
É jornalista há quase 20 anos na Radiodifusão Portuguesa (RDP) a maior parte do tempo, tendo recentemente arrecadado o seu quarto prémio que distingue o seu trabalho jornalístico. Lília Almeida, 42 anos, é natural dos Arrifes e é na Antena 1 Açores que escutamos a sua voz. O Diário da Lagoa (DL) foi ao seu encontro, em Ponta Delgada, e sentou-se à conversa com a premiada.
Lília começa por contar que estagiou “só por um curto período de tempo na RTP”, mas que o profissional foi na RDP, em 2005, onde apenas passados seis meses ficou nos quadros da empresa. A jornalista da Antena 1 Açores conta que “sempre quis ser jornalista, era a concretização de um sonho” e que no início o “principal receio era estar no meio de uma equipa muito experiente”.
“Quando aqui cheguei havia um grupo muito maduro de jornalistas. Eu quase tinha medo de expor as minhas ideias. A sorte é que também foi muito acolhedor. Eu era mais nova e acabei por receber influências e ajudas de todos eles”, diz.
Desde que iniciou a sua profissão já se passaram quase duas décadas. Agora, a reportagem da sua autoria premiada tem por título ‘Mar de todos nós’ e conta com sonoplastia de Tiago Matias. A grande reportagem venceu o primeiro lugar da categoria Rádio dos Prémios de Jornalismo para a Sustentabilidade 2024, mas em ex-áqueo com a reportagem ‘Comboio de Bicicletas’ da jornalista da TSF, Cristina Lai Men, entre 61 candidaturas na disputa dos prémios que foram entregues no Centro de Engenharia e Desenvolvimento em Matosinhos.
Enquanto a conversa decorria com Lília, o sonoplasta Tiago Matias, 36 anos, natural da Fajã de Baixo, na rádio há oito anos, chega e junta-se à conversa. Entre sorrisos, escuta Lília a contar que este é o quarto prémio que arrecada na sua carreira. Rapidamente diz sem hesitar com um sorriso rasgado: “para mim este foi o primeiro prémio. É uma sensação boa”.
Tiago prossegue: “há um dia em que ela me liga, eu rejeitei a chamada, ela liga-me logo a seguir, e eu disse, isso é coisa, pegou fogo lá na rádio, mas quando eu atendo, «ganhámos, ganhámos» e foi aí que eu percebi”.
Já Lília Almeida esclarece: “eu não faço os trabalhos a pensar nos prémios. Vou fazendo consoante os assuntos que eu gosto ou sinta que é necessário trabalhar sobre eles”, assegura.
“Este prémio é um sinal
LÍLIA ALMEIDA
de que há bom jornalismo
a ser feiro na região”
Questionada se se sente orgulhosa: “como é óbvio sinto orgulho. Vejo como uma valorização e como um wake up call de que é preciso trabalhar ainda mais”.
A jornalista lembra que a classe jornalística não vive os melhores dias em termos financeiros e que por isso “vale a pena, mas não é isso o mais importante” mas sim “pensar que o nosso trabalho foi bem feito, as pessoas gostaram e se assim foi então vamos continuar a fazer mais e melhor”.
A reportagem abordou a temática das áreas marinhas, e Lília explica que sentiu a necessidade “de fazer este trabalho mais alargado porque estava a haver a discussão e num minuto e meio não conseguimos explicar todos os intervenientes e perspetivas” e que “havia até alguma desinformação e eu queria ouvir todos os intervenientes do setor e dar tempo para que cada um deles pudesse explicar e dar o seu ponto de vista”.
Para a jornalista, “o melhor é sair da redação, entrar um pouco na vida dos entrevistados, verificar que preocupações têm. Ter tempo para os ouvir, face a face, pôr as declarações deles no ar, esta é a parte melhor do jornalismo. Gosto muito da grande reportagem porque saímos da notícia rápida, temos tempo para explicar, contar as coisas como elas são”.
Sobre o trabalho de Tiago Matias, a jornalista explica que “é sobretudo artístico, de pintar a reportagem”, enquanto esclarece que a sua responsabilidade é de trabalhar “mais o texto, fazer as perguntas, escolher aquilo que é mais importante, encadear as ideias todas com os sons. O Tiago é que vai visualizando, à medida que vou contando a história, ele é que vai pondo os sons que acha mais adequados”.
Já Tiago Matias diz que ao ouvir o júri sentiu que a sua parte “está bem feita”, enquanto salienta que “na rádio ou no podcast, tudo o que não tenha vídeo precisa de muito som trabalhado para dar esta sensação a quem está a ouvir, quase como um livro onde a pessoa imagina a ambiência, o local”. E descreve que “com o som tentamos fazer a sonoplastia de maneira a que, qualquer pessoa que não esteja a ver, ouve e imagina. E depois cada pessoa cria a ilha à sua maneira, cria o mar à sua maneira”.
Lília diz que hoje em dia “a rádio não pode ser só a que se ouve no rádio. É a que se ouve no rádio mas também no computador, no telemóvel, ou nos smartphones. As pessoas ouvem na rádio determinada coisa mas depois não podem voltar atrás. Quando nas plataformas ouves quando quiseres, onde quiseres” e, por isso, realça que “a rádio nunca vai deixar de existir”.
A jornalista não concebe uma “uma região como os Açores sem um serviço público de rádio, uma região onde pode acontecer uma tragédia num instante. A rádio é fundamental, a rádio não falha, não pode falhar nestas situações. E numa região como os Açores a rádio tem de estar sempre operacional”.
Quanto a futuras reportagens, “já está a trabalhar numa que sairá para janeiro”, enquanto conclui que “este prémio é um sinal de que há bom jornalismo a ser feito na região e cada vez mais”.