Log in

O intestino e o cérebro andam de mãos dadas

Maria João Pereira
Farmacêutica

Quantas vezes sentimos dores de barriga quando estamos nervosos? Muitas vezes. E quantas vezes, quando o nosso intestino está desconfortável, ficamos mais ansiosos ou irritados? Outras tantas.
Tudo isso acontece devido à existência de uma ligação direta e bidirecional entre o nosso intestino e o cérebro – o chamado eixo intestino-cérebro.

Essa comunicação envolve o sistema nervoso central, o sistema nervoso entérico (presente no trato gastrointestinal), o sistema imunológico e a microbiota intestinal – conjunto de microrganismos que habitam o intestino e desempenham um papel fundamental na regulação do humor, da imunidade e da cognição.

O intestino é o órgão com maior número de células nervosas depois do cérebro, razão pela qual também é apelidado de “segundo cérebro”. Cerca de 90% da serotonina, neurotransmissor associado ao bem-estar e à felicidade, é produzida no intestino. É evidente: não podemos estar bem mentalmente se o nosso intestino não está em equilíbrio – e o contrário também é verdade.

As emoções e o stress desempenham um papel importante na regulação intestinal. Em situações de stress, o organismo ativa o eixo hipotálamo-hipófise-aldosterona, que por sua vez liberta cortisol – a principal hormona do stress. Uma exposição prolongada a elevados níveis de cortisol tem diversos efeitos no organismo, nos quais se incluem alterações na motilidade intestinal, mudança na sensibilidade à dor, desequilíbrio da microbiota intestinal e perturbações do sono.
Le stress crónico pode ainda causar alterações na permeabilidade da barreira gastrointestinal, permitindo que substâncias indesejáveis atravessem essa barreira e ativem o sistema imunitário. Com isso, o organismo fica mais sujeito a processos inflamatórios.

Doenças como a colite ulcerosa e a doença de Crohn são frequentemente agravadas por essa inflamação, enquanto o Síndrome do Intestino Irritável pode surgir ou intensificar-se em consequência desse estado inflamatório contínuo. Não é por acaso que pessoas ansiosas, deprimidas ou sob pressão constante apresentam, muitas vezes, sintomas gastrointestinais intensos.

Embora existam diversos tipos de tratamentos para os diferentes distúrbios gastrointestinais, a verdade é que uma boa gestão do stress e das emoções contribui significativamente para o sucesso terapêutico.
Cuidar do nosso intestino é cuidar do nosso bem-estar geral, uma vez que tem influência direta na nosso estado emocional. Algumas estratégias simples e eficazes para uma melhoria dos distúrbios gastrointestinais incluem:

Cuidar do intestino é cuidar da mente — e vice-versa. Quando reconhecemos que o físico e o emocional falam a mesma língua, passamos a compreender melhor os sinais que o nosso organismo nos envia. Mais do que tratar sintomas, é preciso restaurar o equilíbrio. O bem-estar começa no intestino, mas é mantido pela forma como pensamos, sentimos e vivemos o nosso dia a dia.

Aborto espontâneo e infertilidade

Maria João Pereira
Farmacêutica

O desejo de gerar uma vida é, para muitos casais, um sonho acompanhado de dúvidas, expectativas e até frustrações, caso os planos não se realizem conforme o esperado. Por isso, é importante desmistificar certos conceitos – como aborto espontâneo e infertilidade – e falar sobre eles abertamente. Afinal, o conhecimento pode oferecer algum conforto quando tudo parece seguir um caminho diferente do planeado.

Primeiramente, ter um aborto espontâneo não significa ser infértil, e em nenhum dos casos significa incapacidade definitiva de gerar vida. Os abortos espontâneos costumam ocorrer até à 12ª semana de gestação, sem intervenção externa. Já a infertilidade consiste na dificuldade em engravidar após um ano de tentativas (ou seis meses no caso de mulheres com idade superior a 35 anos).

Embora pouco falada, a perda gestacional ocorre em até 20% das gravidezes confirmadas. Sim, é mais comum do que se fala. Os fatores que podem levar a uma perda gestacional são diversos: fatores genéticos, como anomalias cromossómicas; problemas uterinos e do colo do útero; idade materna avançada; gestação anembrionária, quando o embrião se forma, mas não se desenvolve; problemas de saúde maternos como doenças auto-imunes, fatores endócrinos, infeções sexualmente transmissíveis (IST), doença crónica não controlada e obesidade; hábitos nocivos como tabaco, droga e álcool.
E, em alguns casos, a causa do aborto espontâneo permanece desconhecida. Isso significa que não poderá gerar vida numa próxima tentativa? Não. Embora a perda gestacional represente um luto legítimo, que deve ser reconhecido e vivido, é essencial não desanimar e procurar ajuda médica e psicológica, se necessário.

A infertilidade pode ser primária (na primeira tentativa de engravidar) ou secundária (quando o casal já teve filhos anteriormente). Alguns casos têm a sua etiologia desconhecida, mas grande parte está relacionada com fatores masculinos e/ou femininos.

No caso dos homens, os fatores mais comuns incluem alterações na produção ou na capacidade de movimento dos espermatozoides, alterações nos testículos, desequilíbrios hormonais, consumo de álcool, tabaco e drogas, além da exposição frequente a fontes de calor elevadas (que interferem na produção dos espermatozoides). Relativamente às mulheres, a lista de fatores inclui doenças como a síndrome dos ovários poliquísticos e endometriose (entre outras), ISTs, a idade avançada, o estilo de vida e o stress, uma má nutrição, peso fora dos valores normais, consumo de tabaco, álcool e drogas.

Le diagnóstico de infertilidade pode ser demorado e emocionalmente desgastante, já que envolve diversos exames para identificar a causa e decidir o tratamento mais adequado. As opções incluem medicamentos, cirurgias, reprodução assistida ou inseminação artificial e, embora não haja garantia de sucesso absoluto, os avanços da medicina têm permitido a muitos casais a possibilidade de gerar uma vida.

Como em tudo na área da saúde, manter um estilo de vida saudável e sem hábitos nocivos pode reduzir riscos tanto de aborto espontâneo como de infertilidade.

A jornada de gerar uma vida nem sempre é simples ou linear. Entre perdas, esperas e tratamentos, cada casal escreve a sua história. O importante é relembrar que não se está sozinho nesse caminho – há sempre cuidados, acolhimento e, sobretudo, a esperança que renasce a cada nova possibilidade.

Como as drogas psicoestimulantes atuam no nosso organismo

Maria João Pereira
Farmacêutica

No mundo atual, as drogas têm assumido um impacto crescente na sociedade. Apesar de todo o conhecimento já adquirido sobre os seus efeitos, o uso de substâncias psicoestimulantes continua a aumentar, representando um problema de saúde pública preocupante.
As drogas psicoativas são substâncias que atuam diretamente no sistema nervoso central, alterando a forma como os neurónios comunicam entre si, afetando a perceção, o humor, a consciência e o comportamento do indivíduo. Os psicoestimulantes são um subgrupo de drogas psicoativas que aumentam a atividade cerebral, elevando o estado de vigília, os níveis de energia e o humor. A cocaína, as anfetaminas, o ecstasy e as novas drogas sintéticas são exemplos de substâncias estimulantes.

Estas substâncias afetam, sobretudo, os sistemas de três neurotransmissores fundamentais:

Dependendo da droga em uso, o mecanismo de ação relativamente aos neurotransmissores será diferente e, consequentemente, também o efeito provocado. De entre os principais mecanismos de ação, destacam-se o aumento da libertação dos neurotransmissores e a inibição da recaptação dos mesmos, o que prolonga os seus efeitos no cérebro.

Por causarem sensações de prazer imediato, euforia, aumento da atenção, da energia e hiperfoco, estas substâncias têm um elevado potencial de causar dependência, embora o tipo e a intensidade da mesma variem consoante a substância e o perfil do indivíduo.

A longo prazo, além da dependência, os efeitos começam a aparecer e não são benignos: problemas cardiovasculares e neurológicos, alterações no humor (como depressão e ansiedade), psicoses e episódios de paranoia, que em alguns casos podem ser irreversíveis.

O tratamento deste tipo de dependência, tal como qualquer outro, deverá começar pela tomada de consciência, sem medo de julgamentos ou estigmas. A força de vontade é, muitas vezes, a chave para dar o primeiro passo. A partir daí, o ideal é procurar um tratamento estruturado com uma equipa multidisciplinar preparada para ajudar.

Há vários tipos de tratamentos, que podem incluir:

Todos nós já conhecemos alguém que passou — ou está a passar — por uma situação destas. A empatia e a compaixão podem ser o primeiro passo para o início de um tratamento. Em vez de apontar o dedo, talvez esteja na hora de dar a mão.

A recuperação é possível. Que nunca falte coragem – para pedir, e para oferecer ajuda.