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O Desconfiado

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador

Antes de seguirmos para as desejadas e merecidas férias de verão, deixo-vos um comentário sobre o décimo oitavo tipo humano dos Caracteres de Teofrasto. O termo “desconfiado” não suscita dúvidas ao leitor moderno, habituado que está, diria desde sempre, a ouvir ou a proferir a palavra. Pelos vistos não é de hoje nem de ontem que o “desconfiado” desperta a atenção de todos. Para o autor grego, a “desconfiança é simplesmente a tendência para suspeitar da honestidade de toda a gente.” (Char. 18.1). Repare-se que são postos em confronto dois conceitos, a “desconfiança” e a “honestidade”, o que leva a crer que, na Grécia antiga, mais em particular no período helenístico, onde se insere Teofrasto, havia “honestidade”, valor ou qualidade em vias de desaparecimento hoje, como infelizmente bem se sabe. A honestidade consiste no cumprimento íntegro de princípios pessoais e sociais que não visam prejudicar terceiros. Sendo honesto, o indivíduo não terá – ou não teria – motivos para questionar a integridade dos outros, tomando-se não como exemplo, mas como parte de todo que se pauta pelo mesmo tipo de carácter.

Ora o “desconfiado” teofrástico é aquele que, “se manda um criado às compras, manda um segundo criado atrás dele, para se informar do preço que ele pagou.” (Char. 18.2); é alguém que “aos seus devedores exige juros na presença de testemunhas, para que não possam negar a dívida.” (Char. 18.5) e, “se lhe vêm pedir uma baixela emprestada, na maior parte dos casos recusa, a não ser que se trate de gente da casa ou de um parente próximo, mas ainda assim só falta marcar a peça a fogo, pesá-la e pedir caução ou coisa que o valha.” (Char. 18.7). Nos nove pontos elencados por Teofrasto para desenhar o retrato do “desconfiado” figuram sempre cenários ou episódios do âmbito socioeconómico, facto que aproxima o “desconfiado” de antigamente do tipo moderno do avarento ou, nalguns casos, em abono de alguma virtude, do prudente ou cauteloso. Transpondo para os nossos dias e/ou para a nossa realidade imediata, os traços do “desconfiado” de Teofrasto relembram o sujeito atento e calculista. Em vez de mandar que um segundo criado siga o que foi às compras, pede-se, tão-somente, o recibo ou fatura para verificar a conformidade com o que se pagou; a aplicação de juros sobre um  empréstimo é  hoje uma prática legal, dispensando testemunhas, porque se vale da assinatura de quem contraiu a dívida para salvaguarda de eventuais incumprimentos ou aplicação de sanções; emprestar um faqueiro (significado de ‘baixela’) é coisa que não se faz, uma vez que existem os alugueres de utensílios desta natureza que implicam uma caução e o célebre “desparece ou parte, paga!” Motivado por aquilo que Teofrasto define como “desconfiança”, o tipo modernizado do “desconfiado” age e reage em benefício próprio.

Por outro lado, no atinente às relações interpessoais e/ou afetivo-sexuais conforme são vividas na atualidade, o “desconfiado” é grosso modo tomado pelo ciumento, aquele que se sente preterido ou traído por alguém. Esta aceção não consta dos Caracteres, mesmo que seja de novo uma questão de honestidade a aquela que aqui se pressupõe em matéria de confiança ou desconfiança. Alguns provérbios há na nossa língua que integram a palavra “desconfiado” ou outros vocábulos que dele derivam ou que lhe estão na origem, como, por exemplo, “Quem não confia não é de fiar”, “Quem é desconfiado é corno” ou, ainda, “Mais vale uma razão para desconfiar, do que mil para confiar.” Em qualquer um dos casos está em xeque a integridade do indivíduo, sobretudo no que se refere a comportamentos em contexto relacional (de amizade, de namoro, de casamento, etc., etc.). As situações do dia-a-dia tendem a multiplicar-se, isso porque as pessoas deixaram de confiar umas nas outras. “Estás a receber tantas mensagens!”, exclama o namorado. “De quem é ou de quem são?”, pergunta imediatamente a seguir. “A que horas saíste hoje afinal do trabalho?”, indaga a recém-casada, dando sopro à pulga que deixou alojar-se atrás da sua orelha. “…pensei que saísses mais cedo.”, suspira, quando a justificativa do cônjuge a tranquiliza. “Quem era aquele jeitoso com quem estavas a falar, ontem, à hora de almoço quando eu passei [imprevistamente?] em frente ao teu local de trabalho?” [Silêncio…] “É casado?”, “Do que falavam?”, “Tu rias-te que nem uma perdida…”

Estas frases – e muitas outras – são frequentes no discurso daquele que hoje temos por “desconfiado”. Mas sê-lo-á de facto? Neste caso, o sentimento que o domina não será mais a insegurança que, paralelamente, lhe afeta a autoestima desnivelada e lhe alimenta o receio de perder alguém? Desconfiar de tudo e de todos não será o melhor mecanismo de autodefesa. Mesmo que o ser humano tenda a ser cada vez mais individualista, narcisista e egoísta, acredito que ainda haja quem seja, na realidade, honesto e digno de confiança. Ingenuidade ou ato de fé (cego) o meu? Não sei. Apenas creio que o respeito está na base de tudo e, havendo respeito, haverá certamente confiança. 

O Supersticioso

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador

O leitor que tem seguido, com regularidade, esta coluna e que, até provavelmente, já foi ler Os Caracteres, de Teofrasto, esperaria que, por razões lógicas, ao décimo segundo carácter – o inoportuno – se seguisse o décimo terceiro. Mas, eis que optei por adulterar a ordem. Explico: os três tipos humanos que vêm descritos depois do retrato comentado no mês passado – XIII. O Intrometido; XIV. O Estúpido; XV. O Autoconvencido – caem um pouco na repetição de características das personagens sobre as quais tenho vindo a escrever. Para não entediar o meu leitor, passei para o décimo sexto carácter da lista teofrástica, XVI. O Supersticioso, porque se reveste de novidade e não torna – creio eu – repetitivo nem aborrecido este espaço do Diário da Lagoa, que se quer a priori leve e descontraído.

De acordo com o autor grego, “a superstição é simplesmente o temor do sobrenatural” (Char. 16.1.). À primeira leitura, não nos parece haver uma ligação direta ou explícita com o conceito que hoje temos de supersticioso. Maria de Fátima Silva esclarece, em nota à tradução portuguesa, que a “deisidaimonía [i.e. a superstição] exprime etimologicamente o temor dos deuses ou do sobrenatural e é, na justa medida, uma atitude de piedade, embora o risco de exagero a encaminhe para um temor ou subserviência exagerada perante o divino. A superstição leva à adoção de uma série de práticas fúteis ou a apelos constantes à divindade, como profilaxia contra um receio permanente de sinais de perigo que se inferem até das situações mais comezinhas.” O esclarecimento da tradutora de Teofrasto vem, pois, ao encontro, em larga escala, daquilo que consideramos superstição, nos dias de hoje. Contudo, esta atitude não se circunscreve, como bem sabemos, ao domínio religioso ou do culto sobrenatural. Atualmente, há muitas situações corriqueiras que manifestam receios que traduzem o carácter supersticioso do indivíduo.

Teofrasto diz que o supersticioso “é um sujeito que lava as mãos em três fontes, encharca-se em água benta, mete uma folha de louro na boca e assim fica preparado para começar o dia.” (Char. 16.2) ou “se um gato lhe atravessa o caminho, ele não dá mais um passo antes que alguém por ali passe, ou sem atirar três pedras pela rua fora.” (Char. 16.3.). Assim descrito, o leitor moderno já se revê ou já revê em alguém os traços de carácter motivados pela superstição. Quem é que ainda não recorre às folhas de louro e as guarda em recantos da casa ou na carteira, para garantir prosperidade, porque terá lido num blogue que é recurso do “tira e queda”? Quem, ao ver um gato preto que pode ou não cruzar o respetivo caminho, não pensas no mau agoiro que o episódio lhe poderá trazer? Quem não acredita que o treze é o número do azar e que a sexta-feira, calhando em dia treze, pode ser um dia fatal?

O temor que sente para que nada de mal aconteça leva o supersticioso a encetar um conjunto de rituais para se sentir protegido e abençoado. No Instagram, por exemplo, proliferam mensagens que alimentam esse temor. Frases do tipo “Se não digitar SIM, algo de maléfico irá acontecer nos próximos sete minutos…” ou “Há alguém que não deixa de pensar em você. O nome desse alguém começa pela letra do seu segundo contacto do partilhar em WhatsApp…”, enriquecidas por músicas de fundo que lembram casas assombradas ou cenas de filmes do Hitchcock. Estes jogos – que é, no fundo, do que se trata – estimulam a superstição que, por sua vez, se torna em crença, assumindo a forma quase de uma psicopatia.

Contudo, há outras superstições mais engraçadas que persistem. “Se passares por debaixo daquela escada, não cresces mais…”, avisa a avó que não quer que o neto de sete anos se afaste muito de si; ou “Se brindares com água, não terás sexo durante sete anos…”, adverte o conviva que quer é emborcar mais uns copos. Sempre penso no que dirá um(a) prostituto(a), que faz da prática sexual o seu ofício profissional, se for confrontado(a) com uma advertência dessas. E muitas mais superstições poderiam ser aqui listadas, às quais se juntariam aquelas em que pensa o meu caro leitor.

Mas, estando eu a escrever este texto na Sexta-feira Santa (uso a maiúscula como convenção ortográfica e em sinal de respeito pelos fiéis), creio que se me impõe um breve apontamento relativamente a um assunto que, por desconhecimento de muitos crentes, se tornou não numa manifestação de fé – mortificação voluntária –, mas numa superstição tola. “Em dia de Sexta-Feira Santa, não se come carne!”, alertam os supostos entendidos, pastores de rebanhos, para recordar o tom metafórico das Sagradas Escrituras. Não explicam, porém, a razão dessa prática! Há mesmo quem pense que não deve comer carne, porque é o dia em que Cristo morre, e estaria a “comer o seu corpo!” Não é disso que se trata. A Igreja Católica sugere a prática do jejum e da abstinência na Sexta-Feira Santa, o mesmo é dizer que o crente deve evitar tudo quanto dê prazer ao seu corpo, no dia da morte de Cristo. Deve começar pelo que come, portanto. Ora, antigamente, a carne era um alimento bem mais caro do que o peixe. Assim, na Sexta-Feira Santa, deve optar-se pelo jejum alimentício ou pela ingestão de alimentos que não traduzam o supérfluo ou o luxo. Hoje, está o peixe pela hora de morte! Como fazer, então, se a carne é bem mais em conta do que o peixe? Passar-se a vegetariano ou vegano?

Os supersticiosos continuarão, pois, a comer peixe, para não incorrer na desonra do pecado. Esquecem-se, ironicamente, de que há famintos pelo mundo inteiro para quem os ossos de uma costeleta de porco seriam um pitéu para fazer um caldo capaz de alimentar quatro crianças e dois adultos, fosse em que dia fosse de um qualquer calendário religioso. Assim sendo, que não se parta do ato genuíno de ter e expressar fé para o zelo desenfreado que desemboca na futilidade do excessivo “temor do sobrenatural”.

O Inoportuno

Rui Tavares de Faria
Professor e investigador

O décimo segundo carácter sobre o qual recai a atenção e o interesse de Teofrasto é o inoportuno. É mais um termo conhecido do leitor contemporâneo e o retrato que dele faz o autor grego em pouco ou nada difere da imagem e do conceito que se tem, atualmente, de quem não mede a oportunidade, antes de agir ou falar. Na verdade, é sobre a καιρός (kairós) – vocábulo igualmente familiar do leitor micaelense –, isto é, a “oportunidade”, “qualidade que a retórica aplicou ao discurso, como a propriedade de usar da palavra ou do argumento na hora certa” (Maria de Fátima Silva), que incide a atuação do inoportuno. Embora curto, o retrato deste tipo ético faz-se em catorze pontos e todos eles dão a (re)conhecer o quão inconveniente e despropositado é aquele que tem “falta do sentido da oportunidade” (Char. 12.1.). Mas centremo-nos nos aspetos mais engraçados.

Segundo Teofrasto, o inoportuno “vê um tipo atarefado, vai ter com ele e põe-se com confidências” (Char. 12.2.), cenário com o qual já nos deparamos uma série de vezes. Desinteressado e completamente alienado do mundo que o rodeia, o inoportuno atribui importância tal àquilo que pode ter de ir dizer a A ou a B, mesmo podendo perceber que A ou B não dispõem de tempo para o ouvir ou até mesmo porque a A ou a B pode nem sequer importar o teor das confidências de última hora que vêm em momento…inoportuno. Do mesmo modo, “faz uma serenata à namorada no dia em que a moça está com febre.” (Char. 12.3.), o que, nos nossos dias, equivaleria, por exemplo, a convidar um(a) amigo(a) para sair à noite debaixo de chuva torrencial ou trovoada imensa. Convite feito no próprio dia, que é como quem pensa: “está sempre a dizer que não o/a convido para nada e eis que, quando convido, não aceita!” Pudera, quem sai à noite de casa, em dia de temporal?!

Outro aspeto gracioso que Teofrasto destaca na figura do inoportuno é o seguinte: “convidam-no para uma festa de casamento, e aí o têm a dizer mal das mulheres” (Char. 12.6). Se fosse num casamento gay masculino até se compreenderia (ou não!), mas, tratando-se de um cerimónia que é, sobretudo para a noiva, desde tempos remotos, uma das ocasiões mais felizes da sua vida, quem “sentido de oportunidade” há em dizer-se mal – ou o que quer que seja de negativo – acerca das mulheres? Ou, noutra situação, “quando já toda a gente ouviu e percebeu, ele, [o inoportuno], levanta-se e retoma a questão do princípio” (Char. 12.9.), como se dele dependesse exclusivamente o que já era do entendimento de todos os presentes…

Atualmente, o inoportuno também repete as mesmas cenas a que se refere Teofrasto e que no-las reporta de modo engraçado, mas há outros comportamentos que, nas últimas décadas, têm redesenhado este carácter humano. São inoportunos os que nos interrompem sem pedir licença, quando estamos nós a deter a palavras (Oh! Quantas vezes!); são inoportunos os que fazem intervenções pouco felizes acerca do foro íntimo de quem, estando ausente, não tem a oportunidade de se defender ou justificar; são inoportunos os que nos abordam com problemas e mais problemas, não no sentido de nos pedirem auxílio, mas com o objetivo de se de tomarem por vítimas, incessantemente. São, ainda, manifestações de falta do sentido de oportunidade procurar achincalhar o outro diante de seja quem for ou divulgar um assunto que se quer reservado ou que venha ser surpresa, só pela simples satisfação de estragar ou antecipar o momento.

Por isso, caro leitor, façamos por entender e compreender a oportunidade. Manter o silêncio, evitar aquela frase que nos dá comichão na língua ou fazer “ouvidos moucos” são algumas das formas que inviabilizam que sejam ou nos tornemos inoportunos. É como se diz: a ocasião faz o ladrão, o mesmo é dizer que o oportunidade cria o inoportuno. Às vezes, é mais forte do que nós, mas o decoro e a cortesia devem imperar e ter a voz mais elevada!

O Tagarela

Rui Tavares de Faria
Professor e Investigador

O tagarela é o terceiro retrato ético que consta da obra de Teofrasto e é, ironicamente, um dos mais curtos, se não o mais curto dos trinta Caracteres. Ironicamente, porque associamos, por norma, o tagarela àquele indivíduo que não se cala, que fala pelos cotovelos e que não reconhece o quão despropositado se torna, na maior parte das extensas interações que desencadeia. O autor grego define a tagarelice como “a narrativa dos discursos imensos e sem nexo.” (Char. 3.1.), mas o que nos dá a ler é extremamente curto, talvez para nos poupar de perdas de tempo a pensar sobre o vazio que domina o falatório prolixo do tagarela.

Ao contrário do que sucede com a língua grega antiga, que apresenta o vocábulo ἀδολεσχίας (transliterado em adoleschías) para este tipo humano, a palavra portuguesa “tagarela” sugere, desde logo pelo seu escopo fonético, uma sucessão de sons que nos parecem querer reproduzir, de certa forma, aquilo que efetivamente significa: o tagarela é alguém que emite um enunciado discursivo longo e sem ter ponta por onde se lhe pegue, devido à ausência de nexo. É como se da boca do tagarela ouvíssemos, em jeito onomatopeias de bebé, tá-tá-tá, tá-tá-tá, gá-gá, tá-tá, ré-ré-ré, tá-tá, gá-gá-gá, ré-ré, tá-tá-tá, lá-lá. Vira o disco e toca o mesmo. Na verdade, é esta a perceção com que ficamos do perfil conversacional do tagarela.

Segundo Teofrasto, o tagarela “senta-se ao lado de um fulano que não conhece de parte nenhuma e começa por lhe fazer o elogio da mulher; depois conta-lhe o sonho que teve na noite anterior; por fim, desfia-lhe, tim-tim por tim-tim, o que comeu ao jantar.” (Char. 3.2.) Que levante o dedo quem nunca passou por este episódio estranho! Os espaços de eleição dos tagarelas são os transportes públicos coletivos e as salas ou filas de espera de um serviço qualquer. No autocarro, no comboio e também no avião, estando nós a viajar sem companhia, corremos o risco de travar conhecimento com o tagarela. Se já está sentado no banco ao lado do nosso quando chegamos, mostra-se logo solícito e simpático. Disponibiliza-se para nos arrumar a bagagem e até se encolhe para que tenhamos a área do nosso lugar mais folgada. Esta é a fase de aquecimento. Se lhe agradecemos com um franco sorriso, estamos tramados! Por isso, um obrigado neutro será a melhor opção.

Nas salas ou filas de espera, o tagarela manifestar-se-á, penso seu, por causa da exasperação que lhe causa precisamente a natureza do lugar ou situação em que se encontra: a espera! Acredito, contudo, que a inexistência de um motivo também lhe fomentará a abertura da boca. O problema é se alguém lhe dá troco… aí, o fulano fala e fala, dá opinião sobre A, diz mal de B, evoca um C, volta a opinar sobre o A, mas já de outro modo; não se cala, portanto. A espera, que já de si é desagradável, parece tornar-se interminável na presença de um tagarela. Os seus destinatários já não lhe respondem, por isso não são interlocutores, e normalmente entreolham-se, culpando em silêncio aquele que, sem querer, abriu as portas à tagarelice. Esta é uma experiência pela qual já terá passado todo o leitor, contando que não tenha sido ele – lamento – a vestir a pele do tagarela.

Para além da constatação objetiva do carácter que assina a autoria dos “discursos imensos e sem nexo”, creio que podemos alargar esse comportamento individual a outros âmbitos que não apenas os atrás mencionados. Pensemos, por exemplo, na verborreia que ouvimos da boca dos mais variados e distintos líderes políticos. E neste domínio Portugal até se vai safando bem; basta verificarmos o efeito de certos fluxos palavrosos no eleitorado, se tivermos em conta os resultados da última ida às urnas. Como é possível que, em certas nações, a tagarelice consiga confundir-se com a demagogia? Como é possível que os cidadãos se submetam à loquacidade vazia daqueles que encabeçam as listas do partido a quem acaba confiado o futuro de um grande país ou, pelo contrário, o futuro de um declínio galopante?
O tipo humano do tagarela converte pelo cansaço. O mesmo se passa com os gatos, que miam e miam até lhes darmos o que de facto pretendem. Mas, enquanto nos rendemos à beleza dos felinos, que podemos mimar (se eles nos deixarem), em relação aos tagarelas a nossa vontade vai para a surdez momentânea. Quando isso acontece, corremos, porém, um risco: o tagarela pensa que estamos atentos à sua conversa, que estamos de acordo com o que, sem nexo, vai falando e nos cansando e, sem querer, ainda nos envolvemos nas incoerências tagareladas, involuntariamente.

Se, nas edições anteriores, pude deixar algumas sugestões práticas para sabermos lidar com o dissimulado e com o bajulador, relativamente ao tagarela devo confessar-vos que nada me ocorre de útil ou lógico, sem ser o remate que o próprio Teofrasto dá ao seu retrato: “De tipos desta força é preciso fugir a sete pés e passar de largo a todo o pano, se se quiser evitar uma seca. É obra aguentar um parceiro que não sabe distinguir o que é ter tempo livre ou estar ocupado.” (Char. 3.4.). Assim, ocorrem-me algumas ideias, disparatadas e dignas de um tagarela, dirão uns, ou engraçadas e exequíveis, pensarão outros. Aqui vão: 1. seguir a moda dos jovens e dos desportistas e ter sempre uns auscultadores postos nas orelhas, quando vamos viajar ou estamos em contexto de espera para sermos atendidos em algum serviço; 2. não encarar o tagarela nos olhos e mostrar um ar alienado, nas circunstâncias antes referidas; 3. simular um telefonema de modo a sair do jogo desinteressante da tagarelice; por fim, 4. exibir má cara, o mesmo é dizer não esboçar qualquer indícios de sorriso ou de concordância no atinente à verborreia que vai fluindo e tentando dominar o ambiente.