
Russell Sousa
Presidente da JS/Açores e Deputado do GPPS
A divulgação das classificações da primeira fase dos exames nacionais estava prevista para 14 de julho, mas acabou por ser adiada para 17 de julho, devido a problemas no novo processo de classificação eletrónica.
Três dias podem parecer pouco. Para muitos jovens açorianos, não são.
As notas dos exames nacionais não representam apenas o resultado de meses de estudo. São determinantes para a candidatura ao ensino superior, para a escolha de um curso e de uma universidade e para a organização do próximo ano letivo.
Nos Açores, essa organização é particularmente exigente.
Um jovem que pretenda continuar os estudos fora da sua ilha precisa de procurar alojamento, reservar viagens, comparar preços, organizar mudanças e perceber os encargos que a sua família terá de suportar. Tudo isto exige tempo, planeamento e informação.
Os bilhetes de avião não ficam mais baratos enquanto se espera por uma nota. Os quartos não ficam reservados até o Governo resolver os seus problemas informáticos. E as famílias não podem organizar os seus orçamentos com base em alterações de calendário anunciadas em cima da hora.
O problema não está na digitalização dos exames. Modernizar os serviços públicos é importante e necessário. O problema está em avançar com uma alteração desta dimensão sem garantir que o sistema estava devidamente preparado.
Ao longo das últimas semanas, foram conhecidos problemas no acesso à plataforma, atrasos na disponibilização das provas e dificuldades sentidas pelos professores classificadores. O que deveria representar uma melhoria do sistema transformou-se numa sucessão de falhas, adiamentos e decisões tardias.
Governar não é lançar uma plataforma e esperar que tudo corra bem. Governar é testar, antecipar dificuldades, preparar alternativas e assegurar que os cidadãos não são prejudicados pelas falhas do próprio Estado.
Neste caso, os alunos cumpriram a sua parte. Estudaram, realizaram os exames e aguardaram pelas classificações nas datas definidas. Os professores também procuraram responder, apesar das dificuldades técnicas e da pressão sobre os prazos.
Foi o Estado que falhou na organização do processo.
Mais grave ainda é o Governo ter alterado o calendário dos exames e da divulgação das notas, mantendo praticamente inalterados os prazos seguintes. Com menos tempo disponível, serão novamente os alunos e as famílias a suportar as consequências.
Para um aluno açoriano, um atraso pode significar perder uma viagem a um preço acessível, chegar mais tarde ao mercado do alojamento ou ter de tomar decisões fundamentais num espaço de tempo ainda mais reduzido.
É por isso que três dias, nos Açores, não são apenas três dias.
Esta situação demonstra também a dificuldade persistente dos governos da República em compreenderem a realidade insular. A igualdade não se garante tratando realidades diferentes exatamente da mesma forma.
Viver num arquipélago implica distâncias, custos adicionais e uma dependência acrescida das ligações aéreas e marítimas. A insularidade exige previsibilidade, planeamento e decisões tomadas com antecedência.
Não pode ser lembrada apenas nos discursos sobre coesão territorial e esquecida quando são tomadas decisões que afetam diretamente a vida dos açorianos.
O Governo pode justificar os atrasos com dificuldades técnicas e assegurar que o rigor da classificação não será colocado em causa. Mas isso não elimina a responsabilidade política.
É necessário explicar por que razão o sistema não estava preparado, que testes foram realizados, que planos de contingência existiam e como será impedida a repetição desta situação.
Não basta pedir aos jovens que tenham paciência. É preciso respeitar o seu esforço, o seu tempo e a necessidade de organizarem as suas vidas.
O futuro de uma geração não pode ficar dependente de uma plataforma informática mal preparada. E os jovens açorianos merecem um Governo da República que compreenda que, deste lado do mar, cada atraso tem consequências muito maiores.

Os anúncios aconteceram na última reunião de câmara que decorreu no passado dia 19 de junho, no edifício dos Paços do Concelho, na Lagoa, a que o Diário da Lagoa – Notícias que contam assistiu.
O encontro foi liderado pelo vice-presidente da autarquia, Nelson Santos, tendo contado com a presença de dois vereadores do PS e um elemento do PSD, Vítor Sousa em representação do vereador social-democrata, Rúben Cabral. Na sala, havia apenas uma cidadã do concelho a assistir à reunião, que interveio no final da mesma.
O aviso de abertura do concurso público para a construção de uma Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) na Lagoa foi posto a votação e aprovado por unanimidade pelos presentes, com os votos favoráveis dos vereadores do PS e PSD. Nelson Santos indicou que esta é uma obra que está previsto ser executada entre 2027 e 2028 com um investimento de mais de 1 milhão de euros.
Foi indicado pelo vice-presidente da Câmara Municipal da Lagoa (CML) que a obra de proteção da frente marítima do concelho vai arrancar dentro de um mês e meio a dois meses, tendo sido a Tecnovia a empresa que ganhou o concurso para a realização da empreitada. A requalificação da frente marítima é financiada a 85 por cento por fundos comunitários e 15 por cento, mais IVA, pelo promotor da obra, neste caso, a CML. Esta segunda fase da requalificação da frente marítima da Lagoa prevê intervenções na zona que vai desde o Portinho de São Pedro, no Rosário, até à zona da Relvinha, na freguesia de Santa Cruz. Nelson Santos indicou que “dentro de um mês e meio a dois meses meses já estaremos na fase visível da obra a acontecer naquilo que é a proteção da orla costeira” estando neste momento em curso o aviso para a segunda fase da obra relativa à mobilidade e requalificação urbana da zona.
Na última reunião de câmara foi também aprovada, por unanimidade, com os votos do PS e PSD, a reabilitação da adutora da Sinaga, que, segundo Nelson Santos, foi um dos primeiros pontos de água do concelho da Lagoa. Vítor Sousa, do PSD, sublinhou que se trata de um “investimento de quase três milhões de euros” enquadrado no programa de fundos comunitários Açores 2030, defendendo que este tipo de investimento deve ser enquadrado de forma “responsável e sustentável”.
O vice-presidente da autarquia, Nelson Santos, em resposta a pedidos de esclarecimento da oposição, explicou que existem 4.900 euros de dívidas de rendas de habitações sociais de “difícil cobrança”, um assunto que já “transitou para o gabinete jurídico” da autarquia.
Em relação à construção de um mercado municipal, Nelson Santos, sublinhou que o mesmo está nas perspetivas da autarquia e que a proposta é comum aos dois manifestos eleitorais”, referindo-se aos do PS e PSD.
Foi ainda aprovada a minuta do contrato de trabalhos a mais, no valor de 40 mil euros, referentes à empreitada de construção de 18 novas moradias em Água de Pau.
A única cidadã presente na reunião, inscrita para falar, abordou a vegetação e salubridade das Socas, uma zona limítrofe entre Lagoa e Ponta Delgada, dizendo existir “ratos e coelhos” em espaços públicos. O vice-presidente respondeu que se compromete a verificar oficialmente a situação com a Euroscut Açores, empresa responsável pela manutenção daqueles espaços paralelos às habitações.
A reunião de câmara abordou ainda outros assuntos, relativos a instituições do concelho, durou quase uma hora e contou com três ausências, todas justificadas.

O vereador do PSD-Açores na Câmara Municipal da Lagoa, Rúben Cabral, denunciou hoje “dez anos de inação socialista” na resolução do problema do mercado municipal, em “absoluto desrespeito” pelos lagoenses, por compromisso sucessivamente adiado.
“O mercado municipal da Lagoa continua sem nenhuma obra iniciada nem calendário definido. Ao fim de uma década, o PS falhou completamente com a população”, afirmou o social-democrata.
Segundo dados oficiais a que teve acesso, “entre 2016 e 2026, foram adjudicados três contratos para elaboração de estudos e projetos de arquitetura e especialidades, no valor total de 126.180 euros”. Para Rúben Cabral, trata-se de “mais um exemplo de dinheiro gasto em papel, sem qualquer resultado prático”.
Perante este cenário, o autarca social-democrata avançou, na última reunião de câmara, com uma recomendação concreta, “rápida, exequível e financeiramente responsável”, destinada a colocar o mercado a funcionar de imediato.
A proposta passa pela criação de um espaço “pop‑up” no mercado municipal, “capaz de dinamizar o espaço, apoiar produtores locais e criar oportunidades para pequenos negócios”.
“A Lagoa não pode continuar presa a promessas adiadas. O mercado municipal é uma necessidade evidente, mas o executivo socialista continua sem capacidade para sair do papel. A nossa proposta permite avançar já, com custos reduzidos e benefícios imediatos”, sublinhou.
Rúben Cabral defende que o modelo proposto “permite dar espaço a produtores locais, comerciantes sem loja física e associações, criar rotatividade de oferta, atrair mais público e dinamizar a economia do concelho”, sem necessidade de investimentos pesados numa fase inicial.
O vereador do PSD destacou ainda que esta solução “já foi testada com sucesso na freguesia do Rosário, com resultados positivos, custos muito baixos e forte adesão da comunidade”. “Estamos a falar de uma solução comprovada no terreno, que pode ser replicada e até deslocalizada por várias freguesias durante o período de experimentação, até que o mercado municipal definitivo seja uma realidade”, acrescentou.

Natural de Angola, Sónia Nicolau vive atualmente em Ponta Delgada e é licenciada em Matemática e Informática e professora em Água de Pau, no concelho da Lagoa. Descreve-se como alguém simples que gosta de ver a sua “felicidade refletida no outro”. Nasceu a 30 de março de 1974, “25 dias antes da liberdade” e afirma, com convicção, que a 10 de dezembro de 2024 voltou “a ser livre” quando decidiu desvincular-se do Partido Socialista. Hoje, é presidente do movimento Ponta Delgada Para Todos.
DL: Estamos no Jardim António Borges, lugar marcante na sua infância. Teve uma infância feliz? De que modo esta fase da sua vida influencia os valores que leva para o movimento Ponta Delgada Para Todos?
Foi uma infância muito feliz, mas difícil, porque a minha família era pobre. Via neste espaço, o Jardim António Borges, um lugar de descoberta. As circunstâncias financeiras da minha família não me permitiam visitar outros locais fora da ilha. Este jardim era o meu espaço de férias, de acreditar, de exploração e de liberdade. É um local que foi cedido às pessoas e, por isso, sempre me identifiquei com ele. Trouxe comigo estes valores para o movimento, porque, acima de tudo, Ponta Delgada para Todos é um espaço de pessoas que também são livres, com total liberdade para dizerem o que pensam e apresentarem as suas soluções, com o objetivo de servir melhor os outros e o concelho de Ponta Delgada. Esta nova forma de fazer política, assente na proximidade e na resolução dos problemas das pessoas, foi o que quis trazer para o movimento. Clareza, liberdade, transparência, prestação de contas e servir o outro são os seus principais objetivos.
DL: Como é que nasce o movimento Ponta Delgada para Todos?
O movimento começa comigo e com mais seis pessoas, numa sala da Junta de Freguesia da Fajã de Baixo. Tenho um percurso político anterior de mais de vinte anos no Partido Socialista, mas entendi que o meu nome e o meu papel enquanto militante não estavam a ser dignificados e que a minha forma de pensar mais livre estava a ser condicionada. Sentia-me desrespeitada. As lideranças do Partido Socialista não identificaram em mim as qualidades necessárias para que fosse candidata à Câmara Municipal de Ponta Delgada. No dia 10 de dezembro de 2024, tomei um ato de libertação e decidi que a vida política, para mim, tinha acabado. No fim de semana seguinte, fui convidada a criar um movimento independente, através de uma carta aberta publicada por um conjunto de pessoas, e aceitei o desafio. Sou muito grata por me terem despertado.
DL: Sentiu que havia uma força do seu lado?
Havia e ainda há, porque essa força mantém-se. Toda a comunicação, por exemplo, é feita por voluntários e nada do que fazemos teria a dinâmica e a expressão que tem sem essa comunicação genuína. No início, fomos explicando, de porta em porta, o que era o movimento e porque era diferente dos outros partidos. Foram vários sábados a recolher assinaturas e a conquistar força. Lembro-me sempre de um episódio que nos marcou até hoje, quando um senhor me disse: “Eu vou votar em si porque os outros passaram por aqui, mas a senhora ficou.”
DL: Quando criou o movimento, acreditou que ia conseguir?
Eu acreditava, mesmo quando me diziam que o movimento não iria eleger nenhum vereador. Sou muito realista, com os pés bem assentes na terra, e conheço Ponta Delgada. Costumo dizer que não é preciso haver uma festa ou um evento social para que eu visite uma freguesia, eu estou lá porque gosto, e esta política de proximidade dá-me maior responsabilidade. As pessoas foram-se aproximando, o movimento foi crescendo, e eu dizia sempre aos mais próximos: “Acreditem, porque eu acredito”.
DL: Numa altura em que a política está cada vez mais bipolarizada, acredita que o movimento pode ser uma esperança para unir ideias distintas?
Eu sei que o movimento Ponta Delgada para Todos é a esperança de que os cidadãos precisam em Ponta Delgada. Digo-o pela convicção e pelos valores que trouxe para dentro do movimento, mas também pelas pessoas com quem falo diariamente. No nosso movimento, temos pessoas oriundas de diversos partidos e outras sem filiação partidária. Esta é a riqueza da humanidade: sermos capazes de estar na mesma sala, com ideologias diferentes, mas com o objetivo comum de melhorar Ponta Delgada e as condições de vida dos seus habitantes. Fazemos questão de demonstrar que não estamos contra os partidos ou as suas ideologias, mas sim a favor de soluções que melhorem a vida das pessoas. Os cidadãos veem nisso uma esperança e sabem fazer a sua avaliação final. Se tivermos cidadãos manipulados por diferentes forças políticas, não vamos construir um futuro. O futuro está na capacidade que as pessoas têm de ser críticas, mesmo que não votem em nós.
DL: Teve a experiência de fazer parte de um partido e agora está num movimento. Sente que esta experiência é mais autêntica? Acha que todos os partidos deveriam ser assim?
Eu sempre fui muito autêntica, mas também muito rebelde no Partido Socialista. Sempre disse tudo o que pensava. Nunca me foi dito que não podia ter a minha opinião, mas sentia o peso do desconforto de quem ouvia as minhas intervenções. No caso do movimento Ponta Delgada para Todos, o que posso dizer que há de diferente é que as pessoas têm todas o mesmo nível de intervenção. As decisões são coletivas e o cidadão está mais próximo e sente-se parte do movimento. Para nós, as pessoas não são objetos, nem são chamadas apenas para a campanha eleitoral ou para encher listas. Elas fazem parte. Acredito que é preciso mostrar que o movimento Ponta Delgada para Todos não começa nem termina em mim. Precisamos de olhar para os partidos, não como estruturas verticais, mas horizontais, onde as pessoas sabem que estão a ser ouvidas. Uma pessoa com capacidade de liderança não a perde por ter os melhores perto de si. Muito pelo contrário.
DL: Qual é o balanço que faz dos quatro meses de atividade de Ponta Delgada para Todos?
O movimento faz um balanço extremamente positivo, não porque seja bonito de dizer, mas porque é a realidade. Conseguimos que a Câmara Municipal de Ponta Delgada começasse a prestar contas das suas deliberações nas reuniões de Câmara, algo que nunca tinha sido feito. É uma das nossas grandes vitórias. Começámos também a visitar as freguesias uma vez por mês e já vemos outras forças políticas a fazê-lo com a mesma proximidade que nós. Acho que isso é um sinal de que estamos a fazer um bom trabalho.
DL: Acredita na possibilidade de começarem a nascer mais movimentos inspirados no Ponta Delgada para Todos?
Eu penso que sim porque as pessoas começam a não ter medo de se exporem, o que interpreto como mais uma das nossas conquistas. As pessoas vêm ter connosco, apresentam as suas situações e sentem que existe espaço para uma maior liberdade.
DL: Considera que começar pela oposição é uma escola para o futuro, ao permitir um contacto mais direto com os problemas e com as pessoas? Está preparada para essa responsabilidade?
Eu considero-me uma pessoa humilde, mas também tenho certeza do meu potencial e da minha força de liderança. Tenho a certeza de que, se tivéssemos ganho as eleições, Ponta Delgada teria começado uma nova forma de gerir as pessoas, os espaços públicos e os processos de decisão. Mas ficámos na oposição, o que também é um trabalho importante. Vamos apresentando as nossas propostas e aprendendo. Acredito que nada acontece por acaso e, se o movimento decidir voltar a candidatar-se daqui a três anos, tenho a plena convicção de que Ponta Delgada terá uma presidente do futuro, solidária, humilde e com a capacidade de se colocar no lugar dos outros.
DL: O que é que concelhos vizinhos, como a Lagoa, têm a ganhar com o facto de Ponta Delgada ter agora um movimento?
Eu acho que estão todos a ganhar. Tenho a convicção de que isso extravasa o concelho de Ponta Delgada, porque, se Ponta Delgada cresce, isso influencia todos os outros concelhos, assim como as outras ilhas.

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Há momentos na política em que uma imagem diz tudo.
Um secretário regional, de fato e gravata, em cima de um cavalo, num cenário cuidadosamente preparado, perante uma plateia atenta. É uma imagem forte. Evoca tradição, identidade, ligação ao mundo rural.
Mas também expõe um contraste difícil de ignorar.
A coligação garante que a agricultura nunca esteve tão bem. Mostram gráficos. Dizem que “é só seguir a barra”. Uma posição confortável para quem defende o Governo e o seu partido, mas não defende o setor.
Porque enquanto a política se mostra montada, literal e simbolicamente, a agricultura vai ficando para trás, a suportar o peso de decisões que não chegam, de respostas que não aparecem e de custos que não param de subir, a cavalo é que vamos bem.
O gasóleo agrícola sobe de 1,27€ para 1,63€. Mais 36 cêntimos por litro. Um aumento abrupto, brutal, que atinge os agricultores no pior momento possível, quando estão no terreno, em plena época de sementeiras.
A Federação Agrícola dos Açores não teve dúvidas: é uma “subida escandalosa”.
E não está sozinha. Também a Associação de Jovens Agricultores Micaelenses veio a público alertar para o impacto devastador desta subida, sobretudo para quem está a começar.
Para muitos, isto não é apenas mais um aumento. É o ponto de rutura.
E tudo isto acontece num contexto já pressionado: fertilizantes caros, mercados instáveis, preço do leite ao produtor a descer.
E perante esta realidade, o que temos do Governo?
Justificações. Explicações. Transferência de responsabilidades. Bruxelas. A PAC. As regras europeias.
Mas nada disto é novo. É, aliás, o guião a que este Governo já nos habituou: quando os problemas apertam, este Governo não age, justifica-se.
E assim se vai governando à distância da realidade, e a cavalo é que vamos bem.
Durante os últimos anos, sempre que o preço do combustível subia, o PSD apressava-se a defender o Governo com dois argumentos: que, apesar de tudo, o gasóleo agrícola nos Açores continuava mais barato do que no continente (como se isso servisse de consolo quando a fatura chega) e que tinha sido eliminado o plafon, permitindo aos agricultores consumir sem limite.
Mas hoje, nenhuma destas “bandeiras” resiste à realidade.
O gasóleo agrícola é, pela primeira vez, mais caro do que no continente.
E o fim do plafon? De pouco serve quando o problema não é a quantidade que se pode usar, mas o preço que se tem de pagar.
E quando os argumentos desaparecem, mas os problemas ficam, a cavalo é que vamos bem.
Do lado da República, a resposta também não chega.
Devem aos agricultores dos Açores cerca de 23 milhões de euros de apoios que estavam previstos no âmbito da crise provocada pela guerra na Ucrânia, apoios que faziam falta ontem e fazem ainda mais falta hoje.
Diz o Ministro da Agricultura que esse apoio já veio. Que já foi pago.
Mas o que sabemos é que esse dinheiro não chegou aos agricultores como devia.
Ficou pelo caminho. Serviu para o Governo Regional tapar buracos, o mesmo Governo que desviou 14 milhões de euros da agricultura para outros setores da governação.
E, ao mesmo tempo, acumulam-se os problemas dentro de portas.
Atrasos no pagamento dos apoios regionais.
Prazos que não são cumpridos.
Milhões de euros por aprovar e executar no PEPAC.
Dinheiro que existe no papel e nos discursos, mas não chega aos agricultores.
Mas a cavalo é que vamos bem.
Entretanto, a inflação enche os cofres públicos.
Mais 25 a 30 milhões de euros em receita fiscal adicional.
E a pergunta impõe-se: vai o Governo continuar a arrecadar à custa da crise ou vai devolver esse esforço a quem produz?
Há dinheiro da inflação, mas não há decisão. Há discurso, mas não há resposta. Há presença, mas não há ação.
E voltamos ao início.
O cavalo. O fato. O cenário.
Sem dizer uma palavra, a imagem explica tudo: é o retrato de um momento.
Um setor em crise.
E quem governa… a cavalo.

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Há uma reflexão que gosto de fazer sempre que chega Abril: o que estamos a fazer com a liberdade que recebemos?
Falamos muitas vezes do 25 de Abril como um marco da nossa história e é. Foi o momento em que o país teve a coragem de mudar, de escolher a democracia e de abrir caminho para que cada pessoa pudesse decidir o seu próprio destino.
Mas a liberdade não vive apenas no passado. A liberdade pede presença. Pede cuidado. Pede responsabilidade.
Nos Açores, essa conquista teve um significado ainda mais profundo. Com a liberdade chegou também a Autonomia, a possibilidade de decidir mais perto das pessoas, de olhar para as nossas ilhas com os nossos próprios olhos, de assumir, com maturidade e sentido de responsabilidade, o rumo do nosso futuro.
Mas, não tenhamos ilusões, a Autonomia foi, acima de tudo, uma conquista. Não nasceu num dia, nem foi um dado adquirido, foi construída com tempo, com coragem e com muita persistência. Foi o resultado de uma luta longa, feita de vozes que não se calaram, de pessoas que resistiram e de um Povo que nunca deixou de acreditar em si. Foi essa caminhada, tantas vezes difícil, que nos trouxe até aqui. E foi também a afirmação de que saberíamos cuidar da nossa terra, valorizar o que é nosso e construir um caminho com identidade própria.
Ao longo destes anos, fomos crescendo enquanto região. Fomos consolidando instituições, afirmando a nossa voz e construindo uma identidade que hoje é reconhecida e respeitada dentro e fora do país.
Mas há algo que nunca podemos esquecer: a liberdade não é uma obra acabada.
A liberdade constrói-se todos os dias.
Constrói-se quando as pessoas sentem que o seu trabalho tem valor.
Quando os jovens acreditam que podem ficar nas suas ilhas e ali construir a sua vida, com dignidade e esperança. Quando as comunidades se juntam, não para desistir perante as dificuldades, mas para as transformar em oportunidades, com confiança no futuro.
Talvez seja por isso que eu acredite tanto nas pessoas da nossa terra.
Acredito nos agricultores que continuam a trabalhar mesmo quando o caminho é difícil. Nos jovens que arriscam, que inovam, que insistem em criar algo novo. Nas comunidades que cuidam umas das outras e que mantêm viva a essência das nossas ilhas.
Os Açores sempre foram feitos desta força. Desta resiliência que não faz ruído, mas que nunca cede. De gente que não espera que os caminhos apareçam, mas sim, de gente que os constrói, todos os dias.
Mas construir futuro exige mais. Exige visão, responsabilidade e, sobretudo, coragem para acreditar no potencial da nossa terra e do nosso Povo. Exige também escolhas, compromisso e a capacidade de não desistir perante os desafios.
E nós temos razões para acreditar.
Temos recursos únicos, uma ligação profunda à nossa terra e comunidades que sabem o valor de caminhar juntas. Temos uma identidade que nos distingue e que nos dá força.
O verdadeiro desafio está em transformar esse potencial em oportunidades reais, oportunidades para trabalhar, viver e criar família nas nossas ilhas, com qualidade de vida e estabilidade.
A vida tem-me ensinado que o verdadeiro valor das coisas raramente está no que é mais complexo. Está no que é verdadeiro: no respeito pela terra, no cuidado com a vida e na capacidade de caminharmos juntos.
É por isso que continuo a acreditar profundamente nos Açores.
Acredito num arquipélago que valoriza quem trabalha. Que cria oportunidades para os seus jovens. Que preserva a sua identidade sem deixar de olhar para o futuro.
Mais de cinquenta anos depois do 25 de Abril, a liberdade continua a ser um convite.
Um convite para participarmos mais. Para cuidarmos melhor do que é nosso. Para acreditarmos que o futuro não está escrito, constrói-se.
E constrói-se todos os dias, com trabalho, com confiança e com esperança.
Porque, no fundo, somos isso mesmo: um Povo feito de raízes e de sonhos.
Raízes que nos prendem à terra, à nossa história e às pessoas que vieram antes de nós.
E sonhos que nos empurram para a frente, lembrando-nos que a liberdade só cumpre verdadeiramente o seu propósito quando nos dá coragem para continuar a construir, com responsabilidade e com esperança, o futuro dos Açores.

O grupo parlamentar do PS-Açores alertou para o atraso na publicação do Decreto Regulamentar Regional de Execução do Orçamento de 2026, uma situação que, passados mais de três meses sobre o início do ano económico, pode comprometer a aplicação plena e atempada das políticas públicas na região.
Para o vice-presidente da bancada socialista, Carlos Silva, “este atraso levanta dúvidas ao cumprimento e à capacidade do governo regional em assegurar uma execução eficaz do orçamento aprovado, criando incerteza nos serviços e entidades públicas”.
O socialista recorda que a lei é clara ao determinar que o governo deve garantir as condições para que o orçamento entre em execução no início do ano, através da aprovação dos instrumentos regulamentares necessários, algo que, até à data, não aconteceu.
“Não estamos perante uma questão meramente formal. A ausência deste diploma pode traduzir-se numa execução tardia ou condicionada de medidas essenciais para os açorianos”, sublinhou.
Nesse sentido, o PS-Açores quer saber por que motivo o diploma ainda não foi publicado, quando prevê o governo fazê-lo e que consequências práticas esta ausência já teve no funcionamento da administração regional.
Os socialistas pretendem ainda perceber que orientações têm sido seguidas pelos serviços públicos na ausência deste enquadramento legal e se foram emitidas instruções internas para colmatar esta falha.
Para Carlos Silva, é fundamental garantir que “este atraso não venha a comprometer investimentos e respostas que são essenciais para a vida das famílias e das empresas açorianas”, exigindo ao governo regional transparência e responsabilidade na execução do orçamento de 2026.

Bruno Pacheco
A energia é apenas uma questão de preço? Não. É, acima de tudo, uma questão de energia líquida disponível para a sociedade.
É aqui que entra o EROI (Energy Return on Energy Invested): mede quanta energia conseguimos disponibilizar por cada unidade de energia que gastamos na produção. É o “lucro energético” de um sistema.
Quando é elevado, há excedente para sustentar o crescimento e os serviços. Quando é baixo, o sistema começa a consumir-se a si próprio.
Nos Açores, tomando São Miguel como referência — pela sua dimensão e maior diversificação —, são visíveis sinais de degradação do EROI na produção baseada em combustível pesado (HFO). A cadeia é longa e intensiva: extração, refinação, transporte marítimo, armazenamento e conversão térmica com eficiências limitadas.
Considerando estes fatores, o EROI da produção térmica situa-se hoje entre 5 e 8, podendo degradar ainda mais em contextos de instabilidade ou de aumento do preço do petróleo.
Mas é fora de São Miguel que o problema se agrava. Nas restantes ilhas, de menor escala, maior fragmentação e maior dependência de gasóleo, o EROI é ainda mais baixo. A ausência de economias de escala e a maior intensidade logística tornam estes sistemas estruturalmente mais frágeis. Em muitos casos, uma parte crescente da energia é consumida apenas para garantir o abastecimento.
As consequências são diretas: menor competitividade, menor resiliência e menor capacidade de gerar riqueza.
Os custos recentes, de cerca de 230 €/MWh, que podem atingir 400 €/MWh, não são apenas um problema financeiro. Representam um aumento da energia necessária para produzir…energia. Ou seja, menos energia líquida disponível para a economia. Mais recursos gastos sem retorno.
Este é o verdadeiro risco: um sistema pode funcionar financeiramente, suportado por mecanismos regulatórios, mas degradar-se energeticamente. E isso não se resolve por via administrativa.
Por outro lado, a complexidade logística e a concentração da cadeia de abastecimento agravam ainda mais este cenário. Em sistemas isolados, qualquer ineficiência se amplifica.
Perante isto, a questão é estratégica. Qual o caminho?
O caminho é claro: aumentar a produção local com base em fontes endógenas, diversificar as tecnologias e atrair investimento externo. Não por ideologia, mas por necessidade.
Por exemplo, a energia solar, mesmo em contexto insular, apresenta EROI entre 8 e 15. Com armazenamento, reduz-se, mas com vantagens decisivas: produção local, menor dependência e maior previsibilidade.
Mas, mais importante, estes sistemas melhoram o desempenho global. Ao reduzir a necessidade de centrais térmicas ineficientes e estabilizar a rede, aumenta a eficiência do conjunto, sobretudo nas ilhas mais pequenas.
Assim, é óbvio que o debate não pode limitar-se ao preço do combustível. Deve centrar-se numa pergunta essencial: quanta energia útil conseguimos disponibilizar à sociedade? Porque é isso que define a sustentabilidade de um sistema elétrico.
Não estamos apenas a pagar caro pela energia. Estamos, cada vez mais, a gastar energia para conseguir energia. E esse fenómeno é mais intenso, e mais preocupante, nas ilhas mais pequenas, mais isoladas e mais dependentes.
Do Torreão da Fajã seguimos atentos, olhando o mar e projetando o futuro.

Patrícia Miranda
Deputada pelo PS na ALRAA
Celebramos o Dia Internacional da Mulher.
Este ano com um significado ainda mais especial: 2026 foi declarado, pela ONU, como o Ano Internacional da Mulher Agricultora.
É uma oportunidade importante para reconhecer algo que sempre esteve presente, mas que muitas vezes passou despercebido.
A agricultura sempre teve mãos de mulher. Hoje começa, finalmente, a ter voz.
Talvez por isso seja tão importante dizê-lo de forma simples, mas clara: a agricultura também tem rosto de mulher.
Tem o rosto das mulheres que acordam cedo para ajudar na ordenha, que tratam dos animais, que cuidam das culturas, que plantam vinhas e colhem as uvas, que acompanham as contas da exploração e que equilibram o trabalho no campo com a vida familiar. Mulheres que, muitas vezes sem grande visibilidade, foram sempre uma parte essencial da vida agrícola.
Nos Açores, essa realidade é particularmente evidente. Em muitas explorações, as mulheres estão presentes nas decisões, nas tarefas diárias e também nos momentos difíceis que o setor enfrenta. São parte da força silenciosa que sustenta muitas famílias e muitas comunidades rurais.
Durante muito tempo, o papel das mulheres na agricultura foi visto como um complemento. Hoje sabemos que não é assim. As mulheres são cada vez mais agricultoras, gestoras, técnicas, empreendedoras e líderes no setor.
Mas, acima de tudo, são pessoas profundamente ligadas à terra e ao que ela representa.
A agricultura ensina-nos muitas coisas: a paciência, a persistência e o respeito pelos ciclos da natureza. Quem vive da terra sabe que nada se constrói de um dia para o outro e que o futuro depende das decisões que tomamos hoje.
Talvez por isso muitas mulheres tragam também para a agricultura uma forma particular de olhar para o trabalho agrícola: com sentido de cuidado, de responsabilidade e de continuidade.
Mulheres que não pedem privilégios, pedem apenas reconhecimento, condições e oportunidades.
Mas falar das mulheres na agricultura não é apenas reconhecer o passado. É, sobretudo, pensar o futuro.
Quando falamos do futuro da agricultura, falamos da necessidade de atrair jovens para o setor. E isso é verdade. Mas esse futuro também passa por criar condições para que mais mulheres possam escolher a agricultura como projeto de vida.
Isso significa reconhecer o valor do seu trabalho, garantir melhores condições para quem produz e dar espaço para que as mulheres possam também participar nas decisões sobre o futuro do setor.
No fundo, trata-se de algo simples: valorizar quem trabalha a terra. Sem isso, falar de rejuvenescimento do setor é apenas retórica.
Eu própria cresci ligada à agricultura e sei bem o que ela representa para muitas famílias.
Foi na agricultura que aprendi o significado da persistência, da responsabilidade e da ligação profunda entre trabalho e vida.
Sei também que por trás de muitas explorações agrícolas existe sempre uma mulher que ajuda a manter tudo de pé, muitas vezes com discrição, mas com uma força enorme.
A política ensinou-me outra coisa: que liderar é também abrir caminhos para os outros.
E é por isso que acredito que o futuro da agricultura deve ser construído com mais mulheres a decidir, a inovar, a produzir e a liderar.
Porque quando uma mulher ocupa o seu lugar, não transforma apenas a sua própria vida.
Transforma também a comunidade que a rodeia.
Por isso, neste Dia Internacional da Mulher, e neste Ano Internacional da Mulher Agricultora, vale a pena lembrar algo que sempre esteve diante de nós:
A agricultura não se faz apenas com máquinas, terras ou números.
Faz-se sobretudo com pessoas. E muitas dessas pessoas são mulheres.
Mulheres que trabalham, que cuidam, que resistem e que continuam, todos os dias, a ajudar a construir o futuro da nossa agricultura.
Talvez por isso seja tão importante dizê-lo de forma simples, mas clara: a agricultura também tem rosto de mulher.
Tem o rosto das nossas avós, das nossas mães, das nossas filhas, das agricultoras que hoje continuam a escolher a terra como caminho.
E reconhecer esse rosto é também reconhecer uma verdade essencial: valorizar as mulheres agricultoras não é apenas fazer justiça. É investir no futuro da agricultura e no futuro da nossa sociedade.

A Câmara Municipal de Lagoa reagiu oficialmente às recentes críticas do PSD/Lagoa, que classificou como “exagerada” a autorização de despesa de 748.196 euros delegada na presidência. Em esclarecimento enviado à nossa redação, o executivo municipal rejeita qualquer falta de transparência e esclarece que o montante em causa não é uma decisão arbitrária, mas sim o limite máximo previsto no Decreto-Lei n.º 197/99, de 8 de junho. Segundo a autarquia, este valor corresponde a uma faculdade legal de organização administrativa utilizada correntemente pelas câmaras municipais em Portugal e na Região Autónoma dos Açores, não constituindo qualquer “autorização extraordinária”.
O executivo liderado pela maioria socialista sublinha que a proposta de delegação de competências foi apresentada e aprovada logo na primeira reunião do mandato, a 27 de outubro de 2025. A autarquia destaca ainda que, nessa votação, o vereador da oposição presente optou pela abstenção, considerando “no mínimo incoerente” que o assunto seja agora projetado na praça pública, quatro meses depois, com o que classifica de “enquadramento demagógico”. Para a câmara da Lagoa, a oposição procura criar uma ideia de excecionalidade onde existe apenas a aplicação normal de um instrumento legal de gestão.
No que toca ao rigor financeiro, a autarquia assegura que a delegação de competências não “cria” despesa nem dispensa requisitos legais. O esclarecimento detalha que qualquer gasto municipal, independentemente de ser decidido de forma autónoma ou em reunião de executivo, está sempre sujeito às mesmas exigências orçamentais, incluindo cabimento, compromisso e enquadramento no Plano e Orçamento Municipal aprovado. A medida servirá, assim, apenas para agilizar a tramitação administrativa dentro dos limites definidos pela lei.
A autarquia lagoense termina lamentando as insinuações produzidas pelo PSD/Lagoa, classificando-as como tentativas de desinformação que não beneficiam o interesse público nem o desenvolvimento do concelho. O executivo reafirma que todos os esclarecimentos solicitados pela oposição têm sido devidamente prestados e que as deliberações são tomadas com total transparência e rigor institucional, mantendo o compromisso de serviço aos lagoenses.