
Tem 54 anos, nasceu, cresceu e construiu vida no concelho da Lagoa, onde até hoje habita. Atualmente, Carlos Augusto Furtado é empresário, desenhador técnico de construção civil e já exerce funções na política há vários anos. Foi membro da Assembleia de Freguesia de Nossa Senhora do Rosário e assumiu funções como vereador da Câmara Municipal de Lagoa entre 2009 e 2013 e entre 2017 e 2020. Fez parte do PSD, função que deixa quando se torna o primeiro presidente do Chega Açores, cargo que desempenhou durante 17 meses, entre 2020 e 2021. Na mesma altura, foi eleito deputado da Assembleia Regional e é no final deste mandado que aceita o convite para integrar o lançamento do Juntos Pelo Povo (JPP) nos Açores, cuja integração considera ser um “começar de novo” na sua vida. O lagoense não quis adiantar se é candidato à Câmara Municipal de Lagoa nas próximas autárquicas.
DL: Quais têm sido as preocupações principais do JPP para a Lagoa?
Na minha passagem pela Assembleia Regional aprendi muita coisa que, por força do facto de ter nascido, sido criado, estudado, casado, vivido e trabalhado sempre na Lagoa, sempre tive o meu foco neste concelho. Mas, quando assumi a condição de deputado regional, percebi que há mais vida para além da Lagoa e que há dificuldades noutras geografias dos Açores que também merecem ser atendidas. Quando aceitei integrar este projeto do lançamento dos primeiros passos do JPP nos Açores, tive de começar a pensar numa dimensão de território regional e, neste momento, identifico que há problemas na Lagoa para resolver, como há problemas em todos os Açores. Há ilhas tão mais desprotegidas na nossa região do que o território da Lagoa. Há ilhas que não têm um hospital e há ilhas onde arranjar um médico é mais difícil, porque não têm um hospital da CUF nem mesmo se pagarem. Nas Flores e no Corvo, corremos o risco de ficarmos presos lá durante dias, porque o tempo às vezes não ajuda. Em ilhas como a Graciosa, um dos problemas é uma população que está a envelhecer a passos largos, sem perspetivas futuras e os pais não têm argumentos para convencer os seus filhos a lá ficarem. A Lagoa preocupa-me muito e sempre me preocupou, mas agora, enquanto Coordenador Regional do JPP, estou a pensar nos Açores em termos dos meus compromissos e obrigações com os cidadãos numa dimensão que não pode ser só a geografia da Lagoa.
DL: O que considera que ainda falta resolver nas cinco freguesias do concelho?
Muita coisa. A habitação é dos principais problemas que a Lagoa enfrenta porque, pela geografia do concelho, há muitas pessoas que querem fixar residência na cidade de Lagoa. E, neste momento, o problema dos locais é receber os “imigrantes” que querem viver aqui, neste caso, os de Vila Franca, do Nordeste e outros que perceberam a utilidade e a mais-valia que é estar aqui num cruzamento dos seis concelhos mais importantes da região, visto que a Lagoa fica a uma distância quase igual de Vila Franca, da Ribeira Grande e de Ponta Delgada. A dimensão desses três concelhos, a somar à da Lagoa, tem uma importância no contexto regional muito grande e as pessoas percebem isso. Consequentemente, os terrenos começam a ficar muito caros e as soluções de habitação não têm surgido de forma nenhuma à proporção daquilo que são as solicitações. Vejo com boa expectativa o facto de o Plano Diretor Municipal estar em fase de revisão e de quase concretização. Isto é muito importante porque vai disponibilizar outros espaços de construção no concelho, mas materializar isso exige muita atenção, muita perspicácia e muito foco. A Lagoa dos 15 mil habitantes fixos vai sofrer dinâmicas nos próximos tempos.
DL: O Tecnoparque continua a crescer. Para onde e como se pode desenvolver a cidade naquela zona?
O Tecnoparque continua a crescer, sim, mas quero dizer que a construção dos edifícios de habitação que está lá a ser feita deve alguma coisa a mim. Eu era Vereador da Câmara Municipal de Lagoa pela segunda vez, quando alertei para a necessidade de voltar a promover aquele espaço, enquanto espaço habitacional, numa altura em que a construção estava a voltar a ter dinâmicas após a crise de 2008, quando a construção civil fraquejou bastante. Em 2017 tomei posse e percebi que era a altura certa para colocar os lotes a vender. Cheguei também a referir que aquele era o sítio certo para fazer um hotel, e hoje já temos lá um. Hoje digo isso com orgulho e acho que o concelho vai ter de crescer noutras partes, também.
DL: Concorda com a opção de um posto avançado na Lagoa ou defende a criação de uma associação de bombeiros? Porquê?
É muito fácil pensar com o coração, mas explicar o coração numa folha de Excel é muito difícil. Um quartel de bombeiros na Lagoa não pode ser encarado com o princípio de “todos os concelhos têm um quartel de bombeiros, logo a Lagoa também tem que ter um”. É bonito falar disto desta forma, mas convenhamos, o custo de uma ambulância apenas, incluindo os dois bombeiros que têm de estar dentro dela 24 horas por dia, sem encargos sociais, só neste aspecto, estamos a falar de cerca de 170 mil euros por ano, para não falar de outras despesas e imprevistos. Ou seja, eu sou defensor de um quartel ou de uma delegação de bombeiros na Lagoa, sim, desde que haja enquadramento financeiro para tal.
DL: Considera que se fez progressos no que diz respeito ao futuro da Fábrica do Álcool com a auscultação pública?
Tenho receio que não. O espaço da Fábrica do Álcool tem de ser visto com mais pragmatismo. Não podemos entrar em utopias, porque não há dinheiro para elas, pela razão que lhe apresentei na pergunta anterior.
DL: Quer deixar uma mensagem aos lagoenses?
Quero. A mensagem que quero deixar é que esta terra precisa da disponibilidade de todos. Ninguém está desculpado em não participar, seja nas coletividades de índole cultural, desportivo ou religioso, seja na ação política. Os tempos que vêm convocam todos a participar. Essa é a convicção que tenho e é nesse espírito que faço política. Eu tinha o gosto que as pessoas pensassem mais desta forma, porque o problema dos outros, não é só dos outros, também nos toca um pouco a nós e isto deve ser pensado assim.