
António Santos
Presidente do Sinapol – Açores
O Orçamento de Estado para 2026 (OE2026) parecia trazer, finalmente, uma lufada de ar fresco para as forças de segurança na Região Autónoma dos Açores. No seu Artigo 150.º, o documento é peremptório, o primeiro semestre deste ano ficaria marcado por um reforço efetivo de meios humanos, financeiros e materiais para o Comando Regional da PSP dos Açores.
Contudo, quase a meio do semestre, afinal uma vez mais, parece que a montanha pariu um rato. O “grande investimento” material materializou-se, há dias, na entrega de duas viaturas caracterizadas para as Equipas de Intervenção Rápida (EIR) em São Miguel. É este o reforço prometido? Duas viaturas numa única ilha para um dispositivo que se estende por 9 ilhas, 37 esquadras e 4 divisões policiais?
São já duas as décadas de promessas vazias. É urgente que a Direção Nacional da PSP e o Ministério da Administração Interna (MAI) entendam que os Açores são efectivamente um Comandos diferente, uma vez que tem uma particularidade arquipelágica que o distingue dos restantes Comandos de Policia espalhados pelo país, mesmo até do Comando localizado na Região Autónoma da Madeira. O reforço material é, sim, essencial para a operacionalidade e para o policiamento de proximidade, mas importa relembrar que este último não se faz sem polícias.
Há duas décadas que os sucessivos Governos da República alimentam o arquipélago com promessas que ficam sistematicamente aquém das necessidades. O cenário atual não dá esperança aos agentes que, diariamente, se esforçam no combate ao crime e na prevenção rodoviária, muitas vezes em condições que colocam em causa a sua segurança.
Enquanto os lóbis camarários de Lisboa e Porto exercem a sua influência habitual junto do Terreiro do Paço, surge agora a prioridade económica, a gestão aeroportuária.
Pelos corredores do Largo da Penha de França (endereço da Direção Nacional da PSP), já se ouve, que quase metade dos novos polícias que vão terminar a formação no mês de maio, serão canalizados para os aeroportos.
Embora o controlo de fronteiras seja uma missão nobre da PSP, a segurança das nossas populações (do Corvo a Santa Maria), não pode ser sacrificada em nome dos interesses das empresas que gerem os aeroportos. Não podemos aceitar que o policiamento nas esquadras locais seja a “sobra” do que resta após Lisboa, Porto e Faro servirem os seus interesses estratégicos.
Perante esta evidência de que o Governo Central continua a olhar para a segurança nos Açores como um acessório, impõe-se uma pergunta: onde está a voz do nosso Governo Regional?
Senhor Presidente do Governo Regional dos Açores, não é aceitável que a Região siga a passividade de Lisboa. A segurança pública é um pilar da nossa Autonomia e da nossa coesão territorial. Aceitar que o “reforço” do Artigo 150.º se resuma a migalhas, é validar o esquecimento a que o dispositivo policial tem sido votado.
É hora de o Presidente do Governo Regional exigir de Lisboa um compromisso sério, nomeadamente um real reforço policial de modo a satisfazer as reais necessidades de efetivos em todo o dispositivo policial, de forma que as várias valências da PSP existentes na região, cumpram com a sua missão, e é também necessário que o investimento material chegue às 37 esquadras, e não apenas ao asfalto de Ponta Delgada.
É tempo de exigir que a farda da PSP nas nove ilhas seja efectivamente respeitada com meios e homens, pois a coesão de um arquipélago mede-se pela segurança de quem o habita e não pela passividade de quem o governa.

Alexandra Manes
A democracia morre na escuridão. É esse o lema que permanece na montra do afamado jornal The Washington Post, e que simboliza aquilo que melhor representa o espírito livre do jornalismo. Na prática, o Post é agora o braço armado do bilionário Jeff Bezos, que controla a sua linha editorial de forma inflexível. Com a ascensão do ditador Trump à Casa Branca, e a queda das máscaras dos oligarcas americanos, o jornal passou a assumir uma postura clara, contra quem é adversário do dinheiro, procurando sempre favorecer os interesses do senhor do novo fascismo que agora emana das sedes do poder, nos Estados Unidos, para o resto do mundo.
A democracia morreu, às claras, e ninguém a conseguiu salvar. Lá. E cá? A realidade é inevitável, mesmo que continue a surpreender os mais distraídos desta vida, quando escutam debates e procuram soluções impossíveis de encontrar. Portugal, tal como o resto do mundo, segue a rota de colisão dos americanos. A polarização alcançou proporções monumentais e é agora quase impossível voltar ao que era dantes. Assim, o nosso país corre o risco sério de ser governado por um salazarista convicto, apoiado por neonazis e outros que tal, nos próximos dez anos, se não o for já agora, com as presidenciais de domingo, dia 8.
E o que é que isso tem a ver com o Washington Post? Quase tudo. Nos últimos tempos, graças ao esforço dantesco de algumas personalidades da nossa praça digital, conseguimos apurar a quantidade de vezes que o Ventura foi entrevistado. Às vezes, estão a transmitir uma conversa com ele, em direto, enquanto em rodapé vai passando mais informação sobre o seu gangue de alegados criminosos, e nos jornais de tiragem em papel, aludirem à sua ascensão e suposta inteligência. Quem o ouve com mais atenção sabe que ele não é tão brilhante como o querem vender. Mas, isso não interessa. O que vende é a polémica. O imediatismo. A luz dos holofotes jornalísticos que esmaga a democracia com mais força do que alguma escuridão poderia imaginar.
Já não me restam muitas dúvidas acerca do futuro estatuto de primeiro-ministro de Ventura. Espero apenas que seja como o primeiro mandato de Trump, e que o consigamos impedir de alcançar o segundo. Entristece-me ver como a comunicação social foi transformada, de pilar da democracia para instrumento deste novo poder, que joga com as regras velhas do absolutismo e dos salazarentos dossiers do dinheiro. Aprofundo a minha depressão ao perceber as ameaças que sofre o jornalismo. Problema profundo, com raízes nas dificuldades da periferia, aprofundadas pelas crises e finalmente cimentados em regras e estatutos que promovem o imediatismo e combatem a reflexão de acalmia.
Assim, resta-me apelar a que continuem a pensar pela sua cabeça e desconstruam as mentiras virais. A partir de hoje, serei mais concisa na minha opinião. Três mil e quinhentos caracteres. Eu respeito a lógica e reconheço o esforço hercúleo da comunicação social escrita na manutenção de espaço para as reflexões, mas aborrece-me a ideia de que só posso escrever dentro de uma baliza. A democracia morre, em jaulas. Esperemos que não seja o caso. E, no domingo, não se esqueçam de votar, e de votar com democracia, luz e humanidade, porque hoje são garrafões de água, mas futuramente sabemos nós se teremos acesso ao copo de água?