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A liberdade que constrói futuro

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA

Há uma reflexão que gosto de fazer sempre que chega Abril: o que estamos a fazer com a liberdade que recebemos?

Falamos muitas vezes do 25 de Abril como um marco da nossa história e é. Foi o momento em que o país teve a coragem de mudar, de escolher a democracia e de abrir caminho para que cada pessoa pudesse decidir o seu próprio destino.

Mas a liberdade não vive apenas no passado. A liberdade pede presença. Pede cuidado. Pede responsabilidade.

Nos Açores, essa conquista teve um significado ainda mais profundo. Com a liberdade chegou também a Autonomia, a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, de olhar para as nossas ilhas com os nossos próprios olhos, de assumir, com maturidade e sentido de responsabilidade, o rumo do nosso futuro.

Mas, não tenhamos ilusões, a Autonomia foi, acima de tudo, uma conquista. Não nasceu num dia, nem foi um dado adquirido, foi construída com tempo, com coragem e com muita persistência. Foi o resultado de uma luta longa, feita de vozes que não se calaram, de pessoas que resistiram e de um Povo que nunca deixou de acreditar em si. Foi essa caminhada, tantas vezes difícil, que nos trouxe até aqui. E foi também a afirmação de que saberíamos cuidar da nossa terra, valorizar o que é nosso e construir um caminho com identidade própria.

Ao longo destes anos, fomos crescendo enquanto região. Fomos consolidando instituições, afirmando a nossa voz e construindo uma identidade que hoje é reconhecida e respeitada dentro e fora do país.
Mas há algo que nunca podemos esquecer: a liberdade não é uma obra acabada.

A liberdade constrói-se todos os dias.

Constrói-se quando as pessoas sentem que o seu trabalho tem valor.

Quando os jovens acreditam que podem ficar nas suas ilhas e ali construir a sua vida, com dignidade e esperança. Quando as comunidades se juntam, não para desistir perante as dificuldades, mas para as transformar em oportunidades, com confiança no futuro.

Talvez seja por isso que eu acredite tanto nas pessoas da nossa terra.

Acredito nos agricultores que continuam a trabalhar mesmo quando o caminho é difícil. Nos jovens que arriscam, que inovam, que insistem em criar algo novo. Nas comunidades que cuidam umas das outras e que mantêm viva a essência das nossas ilhas.

Os Açores sempre foram feitos desta força. Desta resiliência que não faz ruído, mas que nunca cede. De gente que não espera que os caminhos apareçam, mas sim, de gente que os constrói, todos os dias.
Mas construir futuro exige mais. Exige visão, responsabilidade e, sobretudo, coragem para acreditar no potencial da nossa terra e do nosso Povo. Exige também escolhas, compromisso e a capacidade de não desistir perante os desafios.

E nós temos razões para acreditar.

Temos recursos únicos, uma ligação profunda à nossa terra e comunidades que sabem o valor de caminhar juntas. Temos uma identidade que nos distingue e que nos dá força.

O verdadeiro desafio está em transformar esse potencial em oportunidades reais, oportunidades para trabalhar, viver e criar família nas nossas ilhas, com qualidade de vida e estabilidade.

A vida tem-me ensinado que o verdadeiro valor das coisas raramente está no que é mais complexo. Está no que é verdadeiro: no respeito pela terra, no cuidado com a vida e na capacidade de caminharmos juntos.

É por isso que continuo a acreditar profundamente nos Açores.

Acredito num arquipélago que valoriza quem trabalha. Que cria oportunidades para os seus jovens. Que preserva a sua identidade sem deixar de olhar para o futuro.

Mais de cinquenta anos depois do 25 de Abril, a liberdade continua a ser um convite.

Um convite para participarmos mais. Para cuidarmos melhor do que é nosso. Para acreditarmos que o futuro não está escrito, constrói-se.

E constrói-se todos os dias, com trabalho, com confiança e com esperança.

Porque, no fundo, somos isso mesmo: um Povo feito de raízes e de sonhos.

Raízes que nos prendem à terra, à nossa história e às pessoas que vieram antes de nós.

E sonhos que nos empurram para a frente, lembrando-nos que a liberdade só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando nos dá coragem para continuar a construir, com responsabilidade e com esperança, o futuro dos Açores.

“Temos de colocar a qualificação dos açorianos como prioridade”

Em entrevista ao Diário da Lagoa, Francisco César fala sobre o seu percurso, que esteve desde cedo ligado à política, e sobre os desafios que os Açores enfrentam

Presidente do PS Açores e deputado na AssembleIa da República coloca a qualificação dos açorianos como prioridade © PS AÇORES

Desde cedo ligou-se à política por ser a política o assunto mais falado em casa. Francisco César, 46 anos, nasceu em Lisboa e veio para São Miguel com três anos. É economista, adepto fervoroso do Sporting, presidente do PS Açores e deputado na AssembleIa da República. Numa breve história pelo seu percurso, conta-nos o que pensa do presente e do futuro da região, não esquecendo o passado.

DL: O seu pai está ligado à política, sempre viveu num ambiente familiar ligado à política. Como é que foi crescer nesse ambiente?
Desde que me lembro, atuo neste ambiente. Eu cresci no meio de campanhas políticas, desde miúdo. O meu pai e a minha mãe conheceram-se na política. A minha mãe trabalhava no PS Nacional e o meu pai estava aqui no PS regional e conheceram-se. Nas reuniões, eu ficava na reunião, sentado, a ouvir, caladinho, na altura. Fiz um estúdio de rádio na minha casa em que eu lia os manifestos políticos do partido e gravava, compunha música. Gravava tempos de antena e a minha mãe gozava comigo, porque eu chamava aquilo de rádio Feteiras, porque na altura os meus pais tinham uma casa nas Feteiras.

 DL: E era lá que fazia isso?
Sim, a política acabou por ser uma coisa natural. A minha casa sempre foi uma casa cheia de livros. E hoje, tanto que assim seja, também, para o meu filho.

DL: Nunca se sentiu obrigado a ler?
Antes do contrário, eu gostava. Eu até acho que os meus pais preferiam que eu não me tivesse metido nisso. Eu acho que é o sentimento de qualquer pai, porque eu próprio, eu olho para o meu filho, que vai fazer 13 anos, e vamos ver… Isto da política tem a sua graça, mas dói, não é fácil. A política implica nos sujeitarmos a um escrutínio e a uma apreciação da parte de terceiros, que é, ao mesmo tempo, gratificante, mas é também muito cruel.

DL: Como é que se protege a família disso?
Isto é um processo. Os meus pais, e eu, fui particularmente afetado pela questão da família na política. E isso dói, ou seja, as pessoas fazem uma valorização dos outros com base em pressupostos ou preconceitos que as pessoas têm em relação aos outros. E nós somos sempre julgados. Tento proteger a minha família, através de um bom núcleo familiar. 

DL: Quem é o homem por detrás do político?
Essa é das perguntas mais interessantes, mas, no entanto, das mais difíceis. Eu verdadeiramente gostava de ter sido economista. Economista, ou seja, praticar. Eu sou muito impaciente. Mas eu sou profundamente normal nas minhas coisas. Gosto de ler, gosto de sair, até gosto de cantar. Mal. Eu sou muito distraído, as pessoas não sabem. Eu, às vezes, desligo. É uma das coisas boas que consigo. E estou no meu mundo, com o meu filho, a fazer a minha vida, com a minha família. Gosto de fazer praia, gosto de fazer boxe, gosto de fazer exercício físico, gosto de ir ao supermercado. Gosto de fazer aquilo que as pessoas normais gostam de fazer. E gosto de experimentar coisas novas. 

DL: Quais são os principais desafios da região?
O primeiro desafio que nós temos é o desafio do conhecimento, da qualificação. Eu costumo dizer, o comboio da competitividade já saiu. Há muito tempo, nestas regiões, e a locomotiva dos Açores ainda está no apeadeiro. E, portanto, para nós conseguirmos lá chegar, temos que colocar a qualificação dos açorianos como uma prioridade. O mercado interno é bom que funcione, mas não dá para sobreviver. O meu receio é que as grandes empresas não apostam no internacional. Como é que isso é possível? Em primeiro lugar, nós temos de ajudar as nossas empresas a apostar. Tem que haver uma sensibilidade. Nós temos de lhes diminuir o risco da aposta. Mas, sobretudo, nós temos de trazer empresas para cá.

DL: O mar é o futuro?
O mar é um dos setores. O mar, a energia. O primeiro de todos é o conhecimento. Porque a única forma é que nós não temos continuidade territorial. A região pode entrar numa situação quase de insolvência ou de resgate financeiro. Eu acho que se apostar na economia e se tiver cuidado com o orçamento, eu acho que isto é possível resolver.

DL: Qual é a posição do PS face ao hospital modular?
A opção neste momento é o da  construção de um hospital novo, mas o que é um hospital novo? É alterar 80% do que está e acrescentar mais outro tanto. Quem paga isto? Quem sustenta? Nós neste momento não temos capacidade financeira para suportar o atual Serviço Regional de Saúde. Não temos. Todos os hospitais são subfinanciados. Quem o diz é o Governo, não sou eu. Todos os hospitais são subfinanciados. Portanto, se nós duplicarmos o tamanho do hospital, alguém acha que ele vai ficar mais barato?
As decisões que são tomadas, são tomadas em nome do povo, porque nós somos os seus representantes. Quando tomamos uma decisão que poderá comprometer o Serviço Regional de Saúde, ou pelo menos, tem um impacto tão grande do ponto de vista do Serviço Regional de Saúde na comunidade. Isto não pode ser discutido por técnicos. Os técnicos dão os seus pareceres, mas quem decide são os políticos. Porque os políticos são os únicos num sistema democrático que estão mandatados para o fazer. Porquê? Porque aos técnicos ninguém vai pedir contas. Os estudos técnicos podem achar muita coisa, mas é a democracia quem decide, são os responsáveis políticos e representantes do povo. Mas tenho esperança, senão eu não estava aqui.