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“Estava doente e foste visitar-me”

Padre André Furtado

“Estava doente e foste visitar-me” (Mt 25,35). Este versículo faz-me questionar: Quantos sofrem à nossa volta, e nós ficamos à distância, silenciosos, iludidos a pensar que o silêncio basta, e, por vezes, mergulhamos na hipocrisia de julgar em vez de cuidar? Diz-se amiúde que “quem precisa que procure”. Em parte, é verdade, mas na realidade, muitos sofrem em silêncio por vergonha, por medo ou por não saberem a quem recorrer, e a quem confiar. Cabe-nos ter a atitude que concretiza aquele “foste visitar-me, aproximarmos e cuidarmos de quem sofre. Também se cuida fora de um hospital.

Ao longo do meu caminho no hospital, sobretudo nos cuidados paliativos — depois de uma experiência de tempestade e desencontro — recordei tantas vezes a parábola do filho pródigo: “Levantou-se e foi ter com seu pai” (Lc 15,20). Também eu precisei de regressar, de me reencontrar com a verdade. E foi nesse caminho que esta palavra deixou de ser apenas um versículo para se tornar um lugar onde sou constantemente interpelado: “estava doente e foste visitar-me”.

Ali, diante de cada doente, encontro não só a fragilidade do outro, mas também a minha. Foi aí que reaprendi o valor do ministério que me foi confiado: não tanto fazer muito, mas ser presença ativa: “foste visitar-me”.

Chega um momento em que já não há muito a fazer… mas há sempre muito a rezar, a escutar, a amar. “O Senhor não procura sacerdotes perfeitos, mas corações humildes, abertos à conversão e prontos a amar” – conforme disse Leão XIV. Há um abandono necessário – um repousar in sinu Jesu, como o discípulo que reclinava a cabeça no peito do Senhor (cf. Jo 13,23). Deus não nos pede grandes gestos, mas um coração disponível, entregue e agradecido.

Foi difícil aceitar isto porque queremos agir, resolver, aliviar, mudar. Queremos fazer tudo… e, tantas vezes, acabamos por não viver verdadeiramente nada. Mas, pouco a pouco, fui percebendo que, quando já não é possível fazer, ainda é possível estar. Como Maria de Betânia que escolheu “a melhor parte” (cf. Lc 10,42). E estar não é pouco. Estar com respeito, ternura, verdade. Estar sem fugir do sofrimento do outro. Estar como quem acredita, mesmo em silêncio, que os cuidados paliativos são uma carícia de Deus — discreta, mas profundamente real.

E aqui não posso deixar de agradecer aos profissionais de saúde. Para o sacerdote, o altar é o lugar da entrega. Mas convosco aprendi que, em cada doente, há também um altar. Muitas vezes senti que o meu altar era aquele doente, aquela família e até o vosso cuidado silencioso. Em cada gesto vosso, tantas vezes escondido, reconheci uma entrega que toca o sagrado.

Foi também neste caminho que comecei a descobrir algo exigente: não sou um “super-sacerdote”. Por detrás do altar há um homem. Por baixo das vestes, há um coração. Um coração também ferido, também em caminho. E talvez sejam essas feridas escondidas as que mais doem. E é necessário cuidar. porque há feridas que não se veem, mas doem tanto — ou mais — do que as que o olhar alcança. Este cuidar começa por reconhecer a nossa própria fragilidade. Só quem aceita as suas feridas pode aproximar-se verdadeiramente das feridas do outro.

Feridas da alma: medos, culpas, solidões, perguntas suspensas. Muitas vezes senti-me pequeno diante delas, sem respostas, sem palavras. E foi precisamente aí que compreendi que a assistência espiritual não consiste em explicar tudo, mas em acompanhar, sustentar, e não abandonar.

Lembro-me de alguém que me disse, deitado numa destas camas esta ideia: onde as almas são curadas, as vidas reencontram-se e são salvas.E comecei a ver isso acontecer — de forma simples, quase invisível. Pequenos reencontros, reconciliações, silêncios cheios de sentido.

Nestes quartos aprendi também que a vida não se mede pelo tempo, mas pelo amor. Há vidas longas que nunca se encontram… e instantes breves carregados de eternidade. Quantas vezes rezei em silêncio: “aumenta a minha fé…” (cf. Lc 17,5). Sobretudo quando não compreendo, quando a dor do outro me toca profundamente. E nesses momentos, ao estar junto de quem sofre, sinto que algo acontece: como se aquele espaço se tornasse sagrado. As lágrimas tornam-se um altar escondido, onde Deus se aproxima sem fazer ruído. Descobri, de forma muito concreta, que: Sem silêncio, não há escuta. Sem escuta, não há relação. Sem relação, não há fé viva. E confesso: nem sempre sei escutar. Nem sempre sei estar. Mas vou aprendendo.

Porque fora deste “hotel de sete estrelas” — como um doente um dia lhe chamou — é fácil cair na tentação de julgar, de diminuir os outros, de esconder as nossas próprias fragilidades com as dos outros. Eu próprio já o fiz. Talvez ainda o faça. É mais fácil condenar do que amar, derrubar do que levantar.

Mas aqui… aqui estou a aprender um outro olhar. Um olhar que não se coloca acima, mas ao lado. Um olhar que não acusa, mas acolhe. Um olhar que vê no outro não um problema, mas um mistério — uma página viva do Evangelho.

Jesus ensina isso: inclinar sempre. Nunca para esmagar ou ser esmagado, mas para levantar. Nunca para reduzir alguém ao seu erro, mas para o devolver à sua dignidade de filho amado. “Nem Eu te condeno” (Jo 8,11). E percebo que também eu preciso de deixar que a verdade me toque. Porque a verdade dói. Mas liberta (cf. Jo 8,32). É como no serviço administrado a cada doente: há gestos que doem — uma agulha, um cateter, uma intervenção necessária. Ninguém gosta, mas sabemos que é para curar, para cuidar, para dar vida. Assim é Deus: não entra para ferir, mas para tratar, salvar e renovar. Ele não se detém na nossa desgraça, mas mergulha nela para renascer a graça. Como a fénix que ressurge das próprias cinzas, também Deus faz brotar a vida nova precisamente a partir daquilo que parecia perdido (cf. Jo16,20).

Hoje sinto — e quero dizê-lo com convicção — que os cuidados paliativos não são apenas um lugar de fim. São um lugar de revelação. Aprende-se o essencial. Aprende-se a humanidade. Aqui, aprende-se Deus. E aquilo que aqui descubro não pode ficar fechado entre paredes. É um convite a viver fora: nas relações, nas escolhas, na forma como olho cada pessoa. Se tivesse de resumir tudo o que tenho aprendido, diria isto: fé que se curva, amor que se ergue.

O serviço de assistência espiritual não resolve tudo — e isso, no início, custava-me aceitar. Mas hoje sei que transforma tudo e todos. Não tira a dor, mas dá-lhe sentido. Não impede a morte, mas humaniza o caminho até ela. Cuidando da vida até ao fim, onde a ciência alivia e a fé dá sentido.

Porque, no fim, é o amor que permanece. E onde o amor permanece, há sempre vida que resiste.

Base das Lajes reforçada com drones MQ-9 Reaper em cenário de tensão internacional

A chegada das aeronaves de alta tecnologia à ilha Terceira, prevista para esta segunda-feira, intensifica a atividade militar na região e gera um misto de habituação e inquietação entre a população local, acompanhada de perto pelas instituições da comunidade

© RTP AÇORES/ IA

A Base Aérea n.º 4, nas Lajes, prepara-se para uma nova fase de operacionalidade com a chegada iminente de drones militares MQ-9 Reaper, no âmbito do prolongado conflito entre os Estados Unidos e o Irão.

Segundo informações avançadas pela estação de televisão SIC, estas aeronaves de última geração (utilizadas tanto para missões de reconhecimento como para ataque) deverão chegar aos Açores desmontadas em contentores já esta segunda-feira, sendo a sua montagem final assegurada nas instalações da base. Este reforço tecnológico surge num momento em que a prontidão operacional é máxima, tendo as autoridades locais, incluindo as corporações de bombeiros, recebido formação específica para responder a eventuais emergências associadas a estes aparelhos.

A intensificação das operações na ilha Terceira tem alterado significativamente o quotidiano dos residentes, que nos últimos trinta dias se viram confrontados com um aumento exponencial de caças e aviões de reabastecimento.

Para o padre Nelson Pereira, pároco das Lajes, a introdução destes novos meios aéreos acentua a perceção de risco na comunidade. “A chegada destes meios torna a ligação da base ao esforço de guerra ainda mais evidente. Isso inquieta as pessoas, mesmo sabendo que, segundo o que é divulgado, não haverá capacidade de atingir esta base diretamente”, afirma o sacerdote, em declarações à agência Igreja Açores, que refletem o sentimento de uma população que, embora habituada à presença militar, encara com apreensão a evolução do conflito.

O cenário nas imediações da base tem oscilado entre a curiosidade inicial, que levou muitos habitantes e visitantes a deslocarem-se ao aeroporto para observar a movimentação, e uma crescente adaptação ao ruído constante. O pároco local recorda que, nas primeiras semanas, a ansiedade era palpável devido ao receio de a base se tornar um alvo estratégico. Contudo, com o passar do tempo, o estrondo das descolagens e aterragens, mesmo em horários de madrugada, passou a integrar a rotina lajense.

Perante esta incerteza, a Igreja nos Açores tem assumido um papel de retaguarda emocional e pastoral, promovendo momentos de reflexão onde os paroquianos podem partilhar os seus medos. “Temos procurado estar presentes, ouvir as preocupações das pessoas e ajudá-las a encontrar serenidade no meio da incerteza. A fé e a comunidade tornam-se pilares importantes nestes momentos”, conclui o padre Nelson Pereira, sublinhando que, mais do que respostas técnicas, a prioridade tem sido oferecer uma presença de esperança num contexto de vigilância armada que já dura há mais de um mês.

Ouvidor da Lagoa abre Novena dos Espinhos com apelo à “sabedoria dos simples”

Padre Gil da Silva, responsável pelas sete paróquias da ouvidoria da Lagoa, é o pregador convidado para os primeiros três dias deste momento marcante da Quaresma no Santuário da Esperança

© CLIFE BOTELHO

Teve início o primeiro dia da Novena dos Espinhos, presidida pelo reitor do Santuário e com a pregação a cargo do padre Gil da Silva, ouvidor da Lagoa, que assegurará os três primeiros dias desta caminhada espiritual. O sermão foi centrado na figura de Madre Teresa da Anunciada, cuja autobiografia será explorada ao longo de toda a novena, servindo de guia para a reflexão quaresmal proposta à comunidade.

Desde o início da homilia, o pregador lançou um convite: deixar-se conduzir pela “sabedoria dos simples”. Ao percorrer as primeiras páginas da autobiografia de Madre Teresa, surge “naturalmente” a pergunta: de onde lhe vem tanta sabedoria? A resposta encontra-se, antes de mais, no ambiente familiar e, de modo particular, na influência decisiva da sua mãe, afirmou o pregador, inspirado pela leitura da autobiografia da religiosa responsável pelo impulso do culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres, com cerca de 130 páginas.

“Enquanto hoje se ensina os filhos e netos a ler, a dominar a matemática e a navegar no mundo digital, a mãe de Madre Teresa preocupava-se sobretudo em ensinar-lhe a servir a Deus. Incutia-lhe o gosto pelo Senhor e o desejo constante de ser melhor para O servir”, lembrou o presbítero, que é atualmente pároco no Livramento e no Cabouco. “Neste ambiente de fé simples e firme, cresceram as raízes espirituais de Madre Teresa, que desde pequena, relacionava-se ‘tu a tu’ com Deus e com Maria. À medida que crescia, pedia ajuda ao Senhor e inclinava-se diante d’Ele, num gesto de reverência que traduzia amor, respeito e consciência de serviço. Essa inclinação era também atitude interior: disponibilidade para servir os irmãos e cuidar de todos, com discrição e humildade, vivendo o Evangelho na lógica de que a mão esquerda não saiba o que faz a direita”, disse ainda.

O padre Gil da Silva sublinhou ainda que a solicitude de Madre Teresa “era enorme”. Ainda jovem, Teresa chegou a desejar casar com um homem rico, mas no mais profundo do seu coração desejava desposar Jesus Cristo. Mesmo quando teve um pretendente, rezava e pedia intercessão para discernir a vontade de Deus. Sempre tratou Jesus por “Senhor”, expressão que encerrava amor, ternura, carinho e profundo respeito. “Desde nova quis colocar a sua vida ao serviço d’Aquele que amava”, concluiu o pregador. A reflexão tornou-se também interpeladora para os fiéis presentes. “Muitas vezes queremos Jesus, mas pouco fazemos para O ter verdadeiramente. Fazemos orações piedosas, mas nem sempre estamos com Ele de coração e alma. Impõe-se, por isso, uma pergunta essencial: quando estamos com Deus, é por mero cumprimento ou porque desejamos verdadeiramente estar com Ele?”, questionou o sacerdote.

Neste tempo de Quaresma, a assembleia foi desafiada a fazer da memória de Madre Teresa um caminho de conversão: “Abraçar a sua memória para abraçarmos Aquele que ela amou”. O convite final foi claro: reconhecer o tempo que Deus concede, pedir força para não desistir e procurar maior humildade no serviço a Deus e aos irmãos, especialmente os mais vulneráveis.

A novena prossegue nos próximos dias, mantendo como fio condutor a autobiografia de Madre Teresa da Anunciada e a proposta de redescobrir, à luz do seu testemunho, a “sabedoria dos simples”. Serão ainda pregadores mais dois ouvidores de São Miguel: o padre Hélio Soares, dos Fenais da Vera Cruz, e o padre Jason Gouveia, ouvidor adjunto do Nordeste. A Festa dos Espinhos será celebrada na sexta-feira, dia 6. Durante a Novena, as visitas ao Coro Baixo estão interrompidas.

“Espero que a Ouvidoria dê pequenos passos para que se faça uma caminhada capaz de perdurar”

Nos 40 anos da Ouvidoria da Lagoa, o novo Ouvidor, o padre Gil da Silva, fala dos desafios e do futuro das várias paróquias sem esquecer a questão da pobreza

Padre Gil da Silva tem 42 anos e é Ouvidor pela primeira vez © CLIFE BOTELHO

Aos 42 anos assume pela primeira vez a função de Ouvidor, sendo responsável pelas sete paróquias da Ouvidoria da Lagoa. Gil da Silva é padre nas freguesias do Livramento e mais recentemente no Cabouco. Nasceu no Canadá, filho de pais emigrantes, e depois de passar pelo continente, através da Congregação da Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus, mais conhecidos por Dehonianos, regressou aos Açores e esteve à conversa com o Diário da Lagoa.

DL: É a primeira vez que é ouvidor. O que é que é ser Ouvidor?
Ser ouvidor, como o próprio nome indica, é ser aquele que escuta, aquele que escuta os seus colegas padres, aquele que de certa forma também recebe muito da ajuda dos colegas padres. Termos um olhar, um horizonte, um pouco mais abrangente e olharmos para o lado, para que todas as paróquias olhem umas para as outras com este olhar, como Cristo também nos olhava, com um olhar de amor, com um olhar capaz de sermos capazes de construir uma coisa simples, que é uma comunidade consciente de que é batizada.

DL: Que significado têm estes 40 anos da Ouvidoria da Lagoa?
Um significado profundo de comunhão, de reconhecer que temos paróquias, temos comunidades cristãs que vivem de modo particular num ritmo normal de vida cristã e que são capazes de pensar uma Igreja cada vez mais abrangente. Quase numa tentativa de pensar-se numa Igreja que não é só a minha casa, não é só a minha paróquia ou comunidade, mas que há outras comunidades que vivem a mesma fé. 

DL: E que desafios é que a Ouvidoria enfrenta?
O desafio de pensar que não vive só para si própria. O desafio de pensar-se como uma comunidade cristã, o desafio de nos desinstalarmos. E isso pode começar — e começa sempre — quando nós saímos de casa. Desinstalarmo-nos do conforto da nossa casa e irmos à igreja, este templo, esta casa onde se pretende viver a fé. É este desafio de nos desinstalarmos e irmos a outras comunidades celebrar a mesma fé. Porque às vezes é tão difícil  mas o Evangelho interpela-nos sempre a nos desinstalarmos e a não olharmos só o nosso cantinho. 

DL: Na sua homilia, o Bispo de Angra abordou a questão da pobreza. É um tema que merece ainda mais atenção na Lagoa?
Em toda a parte. Contudo, todos nós reconhecemos que a Lagoa tem situações de pobreza que até são gritantes e que necessitam da nossa atenção, sem dúvida nenhuma.
E quando digo pobreza, não digo só a económica, a financeira, a habitacional. Falo também desta pobreza a que o Papa faz referência na sua mensagem, que é o não reconhecer a presença de Deus, que também é um tipo de pobreza. Digo isto no sentido de que quem tem Deus na sua vida deveria ter esse olhar distinto e diferente para qualquer pessoa. E, provavelmente, um olhar um pouco mais próximo, um olhar mais atencioso, e é desta riqueza que falo, que é quem tem Deus.
Há que olhar também para esta situação. E todas as comunidades devem ter em atenção estas situações, porque também o Papa diz que os pobres não deviam ser olhados como objetos da nossa ação, mas como sujeitos ativos, porque também são nossos irmãos.

DL: Segundo o site da agência de notícias Igreja Açores, a Ouvidoria da Lagoa “regista grandes bolsas de pobreza”. Como é que nós podemos fazer com que essas bolsas de pobreza diminuam?
Uma das coisas que nós devemos é investir na Educação, começa por aí. Olhar para as nossas crianças e jovens e termos esse cuidado constante na Educação. Não é fácil, porque isto é uma questão que às vezes passa de geração em geração.
Começava por aí e pela capacidade de nós ajudarmos e, depois, consequentemente, porque não implica só as crianças e os jovens, implica também os pais a fazer este caminho.
Depois, se vamos falar de uma parte um pouco mais concreta da vida das pessoas: condições de trabalho, que, aparentemente, parece que não falta trabalho, mas há falta de trabalhadores. Mas, lá está, é preciso também esta parte educativa para capacitar para esses trabalhos.
Depois, a questão da Habitação, que realmente é permanente e não é só no continente, mas aqui também, com a Habitação como está, é impensável uma família, mesmo com os dois a trabalhar, pedir empréstimo para uma casa pelo valor atual. Eu apostava mais e mais na Educação.

DL: Para terminar, o que é que espera para o futuro da Ouvidoria da Lagoa?
Espero que seja um momento para estarmos juntos, para refletirmos sobre a Ouvidoria, sobre as nossas comunidades cristãs e para nos desafiarmos a dar esperança a quem não tem, alento a quem nos pede, um olhar positivo das coisas.
Porque uma das coisas que se nota muitas vezes é não valorizarmos as pequenas coisas que fazemos. Por isso mesmo, vislumbro e espero que a Ouvidoria dê pequenos passos para que se faça uma caminhada capaz de perdurar e de responder aos desafios que todos nós vivemos e que também queremos lançar com uma esperança para todos, que é esta presença de Cristo e esta alegria de sermos positivos nas coisas que nós fazemos.

Amou-os até ao fim

Padre André Furtado

Irmãos e irmãs,

hoje iniciamos o Tríduo Pascal, os três dias mais sagrados da nossa fé. A liturgia desta Quinta-feira Santa leva-nos ao Cenáculo, à última Ceia de Jesus com os seus discípulos. É uma noite de entrega, de amor profundo, de lições que nos devem transformar. Celebramos três realidades fundamentais: A instituição da Eucaristia – o alimento da nossa fé; O nascimento do sacerdócio ministerial – ao serviço do povo de Deus; E o mandamento novo do amor, vivido no gesto humilde do lava-pés.

Amou-os até ao fim

O Evangelho segundo São João não descreve a consagração do pão e do vinho como os outros evangelistas. Em vez disso, mostra-nos um gesto inesperado: Jesus ajoelha-se e lava os pés dos discípulos.

Um gesto simples, mas profundamente revolucionário. O Mestre faz-se servo. Aquele que é Senhor de tudo, torna-se escravo de todos. Lava os pés dos seus amigos, até mesmo de Judas, que o iria trair.

E depois diz: “Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também.”

Um gesto para o nosso tempo

Este gesto de Jesus fala diretamente à realidade do mundo em que vivemos. Um mundo marcado por divisões, conflitos, individualismo, indiferença, orgulho e vaidades.

Vivemos numa sociedade em que lavar os pés dos outros parece absurdo. Muitos querem subir, dominar, aparecer… mas poucos querem servir.

Jesus, porém, ensina-nos que a grandeza está em abaixar-se. A Eucaristia que Ele nos deixa nesta noite não é apenas um rito bonito: é vida doada, amor que se torna pão, serviço que se torna concreto.

Comungar e servir: duas faces da mesma fé

São Paulo recorda-nos: “Sempre que comerdes este pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.” Ou seja: cada Missa é um envio. Somos enviados a continuar o que celebramos.

De nada serve comungar o Corpo de Cristo se não reconhecemos Cristo no irmão. A Eucaristia que não nos leva ao perdão, ao cuidado, ao compromisso com os mais frágeis… não cumpre o seu verdadeiro fim.

No mundo de hoje, Jesus continua a perguntar-nos: “Estás disposto a lavar os pés da humanidade ferida?”:  Daquele vizinho que te irrita… Do pobre que pediste que fosse “trabalhar” em vez de estender a mão… Do imigrante desprezado, do doente esquecido, do familiar com quem cortaste relações…

Sacerdócio: serviço, não privilégio

Hoje também é o dia do sacerdócio. Mas o modelo de sacerdote que Jesus nos mostra não é um homem distante, mas alguém que se aproxima, que serve, que ama com humildade.

E isso aplica-se a todos nós. Porque, pelo nosso Batismo, todos participamos deste sacerdócio do serviço. Todos somos chamados a ser Eucaristia para o mundo.

Amar até ao fim

Meus irmãos e irmãs, Jesus amou até ao fim. Não até onde dava jeito. Não até ser traído. Até ao fim.

E este amor é o que salva o mundo.

Peçamos hoje a graça de: voltarmos ao essencial da nossa fé; de deixarmos de lado divisões, orgulhos, medos e desconfianças; de nos tornarmos comunidades e famílias mais unidas, sociedades mais fraternas, capazes de amar como Jesus amou.

Que nesta Ceia do Senhor, Ele nos ensine a: comungar com o coração cheio; servir com humildade; amar com verdade.

Amém.

Agradecimentos

Padre André Furtado

As palavras são poucas, para expressar tudo aquilo que hoje sinto no meu peito. Hoje a nossa comunidade reúne-se à volta do mesmo altar que há 41 anos atrás, viu um filho ilustre desta terra oferecer o santo sacrifício da missa pela primeira vez. A história do ano 1983 volta a ser vivida na nossa terra.

Meus Amigos: louvado seja o nosso bom Deus. Dou início a este agradecimento citando São João Maria Vianney: O padre não é para si. Não dá a si mesmo a absolvição, não administra a si mesmo os sacramentos. Ele não é para si, é para vós, povo de Deus. Neste fim de tarde, não há melhor forma de dar graças a Deus pelo dom da vida e do sacerdócio do que estando reunidos à volta do altar – celebrando a Santa Missa: ela própria é ação de graças por tudo o que ele fez por mim e faz por cada de um de nós. Foi Deus, que me chamou e me predestinou, na minha forma de ser, para cuidar dos seus bens e amuniciar a todos a salvação. Posso assim dizer que foi Deus que lançou sobre mim o seu olhar, olhou para a minha miséria e me chamou, ao longo de vários anos e continua a chamar-me: e hoje e sempre quero estar reclinado no peito de Jesus, como diz o lema para o meu ministério, extraído do exemplo e do testemunho do evangelista João: In sinu jesu

O caminho não foi e nem será fácil – obrigado a todos os que nunca duvidaram e sempre me apoiaram desde do primeiro dia – mas sei que terei sempre um lugar para reclinar; caminho este que continuarei a trilhar, na certeza de que é Cristo que me conduz. Muitos foram os que contribuíram para que hoje eu pudesse subir a este altar e oferecer pela primeira vez a santa missa, e realizar este sonho. É bom sonhar, e nunca se proíbe alguém de sonhar. No dizer do poeta “Deus quer, o homem sonha e a obra nasce”.

Neste sentido, sou grato a D. Armando, pela amizade e por me admitido ao sacramento da ordem e a todo o presbitério aqui presente, mas também o ausente, pelo acolhimento e amizade. Quero caminhar convosco e juntos, animados pelos Espírito Santo, trabalharemos por uma melhor fraternidade para levarmos o santo povo fiel até Deus. A fim de sermos uma Igreja que acolhe todos, sem exclusões, porque todos somos filhos de Deus. Não fiquemos pela superfície na forma de rezar ou até mesmo de celebrar; excessivamente preocupados ora com a nobreza ora com a simplicidade no culto divino ao invés de nos convertermos cada vez mais, importa sim um coração bom, humilde e generoso. Sejamos realmente Igreja. “Pobres sempre os tereis, mas nem sempre me tereis convosco.” – disse Jesus sobre a pecadora que lhe ungiu os pés com o perfume caro.

Aos sacerdotes que por cá passaram e aos meus párocos que contribuíram para a minha formação: Pe. João Leite, Pe. António Varão, que partiram para a eternidade, Pe. Silvano, Pe. Nelson Vieira, Pe. João Miguel, Pe. Rui Silva, aqui presente obrigado pelo vosso testemunho de amizade. Perdão pelas vezes em que não fiz melhor.

Ao Seminário de Angra, às equipas formadoras, funcionários e seminaristas. Obrigado por tudo. Mas deixai-me salientar dois nomes, a quem devo pedir desculpa, aos meus diretores espirituais- ao Pe. Gregório pelos cabelos que lhe fiz perder, por ter dado cabo de sua paciência; e ao Pe. Nelson pelas noites mal dormidas. Mas obrigado pela vossa paciência, misericórdia, ternura, testemunho e dedicação a nós enquanto seminaristas.

Um obrigado às comunidades da ilha terceira que ao longo do meu percurso no seminário me acolheram: São Bento, Terra Chã e 5 Ribeiras, Posto Santo, Fonte do Bastardo e Porto Martins.

Aos meu colegas e amigos de jornada ao Gonçalo Brum, o Leonel e Rui: ups: Pe. Leonel e Pe. Rui Pedro. Obrigado pela vossa amizade; perdão por algumas vezes não ter sido melhor convosco. Ficará para história, 7 anos + 1, longas e maravilhosas histórias, e deixa-me fazer referência a algumas: longos serões a traduzir latim “é cma água… mas tudo mal”; vários teste ad hoc por andarmos na galhofa; um lagarto apanhado e lançado no quarto do Rui; um objeto não identificado que cai na testa do Rui; serões de chá com bolos levedos; aulas não concluídas, ups…. Se o padre Cipriano cá estivesse, iria dizer neste momento: eles estão bem é no sofá: Obrigado Pe. Cipriano, Pe. Ângelo que contribuiriam para a nossa formação e que já não estão entre nós. E muitas mais histórias ficam por contar, mas ficam registadas na nossa memória e muitas mais iremos escrever, de uma turma unida.

Um agradecimento amoroso e profundo á minha família, aqui presente e que nos vê pelas redes sociais. Obrigado pelo vosso amor e compreensão. Sem vós não seria o que sou hoje. Muito mais poderia dizer, mas hoje só digo isto: obrigado! Aos meus padrinhos de ordenação diaconal e presbiteral, obrigado por tudo. Pelo apoio, pelo ombro amigo… onde muitas vezes sentistes o meu cansaço e desânimo.

A esta comunidade que é a minha comunidade, sob a proteção da Senhora do rosário, o meu obrigado. Obrigado pela vossa presença e apoio ao longo desta caminhada. Um obrigado também à comunidade da nossa Matriz de Lagoa, a ambas agradeço a oferta. O cálice que hoje foi elevado, foi oferta das nossas comunidades: Santa Cruz e Rosário. Bem como as galhetas – uma oferta anónima. Um obrigado a todos os que, mesmo de forma anonima contribuíram para a confeção deste novo conjunto de tolhas que ficam para o serviço litúrgico da nossa igreja. Um obrigado pela ornamentação e limpeza da mesma.

Obrigado à Câmara Municipal de Lagoa e Junta de Freguesia do Rosário, pelo apoio na logística da missa nova e pela ornamentação do tapete para a procissão, bem como a todos aqueles que me acompanharam em procissão desde da minha casa até a nossa igreja, de modo especial às Bandas filarmónicas: Lira da Estrela – Candelária e Lira Nossa Senhora do Rosário.

Um agradecimento especial ao Pe. Eurico, pela amizade e estima. Obrigado pela organização da liturgia. Neste sentido estendo o agradecimento ao Afonso (seminarista), pela organização da música, pelas composições e harmonizações que fez para este dia. E acrescento ainda o Rogério e a Mariana Almeida pelas suas respectivas harmonizações. À professora Cármen Subica que dirigiu e preparou o coro composto pelo nosso orfeão, pelo coro da Matriz de Lagoa, pelo Coro de Nossa Senhora das Candeias, e amigos e esta pequena orquestra. A todos estes homens e mulheres, jovens e adolescestes: Obrigado pela vossa dedicação para este dia, e pelo vosso serviço prestado na animação litúrgica. Como disse Santo Agostinho, doutor da graça: quem canta reza duas vezes. Amigos, que a vossa vida seja sempre escrita numa pauta com tom maior… e quando começar a modular para tons menores… temos sempre uma borracha para reescrever em tom maior.

Agradeço aos meus queridos acólitos: do Rosário, Santa Cruz e da Zona Oeste PDL. Estendo este agradecimento a toda a Zona Oeste da Ouvidoria de PDL, pelo acolhimento e amizade a começar pelo senhor ouvidor Pe Marco Sérgio e sacerdotes da Zona Oeste: Pe Nuno Maiato e Pe. João, mas de forma especialmente afetuosa ao pe Nuno Maiato que me acolheu neste ano de estágio. E sublinho três das minhas seis comunidades: Feteiras, Candelária e Ginetes – foram as primeiras. Obrigado pelo vosso carinho e estima, ao longo deste ano de estágio e por estarem presentes neste dia tão especial para mim: Obrigado

Não posso deixar de passar este dia sem agradecer a todos os meus professores desde da pré até ao meu secundário: mas de forma especial a um professor que foi importante na minha decisão de entrar no seminário: Prof. Vítor Simas, a todos o meu muito obrigado.

Um agradecimento, aos catequistas que contribuíram para o meu crescimento na fé: Ana Medeiros e Lurdes, Antonieta, Graça Borges, Ana Rego, Márcia Raposo, Lucrécia e Eduarda, Leonor, José Reis, Luísa e Marco. Ao grupo de romeiros, aos coros: vozes de Maria, Orfeão, grupo de jovens, bem como a todas as associações escolares, culturais, recreativas e desportivas da nossa cidade de Lagoa que ao longo dos tempos contribuíram para a minha formação humana.

A todos, os benfeitores conhecidos e desconhecidos, obrigado pelo vosso apoio quer material, quer espiritual.

Sei que o Senhor não me chama para fazer coisas grandes ou ter grandes ideias. Sei que se serve de mim para ser seu instrumento no meio dos homens. O Senhor não conta com as minhas qualidades e capacidades que são poucas. E isto porque para ser padre é não é ser eu, mas ser Cristo e tornar Cristo presente no meio de nós. Oferecer a santa missa, administrar os sacramentos, anunciar o Santo Evangelho com toda a sua pureza íntegra e radicalidade. É a missão que Deus me confia agora. Tornar Cristo presente no meio dos homens. Ser um outro Cristo em Cristo. Desejo ardentemente ser esta ponte entre Deus e os homens. Ponte pela qual os homens se reconciliam com Deus, ponte por onde as almas chegam até Deus e nele encontrem felicidade. Para cumprir tão exigente missão, sou chamado a orar sem desfalecer. Orai também por mim para que eu seja um sacerdote santo e fiel enfim um sacerdote completamente configurado com Cristo.

Assim Deus me ajude e a Sua e nossa mãe aqui invocada, a Senhora do Rosário, interceda por mim a fim de que tudo concorra para maior gloria de Deus, nosso Senhor.