
Carlos Caetano Martins
Engenheiro Técnico Sénior
Dirigente Iniciativa Liberal Açores
Eu, contra a autonomia, me levanto.
Calma. Antes que alguém me acuse de traição à causa açoriana, convém deixar isto claro: não me levanto contra os Açores, nem contra o direito dos açorianos a decidirem o seu destino. Levanto-me, isso sim, contra um modelo que nos promete autonomia e nos entrega dependência.
Porque mesmo com autonomia os Açores continuam entre as regiões mais pobres do país. O PIB per capita permanece 12,6% abaixo da média nacional. O poder de compra fica-se pelos 87,6 pontos, quando no continente ultrapassa os 100. E tudo isto apesar de recebermos, por habitante, mais transferências públicas do que qualquer região continental. Em 2026, entre a Lei das Finanças das Regiões Autónomas e os mecanismos de coesão, vão chegar mais de 1.400 euros por açoriano.
Recebemos mais e continuamos atrás. Porque é que mesmo recebendo mais recursos continuamos a ter resultados tão pobres? Talvez o problema já não esteja apenas no montante das transferências. Talvez esteja naquilo que fazemos com elas.
Ou, talvez o problema não esteja na quantidade de dinheiro que recebemos. Talvez o problema esteja naquilo que ele não está a construir.
O mundo está cheio de exemplos que ajudam a perceber o caminho que devemos seguir.
Vejamos as Ilhas Faroé. Recebem da Dinamarca um subsídio equivalente a cerca de 4% do seu PIB. Ainda assim, financiam mais de 90% do seu orçamento com recursos próprios. Ao longo da sua autonomia apostaram numa economia exportadora, assumiram responsabilidades fiscais e foram reduzindo a dependência de Copenhaga. Apesar de serem uma região periférica, hoje têm níveis de riqueza próximos dos restantes dinamarqueses. A autonomia, no caso deles, serviu para ganhar independência, não para a substituir.
No reverso da medalha podemos olhar para a Polinésia Francesa. Durante décadas recebeu transferências que chegaram a representar 20% ou 30% do seu PIB. O dinheiro nunca faltou. A dependência do estado francês também não. A única coisa que se fez foi garantir estabilidade, ao invés de uma economia capaz de andar pelas suas próprias pernas.
Por último observemos ainda as ilhas de Saint Martin e Saint-Barthélemy. Em 2017, o furacão Irma atingiu estas ilhas. A mesma tempestade, territórios diferentes. Saint-Barthélemy recuperou rapidamente. A parte francesa de Saint-Martin ficou presa na dependência do Estado central. Já Sint Maarten, a parte neerlandesa da ilha, apesar de ter recebido centenas de milhões de euros, enfrentou dificuldades sérias na execução da recuperação. A tempestade foi igual, e o dinheiro não resolveu tudo. O que fez a diferença nos resultados obtidos foi outra coisa: capacidade económica e institucional para transformar recursos em desenvolvimento.
E é aqui que a conversa começa a ficar desconfortável para nós.
Porque ninguém cresce sem investimento. Ninguém ultrapassa a insularidade sem apoio. Mas nem todo o investimento cria futuro, e nem toda a transferência cria autonomia.
Já não é uma questão de quanto dinheiro é suficiente. A verdadeira questão é perceber porque após 50 anos continuamos tão dependentes das transferências nacionais.
Temos mar, energia geotérmica, renováveis, turismo de natureza e uma posição atlântica que muitos países invejariam. Não nos faltam recursos! Falta-nos, demasiadas vezes, a capacidade de os transformar em riqueza duradoura e políticos com visão arrojada para nos tirar deste marasmo.
O artigo 229.º da Constituição determina que o Estado deve corrigir as desigualdades resultantes da insularidade. E bem. Que o faça. Mas que o faça criando capacidade. Que o faça criando economia. Que o faça criando autonomia a sério!
Porque há quem queira combater a dependência de transferências da República e não apenas as perpetuar com boas intenções.
Os Açores têm como lema uma frase que não devia ser apenas decorativa: “Antes morrer livres que em paz sujeitos.” Talvez seja aqui que o discurso tenha de ser testado. Não é pedir mais fundos, mas fazendo melhor com o que nos dão. Não és estar de mão estendida, mas construindo caminho para o futuro. Deem-nos os meios para podermos partir e as razões para querermos ficar. E isto não é uma ameaça, é uma exigência de liberdade. Nós queremos ficar, mas de pé.

Venício da Costa Ponte
Vice-Coordenador da IL Açores
Há profecias políticas que não exigem o alinhamento dos astros, nem a consulta de pergaminhos antigos; exigem apenas a leitura atenta de um balanço contabilístico e uma dose elementar de realismo económico. No teatro político dos Açores, o dossier da SATA transformou-se numa espécie de crónica de um resgate anunciado onde, no final, todos parecem fingir surpresa perante o óbvio. Contudo, os acontecimentos mais recentes, com o recuo da manifestação de interesse da ALM Investment Holding, que acenava com um investimento estratégico de 500 milhões de euros, elevam o debate de um mero erro ideológico para um cenário de profunda perplexidade institucional.
Há seis anos, quando as primeiras vozes se levantaram (versão Nostradamus Liberalis 1.0), para alertar que o modelo de gestão da transportadora aérea regional era uma bomba-relógio financeira, a reação do sistema foi unânime. Os arautos do estatismo regional uniram-se numa narrativa de indignação sagrada, tratando a reestruturação e a privatização como atentados à autonomia. O debate foi intencionalmente desviado da eficiência económica para o plano do sentimentalismo político, como se o orgulho açoriano se medisse pelo tamanho do défice acumulado.
O problema de tratar empresas comerciais como extensões da identidade regional é que o mercado global não aceita o patriotismo como moeda de pagamento. Enquanto o poder político local se entretinha a sacudir a água do capote, a realidade económica seguia o seu curso implacável: um plano de reestruturação severo imposto por Bruxelas e centenas de milhões de euros dos contribuintes injetados num poço sem fundo.
A reviravolta desta semana expõe, contudo, uma dupla fragilidade que deve merecer uma reflexão séria. O plano agora frustrado desenhava um futuro ambicioso, assente na transformação das nossas ilhas num hub transatlântico e no reforço da frota. No entanto, a justificação do consórcio para abandonar o processo, alegando que a venda teria de ser concretizada no prazo utópico de dois meses para “preparar o inverno”, introduz um elemento de profunda dúvida. Qualquer observador atento do mundo financeiro sabe que a alienação de um ativo desta complexidade, esmagado por uma dívida de 470 milhões de euros e sujeito ao escrutínio minucioso da Comissão Europeia, jamais se resolveria num bimestre.
É aqui que o cidadão comum fica encurralado numa dúvida desconfortável: o que é pior? A inércia de uma gestão pública que remete decisões para labirintos procedimentais sem fim, ou a falta de credibilidade de propostas cujos prazos parecem deliberadamente desenhados para colidir com a realidade legal do Estado? Exigir o impossível ao decisor público é, muitas vezes, a forma mais fácil de construir uma narrativa de saída para quem, afinal, não pretendia ir até ao fim.
Aqueles que em 2020 foram apodados de radicais por proporem a alienação atempada da companhia limitaram-se a aplicar as leis mais básicas da gravidade económica. Não foi necessária nenhuma capacidade divinatória de um Nostradamus; bastou perceber que nenhum erário público consegue sustentar indefinidamente uma estrutura desenhada para queimar capital. O custo desta teimosia não se reflete apenas no passivo da empresa; reflete-se no custo de oportunidade de tudo o que deixou de ser feito nas nossas nove ilhas em termos de redução fiscal ou apoio à inovação, seja de que área for.
A saga da SATA deixa um aviso sério. Entre a rigidez burocrática da governação e a volatilidade de supostos salvadores da pátria, a verdadeira autonomia continua refém do improviso. Os Açores precisam urgentemente de um rumo assente no rigor e na transparência processual, evitando que o arquipélago continue a ser o palco de um espetáculo cujos bilhetes são pagos, invariavelmente, pelos mesmos contribuintes.

Venício da Costa Ponte
Vice-Coordenador da IL Açores
O liberalismo político e económico assenta, fundamentalmente, na premissa da responsabilidade institucional. Governar não é um exercício de sobrevivência partidária, nem uma constante guerrilha por espaços de influência mediática; é, sim, a gestão diligente e previsível dos recursos dos contribuintes. No entanto, o cenário a que temos assistido recentemente na Região Autónoma dos Açores revela uma inversão preocupante destas prioridades, onde a estabilidade parece ser tratada como um mero detalhe tático.
É incompreensível que, em pleno exercício de funções, forças políticas que integram o próprio executivo regional promovam, ou permitam que se alimentem, dinâmicas de fricção interna e o fomento de um bairrismo artificial. Quando agendas partidárias ou conflitos estéreis de protagonismo sobrepõem-se à solidez governativa, falha-se no dever mais elementar de um gestor público. A utilização da máquina política para alimentar pequenas polémicas de secretaria é um sintoma de imaturidade que o arquipélago, na atual conjuntura, simplesmente não se pode dar ao luxo de sustentar.
Enquanto estas escaramuças de bastidores se desenrolam, o custo real para os Açores não se mede apenas nos milhões de euros que uma eventual e fútil eleição antecipada custaria aos cofres públicos. O verdadeiro prejuízo, muito mais gravoso e silencioso, reside no custo de oportunidade.
Para quem empreende, cria valor ou tenta fixar projetos de inovação tecnológica no arquipélago, a incerteza política funciona como um autêntico veneno económico. A instabilidade traduz-se em dois bloqueios imediatos:
A Paralisia na Execução: O espartilho de potenciais crises e a ameaça de regimes duodecimais travam investimentos, atrasam licenciamentos vitais e paralisam a execução de fundos europeus estruturais, incluindo o PRR, cujo calendário não se compadece com calendários partidários.
O Afastamento de Investimento: O capital privado, e venha ele de onde vier, procura previsibilidade e clareza. Ao projetarem um ambiente de conflito constante, os partidos enviam uma mensagem de desconfiança aos parceiros externos, minando a competitividade e a reputação da Região.
A mensagem que transparece para a sociedade civil é a de uma clara dissociação entre as dores de crescimento dos partidos e as reais necessidades dos açorianos. Quando a manutenção de equilíbrios internos de poder é colocada à frente da continuidade e da eficácia das políticas públicas, as instituições públicas arriscam se transformar num entrave burocrático ao serviço de interesses particulares.
Os Açores não podem continuar reféns de estratégias de curto prazo ou de narrativas de sobrevivência. O eleitor, enquanto cidadão e pagador de impostos, tem o direito e o dever de exigir que os partidos que compõem o arco governativo, em especial aqueles com acrescida responsabilidade na hierarquia executiva, demonstrem um sentido de Estado à altura dos desafios que enfrentamos.
O desenvolvimento das nossas nove ilhas exige seriedade e foco na eficiência. É tempo de substituir as trincheiras partidárias pela modernização real da economia e pela atração de valor. Tudo o resto é apenas “bairrismo” de fachada, pago, infelizmente, com o erário público e com o atraso no futuro de todos nós.

Venicio da Costa Ponte
Vice-coordenador da Iniciativa Liberal Açores
Há manhãs em que a leitura da imprensa regional nos devolve uma dose de entretenimento que nenhum algoritmo de Inteligência Artificial conseguiria replicar. Estava eu, no meu habitual périplo pelas notícias das nossas nove ilhas, quando me deparo com uma declaração de José Manuel Bolieiro que merece figurar no panteão do otimismo antropológico: em 2028, o PSD concorrerá sozinho.
Tal como o apóstolo São Tomé, confesso que a minha natureza é a da dúvida metódica. “Só vendo”, pensei eu, enquanto tentava processar a ideia de um partido que governa em coligação tripartida — e que ainda assim precisa de equilibrar pratos com o Chega, a IL e o PAN para não deixar cair o orçamento — anunciar, com dois anos de antecedência, que afinal já não precisa de companhia para ir ao baile.
O sarcasmo é inevitável. Bolieiro garante que “não há risco de melindres” entre os parceiros CDS e PPM. É uma forma elegante de dizer que o divórcio está assinado antes mesmo da renovação dos votos, mas que, até lá, todos continuam a partilhar o mesmo teto institucional com um sorriso diplomático. É a política do “estamos bem”, embora a perceção pública, como a própria entrevista sugere, insinue por vezes que o vice-presidente manda mais do que o presidente. Bolieiro desmente, claro. Mas na política, como na física, quando se gasta tanta energia a desmentir quem manda, é porque a autoridade está a ser exercida por osmose.
Para um liberal, esta súbita vontade de “solidão” do PSD Açores levanta questões interessantes. Se o PSD quer concorrer sozinho para “não se anular”, por que razão não aproveita essa clareza de liderança agora? Por que razão continuamos a ver uma governação que, nas Lajes, admite a ingenuidade do otimismo e, na SATA, navega entre a ausência de pessimismos e a falta de soluções concretas para a saída da Ryanair?
A visão de futuro que os Açores exigem não passa por saber se o PSD vai sozinho ou acompanhado ao altar das urnas em 2028. Passa por saber se teremos a coragem de transformar a Região num polo de competitividade real, livre da “dependência crónica das transferências do Estado” que o próprio Bolieiro critica ao apontar o dedo à Lei das Finanças Regionais. Culpar o centralismo de Lisboa é o desporto nacional preferido de qualquer governo regional, mas a verdadeira autonomia conquista-se com reformas, com o tal “choque fiscal” que atraia investimento.
Em 2028, veremos se o PSD vai sozinho. Até lá, ficamos com a promessa da “palavra dada”. Prefiro focar-me nos resultados dados. Porque, no fim do dia, o que interessa ao pagador de impostos açoriano não é a composição da lista eleitoral, mas sim se o governo — seja ele de que cor for — tem a coragem de tirar a mão do seu bolso e deixar a economia respirar. Veremos.

O deputado da Iniciativa Liberal (IL) no Parlamento dos Açores, Nuno Barata, solicitou o agendamento de uma interpelação ao governo regional para debater um tema que considera “absolutamente estratégico para o futuro dos Açores”: a preparação do próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia para o período 2028-2034.
Reconhecendo que os fundos europeus “foram importantes” para a melhoria da qualidade de vida nas ilhas açorianas, ao longo das últimas duas décadas e meia, o parlamentar liberal não deixa, porém, de sublinhar que “os muitos milhões de euros que estiveram ao dispor das sucessivas governações regionais não foram suficientes para transformar estruturalmente a economia dos Açores”.
Ora, perante as notícias que chegam de Bruxelas sobre a proposta de orçamento da União Europeia para os próximos seis anos, apresentada pela Comissão Europeia e em negociação com os Estados-membros, Nuno Barata entende que “importa os açorianos estarem a par das negociações e diligências que a região está a desenvolver”.
“Este tema é absolutamente estratégico para o futuro dos Açores. A proposta apresentada pela Comissão Europeia levanta questões profundas sobre o futuro da política de coesão, sobre o papel das regiões e sobre a forma como os fundos europeus serão distribuídos e geridos e nada se sabe sobre a forma como o governo regional está a preparar-se para defender os Açores no quadro das políticas públicas europeias”, afirmou o deputado da IL.

Venicio da Costa Ponte
Vice coordenador da Iniciativa Liberal Açores
A política açoriana padece de um vício crónico: sempre que o Executivo se vê confrontado com a sua própria inoperância, refugia-se na cosmética parlamentar. A recente aprovação de um Grupo de Trabalho para analisar o dispositivo de segurança na Região é o exemplo acabado deste “Estado que se estuda a si próprio” para adiar o que é óbvio.
Enquanto liberais, não podemos aceitar este desaproveitamento de recursos e de tempo. É, no mínimo, paradoxal que o partido que sustenta a pasta da Segurança no Governo recorra ao Parlamento para obter diagnósticos que o seu próprio Executivo tem a obrigação — e as ferramentas — de produzir. O Parlamento não é, nem deve ser, o gabinete de estudos de um Governo paralisado.
A pergunta que se impõe é de mera eficácia administrativa: onde está o Gabinete Coordenador de Segurança (GCS)? Por que razão este órgão, criado precisamente para planear e articular a estratégia regional, foi olimpicamente ignorado neste processo? A resposta é amarga: a segurança pública nos Açores está refém de uma gestão por acumulação, onde a dispersão de pastas e assessorias de quem tutela o setor dilui o foco no que é essencial.
A segurança de pessoas e bens é uma função clássica e basilar do Estado. Não pode ser tratada como uma competência secundária ou um acessório de gabinete para as horas vagas. Quando a estrutura que deveria ser o “cérebro” da estratégia regional é relegada para um plano meramente formal, a segurança fica acéfala. O resultado está à vista: um dispositivo policial desfasado e profissionais no limite das suas capacidades, enquanto o poder político se perde em rituais burocráticos.
Ouvimos no Parlamento que este grupo de trabalho servirá para “sustentar futuras decisões”. Ora, num setor onde a urgência é a norma, pedir 150 dias para elaborar um relatório é um luxo que os açorianos não podem pagar. Trata-se de uma manobra de diversão que apenas serve para diluir responsabilidades: no labirinto das comissões, a responsabilidade é sempre do próximo relatório e nunca de quem governa.
A solução para a segurança nos Açores não passa por mais burocracia legislativa ou diagnósticos redundantes. Passa, sim, por profissionalizar o que já existe. Passa por dotar o GCS de uma liderança exclusiva, técnica e operante, capaz de exercer a pressão política necessária junto da República e de coordenar os meios no terreno com agilidade.
O que os açorianos esperam de quem governa não é um atestado de espera de cinco meses. É execução. Menos observação, mais ação. A segurança pública exige foco total, não apenas mais um papel para a gaveta das boas intenções.

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal Açores
Já passaram quase três anos desde que o governo anunciou, com pompa e circunstância, a gratuitidade das creches. Uma medida que se aplaude, sem reservas. O problema é que, entretanto, as vagas não se multiplicaram por decreto — continuamos com creches sobrelotadas e listas de espera quilométricas. A solução agora encontrada? Empurrar crianças de dois anos, prestes a fazer três, diretamente para o pré-escolar.
Sim, leu bem: crianças condicionais (nascidas após 15 de setembro do ano civil), que apenas por opção dos pais deveriam entrar no mesmo ano escolar dos que nasceram em janeiro, estão a ser obrigadas a ir para a escola. No caso da transição da creche para o pré-escolar, podem ser crianças ainda de fralda, muitas vezes mal saídas da fase do biberão, ainda a necessitarem de dormir a sesta, e que de preferência, não façam chichi no tapete.
A ironia é que o pré-escolar nunca foi pensado para isso. As salas não estão preparadas para rotinas de muda de fraldas, para birras próprias de berçário ou para a logística que acompanha crianças tão pequenas. Mas o governo decidiu que, para resolver a falta de creches, nada como reinventar o pré-escolar como uma espécie de “creche 2.0”, sem perguntar a educadores, auxiliares ou pais se tal faria sentido.
Claro que o argumento oficial é bonito: “as crianças beneficiam de contacto precoce com educação pré-escolar”. Na prática, trata-se de libertar vagas — e de empurrar para a frente o problema estrutural da falta de investimento em novos equipamentos. Porque construir creches dá trabalho, custa dinheiro e não rende títulos imediatos nos jornais.
Entretanto, quem paga a fatura são as próprias crianças. Entram num espaço para o qual não têm maturidade psicológica, fisiológica ou social, com risco de comprometer o seu desenvolvimento natural. Mas isso é apenas um detalhe menor perante a estatística redonda da gratuitidade universal.
Não é culpa das crianças que o governo tenha lançado uma medida louvável sem preparar o terreno para a sua execução. O resultado é este: um remendo legislativo que trata os mais pequenos como peças móveis de um puzzle mal desenhado.
E depois admiram-se que os pais desconfiem, que os educadores se sintam sobrecarregados e que as próprias crianças fiquem para trás. Se queremos políticas educativas sérias, precisamos de mais do que números bonitos em comunicados de imprensa. Precisamos de investimento real, coerência e respeito pelo tempo de cada criança.
Porque convenhamos: o futuro não se constrói à pressa, nem à custa de crianças ainda de fralda.

Venicio da Costa Ponte
Vice coordenador da iniciativa Liberal Açores
Abril é o mês da liberdade. Mas mais do que uma memória de cravos nas janelas, deve ser um convite à ação — especialmente quando estamos a poucos dias de novas eleições. No dia 18 de maio, os portugueses voltam às urnas para escolher quem vai governar. Nesta escolha, há uma coisa que importa relembrar: a liberdade não foi sempre garantida. E não é garantida para sempre.
A 25 de Abril de 1974, Portugal acordou de uma longa noite. Durante 48 anos, o país viveu sob uma ditadura que silenciava opiniões, censurava jornais, perseguia opositores e negava a participação política livre. A Revolução dos Cravos foi muito mais do que a queda de um regime — foi o renascimento da cidadania, da pluralidade, da possibilidade de discordar e de propor caminhos diferentes. Foi o começo de um país novo.
Mas o processo democrático não se consolidou num só dia. Após o 25 de Abril, houve tempos de instabilidade e tensão, em que se disputava não apenas o poder, mas o próprio modelo de sociedade que iríamos construir. Foi nesse contexto que o 26 de novembro de 1975 tornou-se um marco. Nessa data, as Forças Armadas — divididas internamente — puseram fim a uma tentativa de desvio autoritário por parte da extrema-esquerda. O que estava em causa não era apenas quem mandava, mas se Portugal seguiria um caminho democrático e plural ou cairia noutra forma de repressão, ainda que em nome de uma ideologia diferente. O resultado foi claro: escolhemos a liberdade — de expressão, de organização, de voto. Liberdade para todos.
Hoje, quase cinco décadas depois, essa mesma liberdade continua a viver em cada ato eleitoral. É fácil esquecermo-nos do seu valor quando nascemos já em democracia. Mas votar continua a ser um dos gestos mais poderosos que podemos fazer — não apenas por nós, mas por quem virá depois.
No próximo dia 18 de maio , somos chamados novamente a escolher. Entre muitas opções legítimas, está também a possibilidade de votar liberal. Em ideias que defendem a liberdade individual, o mérito, o empreendedorismo, a descentralização do poder e uma economia aberta. Essa escolha não tem sido tradicionalmente dominante em Portugal — talvez por herança histórica, talvez por preconceitos persistentes — mas é uma escolha válida, legítima e profundamente democrática.
Escolher votar liberal não é virar as costas a abril — é afirmar uma visão diferente sobre como cumprir os seus ideais. Porque liberdade também é isso: poder acreditar que o Estado não tem de estar em todo o lado, que o indivíduo pode e deve ter espaço para crescer, que a responsabilidade pessoal é uma forma de dignidade, e que uma sociedade aberta e exigente pode ser mais justa do que uma sociedade controlada e paternalista.
Para os mais jovens, que muitas vezes se sentem distantes da política, esta pode ser uma oportunidade de fazer a diferença. O voto não muda tudo — mas é o começo de tudo. É o primeiro passo para exigir, construir, transformar. É a forma mais direta de dizer: estou aqui, tenho voz, quero participar.
Abril de 1974 devolveu-nos essa voz. Novembro de 1975 protegeu-a. Em Maio de 2025, cabe-nos a nós usá-la — com liberdade, com consciência e com coragem.
Neste mês da liberdade façamos uma reflexão, sejamos dignos da história que herdámos. E façamos do voto uma afirmação clara do país em que queremos viver.

Carlos Caetano Martins
Dirigente Iniciativa Liberal – Açores
Aplicar políticas económicas sem dados estatísticos é como tentar pilotar um avião sem apoio cartográfico: podemos ir seguindo algumas tendências com base na nossa intuição, mas, no final, apenas nos guiamos pela linha de vista.
Na Iniciativa Liberal, gostamos de nos guiar por números de fontes oficiais como o SREA, o INE ou o EUROSTAT e, a partir daí, definir um plano e as políticas que melhor se enquadrem em cada contexto.
É por este motivo que acreditamos que estas instituições devem primar pela isenção e pela disponibilização de dados atualizados e em bruto, permitindo uma interpretação livre por terceiros. Caso contrário, ficamos dependentes dos resumos de informações que o governo decide divulgar — numa versão moderna do clássico orwelliano 1984.
A título de exemplo, ainda este mês de fevereiro, surgiram notícias de que o salário médio regional ilíquido nos Açores, em 2024, foi de 1.742,00€. Os mais incautos poderão pensar que metade dos açorianos aufere esse montante. No entanto, apenas com recurso à mediana ou a séries de dados por intervalo conseguimos perceber qual o valor auferido por metade dos açorianos. Num mundo em que a economia muda à velocidade de uma publicação de Trump, a ausência de dados críticos como a mediana salarial prejudica qualquer análise e avaliação das políticas públicas e dos resultados obtidos.
Pois bem, apesar de termos valores da média salarial para 2024 nas bases de dados do INE e do SREA, a verdade é que, desde dezembro de 2022, a mediana salarial não é publicada. Nessa data, os valores líquidos para o salário médio na RAA eram de 1.273,71€, enquanto a mediana era de apenas 938,51€ e o terceiro quartil situava-se nos 1.208,60€. Isto significa que metade dos açorianos ganhava menos de 938,51€ e que 75% da população auferia menos 65,11€ do que a média salarial. E como será em 2024? Não sabemos, porque não há dados estatísticos disponíveis.
Numa época em que enfrentamos uma crise habitacional sem precedentes, como podemos perceber o que são preços acessíveis à compra de habitação e a respetiva taxa de esforço das famílias, se não sabemos o que 50% ou 75% da população aufere? E, na mesma linha de pensamento, como podemos identificar o Índice de Gini, avaliar o impacto da inflação ou perceber se os aumentos salariais estão a acompanhar as necessidades da população?
Se o SREA e o INE conseguem calcular médias salariais, é evidente que têm acesso aos dados para calcular medianas — o que nos leva a questionar o motivo para a sua não publicação. Será um lapso, desorganização ou simplesmente falta de prioridade? No final, a imagem que passa é a de uma estratégia política para controlar a narrativa e evitar críticas que exponham as falhas governativas, deixando a oposição sem ferramentas para contestar os discursos oficiais.
Nas palavras do saudoso Alexandre Soares dos Santos, filantropo e fundador da Pordata, «não há maior defesa contra a manipulação nem arma mais eficaz contra as propagandas e ilusões do que o poder dos dados rigorosos e independentes.» E acrescentava que «se o conhecimento não pode ter limites, também o autoconhecimento de um país os não tem.»
Sem dados, não há análise séria — apenas propaganda. Uma região que não mede corretamente os seus problemas está condenada a nunca os resolver. Se o governo esconde ou negligencia dados essenciais, como podemos confiar que as suas decisões são baseadas na realidade e não apenas numa estratégia de comunicação populista?