Log in

Património imóvel à venda pode correr risco de perda ou descaraterização

Um grande conjunto de imóveis patrimoniais está à venda nos Açores. Segundo a investigadora Isabel Soares de Albergaria, trata-se de um fenómeno normal, mas alerta: “temos de zelar pela autenticidade e pela integridade deste património”

Solar no Campo de São Francisco, Ponta Delgada © DL

Alguns em decadência, outros ainda a preservar um esplendor do passado, vários imóveis patrimoniais e/ou de relevância histórica estão à venda nos Açores, em diversas ilhas, verificou o Diário da Lagoa (DL). Trata-se, por exemplo, de palacetes, solares, herdades, quintas, casas de veraneio, que estão listados nas imobiliárias.

Entre os imóveis à venda, encontramos um solar situado no Campo de São Francisco, em Ponta Delgada. Foi construído na primeira metade do século XVIII, sendo uma das moradias emblemáticas da arquitetura barroca açoriana. Propriedade da mesma família desde o século XIX, está classificado como património de interesse público desde 1984. Está à venda por um milhão e 750 mil euros.

“É uma peça de grande valor arquitetónico e com presença naquele espaço. O edifício sofreu algumas transformações, mas mantém-se ainda bastante íntegro. É um imóvel de grande representatividade e importância para o património e para este conjunto residencial”, destaca ao DL Isabel Soares de Albergaria, doutorada em Arquitetura e mestre em História da Arte.

Por sua vez, a Quinta do Falcão, situada na Almagreira, ilha de Santa Maria, à venda por um milhão e meio, é constituída por casarios e terrenos de cultivo, devendo o seu nome ao seu primeiro proprietário, João Falcão de Sousa. Foi sargento, capitão-mor e capitão-donatário da ilha de Santa Maria. A quinta, construída em inícios do século XVII, está inscrita no Inventário do Património Açoriano na ilha de Santa Maria e está implantada num terreno com uma área total de 70 mil  metros quadrados. “É uma jóia, uma peça extraordinária de arquitetura rústica, vernacular, com um conjunto muito interessante na implantação do território. Está muito bem conservada e tem sido alvo de obras recentes. Foi adaptada a unidade de alojamento turístico”, explica a investigadora. É constituída por seis casas de campo de várias tipologias.

Igualmente a casa em Angra do Heroísmo, ilha Terceira, que acolheu temporariamente o escritor Fernando Pessoa, está à venda, por 600 mil euros. O poeta português teria 13 anos quando viajou com a mãe, natural daquela ilha açoriana, o padrasto e os irmãos, em férias, chegando à Terceira em maio de 1902. A família terá passado alguns dias em Angra do Heroísmo, na casa da tia do escritor, Ana Luisa, na Rua da Palha.

Quinta do Falcão, em Santa Maria © D.R

“Temos de olhar para o património como um ativo estratégico”

Segundo a investigadora Isabel Soares de Albergaria, “neste momento, temos um conjunto importantíssimo de património que deixou de ter as suas funções, sobretudo residenciais, e quando passa de mãos já não vai ter a mesma continuidade de função e será adaptado a outras funções. É natural que assim aconteça”, considera, mas alerta: “temos de zelar pela sua autenticidade e integridade, porque nesta mudança de funções, muitas vezes, há descaraterizações bastante acentuadas desses imóveis e nós perdemos o caráter essencial e o testemunho histórico que cada um destes imóveis nos transmite”.

Neste momento, testemunha-se um “fim de linha de muitos destes imóveis, que já não vão continuar a ter a mesma função”.

Como explica a doutorada em Arquitetura, “as famílias que tinham este património estão dispersas, algumas não têm já arcabouço financeiro para conservar e manter este património, e, muitas vezes, não têm o compromisso. O modo de vida de hoje é muito diferente e isso exigiria das pessoas um sacrifício que muitos não estão dispostos a fazer”.

“Tem-se assistido a muitas demolições, transformações profundas de edifícios que são convertidos em prédios de rendimento ou adaptadas a unidades hoteleiras”, aponta. 

“Isso em si não é um problema, desde que as adaptações não sejam descaraterizadoras do património existente”, ressalva Isabel de Albergaria. Sobre os imóveis à venda, a professora espera que possam a vir ter “uma utilização condigna, sem descaraterização”.

Isabel Albergaria refere que “há muito património que já se perdeu e há uma fatia muito significativa de imóveis que estão em perigo iminente. Estas mudanças de mãos são sempre um momento crítico”.

Para Isabel de Albergaria, este património “faz parte da nossa história e tem vários valores, sejam eles culturais, de identidade. Não é comunidade viva e com perspetivas de futuro se não tiver também a conservação da sua memória e dos seus recursos históricos”. Por outro lado, estão também em causa “valores educacionais e até económicos”, defende. 

“Temos de olhar para o património como um ativo estratégico. Até do ponto de vista da sustentabilidade, são recursos reutilizáveis”, realça.

Estão também à venda imóveis em decadência ou já em ruína: a primeira fábrica da Cerâmica Vieira, na Lagoa; o Solar do Botelho, no Livramento; a Estalagem da Serreta, na ilha Terceira e o Palacete do Pilar, na ilha do Faial. 

Na próxima edição, conheça mais sobre esta problemática e a história de alguns destes imóveis.

Isabel Soares de Albergaria é doutorada em Arquitetura e mestre em História da Arte © D.R.