o que eu fazia ali. Foi o primeiro e único momento desde que sou romeiro que essa “tentação” de sair da romaria me passou pela cabeça. Não estava mesmo bem. Mas os irmãos mais experientes foram sempre me incentivando. A refeição na paragem na Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição foi o volte-face. Desde então que não consigo imaginar um ano sem ter essa semana de isolamento e introspeção. Sei bem ao que me vou sujeitar, ao desconforto, à dor, a poucas horas de sono, a dias que podem ser mesmo violentos. Sim, dependendo de várias circunstâncias, uma romaria pode mesmo ser violenta física e psicologicamente. Os três anos de interregno devido à pandemia não foram fáceis de lidar.
DL: Sendo um homem da medicina, onde por vezes se operam verdadeiros milagres que salvam pessoas, até onde vai a medicina e onde começa a fé/devoção das pessoas?
Numa das reuniões de preparação da romaria falamos precisamente disso, do equilíbrio entre a fé e a ciência. Faz-se a comparação com as duas asas de uma ave. A mesma só voa em segurança se as duas asas estiverem bem. Uma asa é a razão (a ciência) e a outra é a fé (Deus). É perfeitamente possível esse equilíbrio desde que vejamos esse equilíbrio na base da complementaridade e não do conflito. São duas formas complementares de se buscar a verdade. O próprio Einstein via a ciência e a racionalidade do universo como evidência no limite de algo superior, de uma inteligência criadora. Várias pessoas ligadas à igreja foram também cientistas como Georges Lemaître, sacerdote, que desenvolveu a teoria do Big Bang, do átomo primordial. A ciência explica como aconteceu e a fé o porquê de acontecer. A ciência não tem de anular a fé, nem vice-versa. Na nossa civilização ocidental, se é que é permitido usar esta expressão sem que me atirem sete pedras, a criação de universidades cristãs são o exemplo de como a fé cristã pode fomentar o conhecimento e desenvolvimento científico. A meditação também é vista como ciência da mente.
Entendo que consegui uma formação catequética e católica lúcida no sentido de entender que há espaço para a fé e a ciência conviverem e complementarem-se uma à outra. Efetivamente, já fui questionado nesse sentido, não necessariamente apenas relacionado com a profissão que exerço, mas porque há uma correlação muitas vezes errada com o grau de ensino e a crença numa religião, credo ou fé. Uma não invalida a outra, mas é certo que me baseio no dia-a-dia na evidência científica no exercício da minha profissão.

DL: Já teve algum paciente que pensou que poderia não sobreviver e, sem que nada aparente o pudesse justificar, recuperou-se?
Sim, várias vezes. Cada pessoa tem mecanismos fisiológicos ou condicionantes provocados por doença que originam diferentes formas de adaptação à alteração do seu estado normal de saúde como situações de traumatismo grave, por exemplo, em especial das células nervosas. Neste preciso momento em que partilhamos estas ideias acredito que está a acontecer uma situação destas num caso extremamente delicado e instável.
Mas voltando ao tal equilíbrio necessário entre a fé e a ciência, a primeira também pode influenciar decisões relacionadas com o prolongamento de medidas de suporte artificial de vida ou até mesmo interrupção da mesma em casos extremos. Há sempre a questão de tratamentos ou prolongamento dos mesmo que se transformam em autêntica distanásia. A dignidade até no morrer está acima de tudo, e um morrer sem dor acima de tudo. É lícito usarmos a fé para manter medidas desproporcionadas ao doente que até podem atentar à dignidade humana? É o tal equilíbrio que é necessário.

DL: A fé salva pessoas?
Sendo católico não posso excluir isso, mas como disse anteriormente, no dia-a-dia, baseio-me na evidência científica no exercício da minha profissão. A fé, numa vertente catequética também é falada nas nossas reuniões de preparação. É o acreditar sem ver. É um dom gratuito da graça de Deus e não o resultado de obras humanas, a tal dicotomia entre a ciência como evidência e a “falta” da evidência que é a fé, o acreditar sem ver. Mas a fé também pode ser intelectual, não tem necessariamente de estar ligada a uma crença ou religião, mas também a uma filosofia de vida, por exemplo. A mesma promove a ligação a algo maior que não se vê, o tal acreditar sem ver. Pode trazer paz e conforto em momentos difíceis, de forma alguma está descartado que a fé não desempenhe o seu papel na recuperação de uma doença, nem que seja no conforto e esperança.
Este é um facto real. Um Cavaleiro da Ordem de Santiago de Compostela, residente em Ponta Delgada, em 2013 confiou fervorosamente a oração ao nosso rancho por um bisneto que tinha nascido com várias complicações. Os médicos tinham muitas reservas sobre a sobrevivência do mesmo. Na romaria de 2014 esta intenção foi rezada fervorosamente, assim como todas as outras, e a verdade é que o menino é hoje uma criança saudável. O seu bisavô testemunhou esta vivência à Ordem. A mesma atribuiu a Medalha de Ouro da Ordem ao Rancho de Vila Franca do Campo. Terá sido só a medicina? A oração e a fé? Ambas juntas? Dá que pensar estas e muitas outras situações. Como já foi dito numa romaria “busca-se também aqui o que a Ciência não resolve!”
Outra situação que também dá que pensar. Na igreja da Senhora do Rosário na Povoação há uma imagem invocada como Senhora do Ó ou Senhora do Parto. Invocada para que a futura mãe tenha uma “hora pequenina” (parto sem dificuldade) ou por quem não consegue engravidar. Duas situações ocorreram em que após anos a tentar engravidar, mesmo com o auxílio de medicação tal não aconteceu e após o pedido de oração do nosso rancho à mesma imagem no ano seguinte estava-se a agradecer a concretização do pedido de oração. Inclusivamente este ano uma das mães levou a sua menina à igreja acompanhando-nos na oração.

“O serviço aos pobres é o maior desafio colocado aos discípulos.” A afirmação do bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, abriu um encontro promovido pelo Serviço Diocesano da Pastoral Social “Dilexi te- o amor para com os pobres” onde o apelo à urgência da ação dos cristãos foi uma constante. Sublinhando a necessidade de disponibilidade total, o prelado deixou um apelo claro para que ninguém falte na assistência ao irmão, sobretudo na resposta às necessidades concretas dos mais vulneráveis.
Num retrato detalhado da situação nos Açores, a presidente do Conselho Ecomómico e Social dos Açores, Piedade Lalanda, rejeitou uma leitura fatalista da pobreza lembrando que “se trata de um problema estrutural” que deve ser “atacado nas causas” de forma a inverter a tendência dos anos em que “poucos alimentaram a pobreza de muitos”.
A socióloga, que já foi responsável por este serviço da Igreja, destacou indicadores preocupantes, relativos aos Açores.
“Temos uma das mais elevadas taxas de baixa escolaridade do país”, associada à iliteracia e ao abandono escolar precoce. Apesar de medidas como a rede Valorizar, alertou que “mitiga o problema, mas estruturalmente não o resolve”, existindo ainda “um número de jovens que sai do sistema educativo sem a escolaridade obrigatória”.
A pobreza, disse, atinge de forma particularmente dura as famílias.
“Em 2024, incide sobretudo nas famílias monoparentais, com 87,3%”, referiu, acrescentando o paradoxo de os Açores serem uma região “católica” com “a taxa de divórcio mais alta do país”. Também as famílias com crianças enfrentam maior risco, num contexto agravado pela precariedade laboral: “Não se pode pedir a pessoas com instabilidade laboral que tenham filhos”.
Outro dado marcante é o número de trabalhadores pobres: “Temos mais de 11 mil trabalhadores cujos salários não suportam as dificuldades do dia a dia”. A isto juntam-se problemas de habitação, como a sobrelotação, que “pode ser um subproduto do turismo”, e desigualdades de género, com “as mulheres, sobretudo em idades mais avançadas, mais atingidas pela pobreza”.
Apesar de a taxa de risco de pobreza se situar nos 17,3%, Piedade Lalanda alertou: “Se não existissem apoios sociais, seria de 40%”, evidenciando a fragilidade estrutural da sociedade.

Num plano mais pastoral e teológico, o padre José Júlio Rocha aprofundou o significado da pobreza no cristianismo, distinguindo “a pobreza como escolha e modelo de vida” da “pobreza imposta”. A partir da enciclícia Dilexi Te, do papa leão XIV, recordou que “Jesus foi as duas coisas”, nascendo “numa manjedoura porque não havia lugar para ele”, foi migrante e refugiado e viveu sem “onde reclinar a cabeça”.
O sacerdote foi crítico em relação à evolução histórica da Igreja: “Com a ideia de poder, a Igreja deixou de dar testemunho e começou a impor a fé… e perdeu os pobres”. Defendeu que a instituição enfrenta hoje um desafio profundo: “A Igreja precisa de uma conversão estrutural e não está preparada para o fazer”.
Questionando diretamente os presentes, lançou um desafio incómodo: “Estaremos disponíveis para acolher o pobre que está no campo de São Francisco, que rouba para se drogar, e encontrar nele o altar sagrado? Não estamos”. Para o sacerdote, a mudança passa por recentrar prioridades: “A Igreja é toda pastoral social” e deve “debruçar-se sobre os pobres em vez de dar prioridade a outras pastorais, detidas em ritos”.
Também criticou uma visão assistencialista: “O pobre não pode ser objeto da minha esmola”, defendendo uma relação de igualdade e comunhão.
“Quando o pobre for o altar da Igreja e não o barroco ou o incenso, então estaremos no caminho”, afirmou depois de ter alertado para o perigo de um “cristianismo aburguesado” e “por vezes muito afastado das realidades mais duras e periféricas” da sociedade.
Já, no período de debate, Piedade Lalanda retomou esta ideia, reconhecendo que “a Igreja que dava primazia aos mais ricos existiu e continua a existir”, mas alertou: “Isso não combate a pobreza”. Defendeu uma mudança de atitude transversal: “Se um empresário, um professor, um enfermeiro agir de forma diferente, então podemos iluminar o presente”.
A necessidade de uma ação concreta e humanizada foi outro ponto forte, lembrando-se que a prática da compaixão deve ser uma prioridade na pastoral social da Igreja.
“O que dói na dor é não ter um ombro para chorar… a nossa indiferença carrega mais”, rematou o padre José Júlio Rocha.
Durante este encontro, Verónica Rego do Instituto de Segurança Social dos Açores, teve ainda tempo de elencar as linhas mestras da ação social desenvolvida pelo poder público.
No encerramento, Aldina Gamboa, diretora do Serviço Diocesano da Pastoral Social, deixou uma mensagem de esperança e compromisso coletivo: “A vossa presença é um sinal de primavera… que deste encontro brote uma vida nova para a pastoral social”. E concluiu com um apelo direto: “Saibamos estender a mão e abrir o coração… o mundo está a precisar de afeto, e ele não deve impedir-nos de intervir”.

O Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, dá início esta quarta-feira, 25 de fevereiro, à tradicional Novena dos Espinhos. As celebrações, que decorrem diariamente às 18h00, mantêm o formato habitual, mas apresentam este ano um aprofundamento especial da espiritualidade da Madre Teresa da Anunciada, figura central da devoção micaelense cujo processo de beatificação foi recentemente impulsionado com a nomeação de uma Comissão Histórica.
A pregação da novena estará a cargo de três ouvidores da ilha de São Miguel. Segundo explica o reitor do Santuário, cónego Manuel Carlos Alves, a escala foi organizada para que cada sacerdote pregue durante três dias consecutivos, assegurando uma maior continuidade temática. O foco principal será a dimensão biográfica da religiosa: “Importa irmos à autobiografia dela para percebermos melhor que aquilo que ela fez foi viver o Evangelho”, sublinha o reitor, destacando a necessidade de redescobrir o testemunho da Madre Teresa como uma encarnação da mensagem cristã.
A iniciativa insere-se num programa quaresmal que o Santuário pretende viver de forma mais intensa. Além da novena, o programa destaca a realização de uma Via-Sacra orante às sextas-feiras, pelas 15h00, e encontros de Lectio Divina às quintas-feiras, promovidos pelas Irmãs Contemplativas de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor.
A escolha da sexta-feira para os momentos fortes de oração não é ocasional e remete diretamente para a vivência da Madre Teresa da Anunciada. “Foi neste dia que o Senhor sofreu a Paixão e morreu na cruz, e ela foi percebendo que era também à sexta-feira que o Senhor concedia maiores graças”, explica o cónego Manuel Carlos Alves, justificando por que razão muitas das novenas promovidas pela religiosa ao longo da sua vida terminavam precisamente nesse dia da semana.
Com esta proposta espiritual, o Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres convida os fiéis a unir-se mais profundamente à Paixão de Cristo, utilizando o exemplo e a memória da Madre Teresa como guia para uma caminhada de renovação da fé durante a Quaresma.

As estradas de São Miguel preparam-se para receber, a partir do próximo dia 21 de fevereiro, os passos e as preces de cerca de 2.500 homens. Distribuídos por 51 ranchos, os romeiros iniciam a sua caminhada quaresmal sob o lema “Batizados na Esperança”, uma proposta que resultou do retiro espiritual realizado no Nordeste. Segundo Rui Melo, presidente da Comissão Administrativa que coordena a organização este ano, “a força do movimento continua em alta”, sublinhando que este momento formativo ofereceu as bases necessárias para que os mestres decidam a orientação espiritual dos seus grupos. Atualmente, decorrem as preparações próprias de cada rancho, tanto a nível espiritual como prático e físico.
Este ano, a mensagem do Bispo diocesano assume um tom marcadamente social, algo que o responsável considera de grande relevância para a atualidade. “Ao contrário de tempos passados, em que as intenções eram mais formais e centradas em categorias tradicionais, o prelado sublinha hoje problemas muito concretos que afetam as famílias açorianas”, afirma Rui Melo. Entre os temas que os romeiros levarão na oração estão a solidão, a doença, as dependências que atingem os jovens, a violência doméstica e o alcoolismo. “São realidades que nos tocam profundamente. Muitas vezes os problemas começam em casa, e a mensagem do senhor bispo fala exatamente para esse quotidiano que fere tantas famílias”, reforça o dirigente.
Para além da vertente doutrinal, assente na oração e na devoção mariana, a organização coloca uma tónica especial na “componente cívica”, considerada indispensável, uma vez que os romeiros pernoitam em casas de famílias e em salões paroquiais, inclusive na passagem pelo concelho da Lagoa. “Queremos continuar o que sempre foi bem feito. As recomendações de bom comportamento são um princípio fundamental”, explica Rui Melo, acrescentando que o acolhimento generoso da população, que prepara alojamento e alimentação, exige dos irmãos um saber estar marcado pela gratidão.
A preparação dos ranchos, que já decorre há várias semanas, foca-se também na partilha entre gerações e no apoio mútuo perante o esforço físico. Contudo, para a organização, o impacto da caminhada deve ir além da estrada. “A verdadeira romaria é a que fazemos no dia a dia, na família, na comunidade, nos ambientes onde nos movemos”, defende o presidente da Comissão, concluindo que o objetivo não é encontrar homens perfeitos, mas sim “pessoas atentas e disponíveis para tentar viver os valores do Evangelho”. No final do percurso, apesar do cansaço, a expectativa é que prevaleça o alento espiritual, com muitos romeiros a pensarem já no regresso no ano seguinte.

A tranquilidade da comunidade das Furnas foi abalada este domingo, 15 de fevereiro, com a notícia do desaparecimento de uma imagem de Santa Cecília do interior da Igreja de Sant’Ana. O alerta foi dado às autoridades durante a tarde, confirmando o furto de uma peça de arte sacra com elevado valor devocional e histórico, que se encontrava exposta no altar principal do templo, junto à imagem da padroeira.
A imagem em questão, datada do século XX, é uma escultura em madeira policromada a óleo com apontamentos dourados, medindo aproximadamente 50 centímetros. A peça, que representa a padroeira dos músicos, destaca-se ainda pelo seu resplendor em prata e pelo bom estado de conservação, fruto de uma intervenção de restauro realizada em 2013, em Braga, pelo especialista Domingos Rodrigues Silva.
O administrador paroquial, padre Valter Correia, lamenta profundamente o sucedido, classificando o furto como um “ato grave” que atenta contra a identidade da própria comunidade e fere o património religioso da ilha. No mesmo sentido, a Comissão de Festas expressa a sua consternação, sublinhando que o valor da imagem é imensurável para os fiéis, indo muito além do seu peso material ou financeiro.
Face à gravidade da situação e ao receio de novos incidentes, a Paróquia de Sant’Ana tomou a medida preventiva de retirar do interior da igreja várias outras imagens religiosas e objetos de culto. Esta decisão, segundo os responsáveis, visa garantir a segurança do espólio e evitar que o templo seja alvo de novas incursões criminosas.
A Polícia de Segurança Pública (PSP) já esteve no local a proceder à recolha de informações e indícios que possam levar ao paradeiro da imagem. As autoridades apelam agora à colaboração da população e dos órgãos de comunicação social para evitar que a peça saia do território da Região Autónoma dos Açores ou seja introduzida no mercado ilícito de antiguidades. Qualquer informação relevante deve ser comunicada de imediato às forças de segurança.

Pela primeira vez, o Santuário do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, vai promover a Via-Sacra Orante durante o tempo da Quaresma. Trata-se de um novo espaço de oração e meditação centrado na Paixão de Cristo, todas as sextas-feiras da Quaresma, a partir das 15h00.
A Via-sacra será sempre orientada pelas irmãs contemplativas da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, comunidade residente no santuário. Quem não puder participar presencialmente poderá acompanhar através das plataformas digitais do templo, no respetivo site oficial.
Esta é uma das práticas mais antigas da espiritualidade cristã, a Via-Sacra — expressão latina que significa “caminho sagrado” — recorda o percurso de Jesus com a cruz, desde a condenação até ao Calvário. Composta por 14 estações, convida os fiéis a unir-se interiormente a Cristo, meditando o mistério do seu amor redentor. A tradição associa ainda a origem desta devoção à própria Virgem Maria, que teria revivido espiritualmente os passos da Paixão após a morte do Filho.
Além desta nova proposta, o santuário passará a oferecer, durante a Quaresma, encontros semanais de Lectio Divina. As sessões realizam-se às quintas-feiras, entre as 19h30 e as 20h30, no Convento da Esperança, e são abertas a toda a comunidade.
O ciclo prevê a meditação dos Evangelhos proclamados nos cinco domingos quaresmais, iniciando-se a 19 de fevereiro. Está ainda prevista, a 26 de março, uma Via-Sacra ou outro momento de oração comunitária, culminando a caminhada espiritual no Domingo de Ramos.
Dinamizada por um grupo de oração composto por leigos e uma religiosa, a Lectio Divina propõe um método de leitura orante da Bíblia que envolve quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação, ajudando os participantes a integrar a Palavra de Deus na vida quotidiana.

A Ouvidoria do Nordeste está a ultimar os preparativos para acolher, pela primeira vez, o Retiro Anual dos Romeiros da ilha de São Miguel, um acontecimento de grande significado para as comunidades locais que terá lugar no próximo dia 25 de janeiro. O encontro, que servirá de preparação espiritual para as tradicionais romarias quaresmais, foi detalhado numa reunião preparatória na antiga escola da Feteira Pequena, onde David Feijó, mestre do rancho dos Romeiros da Vila do Nordeste e Pedreira, destacou que, embora o retiro decorra na vila, “o acolhimento deve ser assumido por toda a Ouvidoria, envolvendo todos os seus ranchos”, evidenciando a forte comunhão e o entusiasmo das paróquias envolvidas nesta organização inédita.
O assistente espiritual dos Romeiros do Nordeste, padre Jorge Sousa, apelou a uma profunda abertura à ação do Espírito Santo e convidou cada irmão a refletir sobre o sentido do Batismo ao longo de todo o ano. Segundo o sacerdote, “o Romeiro é um batizado vocacionado para a Igreja e para o serviço”, defendendo que a experiência da Romaria deve obrigatoriamente despertar a consciência de uma vida de missão cristã em estreita ligação aos sacramentos, com particular destaque para a Eucaristia. Durante os trabalhos do retiro, será apresentado um subsídio espiritual inédito com oito reflexões centradas na “Esperança Cristã que brota do Batismo”, material que acompanhará os romeiros durante os oito dias de caminhada e que será posteriormente disponibilizado no site oficial do movimento.
O programa do dia 25 de janeiro terá início às 8h30 com a celebração da Eucaristia na Igreja Matriz de São Jorge, presidida pelo bispo de Angra, D. Armando Esteves Domingues, que acompanhará todo o desenrolar do evento. Após a cerimónia, os participantes seguirão em caminhada em formatura de rancho até ao Centro Cultural Municipal, num momento de oração conduzido pelo mestre David Feijó.
A manhã prosseguirá com diversos painéis de reflexão, contando com a participação do Ouvidor do Nordeste, padre Agostinho Lima, do presidente da Comissão Administrativa, Rui Carvalho e Melo, do autarca António Miguel Soares e da diretora do Serviço Diocesano da Comunicação, Carmo Rodeia, que abordará a amizade e a fraternidade como frutos do compromisso batismal na construção de uma sociedade mais fraterna.
O encontro, que encerra com uma análise sobre o passado e o presente das romarias pelo mestre Norberto Leite, serve de antecâmara para a saída dos primeiros ranchos para a estrada a 21 de fevereiro, cumprindo-se uma tradição que este ano termina na Quinta-feira Santa, a 2 de abril.