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Sentimento de Missão Cumprida

Clife Botelho
Diretor do Diário da Lagoa

Le Diário da Lagoa está prestes a chegar à sua última edição do ano, após conquistas que consolidaram a presença do jornal na imprensa regional.

Em dezembro, chegaremos à nossa edição n.º 141 e destaco como, nos últimos anos, nos aventurámos em várias tertúlias e encontros, conquistando uma comunidade de leitores participativa, promovendo a reflexão e a leitura. A criação do evento “Encontro dos Açores para o Mundo”, que este ano celebrou a segunda edição e incentivou as reportagens dedicadas à diáspora açoriana, fez justiça ao homenagear o fundador do jornal, Norberto Silveira Luís, a tipografia Esperança, na pessoa do seu proprietário, João Pacheco, e o cronista mais regular e antigo do jornal, Roberto Medeiros, criando-se, assim, referências históricas e exemplos para as gerações futuras.

Com a oportunidade dada pela RTP Açores de participar no programa «Conselho de Redação» enquanto diretor do Diário da Lagoa, o jornalismo feito na mais jovem cidade do arquipélago açoriano também ganhou maior visibilidade, bem como através de parcerias editoriais desenvolvidas com outros projetos regionais e na diáspora. Há, por isso, que salientar que a defesa da Liberdade e Democracia, através do Jornalismo, se faz graças a todas as entidades responsáveis pela Comunicação Social açoriana, que são um pilar para a Região Autónoma dos Açores.

No que diz respeito ao nosso jornal, a criação de uma área de subscrições online, onde também se pode pedir o envio do jornal em papel, foi uma das medidas que sempre defendi, e que conseguimos implementar para dar aos leitores a oportunidade de serem também a força do jornal e de contribuírem para a sustentabilidade do nosso projeto. Esta medida permitiu, por exemplo, neste final de ano, através do Sistema de Incentivos aos Media Privados dos Açores, começar a levar a edição impressa a todas as escolas dos Açores e às Instituições Particulares de Solidariedade Social da ilha de São Miguel.

Outra novidade é o facto de o título «Diário da Lagoa» ser agora igualmente uma marca nacional registada. Através da editora proprietária do jornal, conseguimos garantir que o registo do título lagoense fique salvaguardado pelo período de dez anos. Trata-se de mais um passo com o objetivo de valorizar e salvaguardar o projeto com sede na Lagoa, garantindo a continuidade desta iniciativa privada que ganhou vida pelas mãos do seu fundador Norberto Luís e que decidimos abraçar e valorizar.

No passado mês de outubro, a reportagem “Estética nos cuidados paliativos: o voluntariado que aproxima mulheres” da colaboradora Sara Lima Sousa, publicada na edição de setembro do Diário da Lagoa, recebeu o Prémio de Reportagem em Cuidados Paliativos de 2025 da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP). Recordo que sempre promovemos a contribuição de jovens como Sara Lima Sousa, que começou a colaborar como freelancer com o nosso jornal aos 19 anos de idade para, agora, aos 22, ganhar um prémio nacional pelo jornal da terra dos seus avós.

“Sinto-me orgulhosa por ter sido a primeira colaboradora a conquistar um prémio no Diário da Lagoa, mas tenho a certeza de que não vou ser a única, por isso sinto-me orgulhosa e esperançosa no futuro. Os meus avós são da Lagoa, a minha família é da Lagoa e, por isso, é sempre bom ganhar este tipo de reconhecimento a partir do trabalho do jornal da terra”, salientou Sara Lima Sousa ao DL aquando da notícia.

No próximo ano é certo que terei de dividir o meu tempo com outros projetos, afinal de contas, somos também uma editora que abraça várias iniciativas e, no que diz respeito ao DL, estou feliz depois de ter alcançado as metas que fixei enquanto diretor da nossa publicação para estes últimos seis anos em que carreguei a responsabilidade de proprietário, através da editora Narrativa Frequente.

Assim, em 2026, a missão no DL será dar continuidade à estrutura editorial que foi construída e procurar novas ideias, aproximando principalmente o jornal das novas gerações. É este um dos grandes desafios para os media atuais. O objetivo passará também por assegurar que a edição impressa do jornal alcance os 12 anos de existência.

A publicação em papel passará a ser elaborada promovendo um jornalismo mais comunitário, onde a participação da comunidade que nos envolve contribui de forma ativa. Do mesmo modo, a nossa editora garante a qualidade, a mentoria e a aposta num jornalismo onde se valoriza “as notícias que contam”. Por conseguinte, a criação de uma comunidade de leitores participativos no concelho e além deste, revela-se fundamental, tendo em conta que a média de audiências no nosso site e redes sociais manteve uma tendência de aumento com a procura do público por uma informação diferenciada que não encontra nos media generalistas.

Por fim, é com alegria que vejo que a exposição de seleção de capas e páginas soltas do DL dos últimos 11 anos rumou aos Estados Unidos da América através do cronista mais antigo com presença regular, Roberto Medeiros, que irá expor no Portugalia MarketPlace, em Fall River, e também na Biblioteca da Casa da Saudade, em New Bedford, Massachussets. Na Lagoa, esteve patente primeiro no OVGA onde foi visitada por 425 pessoas, e depois na Escola Secundária para ser vista por toda a comunidade escolar. No próximo ano continuará a percorrer mais espaços e instituições.

Aproveito para deixar uma mensagem aos nossos leitores: Essencialmente, ao chegarmos até aqui, apesar das muitas dificuldades e dos desafios, quero agradecer a todos os que colaboraram e compreendem o nosso papel, respeitando as nossas escolhas, com a consciência de que o jornal continua e ruma aos 12 anos de vida. Independentemente do que nos reserva o futuro, terminamos este ano com o sentimento de missão cumprida e com um ‘Obrigado’ a todos. E, claro, no próximo continuaremos a defender o jornalismo local, a promover a leitura e o Diário da Lagoa.

Presidente da câmara da Lagoa destaca a cooperação instucional na promoção do sucesso escolar

© CM LAGOA

O 24.º aniversário da Escola Secundária de Lagoa foi assinalado, no dia 20 de novembro, com uma sessão solene comemorativa e entrega de diplomas de distinção de mérito cívico e académico aos melhores alunos do 3.º ciclo e ensino secundário, do ano letivo de 2024/2025.

A cerimónia teve lugar no auditório da Escola Secundária e contou com a presença o Presidente da Câmara Municipal de Lagoa, Frederico Sousa, do Presidente da Assembleia Municipal, Ricardo Martins Mota, dos presidentes das juntas de freguesia do concelho e de representantes de várias instituições locais.

Frederico Sousa felicitou o novo presidente do conselho executivo, professor Alexandre Oliveira, e relembrou todo o trabalho realizado pelos anteriores membros do conselho executivo. “Hoje celebramos 24 anos de trabalho contínuo desta escola, fruto do empenho do seu corpo diretivo, do pessoal docente e não docente, dos alunos e também dos pais e famílias”, referiu.

Além disso, o autarca salientou que, “este aniversário fica marcado pela presença de vários elementos de várias entidades e instituições lagoenses, sendo notória a conjugação de esforços de toda uma comunidade, e que trabalham em conjunto com a Escola Secundária de Lagoa e o Município, permitindo o desenvolvimento de projetos que valorizam a educação e promovem o sucesso das crianças e jovens do nosso concelho”.

O Presidente mencionou, ainda, os novos desafios para o futuro, não só para os professores como para os alunos. “Os próximos anos serão verdadeiramente desafiantes, com o desenvolvimento das novas tecnologias e da inteligência artificial. Se há escola que está preparada para esses novos desafios é a Escola Secundária de Lagoa, com todos os projetos e ferramentas que disponibilizam aos seus alunos”, afirmou Frederico Sousa.

A Câmara Municipal de Lagoa distinguiu, assim, os melhores alunos do 3º ciclo e do ensino secundário, de acordo com o Regulamento Municipal de Prémio de Mérito Académico. Este ano, o prémio de melhor aluno do 3.º ciclo, foi entregue a Gonçalo Martins. Os alunos Maria Francisca Mota, Rita Rodrigues, Francisco Costa e Leonor Soares também receberam a distinção de mérito.

Já a distinção de melhor aluno do ensino secundário coube à aluna Carolina Martins, que recebeu do Presidente o prémio atribuído pela Câmara Municipal de Lagoa. Foram, ainda, premiados os alunos do ensino secundário: Ana Maria Costa, Daniel Silva, Isadora Vasconcelos, Matilde Silva, Maria Inês Sousa, Madalena Domingues, Manuel Oliveira, Matilde Fumo, Ana Júlia Furtado, Ângela Martins, Nicole Almeida, Luana Sousa, Tomás Araújo, Afonso Matos, Beatriz da Ponte Maré, Nádia Franco, Mariana Pacheco, Martim Costa, Matilde Rebelo, Rita Ponte, Alberto Ferreira, Luana Pacheco, Anastácia Oliveira e Pedro Freitas.

Além dos prémios entregues pela Câmara Municipal de Lagoa, a Escola Secundária premiou, ainda, vários alunos, pelo seu mérito académico e cívico, ao longo do seu percurso escolar, no anterior ano letivo. A sessão solene contou com a apresentação das classes de ballet clássico da Associação Musical de Lagoa e da atuação musical de três alunas da escola secundária.

Festas em honra de Santo António foram um sucesso em Santa Cruz

© DL

As festas em honra de Santo António voltaram a abrilhantar o concelho da Lagoa, ao trazer muita alegria, brilho e centenas de pessoas à freguesia de Santa Cruz. 

A Junta de Freguesia de Santa Cruz em parceria com a Câmara Municipal de Lagoa, prepararam um programa festivo diversificado, com o intuito de continuar a enaltecer esta festa e divulgar o que de melhor se faz na freguesia. 

O cartaz das festas contou com várias atuações de artistas/grupos locais e ainda, artistas nacionais, nomeadamente, os “Sons do Minho” e o Tony Carreira.

Considera-se os pontos altos destas festividades, os Casamentos de Santo António e o tradicional, Desfile de Marchas Populares, que levam centenas de marchantes à rua, a entoar cânticos ao Santinho Popular. 

Este ano, a Feira de Artesanato realizou-se no interior do Jardim dos Frades, o que possibilitou a divulgação dos trabalhos de alguns artesãos locais e dos arredores, que contribuíram para de alguma forma, enriquecer o recinto da festa, com a diversidade de trabalhos expostos. 

A Junta de Freguesia voltou a desafiar a população de Santa Cruz, a decorar as suas varandas, através da iniciativa “Varandas Populares”, foi notório o empenho e dedicação da comunidade, houve uma maior adesão a este projeto, que muito nos orgulha, por envolver as pessoas na decoração e embelezamento da freguesia para os dias de festa.

A família Eleutério e o legado de cuidar da saúde em São Miguel

O projeto da família Eleutério começou na Lagoa em 1975 pelo Odontologista Luís Eleutério. Hoje, com uma equipa de cerca de 30 colaboradores e junto dos filhos dá-se continuidade à missão com duas clínicas em São Miguel, apostando na qualidade, expansão de áreas médicas e proximidade ao cliente

Pedro e Maria João Eleutério © DL

Na porta de entrada da clínica médica, há algo que não se vê logo à primeira vista, mas que se sente: uma história de família feita de trabalho, missão e um forte sentido de continuidade. É ali, entre a Lagoa e a Ribeira Grande, que a família Eleutério tem vindo a construir muito mais do que um negócio.

À conversa com o Diário da Lagoa (DL) estiveram a Nutricionista Maria João Eleutério, de 43 anos, e o Médico Dentista Pedro Eleutério, 47 anos, ambos naturais da Lagoa e representantes da segunda geração de um projeto familiar dedicado à saúde. A história remonta ao pai Luís Eleutério e a 1975, ano em que se abriram as portas da primeira clínica dentária da família na Lagoa – A Clínica Dentária de Lagoa. Luís Eleutério, 74 anos, também natural da cidade, iniciou o seu percurso profissional aos 18 anos, na área da prótese dentária, e recorda: “Em 1975 estabeleci-me por conta própria, exercendo funções de cirurgião dentista”. Posteriormente, obteve a carteira profissional de Odontologia, profissão que continua a exercer “com muita dedicação e empenho”.

Hoje, o legado iniciado por Luís é continuado com orgulho pelos filhos Pedro, Maria João e Luís Eleutério, o filho e irmão mais novo, com 42 anos, e juntos tornam possível dar continuidade a esta história de constante crescimento e evolução.

“Fui quase criado dentro da clínica”, conta Pedro. “O meu avô ia buscar-me à escola e deixava-me lá. Eu assistia às consultas do meu pai e percebi muito cedo que era aquilo que queria fazer. Nunca tive dúvidas”.

As duas unidades de negócio da família

Instituto Médico e Dentário Eleutério resulta da expansão para a Ribeira Grande e está aberto desde 2010 © DL

O legado da família Eleutério expandiu-se para a Ribeira Grande através do Instituto Médico e Dentário Eleutério, aberto desde 2010. “O projeto da Lagoa nasce dos nossos pais, mas este da Ribeira Grande nasce dos filhos”, referem Pedro e Maria João, sócios-gerentes da empresa, demonstrando que “a ajuda dos nossos pais foi fundamental para que este projeto se tornasse realidade e, desde o início, tivemos a sorte de contar com trabalho constante”.

Para além da Medicina Dentária, o Instituto é constituído por outras especialidades como a Cardiologia, Dermatologia, Endocrinologia, Imunoalergologia, Oftalmologia, Gastrenterologia, Medicina Interna, Pediatria, Pneumologia, Cardiologia, Medicina Geral e Familiar, Nutrição, Psicologia, Ginecologia, entre outras. Dispõem ainda de exames complementares de diagnóstico, numa tentativa clara de acompanhar a evolução e as necessidades da comunidade.

“Contar com mais dois dentistas na família foi uma vantagem importante, pois permitiu-nos ter um profissional em cada clínica e manter a rotação”, afirma Maria João Eleutério, não ignorando “o apoio de alguns amigos que exercem atividades noutras especialidades que disponilizaram-se para colaborar connosco porque acharam o projeto interessante”.

Atualmente, o grupo conta com estas duas unidades de negócio e emprega cerca de dez trabalhadores fixos e mais de duas dezenas de colaboradores/prestadores.

Perguntamos se ter um pai como referência tornava-os mais exigentes, responderam que sim. “Eu acho que tem um espírito de missão e responsabilidade associado”, acrescenta Maria João.

As clínicas pretendem apostar sempre na melhor qualidade possível e na proximidade ao cliente. E têm conseguido. A articulação entre as duas clínicas, o investimento em novas áreas médicas e a aposta constante na qualidade mostram um projeto em crescimento. Ainda assim, garantem que tudo é feito com os pés bem assentes na terra e não dando “passos maiores que a perna”.

E o futuro?

Ao meio o pai, Luís Eleutério, acompanhado pelos filhos, Luís (esquerda) e Pedro (direita) © DIREITOS RESERVADOS

“Eu penso que o futuro é promissor. A nossa mãe sempre nos disse que sonhar é bom, que temos de ter um objetivo seja ele qual for”, afirma Pedro Eleutério reforçando que se o futuro for como o presente, “ficamos bastante satisfeitos”.

A base continua a ser a mesma: os valores herdados dos pais, trabalho, responsabilidade, humildade, honestidade e o respeito por cada pessoa que entra na clínica.

Para o pai Luís, os filhos são orgulho e alegria e a “continuação viva de um projeto de vida sonhado e realizado, com perseverança e dedicação”. Já os filhos, confessam que foi lhes dada uma “bandeja” para aguentar, “pode parecer uma tarefa fácil, e numa fase inicial facilitou a nossa atividade, mas na realidade torna a responsabilidade ainda maior. Para nós é um privilégio, mas o nosso verdadeiro orgulho é conseguirmos aguentá-la e desenvolvê-la continuamente”, concluem os dois irmãos felizes e seguros do trabalho desempenhado até ao momento.

Empresária quer levar cultura organizacional da “felicidade” aos Açores

Sónia Crisóstomo é empresária e líder da Ponte 360 © DIREITOS RESERVADOS

Durante décadas, ambientes corporativos em diferentes partes do mundo estiveram marcados por frases que desmotivavam e desencorajavam a inovação, como a clássica e limitadora “você não é pago para pensar”. Hoje, num cenário empresarial cada vez mais global e exigente, surge uma nova consciência: a de que o bem-estar e a felicidade no trabalho não são apenas conceitos inspiradores, mas fatores determinantes para a produtividade, o engajamento e o sucesso das organizações.

Sónia Crisóstomo, empresária e líder da Ponte 360, é uma das vozes mais influentes nesse novo paradigma. Especialista em Felicidade Organizacional, Inteligência Emocional e Gestão Humanizada, esta profissional tem vindo a traçar um percurso internacional sólido, com destaque para a sua atuação em Portugal e no Brasil. Tem hoje nos planos desembarcar nos Açores, onde pretende auxiliar na construção de lideranças conscientes e estratégias de bem-estar corporativo adaptadas à realidade local. Com formação em Psicologia Positiva pelo Wholebeing Institute e Coach em Happiness and Well-being pela World Happiness Academy, Sónia traz consigo uma abordagem prática e culturalmente sensível, resultado da sua vivência em ambos os lados do Atlântico.

“A minha visão de futuro para os Açores é ambiciosa e profundamente comprometida com a valorização humana e o desenvolvimento sustentável”, disse Sónia.

Nesta entrevista, abordamos o seu percurso, os maiores desafios das empresas na construção de ambientes de trabalho felizes e a ponte afetiva e profissional que tem construído entre Brasil, Portugal e os Açores, região pela qual manifesta um profundo compromisso com o desenvolvimento humano e sustentável. Através de escuta ativa, formação emocional e uma liderança mais empática, esta profissional defende que é possível transformar o ambiente laboral num espaço de crescimento, conexão e realização.

DL: A felicidade no trabalho é hoje reconhecida como um pilar estratégico para o sucesso das organizações. De que forma a sua experiência internacional moldou a sua abordagem nesta área?
A minha vivência profissional permitiu-me acompanhar, ao longo dos anos, uma verdadeira revolução silenciosa nas relações de trabalho. Iniciei a minha carreira numa época em que o modelo de liderança predominante era autoritário, verticalizado e baseado no medo. Era o tempo dos “chefes”, e não dos líderes. Era comum ouvir frases como “você não é pago para pensar” — uma mentalidade que sufocava a criatividade, desestimulava a autonomia e limitava o desenvolvimento humano dentro das empresas. Essa mentalidade era reflexo de uma cultura mais ampla, presente inclusive nos lares e nas escolas, onde o diálogo era escasso e a hierarquia rígida. Felizmente, com o tempo, compreendi que liderar era muito mais sobre inspirar e escutar do que sobre comandar. Passei a adotar um estilo de gestão centrado nas pessoas, e os resultados começaram a aparecer naturalmente: equipas mais engajadas, entregas com mais qualidade e equipas coesas, movidas pelo sentimento de pertença e pela valorização de suas singularidades. A minha trajetória passou por diferentes regiões do Brasil, cada uma com a sua própria cultura e forma de trabalhar — do calor humano do Norte ao pragmatismo do Sul. Essa diversidade deu-me uma base rica para lidar com diferentes perfis, expetativas e modos de pensar. Mais tarde, a minha atuação em empresas israelenses trouxe novos aprendizados: a convivência com culturas mais secas, pragmáticas e diretas exigiu de mim uma ampliação do olhar e da escuta. Mesmo em ambientes mais austeros, sempre procurei preservar espaços de leveza — como o hábito de tomar um café juntos antes do expediente ou almoçar em grupo. Pequenos gestos, mas com grande impacto no clima organizacional. Com isso, compreendi que a felicidade no trabalho não é fruto de grandes eventos ou discursos motivacionais, mas da construção quotidiana de vínculos verdadeiros, respeito mútuo e equilíbrio entre vida pessoal e profissional — independentemente do país ou cultura em que se esteja.

DL: O que a motivou a apostar na expansão do seu trabalho para o mercado dos Açores? Há alguma característica especial nas empresas açorianas que a tenha atraído?
O meu trabalho como mentora em wellbeing e felicidade parte de uma convicção profunda: todos nós temos o direito de viver com plenitude, sentido e bem-estar. No entanto, nem sempre sabemos como alcançar esse estado, principalmente quando estamos presos a crenças culturais ou geracionais que nos limitam. Ao chegar a Portugal continental, percebi que havia um grande espaço para esse tipo de trabalho, não apenas nas grandes cidades, mas especialmente em regiões como os Açores, onde a beleza natural, a conexão comunitária e o estilo de vida mais equilibrado oferecem uma base propícia para iniciativas voltadas à felicidade. Vejo nos Açores não apenas um território de oportunidades, mas também um solo fértil para a construção de projetos transformadores — tanto para empresas quanto para pessoas. Há algo muito autêntico nas relações açorianas: um sentimento de proximidade, pertença e respeito pelas tradições, que pode — e deve — ser um diferencial na construção de ambientes de trabalho saudáveis. Ao mesmo tempo, é importante trazer ferramentas modernas, baseadas na psicologia positiva, na neurociência e nas melhores práticas internacionais de gestão de pessoas, para que as empresas locais possam prosperar sem perder sua essência. A minha motivação é essa: unir o que há de mais avançado no campo da felicidade corporativa com a riqueza cultural e humana dos Açores, criando experiências verdadeiramente transformadoras.

DL: Trabalhou em vários países e contextos culturais distintos. Quais foram as principais lições que trouxe dessas experiências para aplicar em Portugal?
A convivência com diferentes culturas ensinou-me, antes de tudo, a importância da humildade e da escuta ativa. Ao chegar num novo país, não se pode agir como quem carrega respostas prontas ou fórmulas universais. É preciso reconhecer que cada lugar possui a sua própria história, os seus códigos, as suas dores e as suas riquezas. Portanto, o primeiro passo é observar, aprender e respeitar. Gosto de dizer que se trata de um “rapport cultural” — uma conexão que se estabelece quando priorizamos o entendimento do outro antes mesmo de expressar nossas próprias ideias. Essa escuta sensível não se restringe às interações interpessoais, mas se estende às estruturas legais, fiscais, administrativas e sobretudo às práticas de gestão de pessoas. O que funciona em um contexto pode ser ineficaz — ou até invasivo — em outro. Um bom exemplo disso está na forma de comunicar. O brasileiro é naturalmente expansivo, caloroso e informal. Costuma abraçar, tocar, chamar pelo nome com facilidade, como se estivesse diante de um amigo de infância. O português, por outro lado, tende a ser mais formal, contido e respeitoso do espaço do outro. Essa diferença pode gerar ruídos se não for compreendida com empatia. O que às vezes é percebido como frieza ou distância, é na verdade uma forma distinta — e legítima — de se relacionar. A lição que trago é clara: para criar conexões verdadeiras, é preciso abandonar o julgamento e praticar a curiosidade genuína. Quando isso acontece, somos capazes de construir pontes e não muros — e é exatamente essa Ponte que venho construindo entre o Brasil e Portugal, com especial carinho pelos Açores.

DL: Que estratégias específicas pretende implementar nos Açores para promover ambientes de trabalho mais saudáveis e felizes?
Antes de propor qualquer solução, é essencial compreender que o bem-estar nas organizações não pode ser tratado com uma abordagem padronizada. Cada empresa possui a sua identidade, a sua cultura interna, o seu histórico e os seus desafios únicos. Por isso, o primeiro passo da minha atuação é sempre o diagnóstico — um mapeamento profundo das condições psicossociais que afetam o ambiente de trabalho. Nos Açores, pretendo implementar uma jornada personalizada, com etapas bem definidas: iniciaremos com escuta ativa e diagnóstico organizacional, seguido de sensibilização das lideranças, formações voltadas à inteligência emocional, comunicação não-violenta, cultura do feedback, empatia, gestão do stress e saúde mental. Outro ponto central será a promoção de políticas de flexibilidade, liberdade com responsabilidade e rituais de pertença. Não se trata apenas de oferecer benefícios pontuais, mas de transformar a cultura organizacional em um ecossistema que favoreça o florescimento humano. Também acredito fortemente na valorização da liderança como alavanca de transformação. Líderes preparados emocionalmente, com repertório e sensibilidade, são capazes de multiplicar o bem-estar nas suas equipas. Nos Açores, quero ajudar empresas a formar essas lideranças conscientes, empáticas e alinhadas com os valores do século XXI.

DL: A nível internacional, pode partilhar algum exemplo de boas práticas de promoção da felicidade laboral que gostaria de replicar nos Açores?
Sim, há muitas boas práticas internacionais que podem ser adaptadas com sensibilidade à realidade açoriana. Um exemplo que considero muito pertinente é a abordagem ao modelo híbrido de trabalho no cenário pós-pandemia. Empresas no exterior que melhor se adaptaram ao retorno gradual ao escritório investiram fortemente na formação de lideranças para lidar com a complexidade das novas dinâmicas — seja no trabalho remoto, híbrido ou presencial. Perceberam que o desafio não era apenas logístico, mas relacional e emocional: como manter o vínculo, o senso de propósito e a coesão da equipe sem a presença física constante? A resposta passou por treinar gestores em escuta ativa, empatia digital, gestão por confiança e não por controlo, e, sobretudo, clareza de comunicação. Outro exemplo vem das empresas nórdicas, que priorizam jornadas mais curtas, pausas programadas, rituais de reconhecimento e momentos de silêncio — isso mesmo, o silêncio como prática de autorregulação e foco. São estratégias simples, mas profundamente eficazes para melhorar o clima, reduzir o stresse e aumentar a produtividade. Acredito que muitas dessas práticas podem ser integradas nos Açores, respeitando a cultura local e fortalecendo aquilo que a região já tem de melhor: a sua conexão humana, a sua tranquilidade e o seu senso de comunidade.

DL: De acordo com a sua experiência, quais são os maiores obstáculos que as empresas enfrentam na construção de ambientes felizes? Como se podem ultrapassar?
O maior obstáculo, sem dúvida, é a falta de entendimento estratégico sobre o que é a felicidade no trabalho e o seu impacto direto nos resultados das empresas. Ainda existe uma visão reducionista de que investir em bem-estar é uma “gentileza corporativa”, um luxo dispensável ou uma despesa sem retorno mensurável. Isso é um equívoco. Estudos robustos na área da psicologia positiva, neurociência e gestão de pessoas já comprovaram que ambientes emocionalmente saudáveis reduzem significativamente o absenteísmo, aumentam a produtividade, melhoram a retenção de talentos e impactam positivamente nos indicadores financeiros. Outro obstáculo está na comunicação interna deficiente. Muitas empresas tentam implementar programas de bem-estar sem antes preparar suas lideranças para sustentar essas iniciativas com coerência e consistência. Sem líderes preparados, qualquer ação se torna pontual e pouco eficaz. Nos últimos anos, especialmente após a pandemia da covid-19, notei também uma crescente dificuldade de adaptação por parte das equipas. O isolamento social deixou marcas profundas: lacunas nas habilidades sociais, inseguranças emocionais, confusão sobre hierarquias e resistência a mudanças. Isso exige das empresas uma nova abordagem — mais humana, acolhedora e paciente. A solução está na educação corporativa continuada, na escuta real das equipes e na construção de uma cultura onde o bem-estar não seja um projeto isolado, mas parte do DNA da organização.

DL: Acha que o conceito de felicidade no trabalho é compreendido da mesma forma nos Açores, em Portugal continental e nos países onde já trabalhou?
Cada contexto cultural traz uma lente diferente para o conceito de felicidade no trabalho. Nos Açores, percebo uma particularidade encantadora: há um forte senso de comunidade, uma convivência mais próxima entre as pessoas e uma valorização natural do equilíbrio entre trabalho e vida pessoal — algo que, em grandes centros urbanos, precisa ser constantemente lembrado e treinado. Enquanto que, em países como Israel ou nos grandes centros do Brasil, a felicidade no trabalho muitas vezes é associada a reconhecimento profissional, autonomia e crescimento rápido, nos Açores vejo que a busca por qualidade de vida, segurança emocional e bem-estar familiar ocupa um lugar central. Essa diferença de perspetiva é uma oportunidade maravilhosa. Porque significa que os Açores já possuem, culturalmente, uma base que favorece a implantação de políticas de felicidade organizacional. O que falta, em muitos casos, é apenas dar nome a isso, criar indicadores, estruturar processos e capacitar lideranças para sustentar essa cultura de forma intencional e estratégica.

DL: Que impacto espera ter nos Açores nos próximos anos e quais são os seus planos futuros para o desenvolvimento desta área na região?
A minha visão de futuro para os Açores é ambiciosa e profundamente comprometida com a valorização humana e o desenvolvimento sustentável. Quero contribuir para que os Açores sejam reconhecidos não apenas por sua beleza natural — que é extraordinária —, mas também por sua excelência em qualidade de vida no trabalho e inovação em bem-estar corporativo. Acredito que os Açores têm potencial para se tornarem um modelo europeu de gestão humanizada, atraindo não apenas turistas, mas também investidores, empreendedores e talentos interessados em viver e trabalhar em um ambiente que favoreça o florescimento humano. Para isso, por meio da Ponte 360, empresa que lidero, estou a desenvolver programas de mentoria para empresas, formações em liderança positiva, projetos de intercâmbio empresarial entre Brasil e Açores e apoio à abertura de negócios na região. Junto a parceiros locais, oferecemos suporte jurídico, fiscal e de gestão para empresários brasileiros e de outras nacionalidades que desejam se estabelecer nos Açores — não apenas como um passo estratégico de internacionalização, mas como um reencontro com uma forma mais humana e feliz de viver e empreender. Mais do que trazer conhecimento, desejo plantar sementes. E acredito que os Açores estão prontos para florescer.