
“Está sempre insatisfeita com o seu trabalho, numa boa perspetiva, de querer melhorar no seu próximo quadro. A Alda é uma autodidata, uma excelente escultora e tem de ser valorizada.”
MARTIM CYMBRON
Alda Maria Raposo Sousa Machado descreve-se como “mais uma das mulheres da nossa terra”, mãe, esposa, avó, mulher com 68 anos de idade, atualmente reformada, mas que continua a fazer o que mais gosta: a pintura e a olaria.
Para a escultora, nada é tarde. Quando as suas filhas terminaram o seu percurso académico, incentivaram-na: seria a sua vez. Licenciou-se em 2014, aos 55 anos, na Universidade dos Açores, pelo fascínio da História. Quando iniciou o curso, abraçou a História dos Açores e, desde então, coleciona livros sobre o nosso trajeto. Ingressou no Mestrado de História Insular e do Atlântico, desistindo devido a uma embolia pulmonar.
Inscreveu-se num workshop de Martim Lebens Cymbron e, posteriormente, frequentou as suas aulas durante três anos, a quem o deve grande parte da sua técnica.
DL: Onde Nasceu?
Nasci a 9 de julho de 1956, cresci e vivo na Matriz da Ribeira Grande, na ilha de São Miguel.
DL: Como conheceu o seu marido – Luís Manuel Martins de Sousa Machado?
Conheci-o no Externato Ribeiragrandense, no judo, nas saídas com amigos, nas peças de teatro que nós fazíamos antes e depois do 25 de Abril. Éramos amigos antes de termos uma relação.
DL: Como é viver numa casa com dois artistas?
Muito bem. Temos de nos compreender um ao outro, respeitar os limites de cada um e, quando houver discórdia, da discussão nasce a luz e, na nossa casa há sempre essa luz.

DL: Como descobriu a sua veia artística?
Ao longo da nossa vida aprendemos muito, podemos melhorar aquilo que fazemos em contacto com outras as pessoas, na leitura, mas, no que respeita à arte, não se ensina nem se aprende, nasce e morre connosco. O talento nasce com a pessoa.
DL: Qual foi a sua primeira obra?
Foi em casa de um amigo que já não está entre nós – António Guilherme de Couto Pimentel. Fui passar um fim de semana à sua casa no Porto Formoso e reparou que a conversa não me estava a agradar. Convidou-me para ir trabalhar com um bocadinho de barro que tinha em sua casa. Fiz uma velhinha com um xaile muito naife, mas que ele adorou. Na semana seguinte bateu-me à porta para entregar-me uma barra de barro para continuar a trabalhar.
DL: Para si, até ao momento, qual foi a sua melhor criação em barro?
A melhor criação em barro foram quase todas. Costumo dizer que sou melhor no barro do que nos pincéis. A pintura surge somente quando não tenho muita vontade de trabalhar no barro. Contudo vou fazendo algumas coisinhas quando me dá na veia, mas mestre em todas as artes é burro em muitas partes e eu não quero ser mestre em muita coisa.
DL: Onde se inspira em cada quadro que faz?
Inspirei-me na guerra na Ucrânia, em conversas com amigos, por exemplo, há pouco tempo estava a conversar com uma amiga, de quem gosto muito, que falava de uma ausência permanente, uma ausência que não é vais agora e à noite voltas, mas que não volta mais. Quando cheguei a casa peguei numa tela e pintei. Outras vezes é quando olho para a minha parede e digo “isso precisa de um quadro aqui”. Tiro as medidas, pinto e coloco lá.
DL: Reparei que a maior parte dos seus quadros são mulheres. Por que recorre à figura feminina?
Na pintura, a maioria são mulheres e, inicialmente, no barro eram homens. Os corpos e as caras atraem-me. Gosto que as caras reflitam o que vai na alma das pessoas e não na beleza delas. Tento que as pessoas vejam qualquer coisa com vida nas minhas criações.
DL: E o teatro?
Fiz teatro, mas nunca fui grande atriz. Gostava do convívio, de estar entre as pessoas. Fiz um papel ou outro, como no “Coração de Ouro” porque acharam que teria mais facilidade em decorar texto e tinha as características para o papel em questão. O meu marido sim! É um grande ator.

DL: O que pretende fazer o resto da vida?
Continuar a ser quem sou, livre de pensamento, de fazer o que gosto, sem pensar no dia de amanhã. Futuro é o que for aparecendo, o que puder fazer, mas continuar criando sem pensar no que poderei vir a ser. Criar o que me dá gosto fazer.
DL: Nos dias de hoje, o que pode transmitir aos recentes artistas?
Invistam no que gostam realmente de fazer, embora a arte na nossa terra não dê muito, mesmo assim não deixem de concretizar o que gostam. Não sejam demasiadamente humildes, porque humildade em demasia é estupidez e eu fui muito estúpida, porque quando comecei a fazer os meus trabalhos era uma pessoa muito insegura.
Aceitem todas as críticas construtivas ou não, como um caminho de aperfeiçoamento do seu trabalho, mas sem desistirem. As pessoas podem não gostar do nosso trabalho, mas temos de saber que “é o nosso trabalho e fazemos isso por nós e não pelos outros”.
DL: O que acha que devemos melhorar enquanto pessoas?
Hoje em dia é difícil, mas essencialmente manter os seus valores e não enveredar por caminhos que julguem que não nos dão nada. Manter sempre a honra e honestidade.

«Falar sobre a minha mãe é como falar sobre a força e a sensibilidade que o mundo tanto precisa. Para mim, ela é um reflexo vivo do que é ser autêntico, forte e, ao mesmo tempo, generoso e amável.
SÍLVIA MACHADO
A sua veia artística é magnífica e mágica: flui em cada movimento, em cada gesto. A arte, para ela, não é algo que se cria apenas com barro ou pincéis — é algo que ela vive. Nas cores que escolhe para pintar, nos rostos que escolhe moldar, ela transforma em memórias inesquecíveis e eternas.
Mas, por trás da sua arte, existe uma força inabalável, uma teimosia capaz de mover montanhas. A minha mãe tem uma determinação que não se quebra. Ela vai até ao fim, não importa o quão árduo seja o caminho. Isso sempre foi um exemplo para mim. E, se há algo que aprendi com ela, é que a vida exige coragem — e que essa coragem é, muitas vezes, silenciosa e feita de pequenas escolhas diárias, masNsempre poderosas.
A minha mãe é uma incrível avó. Vê-la ao lado dos seus netos é ver uma versão doce e encantadora da sua personalidade. Ela tem o dom de fazer cada um dos netos sentir-se único e especial. A forma como cuida, ensina, mima e faz rir é algo que me toca profundamente. Não é só a sabedoria que partilha com eles, mas o amor incondicional que transborda em cada gesto. Os netos adoram-na de uma maneira pura e verdadeira, e ela retribui esse amor com a mesma intensidade. Ela sabe dar a dose certa de carinho e disciplina, de brincadeira e ensinamento, criando um vínculo forte e duradouro com cada um deles. Para os netos, ela é mais do que uma avó — é um verdadeiro porto seguro, uma fonte de alegria e conforto.
Ela é arte, ela é coragem, ela é bondade e, acima de tudo, ela é amor… a minha mãe.»
«|A| Contratempo surgiu neste mundo fruto de vontade própria. Sem ventos favoráveis, tentava cumprir-se na infância imposta. Corria, corria muito, fintando o jogo da vida para se refugiar numa terra de sonhos. Boa aluna, a escola sabia-lhe a pouco, o mundo fazia-se fora.
NATACHA MACHADO
Do amor, recebia sintonias imprecisas e de exigente interpretação. Mas, herculeamente, das desgarradas, retirava as linhas sonoras de fé e de esperança, que alimentam os corações dos bons e, nesse embalo, crescia.
O ávido tempo, ceifando a crença no eterno, trouxe consigo o confronto com o socialmente construído, quase como que em jeito de sentença para os comuns mortais. Casou-se, gerou vidas, os cânones sociais fizeram-se cumprir e a vida compartimentou-se. Os gabinetes de cantos retos, paredes despidas, erguidas numa precisão milimétrica, careciam de janelas. Avessa a grilhões, encontrou na arte a evasão e fez nascer vida(s), deu rosto às saudades e esboçou horizontes sem linhas. Enfrentou os deuses e conquistou o estatuto de Criadora, pois ser obra nunca lhe bastou. Amo-te mãe!»

Vila Franca do Campo recebe a primeira edição do Festival de Cerâmica durante os dias 29, 30 e 31 de maio, com o apoio da Associação Portuguesa de Cidades e Vilas de Cerâmica (AptCVC) e do Centro de Formação Profissional para o Artesanato e Património (CEARTE). Trata-se de um evento promovido pela autarquia local.
O Festival de Cerâmica inclui jornadas de trabalho e debate, oficinas formativas de cerâmica, roteiros pelo Património Cultural, exposição de cerâmica açoriana e uma feira de artesanato e gastronomia centrada no melhor das tradições deste município e dos Açores.
A produção oleira neste concelho é centenária e este encontro pretende reunir municípios, instituições e profissionais que partilhem a mesma tradição reforçando os benefícios do trabalho em rede como medida estratégica de valorização do Património Cultural, do Turismo e da Economia Sustentável.
De acordo com a nota da autarquia, este evento tem como principais objetivos: a valorização da tradição artesanal para promover a apreciação e a valorização das técnicas tradicionais de cerâmica e olaria, realçando a importância deste património cultural na identidade local e nacional; a educação e capacitação através da oferta de oficinas formativas e palestras que ensinem técnicas de produção e inovação na criação de novos produtos, os processos de produção de cerâmica, a história da olaria na região e a importância da preservação das tradições; a criação de redes de cooperação no estímulo de parcerias entre artesãos, empresas locais e instituições educativas, entre outras, criando uma rede de cooperação que fortaleça a atividade oleira.
Esta iniciativa pretende, ainda, fomentar a criatividade e a expressão artística individual e coletiva proporcionando um espaço para que os participantes possam explorar conhecimento nas várias dimensões do trabalho em cerâmica, sendo uma área comum a vários municípios da ilha e da região.
O programa do Festival prevê oficinas formativas de cerâmica nos dias 29 e 30 de maio nas Olarias da Vila, das 9h00 às 18h00; jornadas de cerâmica nos dias 30 e 31 de maio no auditório do Centro Cultural de Vila Franca do Campo com a presença de três conferencistas , das 9h30 às 16h00; abertura da exposição de “Cerâmica das Ilhas de Bruma” a 30 de maio no Centro Cultural de Vila Franca do Campo, às 15h00 e a feira de artesanato e gastronomia a 31 de maio na Praça Bento de Góis com música e olaria ao vivo, entre as 10h00 e as 20h00.
O município esclarece que para mais informações ou inscrições deverá ser contactado o Museu Municipal de Vila Franca do Campo.