
Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Caro jovem poeta, de dezoito anos, Júlio,
Espero que essa carta te encontre sobremaneira bem, cheio de saúde e cheio de jovialidade.
Venho, do futuro, dizer-te que o futuro, como é, está, por ora, agora estragado; que o futuro, como seja, está adiado e, assim, para sempre, a glória que tu anseias, pela qual oras e pedes, incessantemente, de velas acesas, está perdido; não há, como querias, um pedaço deste Céu.
Caro poeta, mas não desanimes. A vida se é longa, ou curta, não importa – importa mais a sua ligeireza aos assuntos do coração – e da razão.
Diria eu, do alto do meu posto, onze anos à frente de ti, caro jovem poeta, que tudo se desfez; pouco ou nada se construiu, e, pior, a palavra mais cruel é mesmo essa, a palavra – absurda – “Vazio”, a mesma que tu adiarás constantemente, com medo e temor de uma queimadura forte, no teu coração, como que assoprando, continuamente, para a frente, um futuro, e um luto, proscrito e indefinido de mágoas.
Publicarás; é certo – mas quem não neste ermo? Isso não é critério e, falando-te do futuro, digo-te que queima escrever; que queima ler; como queima, enfim, sobretudo respirar ou viver.
Escrever versos dói – dizia Santos Barros. Eu lhe acrescentaria, à latitude desse verso, uma distância concreta entre o passado e o futuro – dói saber quem somos, e o que somos, enfim, (só) a penugem do Tempo, o pó da calçada, a espuma do mar, dissolvendo-se, vagamente, nas sobras da maré alta.
Olho-te, jovem poeta, do teu lugar de abysmo (sim – com “y”, como diria e escreveria Fernando Pessoa) para te dizer o seguinte: tu não és uma má pessoa; és uma pessoa à qual más coisas aconteceram – e, para tal, movido pela fúria da sociedade em demanda, como num carrossel apressado, foste seguindo os dias, esperançoso, demorado, ansioso, adiado …e, muitas vezes, odiado.
Espero-te, jovem poeta Júlio, que consigas perceber, do alto do teu enigma, do teu Futuro, o que não consegues enxergar com esses olhos cheios de esperança e de virilidade: fala-te quem já passou pelo que tu, inevitavelmente, vais passar; fala-te quem já viveu uma vida que, invariavelmente, vais ter de viver e de suportar.
Não basta escrever bem; é preciso ter uma boa fama no público, ser apupado e respeitado pelas elites; é necessário conter, no saldo, uns quantos trocos preparados na carteira, para comprares os teus próprios livros, a bolsa cheia de futilidades, uma pena de lugares-comuns, por vezes, e o enigma da consciência cheio de urina pálida. Sim: de escura urina, para não dizer outra palavra – porque nada mais importa do que ser verdadeiramente “importante” nesta caos social em que se o Estado falha, a mente, qual quê, também falhará.
Assim te vês, decerto, no presente: muito “importante”, inédito e especial. Deixa-me desmanchar-te esse pedestal. Pois bem, desculpa-me, ó jovem poeta, desiludir-te, mas as coisas importantes, e inéditas, deixam muito depressa, penduradas, as pessoas importantes na paragem do esquecimento eterno – prescrevem rapidamente na sua fila de espera pelo cânone ou pelo Nobel… ou pelo premiozinho literário.
Rogo-te que pares de sonhar as coisas absurdas. Que reflitas não nos futuros louvores, mas em ti. E, embora não o vás fazer, que o faças, impiedosamente..; e que, lendo esta carta, escrita onze anos depois de ti, pares um momento, e reflitas, sozinho – longe de todos: vale a poesia a pena nas mãos de um jovem poeta?
Escrevo-te para te salvar; embora já esteja perdida, de pouca absolvição, a tua nobre, e genuína, pena… Então, escrevo-te para me salvar, talvez, para me redimir, de novo, de tanta coisa. Se calhar, no fundo, esta carta servirá mais para mim, seu remetente, do que para ti, seu destinatário.
Assim o farás: porás estas letras no balde do lixo do teu quarto, depois de semilidas, como a todos os avisos e conselhos, mesmo que poucos. Ao menor conselho, de alguém verdadeiramente amigo e lúcido, terás a tua jovem consciência, virtuosa, a afirmar-te com raiva: “É um grande disparate!”. E, não obstante acompanhado de outros poetas – mais cognomizados e reconhecidos como tal -, um dia, mais tarde, eles também te deixarão à berma da estrada, por só… e só, somente sozinho com a tua consciência.
Restar-te-á, no fundo, um apelo bem fundo: voltar atrás. Mas, lamento informar-te, e desiludir-te, Júlio. Não se desfaz. Não há remédio. Nem retorno. Nem absolvição.
Mas não será, penso, de todos os homens, de todas as mulheres deste mundo, viver assim carregando uma culpa só sua?
Então, também a terás, jovem poeta, por direito, a essa culposa mancha.
Lamento contar-te, mas, de ti, verá auspicioso futuro, embora contido, e continuadamente preterido na solidão ruidosa, escura e vazia, do teu quarto frio – terminarás, ó se sim…, os primeiros degraus académicos e, por ora, não te julgues acima dos maiores textos da Humanidade, só por isso – eles foram, supostamente, escritos por gente sem curso superior, ou curso algum. Bem, pelo menos uma parte deles…
Termino, ó jovem, contando-te que somos maiores quando nos encolhemos; e, quando nos encolhemos, para caber nos outros, somos maiores: lê! Lê! Quanto, portanto, possas ler o mais que puderes.
Penso que, no fundo, como a qualquer jovem escritor ou poeta, falta-te, ainda por chegar, um amor proibido, uma causa perdida, uma perda irremediável. A seu tempo, para amadurecer o corpo, a mente, o coração e, claro, a escrita.
Com enorme estima,
o teu
Júlio Tavares Oliveira

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Gostava de falar um pouco da “nossa”, da “minha” POC – Perturbação Obsessivo-Compulsiva, reconhecida como nos indica o site do Serviço Nacional de Saúde, como “uma doença psiquiátrica que, como o próprio nome indica, se caracteriza pela presença de obsessões e/ou compulsões” e, sem ser nenhum especialista médico, mas como utente, unicamente, falo, na verdade, apenas como sou, estando acompanhado, por um especialista, há tempo suficiente para entender que isto não é, para ninguém, fácil.
De facto, a minha Perturbação realiza-se mais no campo das obsessões permanentes: são pensamentos repetitivos, impulsos ou imagens repetitivas, que me atormentam todos os dias, e que surgem de forma bastante intrusiva e independente da vontade da pessoa – da minha vontade –, provocando imensa ansiedade, sofrimento e mal-estar. Daí surge, no meu caso, a necessidade exaustiva de perguntar “se está tudo bem”, de verificar, com os outros, até à exaustão, se os ofendi, magoei, se estão bem ou mal (e isso pode levar-nos até às compulsões).
As minhas obsessões, confesso, são de várias naturezas específicas: são verificativas, intrusivas, com pensamentos ruminados constantemente que geram uma ansiedade aflita; à necessidade obsessiva de controlar o que está ao meu redor, e o que mais amo e estimo, protegendo até a um limite que muitos considerariam excessivo, agressivo e limitativo da sua liberdade.
Uma das minhas maiores consequências negativas de ter POC, nem por isso, é a de, definitivamente, ter perdido, justamente, pessoas muito importantes pelo caminho, estreito, da minha Felicidade, que se vá vazando aos poucos de Esperança; pessoas que, no nosso caminho, vão aparecendo, pessoas bonitas, que se afastam, porque julgam-me um caso perturbador da sua paz, da sua essência e da sua Liberdade embora seja perturbado todos os dias, na minha paz, por uma doença mental que, de facto, lhes pode afetar também, e bastante – como o Alzheimer, o Parkinson, a Esquizofrenia, e outras patologias, julgo, afetam não só os utentes, mas as pessoas ao seu redor.
As mudanças repentinas, e exaustivas, de humor, a falta constante, e persistente, de forças, de ânimo, as contradições, o cansaço e a desmotivação plena, em alguns dias, levar-nos-iam pela minha rotina – mental e física – diária: pensamentos intrusivos e tóxicos, misturados com desejos absortos e abstratos, difíceis de controlar; até às naturezas mais diversas das minhas obsessões e compulsões, que, ora aqui, ora acolá, me deixam só sozinho comigo mesmo na minha indefinição mais comum de todos os dias.
A solidão é, assim, uma constante. Porque as pessoas não estão prontas para essa conversa. Mas nem por isso lidamos de bem com a solidão que se traduz, essa, em isolamento. Repetimos a nós próprios que “isto vai passar”, mas nunca verdadeiramente passa – e, mudando de vida, as coisas levam-nos, volta e meia, ao ponto de partida – à “nossa” velha amiga, a doença mental.
A Perturbação Obsessivo-Compulsiva é uma doença mental, e depois?! As pessoas, como eu, não escolhem ter as doenças físicas ou mentais que têm; mas podem optar por fazerem as pazes com a sua doença, na sua aceitação e no tratamento correto, e rigoroso, que lhes compete.
Foi isso que eu fiz há bem pouco tempo, procurando, em primeiro lugar, ajuda especializada. Comecei, devagarinho, a aceitar os meus maiores erros, as minhas maiores falhas; aqueles que a minha doença originou, e que me levou a rejeitar, até com agressividade, aceitar, de ânimo leve, circunstâncias normais da vida: fins de relacionamentos, opções de vida, respostas negativas, são alguns exemplos.
A doença mental que me levou a ter, para com pessoas muito importantes na minha vida, comportamentos indesejados ou perigosos, em fase, que estava, de descontrolo, são hoje arrependimentos que, por causa de uma condição, se manifestam, hoje, na sua máxima potência; mas, na verdade, aprendi a caminhar, de pés descalços, sobre o vidro fino da minha saúde mental.
Aprendi que nenhum Caminho é definitivo, nem nós somos definitivos, e que nenhuma doença mental é incurável; porque tem cura. Como todas, a POC – Perturbação Obsessivo-Compulsiva –, associada a ansiedade e à depressão regulares, pode ser controlada: seja com fármacos, com psicoterapia, seja com a nossa vontade extrema de mudar. Essa vontade traduz-se em prática regular de exercício físico, uma alimentação boa e equilibrada, uma boa higiene do sono, meditação, para quem gosta, e vontade própria em ser diferente consigo mesmo, tratando-se melhor, e com os outros, seus mais próximos.
Fala-vos alguém que já está “aqui”, neste ponto de paragem, há muitos anos, e que toma vários medicamentos diariamente, pela sua saúde. Fala-vos alguém, agora, que vos diz: sim, é possível ter uma vida completamente normal com a “nossa” doença mental, viver com ela, e dormir com ela, aceitando como ela “é”.
A “nossa” doença mental não nos define, nem nos limita a sermos quem quisermos e a perseguirmos os nossos sonhos. A “nossa” doença mental não diz absolutamente nada sobre a nossa própria vontade de mudança, de sermos outros, da nossa essência. Retocada, limada, bem aceite, e fazendo as pazes com ela, no nosso coração, podemos até, depois de descer ao fundo do poço, crescer muito com ela ao nosso lado, ali, a “vigiar-nos” na sua influência constante: a nossa doença mental não é uma catástrofe ou uma condenação para toda a vida. E contra toda a resistência e opressão que a tua doença mental impõe, sê forte, admite, e o Tempo encarregar-se-á, devagarinho, de uma cura. Um passo de cada vez…

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
As pessoas tristes ouvem músicas tristes. As pessoas tristes falam, para si, melodias tristes; são pessoas que entoam ritmos, maneiras de se expressar, de sentir o mundo, com os outros, à sua volta bastante novas e surpreendentes.
As pessoas tristes normalmente não fazem de conta que estão tristes. Ou estão, na maioria das vezes, virtualmente felizes; ou estão, à socapa das vezes, aparentemente, felizes; ou estão, nas suas pequeninas miudezas, no sótão do seu pequeno apartamento, escondidas do mundo exterior, tristes e sozinhas.
Mas as pessoas tristes não são músicas tristes. Muito pelo contrário! Isto, apesar de ouvirem músicas lentas, ecoando melodias tristes; são pessoas que passaram por situações muito difíceis, muito complicadas; pessoas cujas histórias, e estórias, são tão difíceis de compreender que, uma vez compreendidas, teríamos de voltar a perceber como funcionam, do início, para entendermos a maneira como as pessoas tristes são, aparentemente, tão felizes.
As pessoas tristes têm sempre um sorriso no rosto. Sim, elas carregam, sempre, consigo, um sorriso no rosto. Para os outros, principalmente; porque sabem bem o que custa a tristeza dos outros.
São assim as pessoas tristes: altruístas na tristeza; simples e capazes de meter um sorriso em andamento, num compasso bem seguro; num altruísmo que tem tanto de dar ao outro, como de tirar de si mesmo, da sua própria e negra tristeza, para dar imensa felicidade ao outro, à tristeza do outro.
Porque, e para bom entendedor, todos nós somos pessoas verdadeiramente tristes. Todos nós alavancamos uma tristeza, carregamos, dentro de nós, intimamente, uma tristeza bem funda dentro de nós.
O papel das pessoas tristes é esse: arranjar uma forma de, com a sua fundeada e crónica tristeza, sublimá-la, reciclá-la, e dar um nome novo a essa forma de melancolia carregada na forma da felicidade nova dos outros, de mais alguém, mesmo que seja de um mero desconhecido na rua.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
A prova viva de um mundo sem sentido, «poucochinho», é termos de um lado Trump, do outro lado Putin e, entre ambos, umas forças imensas (algumas bem disfarçadas) que pretendem minar, a todo o custo, o que (nos) resta ainda de qualquer sanidade moral – é viver entre alguns Arrudas, convivendo com outros, seus semelhantes, entre iguais. E nós, bem no meio desses dois enigmas e outros similares problemas, somos, ainda, o que resta de um mundo, hoje, que não veja, em breve, o fim, da tolerância, do respeito e da dignidade humana.
Hoje em dia, a maioria das pessoas, nas suas relações interpessoais, até políticas, e sociais, são descartáveis umas para as outras – são úteis em tempo certo, no tempo certo e válido, e, na hora a seguir, são totalmente lixo, ou seja, tornam-se «inúteis» e prescritas.
Vivemos imersos e «banhados» em relações feitas (algumas mesmo artificializadas) de astúcia, de pouco altruísmo, de muito egoísmo, de muito pouco, que, líquidas, e sem sustento, se comovem, em prazeres efémeros, com pouco, e se revelam, a muitos milhares de desconhecidos, em troca de tão escassas migalhas nas redes sociais.
A utilidade das pessoas «poucochinhas» é a de fazer de conta que são grandes; de fazer com que as grandes pessoas caibam nelas para seu benefício pessoal, intelectual e social; mas a boa notícia é que as pessoas grandes percebem, um dia, que as pessoas «poucochinhas» são demasiado «poucochinhas» para a sua grandeza – para a sua liberdade. Afinal, a utilidade das pessoas «poucochinhas» é essa: o entendimento que nos dão acerca de nós próprios, que somos, e seremos, sempre, pessoas grandes e intelectualmente livres.
Definimos «grandes» não em estatuto e em riqueza material e financeira, mas em função da total comodidade absoluta relativamente à grandeza – a nossa e a dos outros; não a usurpando para a aumentar exponencialmente e maquiavelicamente, e usando a mesma somente para outros fins que não sejam, eles, senão a discrição, a humildade, o reinvestimento dela apenas nos outros, no bem-estar comum dos outros.
Somos grandes porque, imensos, nos espalhamos, em liberdade, nos demais – nos pequenos como nós somos, e só sabemos ser, na verdade, onde realmente cabemos e pertencemos, respeitando e alinhavando comodidades mútuas; somos grandes porque escolhemos caber nos mais pequenos; e não porque os mais pequenos escolhem caber em nós. Somos grandes, sim, porque, humildemente, tocamos os corações «apagados de cinzento» e acendemos ou reacendemos a esperança de quem revive para a (sua) esperança.
Sou da opinião de que há que haver um erro para haver um ganho; e de que há que haver um ganho, cheio de erros, para haver uma vitória. A necessidade que nós, seres humanos, temos de, para tudo, fazer «tudo depressa» é inimiga, total, da coerência na vida – e a necessidade, total, de nos encaixarmos em «todos muito rapidamente» é inimiga, total, da coesão connosco mesmos. Não é, de somenos, que as principais virtudes linguísticas de um texto – a manter – sejam, também, a coesão e a coerência: assim como nos homens, também é verdade que assim seja.
Sou da opinião, renovo, que temos de saber fazer; e mais, de saber sair derrotados – por cima – também para saborear a grandeza, assumindo que podemos tomar como nossos momentos, alguns, porventura, «poucochinhos», mas que jamais assumiremos uma postura de «poucochinhos» a vida toda.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
O outro dia, num habitual fim de semana típico de compras, numa grande superfície comercial, deparei-me, de súbito, com um casal de dois idosos a afrontar-se mutuamente numa, também ela aparente, falta de paciência de ambas as partes.
De um lado, um idoso, genuíno e de bengala, que chamava, bruscamente, pela senhora idosa que, absorta nos seus pensamentos, insistia ela, que queria ver melhor um produto com mais atenção pelo seu rótulo; uma idosa que, na sua infinita atenção ao produto, em específico, ignorava o idoso apressado e já com imensa falta de paciência.
Assisti a este episódio calado e no meu canto, mas, no meio desta falta de paciência, notei algo muito mais profundo e significativo: houve sempre, sempre respeito entre ambos, mesmo na forma como perdiam, ambos, a paciência um com o outro. Se o idoso chamava a idosa pelo nome, repetidas vezes, num tom baixo, mas apressado e impaciente; a idosa não respondia, nem mal nem bem, mas baixava a cabeça, e atentava, mais ainda, no produto, e no rótulo, que vasculhava, conhecendo, transportando-se e pessoalizando-se no discurso do seu companheiro.
Até que, num momento, foi ter com o seu marido e ambos seguiram o seu caminho – de infinita paciência e impaciência que, no fundo, encontram uma forma de andar juntas ao serão.
Não obstante, hoje em dia, perde-se a paciência (de ambos os lados) para a impaciência que não se contorna nem encontra um jeito. Para tudo; pois queremos tudo para ontem – bem ou mal feito. Queremos tudo de uma forma subtil, bela e pura – mas apressada, instantânea, rápida, fugaz, efémera (e ao nosso jeito). De uma forma que, não insistindo com a nossa teimosia e mexendo com os nossos nervos e a nossa infinita paciência, não nos teste jamais, e à nossa paciência, mas nos faça sentir sempre algum prazer e nos encha de todo o amor e de todo o carinho – que os outros, infelizmente, não nos são capazes de dar desta forma.
Um amor que não nos testa não é um amor real – é uma ficção. Um amor que não nos sirva para sermos pacientes, com ele, não é um amor real – é uma ficção. Um amor que não implique faltas de paciência e teimosias, não é um amor real – é uma ficção. Hoje em dia, perdemos, bruscamente, o hábito de ser pacientes, connosco e com os outros, e, com isso, o hábito de buscar as coisas que concentram genuíno amor – porque o amor não é uma questão de alguns segundos; não é a duração e o contar dos dias, sobre os dias, o prazer dos momentos na espuma dos corpos – não é.
É, tantas vezes, as dolorosas, e voláteis, consequências das palavras, dos gestos e dos significados. O peso absurdo e inconsequente, leviano, dos erros cometidos e omissos. O fardo acometido de culpa sem absolvição que não desiste jamais de amar o outro – e de ser impaciente naquele amor, também. É, o amor, o primeiro amor, que foi apalavrado, mas não passou de uma simples palavra suspensa no ar para sempre – algo que vive connosco, implica jogo e paciência, teste, contraste e cura. É o amor, também, a solidão profunda na cama da noite alta – porque, e quem diria que isso seria possível…, quem ama também está, e se sente, sozinho.
É preciso cuidar, e falar disso: quem ama, e tem quem o ame, também se sente sozinho; sente essa dor a que tem todo o direito de sentir.
Acima de tudo, perdemos a paciência para esperar. Para esperar que nos amem e, quando realmente nos amam, para amar de forma generosa e cuidada – e simples (com paciência).
Perdemos a Esperança. Essa botija de oxigénio que nos faz andar para a frente.
Perdemos o Empenho. Essa vontade pura, e grata, de sermos melhores a cada dia que passa.
Perdemos a Fé. Tão importante nos dias de hoje, dias sem luz e sem Norte.
Perdemos a Fidelidade. Esse ficar, até ao fim, onde já não estamos; e esse estar onde já não vamos ficar.
… Só ainda não perdemos mesmo… o Amor.

Júlio Tavares Oliveira
Professor de PLNM
Licenciado em Estudos Portugueses e Ingleses
Pós-Graduado em Português Língua Não Materna
Roberto Medeiros, neste seu mais recente livro ‘Antes que a memória se apague – Crónicas de Água de Pau, vol. II’, faz plena justiça à sequência que iniciou com o seu primeiro volume, a cujo lançamento também assisti, com o mesmo título, na dimensão da missão que conduz e que produz por escrito: levar o coração, nos meandros da estórias e das histórias, e da História coletiva, da Vila de Água de Pau, a toda a gente e a toda a parte.
Neste livro, que já li, assistimos a uma visão da História menos académica e propriamente científica – mas que procura estabelecer um contrato, um vínculo com os seus leitores por via do contato pessoal, mais atento e estreito com as raízes do espaço e do próprio lugar – Água de Pau – clamando e chamando, inclusive, a valores (maiores) como o amor à terra, a devoção às tradições, num certo regionalismo mais localizado e característico do autor.
Substitui-se o autor, neste caso, a um historiador cientificamente acreditado? Não. Mas também não lhe fica muito atrás. Roberto Medeiros possui a capacidade que muitos historiadores acreditados cientificamente não teriam: tem a confiança do seu povo e da terra que o viu nascer, e isso é-lhe mais do que suficiente.
Tem o povo – de Água de Pau – do seu lado. O povo, esse, que lhe transmite as informações, que o conduz a novas informações, dados e a novas pessoas e registos. Só uma pessoa – tal e qual – poderia assumir e concretizar um trabalho deste tipo – singularmente diferente do académico, mas singularmente único na sua trajetória.
Roberto Medeiros dá um toque que a muitos acreditados historiadores talvez passasse despercebido; um toque mais humano à sua obra, um toque mais oralizante. Roberto Medeiros vai falando connosco neste livro ao longo da sua leitura.
Um toque, não tanto mais pessoal, mas, repito, mais informal, mais humano, mais terreno, e menos celeste e, registo, académico. É um livro de estórias, com história pelo meio, sem dúvida, que merecem, ambas, registo – mas é também um livro que retrata percursos distintos.
Sinto que o Roberto Medeiros quis também homenagear algumas pessoas importantes – de fora e de dentro da sua vida. A História de Água de Pau está repleta de casos de grande pujança e de sucesso coletivo e individual – desde o pai do autor, um verdadeiro arquitecto de sonhos e de projetos, alicerçados em ambições, para a sua Vila, que os herdou o Roberto, igualmente – e que os herdará mais alguém, no futuro.
Ao Roberto, diria, sempre com fidedignidade e de forma genuína, recolhendo os factos com verdade, e os transmitindo de igual modo, que continue o seu trabalho, valorizando as suas gentes, mas, acima de tudo, orientando-se por valores que, hoje em dia, estão em causa: a importância dos outros.
Ainda os há – embora com este autor o contributo já tenha sido substancial nesse sentido – imensos anónimos por desvendar. Imensos desconhecidos que, na contracapa da História, tantos louvores por reconhecer têm, ainda.
Não é só a questão da projeção da Vila – ou da manutenção de um Estatuto de Vila – ou da hereditariedade dos nomes pela História fora, mas a questão fundamental será, sempre, o que ganharão, os outros, como nós, connosco, com a nossa presença e contributo, neste Mundo.
E, sem dúvida, que nós saímos a ganhar com este livro – por vários motivos.
De todos eles, destacaria um: a originalidade.
Roberto Medeiros é original, em primeiro lugar na abordagem direta, pouco difusa, mas informal e genuína, sem rodeios, à História local; em segundo lugar, na aproximação que faz aos factos históricos, uma aproximação sem medos, sem maldade, mas querendo abraçar a todos como seus; em terceiro lugar, na linguagem escrita pouco erudita que utiliza; e, por último, é original porque desvenda um cantinho do Mundo que estava por desvendar.
Esta obra, que recomendo em qualquer prateleira lagoense, é um registo que, creio, perdurará – um registo que fica, e que levará anos, muitas décadas, senão séculos, a ficar devorado pela traça do Tempo – ou esquecido (“valor” atingível apenas para as merecidas grandes obras).
É caso para se dizer: esta memória não se apagará, Roberto.

Júlio Tavares Oliveira
Escrevo estas palavras como se fossem minhas; mas já não o são. Essa mania, detalhada, de deter, de forçar as coisas com o nosso sangue – uns exemplares, um nome na capa, um título, um bilhete de identidade, simplérrimo, um nome a papel selado, um número de contribuinte na fatura – e temos tudo? Não… Falta-nos sempre algo! Essas palavras, que me saem da ponta dos dedos, agora mesmo, estas palavrinhas solenes e medrosas de qualquer reação, não me pertencem mais a mim – são já património de todos; o mesmo acontece comigo (eu sou património de alguém… que, como eu, me nega constantemente), ou, melhor dizendo, eu estou lutando contra a minha mente – todos os dias – para crescer à custa disso (e ficar, acredito, ainda mais forte).
Escasso seria dizer que pertenço só a mim mesmo; mas não, seria mentira – se também há um processo por detrás. Isso, só isso, já seria demasiado. Mas não chega! Eu pertenço – até – a quem não me quer para mais nada – a quem me diz que eu não tenho valor algum – somos todos, de todos, um pouco em toda a parte, e de toda a parte – e de ninguém.
Respeito quem não me quer ver, nem ouvir, nem sequer tocar; mas não podem ignorar que eu estou presente sem ‘estar’ ali, ao seu lado – essa mania estranha de pertencermos onde não somos, de facto, sequer chamados, onde somos até muito apedrejados, é uma cola pesada, mão pesadíssima na consciência, nas emoções, uma tabuleta de perigo num coração vazio de anúncios e de um simples gesto de ‘amor’.
Escasso seria anunciar que não pretendo estar de saída donde não sou bem-vindo neste Mundo – e estou mesmo convicto de que isto não constitua perseguição: esse lugar onde estou não o herdei de ninguém (somenos foi-me dado de bandeja) – foi conquistado. Levaram-no de mim, é certo, mas não me levarão do meu ‘lugar’ de conquista – eu que sou, e serei, um cidadão do Mundo, de todos os lugares, mas em especial, dos lugares onde não sou bem-vindo, para todo o sempre.
O problemas das gerações de hoje em dia, sobretudo das mais novas e das mais velhas, é que não querem lembrar um passado, seu, que não lhes convença a sério: preferem esquecê-lo, varrê-lo para debaixo do seu tapete, ou omiti-lo contando versões diferentes. Fingir que nunca aconteceu é só adiar um problema criando um problema (ainda) maior. Se queres resolver realmente um problema, não finjas que ele não está lá.
O problema dos jovens, e até de alguns mais velhos, é que não valorizam as suas conquistas – algumas bem árduas –, têm-nas de cabeça leve e, também de cabeça leve, deixam-nas ir embora, e depois ficam arrependidos. Tens direito ao arrependimento, sim, mas nada te dá uma garantia, sólida, de que serás perdoado por isso – porque, muitas vezes, o arrependimento não é suficiente.
Não! Nós temos de lembrar a História, por mais penosa que nos seja, por mais dolorosa e inglória que nos seja, por mais desfavorável que nos seja, tal e qual. É a História, tal e qual – sem rodeios, nem mentiras, nem inverdades -, e nem por acaso a História tem de ser frontal com os factos (inclusive, com os nossos mais penosos factos…) – sem os confrontar com mentiras nem deturpações nem alienações. Reconhecer isto é parte da Cura, porque é enfrentar-se; como é enfrentar, também, parte do problema – ou o problema inteiro. É reconhecer que há um problema. É fazer o “nosso” Luto.
Recuso-me a dizer que já ‘esqueci’. Porque não se esquece a ‘História’, a nossa história pessoal e emocional sobretudo, que também se mede e é mensurável, mas aprende-se a viver com ela – e a partir dela também; a partir de um determinado momento, aprende-se a suportá-la, noutra hora, convivemos com ela, lado a lado, como irmãs de sangue, e, talvez num fim, haja aceitação e uma breve reconciliação – e aprendizagem, se houver… Este é o caminho mais sereno, mais justo, mais equilibrado dos factos históricos pessoais.
Assim, a verdade mais não seja do que a firmeza, e a coragem, de acedermos ao nosso coração e de proclamarmos, com absoluta convicção, de que não somos parte de um rebanho de cobardes a seguir um guião que dão a todos os que – como a esses – têm medo de enfrentar-se a si mesmos.
Nada de extraordinário no mundo foi feito de forma simples e mediana; nada de absolutamente diferente veio da mesma fórmula de sucesso. E, será mesmo?, tão extraordinário enfrentarmos a nossa própria História e reconhecermos, dentro de nós, onde pertencemos, onde somos bem-vindos, onde podemos e não podemos entrar, quais são os nossos lugares, e onde estão as nossas fronteiras, afinal?
Será, de facto, tão difícil assim fazermos o “nosso” tão necessário Luto?

Júlio Tavares Oliveira
Fomos intimamente criados como seres de plena Esperança; para ter Esperança e para comungar Esperança; mas fomos também criados para julgarmos a Esperança, essa mesma, como um carimbo do nosso caminho, esse, a ser feito, nunca realmente terminado ou finalizado num termo; somenos a Esperança como a última Solução, ou a Solução Final, de qualquer parte ou conflito ou amor.
A Esperança é a primeira que morre em qualquer momento, num momento – não a última a morrer neste momento; portanto precisemos, tanto, que morra sempre uma Esperança, uma preciosa Esperança, na nossa vida de tantas e de tantas ânsias e de imensos sonhos, para que outras possam nascer e crescer em vida.
Nesse Caminho de abertura, de hoje, que não o vemos na solução do amanhã, não nos afeiçoemos nem nos acomodemos à estreiteza de o julgarmos mais ou menos errado ou certo; aperfeiçoemos os erros, limemos as arrestas e, dessa velha Esperança perdida, caducada, renasça uma nova, diferente, noutros e com outros sonhos e cores.
A vida é uma contínua plenitude e remada de Caminho – outrora feito de dissolução, outrora feito de conjunção –
Queria, também, deixar-vos essa passagem de Romanos (12:14) que nos ensina, profundamente, e cito novamente, e não pagarmos «a ninguém o mal com o mal, interessando-vos pelo que é bom diante todas as pessoas. Se for possível da vossa parte, vivei em paz com todas as pessoas» (Romanos, 12:17-18). Mais do que uma passagem bíblica, é uma lição de humanidade – do Bem pelo Mal e do Bem que vence, e suplanta, sempre, todo o Mal.
Uma vez que não devemos apagar o rasto de uma má ação do outro, nosso par, com uma má ação nossa, posto que isso não lhe apagaria, de novo, o rasto, só tornaria mais acesa a linhagem desse Mal do outro, a palavra bíblica da Carta aos Romanos, no Novo Testamento, ensina-nos que todo o Mal deve ser sublimado por um ato de Bem e que todo o Bem justifica-se sempre sobre todo o Mal, indepentemente da sua gravidade.
Termino este artigo com uma reflexão, necessária, sobre o nosso falecido Papa Francisco:
O Papa Francisco foi um homem que se tornou simples; mas nunca, jamais, um simples que se tornou homem. Ele dedicou-se à simplicidade na túnica que vestia e nas sandálias; fidelizou-se à alegria, em Cristo, e à Juventude – humanizando-se à Sua Imagem e Semelhança, da mesma forma q’Ele se humanizou, em Cristo, à nossa Imagem e Semelhança. E não será, esse, o nosso mais genuíno papel, a nossa mais firme devoção e missão, nesta breve vida?
Num momento em que todo o Cristão-Católico – que sente a sua Fé pela Fé, à sua maneira, não ostentando, gratuitamente, o título honorífico de crente ou a sua senha de presença nas Missas de todo o ano -, todo aquele que descobre, que apalpa os seus erros, que calça e que descalça as suas sandálias, que caminha, em frente, e que abraça o pecado como parte da sua culpa e do seu caminho para a sua salvação na toma da sua Fé em Cristo; para todo aquele que, apascentando a sua remissão, e reconhecendo-se justamente um pecador, e que, neste momento, vê «Franciscus», deitado sob a mortalha, e se sente mais desabitado neste mundo:
para todos estes, deixo a seguinte passagem de Romanos: 9:31: «Se Deus está por nós, quem está contra nós?».
Até sempre, nosso Papa.

Júlio Tavares Oliveira
Estou a comercializar um novo livro, ‘Quadro de Domingo à Mesa’, um livro que, de si, reproduz um conjunto de poemas que vão beber ao íntimo de cada Família – um pouco ao estilo do poema que lhe dá nome e razão ‘Quadro de Domingo à Mesa’, dedicado, este ‘A todas as famílias’. Na verdade, este poema subjaz uma máxima fundamental: que, entre todas as famílias, ocorre, a dada altura, uma quebra, uma separação, um vínculo de despedida ou de partida que, muitas vezes, sem nos apercebermos anuncia a morte ou o fim de qualquer coisa.
Nas famílias o nosso Lugar à Mesa pode vir a estar sempre ocupado e ser de facto insubstituível: mas quantos de nós já não estamos lá, realmente? Mas quantos de nós desejaríamos voar, partir dali para outro lugar e assentar o nosso voo, quiçá, noutro Domingo, noutra Mesa, noutra Família?
Esses desejos, que nos surgem, são rápidos, vorazes, instantâneos e, muitas vezes, inconscientes. Contudo, podem denunciar algo bastante mais profundo: a nossa necessidade de renovação e de desprendimento. A necessidade de renovar esse vínculo à Família, a nós mesmos, e aos outros.
‘Quadro de Domingo à Mesa’ vai buscar a essa necessidade uma nova premente Luz – a importância da renovação do vínculo familiar, da Família, de nós e da nossa relação com a Família, usando, e dispondo, de um meio em particular: da Mesa e do nosso lugar à Mesa.
A Mesa, essa, cada vez mais desusada, cada vez mais extorquida, cada vez mais violada pelos iphones ou pelos tablets, ou sequer, se for, cada vez mais atormentada pelas discussões, pela violência ou pelo silêncio ensurdecedor. A Mesa, em família, cada vez mais vazia e despovoada – mesmo que cheia de gente. A Mesa, aos Domingos, cada vez menos sentida e menos significante para o seu real significado.
Este livro pretende, entre tantos sentidos, usar e dispor de um sentido real, que é o de dar um novo, e importante, valor à Família, à sua instância, enquanto Lugar de princípio, de valores e de significados: porquanto se perda o seu amor pelo caminho tantas e tantas vezes na bruma das circunstância, e o pão arrefeça nas nossas mãos, ou a comida queime no forno de distração, não percamos a esperança naquilo que é verdadeiramente fundamental. A Família, a nossa Família, a única que temos.
Sendo um livro ‘Quadro de Domingo à Mesa’ com um pendor saudosista, tanto ou quanto com um caminho, longo caminho, ainda, a percorrer, na sua demanda em chegar realmente aos seus leitores, entendo, pessoalmente, que este livro de poesia congrega valores de memória, de paixão, de sentimento, de união, de esperança e de fraternidade que, uma ou outra vez, convocam até o Passado ao Presente -numa saudade, ou nostalgia podemos dizer, do Impossível ou do Perdido.
Aos leitores que queiram adquirir este pequeno e humilde livro de poesia ‘Quadro de Domingo à Mesa’, podem fazê-lo via mensagem privada através de mim, seu autor.