
Recebeu-nos nas instalações da AIPA – Associação de Imigrantes dos Açores, em Ponta Delgada. Foi aqui que esteve reunida com quase duas dezenas de ucranianos que vivem na região, no passado dia 13 de maio, dia em que Maryna Mykhailenko conversou, em privado, com o Diário da Lagoa (DL).
DL: Por que veio aos Açores?
Nós realmente apreciamos o apoio português. Os portugueses, tanto ao nível do governo como dos cidadãos comuns, são muito solidários; são pessoas com um coração grande, e isso é extremamente importante neste momento desafiante. Esta visita tem três grandes objetivos. O primeiro é conhecer o vosso governo — o presidente dos Açores, o representante da República e o presidente da câmara da capital — para discutir a cooperação inter-regional. Sou uma grande entusiasta deste modelo e temos várias regiões ucranianas interessadas em estabelecer contacto com os Açores. O presidente do governo regional mostrou-se muito aberto a esta cooperação, que faremos também através do governo de Portugal.
O segundo objetivo é falar com a nossa comunidade. Portugal ofereceu o estatuto de proteção temporária e acolheu muitos ucranianos. Há cerca de 60 mil no total, sendo que 30 mil chegaram após o início da guerra em 2022. Somos a quarta maior comunidade estrangeira em Portugal, segundo a AIMA. Tentamos estar em contacto próximo com as nossas pessoas para entender os seus problemas, mas, em geral, estão muito bem integradas. O governo dos Açores indicou-nos que existem cerca de 70 ucranianos nas ilhas, mas a comunidade local estima que possam ser cerca de 200, uma vez que muitos chegaram antes e já adquiriram a cidadania portuguesa.
O terceiro foco é estabelecer e manter o contacto entre jovens. No ano passado, em parceria com a representação da Comissão Europeia, implementámos o projeto “Enlargement Camp”, que levou 20 jovens portugueses a Lviv — que era então a Capital Europeia da Juventude — para passarem quatro dias com 20 jovens ucranianos. Dois jovens dos Açores participaram e, inclusive, organizaram recentemente uma conferência sobre o tema na universidade local.
DL: Os Açores receberam vários refugiados ucranianos. Como olha para eles? Tivemos uma reunião muito dinâmica. O principal tema que levantaram foi sobre como apresentar mais a nossa cultura e organizar eventos dedicados à Ucrânia para os amigos portugueses. Discutimos projetos culturais porque há muitos músicos e artistas integrados aqui. Eles são muito ativos, querem fazer mais e pediram o apoio da Embaixada. Estamos totalmente prontos para ajudar, seja na promoção da cultura ou na organização de mostras de cinema.
DL: Como olha para a guerra no seu país?
Não foi uma escolha nossa. Somos uma nação pacífica, a Ucrânia nunca quis esta guerra, mas agora não temos outra opção senão lutar e defender a nossa soberania e a nossa escolha europeia. Esta guerra não é por territórios, não é pelo Donbass ou pela Crimeia; é sobre o nosso direito de pertencer à família europeia e ser um país democrático. Desde 2014, quando assinámos o acordo de associação com a União Europeia, iniciámos reformas profundas que continuamos a implementar, mesmo durante a guerra. Estamos prontos para negociações pacíficas e queremos uma paz sustentável e de longa duração, mas, infelizmente, não vemos até agora qualquer prontidão do lado russo para negociar seriamente.
DL: Como vê a relação entre os Estados Unidos e a Ucrânia?
Para nós, é extremamente importante ter os Estados Unidos a bordo por serem parceiros vitais. Atualmente, somos muito autónomos no desenvolvimento de drones e tecnologia semelhante, mas precisamos do apoio norte-americano no que toca a sistemas de defesa aérea. Continuamos a dialogar com eles e a demonstrar que a Ucrânia não é um obstáculo para a paz, mantendo os EUA firmes na mesa de negociações.
DL: Donald Trump acredita que a paz é iminente na Ucrânia. Acha que o presidente dos Estados Unidos é muito otimista?
Acho que a guerra pode ser travada imediatamente se o lado russo tomar essa decisão e estiver genuinamente pronto para negociar. Para ser honesta, acredito que o presidente dos Estados Unidos quer realmente esta paz e tenta fazer o seu melhor, mas, infelizmente, ainda não vemos uma preparação séria do lado russo para conversar connosco.
DL: Qual é o principal desafio de ser embaixadora em Portugal?
Em Portugal não há desafios desse género, estou muito feliz por estar colocada aqui porque os portugueses facilitam o meu trabalho pela sua enorme solidariedade. O verdadeiro desafio é ser embaixadora em tempo de guerra. Falamos de uma diplomacia que não é clássica; precisamos de dominar assuntos que vão desde o armamento até à crise energética para podermos pedir o apoio adequado aos nossos parceiros. O desafio é manter a Ucrânia no foco internacional após anos de guerra total. Portugal tem sido exemplar tanto na condenação da agressão russa como no apoio crucial à nossa integração europeia.
DL: Que preocupações os seus conterrâneos nos Açores lhe transmitiram?
Várias. Muitas pessoas estão bem integradas, mas planeiam regressar à Ucrânia assim que a guerra acabar — e nós queremos que regressem, porque as pessoas são o maior ativo de um Estado. Outras querem o apoio da embaixada para promover a nossa língua e cultura localmente. Há também a preocupação legítima sobre o que acontecerá após 2027, quando terminar o estatuto de proteção temporária. De um modo geral, estão muito satisfeitas e comovidas com o apoio, abertura e solidariedade dos cidadãos açorianos.
DL: O que espera para o futuro do seu país?
Acredito profundamente no meu país e estou muito otimista sobre o futuro da Ucrânia. O nosso povo é incrivelmente forte e resiliente. Sinto um orgulho imenso nos nossos jovens. A grande diferença entre a Ucrânia e a Rússia é a nossa estrutura social baseada na entreajuda horizontal. Vencemos a batalha de Kiev e de muitas outras cidades no início da guerra devido à consolidação da sociedade civil. Não foram apenas os militares, foi toda a população que se uniu. Continuamos unidos e prontos para lutar pelo futuro do nosso país.

Chama-se Rostyslav Ruslanovich Hutsol, é natural da cidade de Podilsk, na Ucrânia, tem atualmente 21 anos e vive em Portugal há quatro. Já visitou os Açores, a convite de Álvaro Borges, um amigo açoriano natural de Água de Pau e, nesta entrevista, o jovem fala da sua experiência e partilha a sua visão sobre o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.
DL: Como é que foi chegar a Portugal sozinho? Foi um percurso difícil?
Não foi difícil, mas foi estranho e, ao mesmo tempo, muito interessante. Cheguei a Portugal numa espécie de autocarro, juntamente com uma família e com outra senhora mais velha. Eram todos refugiados, tal como eu. O que tornou esta experiência mais interessante foi ter ajudado esta senhora, que já tinha alguns problemas de memória, durante a viagem.
DL: Como foi tomada a decisão de sair da Ucrânia?
Saí da Ucrânia por causa da guerra. O meu pai disse-me que tinha um amigo em Portugal e que o melhor seria vir viver para cá, porque ainda não sabíamos o que iria acontecer. Ele contactou esse amigo, que disse que não havia problema. Nos primeiros tempos, fiquei a viver com ele e com a sua família, em Leiria.
DL: Como foi o processo de equivalência escolar, tendo em conta que ainda tinha 17 anos? Chegou a matricular-se numa escola?
Acredito que tenha sido um processo normal. O amigo do meu pai ajudou-me com os documentos necessários e acompanhou-me à Câmara Municipal de Leiria, passando a ser o meu responsável. Não foi necessário matricular-me numa escola, porque vim na qualidade de refugiado. Cheguei a Leiria em maio, fiquei por lá durante algum tempo e, depois, concorri ao curso de Tradução da Universidade de Lisboa. Já estudava tradução na Universidade de Kiev quando a guerra eclodiu e estava decidido de que essa era a minha área. Quando cheguei a Portugal ainda não sabia falar português, mas tive a oportunidade de ter aulas em inglês, o que me ajudou muito. Estou, atualmente, no quarto ano da licenciatura.
DL: A sua família continua na Ucrânia?
Sim, a minha família ainda lá vive. Estão bem, vivem longe da linha de batalha. Mas há muitas famílias que, mesmo estando em zonas de batalha, preferem ficar, porque têm ali a sua vida toda.
DL: Já voltou à Ucrânia desde que começou a viver em Portugal?
Sim, estive lá em 2023.
DL: Conhecendo agora os dois países, encontra muita diferença entre os valores de Portugal e da Ucrânia?
Acho que os políticos ucranianos tentam adotar muitos valores da União Europeia, mas reparo que muitas ideias aceites em Portugal não são tão bem recebidas pelo meu povo, por exemplo, os direitos da comunidade LGBTQIA+ ou a entrada de trabalhadores estrangeiros. Os ucranianos são muito patriotas, ainda mais com a guerra.
DL: O Álvaro Borges trouxe-lhe aos Açores em 2023. Quando visita o arquipélago, o que mais o fascinou?
Apaixonei-me pela natureza, principalmente pelas cascatas e pelas florestas. Senti-me numa nova realidade, rodeado de novas pessoas e de uma arquitetura tão diferente da de Lisboa. Os Açores abriram um mundo novo para mim. Voltei em dezembro de 2024 e 2025, sempre durante o Natal. Na segunda vez que voltei, fui até reconhecido por algumas pessoas. Senti que estava numa aldeia onde as pessoas se conhecem todas e notei que há muita ligação entre todos. Fiquei surpreendido, pela positiva, com o facto de as famílias nos Açores serem muito unidas.
DL: Qual foi a sua reação ao saber que o Álvaro tinha ido à Ucrânia e de que forma essa visita o marcou?
Fiquei surpreendido pela positiva e senti muito orgulho dele. Quando ele voltou, tive interesse em perguntar-lhe as diferenças e semelhanças entre os nossos povos, quis saber o que ele tinha aprendido, como foi a sua experiência e o que sentiu sobre a minha cultura e o meu povo. Do que me contou, o que mais me surpreendeu foi o facto de o Álvaro não ter tido medo quando lá esteve.
DL: Em fevereiro deste ano, Álvaro Borges reuniu-se com a embaixadora ucraniana em Lisboa e ela agora vem aos Açores. O que sentes em relação ao que se tem conquistado para unir estes dois povos?
É muito bom que o Álvaro tente abrir esta porta sobre a Ucrânia, porque, na minha opinião, os açorianos não têm muitas informações sobre o que se passa em geral na guerra. Acho que as pessoas não percebem a dinâmica histórica entre a Rússia e a Ucrânia; muitos até acreditam que somos o mesmo povo, e outros têm uma imagem da Rússia muito diferente da realidade. A Rússia é um país forte, mas não de forma tão exagerada como descrevem aqui.
DL: Qual é a sua visão, enquanto ucraniano, sobre o conflito?
É muito difícil de descrever, porque vocês aqui não estão em guerra e torna-se complicado de perceber. Quando eu cheguei a Portugal, no início, dava por mim a pensar: “Isto está a acontecer, isto é mesmo real, não é um sonho”. Agora, a guerra causa-me tristeza, mas também esperança de que o futuro será melhor. Ainda tenho esperança de que vamos conseguir alcançar a paz nas melhores condições para a Ucrânia.
DL: Acredita na possibilidade de um acordo entre a Rússia e a Ucrânia?
Na minha opinião, há uma possibilidade, mas muito baixa. Na história moderna, já tivemos acordos com os russos, mas eles violaram-nos sempre. É por esta razão que tenho muitas dúvidas sobre um possível acordo. Em Portugal, muitos pensam que, se se entregar a Ucrânia à Rússia, a Rússia ficará satisfeita, mas a verdade é que o país iria procurar outro ato agressivo.
DL: Como olha para o seu futuro?
Agora é um pouco difícil de decidir por causa da guerra. Num cenário ideal, gostava de voltar para a Ucrânia, mas não sabemos como será o futuro. Se a guerra não acabar, acho que a probabilidade de eu ficar em Portugal é muito alta. Também gostaria de morar nos Açores.
DL: Que mensagem gostaria de deixar aos leitores?
Acho que o nível de apoio dos açorianos aos ucranianos é alto, mas acredito que, se querem saber mais sobre a nossa história, devem fazer mais pesquisas sobre nós e sobre a história da relação entre a Rússia e a Ucrânia, não se baseando apenas na informação diária dos media.

Álvaro Borges
A guerra no Médio Oriente está a representar um choque histórico nos mercados derivados de matérias-primas. Em março de 2026, registou-se a maior perda na oferta de petróleo alguma vez registada, em cerca de 10 milhões de barris por dia. E parece que não ficará por aqui.
O encerramento do Estreito de Ormuz, combinado com o bloqueio naval pelos EUA, representa uma grande via marítima para a passagem dos navios petroleiros e de gás natural liquefeito, entre 35% e 20%, respetivamente, do comércio global.
O fracasso nas negociações, o risco do rompimento do cessar-fogo entre os EUA e o Irão, a manutenção da paralisação do Estreito de Ormuz, a escassez de matérias-primas e a dependência dos combustíveis fósseis lançam-nos a todos para uma incerteza nunca antes vista.
A recuperar da pandemia, a somar a isto a guerra na Ucrânia, ainda em curso, e o conflito no Médio Oriente levam-nos ao contágio da subida dos índices de preços dos fertilizantes, dos produtos alimentares, metais e minerais, gás natural, metais preciosos e matérias-primas agrícolas.
Este conflito turbulento, iniciado por Donald Trump e por Israel contra o Irão, teve duas consequências e factos indesmentíveis: primeiro, antes o líder supremo do Irão era Khamenei, agora está outro Khamenei; segundo, antes o Estreito de Ormuz estava aberto, agora está encerrado. Vislumbram-se aqui grandes vitórias para os EUA e para o seu aliado Israel, se não lançassem o mundo para um pântano de instabilidade, de choques dinâmicos nos mercados de matérias-primas que afetam as economias globais.
A inflação da Zona Euro, situada nos 3%, e a decisão do Banco Central Europeu de manter as taxas de juro inalteradas em 2% serão difíceis de sustentar na próxima reunião de governadores, caso se mantenha o atual choque geopolítico.
Se tal conflito não for sanado, nem houver estabilidade na região, os preços vão continuar a aumentar.
Como vão as famílias conseguir suportar todos estes custos? O aumento do cabaz alimentar, os preços dos combustíveis em flecha, o aumento do gás natural e as prestações bancárias, se se confirmar o aumento das taxas de juro do BCE na próxima reunião, levam o mundo a uma incerteza sem precedentes, causada por um punho de homens instalado em Telavive e Washington, que mergulhou o mundo num completo abismo sem fim, sem clareza, restando aos países lançar mão de políticas de intervenção na economia, desregulando a concorrência, ou proteger as famílias mais pobres.
Curioso é saber que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro pretende elevar o salário mínimo nacional para 1000€ até 2027. Não nos surpreende, pois, ao ritmo da situação atual, o custo do cabaz alimentar, o esforço económico e o poder de compra das famílias atingem níveis absurdos, em grande parte devido à política circense e irresponsável de Donald Trump.
* O texto teve por base o relatório “Commodity Markets Outlook”, de abril de 2026, da autoria do Banco Mundial

Álvaro Borges
O atual conflito no Médio Oriente, que envolve o Irão, os Estados Unidos e Israel, é uma flagrante violação do direito internacional.
O Direito Internacional, isto é, o conjunto de regras que devem reger todos os países no seio da comunidade internacional, está praticamente esvaziado no seu plano conceptual e normativo.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas é hoje um “órgão tetraplégico”, sem capacidade de decisão, desatualizado face aos tempos atuais, com novas potências emergentes sem assento nesse órgão.
O Presidente Donald Trump ridiculariza a função fulcral do Conselho de Segurança da ONU ao criar o seu próprio “Board of Peace”, a 15 de janeiro de 2026, um comité de estrutura internacional que tem como objetivo declarado promover a estabilidade, restaurar uma governação fiável e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos. Este novo organismo tem como presidente vitalício, sem grandes surpresas, o próprio Donald Trump.
Quanto à atual guerra que vivemos e aos efeitos que sentimos, como a subida em flecha dos preços dos combustíveis, das prestações da habitação e do custo de vida generalizado, estes resultam de um somatório entre a guerra da Ucrânia e, agora, um conflito desnecessário com o Irão.
O Estreito de Ormuz, por onde passam navios que transportam cerca de um quinto do petróleo mundial, encontra-se fechado por imposição do Irão.
Os Estados Unidos e Israel estão a levar a cabo uma guerra que não conseguem ganhar, porque não detêm supremacia total. Os seus objetivos falharam: o regime não caiu, o seu líder foi substituído pelo próprio filho, as populações não se revoltaram e a sociedade civil ocidental manifesta-se contra uma guerra na qual não vê qualquer benefício nem vantagem para a paz mundial.
Aquilo que foi apresentado como uma “obliteração” no ano passado, sob o pretexto de uma alegada arma nuclear do Irão, algo semelhante à narrativa proclamada em 2003 relativamente ao Iraque, revela-se um falhanço em toda a linha para os Estados Unidos e Israel.
Sem apoio significativo dos seus aliados ocidentais, nem mesmo de alguns dos seus parceiros do Golfo, o Irão consegue sobreviver com o apoio indireto dos seus principais aliados, a China e a Rússia.
A utilização da Base das Lajes, ao abrigo do protocolo entre Portugal e os Estados Unidos, e a permissão do Estado português para que os EUA utilizem a base militar de forma adequada, necessária e proporcional aos seus objetivos, com alcance estritamente militar, demonstram que Portugal não detém capacidade diplomática para negar acesso, como fizeram Itália, Espanha ou o Reino Unido às suas bases. Tal deve-se às nossas dependências económicas, sociais e culturais em relação aos EUA e ao receio de eventuais retaliações.
Não tenhamos ilusões: a guerra com o Irão é um fracasso e só poderia ser ganha em termos militares, algo que não desejamos, pois seria uma carnificina. Através de meios militares no terreno, ou seja, boots on the ground, uma presença militar seria o único caminho para que os EUA e Israel pudessem declarar vitória, como afirmou Donald Trump ao New York Post, a 2 de março deste ano. Mesmo assim, subsistem grandes dúvidas quanto a esse objetivo, dada a enorme complexidade e dimensão territorial do país.
Compreendemos e aceitamos que grande parte dos países ocidentais, incluindo Portugal, se coloquem à margem desta guerra, que constitui uma flagrante violação do direito internacional. Podemos dizer que finalmente aprendemos com a farsa da guerra do Iraque em 2003. No entanto, não podemos ignorar a enorme hipocrisia do mundo ocidental quando o Irão matou deliberadamente mais de 30 000 pessoas, segundo o jornal The Guardian, em janeiro de 2026, tendo sido necessário recorrer a reboques para transportar os mortos.
Além disso, o posicionamento dos aliados ocidentais não é uniforme, refletindo interesses estratégicos distintos e diferentes leituras do conflito. Países como Portugal tendem a adotar posições cautelosas, procurando equilibrar compromissos internacionais com considerações diplomáticas e económicas.
Não obstante, subsiste uma questão central: a coerência moral da comunidade internacional. A condenação de determinadas ações contrasta, por vezes, com o silêncio ou a ambiguidade perante outras situações igualmente graves, o que alimenta perceções de seletividade e hipocrisia.
Assim, mais do que uma resposta simples, este conflito coloca um dilema complexo. Se, por um lado, a defesa da dignidade humana e da estabilidade internacional exige ação, por outro, a intervenção militar acarreta riscos elevados e consequências imprevisíveis. Perante este cenário, torna-se essencial privilegiar soluções diplomáticas e multilaterais, ainda que deficitárias, como forma de evitar uma escalada com custos humanos e globais incalculáveis.
Se somos defensores da dignidade da pessoa humana, será esta uma altura para nos juntarmos aos Estados Unidos e a Israel com o objetivo de devolver essa dignidade ao povo iraniano? Temos muitas dúvidas.

O dia 24 de fevereiro de 2026, que assinalou o quarto aniversário da invasão russa à Ucrânia, ficou marcado por um novo capítulo na relação de solidariedade entre o arquipélago dos Açores e o povo ucraniano. Álvaro Borges, jovem de 25 anos natural da Vila de Água de Pau, no concelho da Lagoa, e licenciado em Direito, marcou presença em Lisboa numa conferência de alto nível promovida pela Embaixada da Ucrânia e pelo Canadá. No encontro, o jovem lagoense reuniu-se com a embaixadora Maryna Mykhailenko, consolidando uma ligação que nasceu em setembro de 2025, quando Álvaro integrou uma missão internacional de jovens a Lviv, a Capital Europeia da Juventude.
A presença de Álvaro Borges nesta iniciativa não foi apenas simbólica, mas também institucional. O jovem procedeu à entrega de lembranças oficiais confiadas pelo Governo dos Açores, pelas Câmaras Municipais da Lagoa e de Ponta Delgada e pela Junta de Freguesia do Livramento, onde reside atualmente. Este gesto mereceu o reconhecimento da embaixadora, que manifestou novamente o desejo de se deslocar aos Açores para participar numa conferência sobre o conflito. A iniciativa conta já com a disponibilidade de Andriy Chesnokov, consultor permanente da Ucrânia em Viena e antigo governante ucraniano, que se mostrou pronto para visitar a região e partilhar a realidade do seu país com os açorianos.
Segundo Álvaro Borges, este envolvimento é o prolongamento de uma experiência profunda vivida no terreno. Recorde-se que, durante a sua estada na Ucrânia, o jovem chegou a enfrentar alertas aéreos e a ter de recolher a abrigos antiaéreos perante a ameaça de bombardeamentos. Além do perigo vivido, Álvaro trouxe consigo histórias de resiliência, como a de um jovem amigo e refugiado que acolheu nos Açores durante o período natalício.
Com este novo encontro diplomático em Lisboa, o percurso de Álvaro Borges reafirma-se como uma ponte ativa entre as instituições açorianas e a resistência ucraniana, promovendo um espaço de informação e reflexão direta sobre os impactos globais da guerra.

Tem 25 anos, é licenciado em Direito e mestre em Direito Administrativo e Administração Pública. É natural da Vila de Água de Pau e encontra-se atualmente a viver no Livramento. Embarcou na aventura de viajar até à Ucrânia e conta-nos como foi enriquecedora a experiência que viveu.
DL: Como é que surgiu a oportunidade de viajar até à Ucrânia?
Tudo começou porque vi uma notícia no jornal Público. Várias entidades estavam a organizar este grande evento internacional, que era levar 20 jovens portugueses, em conjunto com 20 jovens da Ucrânia, a Lviv, a capital europeia da juventude 2025. Enviei a candidatura e fui selecionado.
Partimos da Polónia, de Cracóvia, para a Ucrânia, com as recordações que levámos. Consegui levar uma carta escrita pelo presidente do Governo Regional dos Açores, uns lembretes da Câmara Municipal de Ponta Delgada e um crachá do Santa Clara.
Nós chegámos primeiro à fronteira com a Polónia, não saímos do autocarro, do qual era suposto sair. Apenas veio um agente ver os nossos passaportes e passámos. Depois houve a fronteira com a Ucrânia. No total, esperámos, mais ou menos, uns 45 minutos. Depois, quando estávamos já mesmo perto da Ucrânia, os militares entraram dentro do autocarro para carimbar os passaportes. Avançámos com escolta policial até Lviv.

DL: Recorda-se da paisagem ao entrar na Ucrânia?
Havia logo na entrada, quando entrámos na Ucrânia, campos muito grandes com casas dispersas. Passados 15 minutos, surgiu um pequeno cemitério com umas bandeiras e ficámos arrepiados. Inicialmente, estávamos num entusiasmo, mas depois, naquele instante, ficámos todos em silêncio. A nossa primeira iniciativa foi na Câmara Municipal de Lviv, onde fomos recebidos pelos organizadores, pelo presidente da Câmara de Lviv e pela embaixadora da Ucrânia em Portugal. Tivemos uma sessão de cumprimentos para nos conhecermos uns aos outros. No total foram cinco dias na Ucrânia. Vimos também o cemitério de Lviv, onde estão enterradas mil e duzentas pessoas.

DL: Foi uma chegada de choque em que a segurança era relativa?
Exato. Tínhamos protocolos de emergência em todos os nossos telemóveis: em caso de ataque aéreo, disparava os alarmes, também nas ruas, e íamos para um bunker. Se acontecesse alguma coisa, tanto podia ser durante a noite como de dia. Mas eu dormi completamente bem.
DL: Houve algum momento em que tenha sentido perigo?
Foi no penúltimo dia, quando tínhamos um plano de contingência em que, em última instância, se houvesse bombardeamentos à cidade, teríamos que sair de imediato para a Polónia. Estávamos numa espécie de conferência entre os jovens da Ucrânia e, a meio do evento, os nossos telemóveis tocaram devido a um alerta aéreo. A comunicação social tem muita frieza, e a primeira reação deles foi erguer as objetivas para capturar o momento. Havia um bunker para onde recolher, mas os ucranianos demonstravam que já estão habituados. É normal para eles. Então, nesse instante, estávamos com um ataque iminente e não sabíamos o que estava a acontecer ao certo. Fomos todos para o abrigo e lá, com mais calma, apercebemo-nos de que eram dois caças russos que tinham entrado no espaço aéreo da Ucrânia. Passados 30 minutos, recebemos outro aviso a dizer que estávamos seguros. Éramos um alvo porque a primeira-ministra estava no evento. E, passadas 12 horas, todo o edifício sofreu um ataque. Nessa altura, já estava no meu quarto, na cama, e por duas vezes ouvi a sirene. Tive que vestir uns calções e uma t-shirt à pressa e ir para o piso do abrigo. Ficámos quase uma hora dentro do abrigo, à espera de informações para sair em segurança. Acabámos por sair e despedimo-nos dos colegas ucranianos, com emoção. Estávamos em Lviv.
Depois dormimos no autocarro até acordar na fronteira com a Polónia e demorámos imenso tempo, talvez umas três horas, na fronteira, pois havia imensos carros.

DL: Pessoas a sair da Ucrânia?
Sim, pessoas a sair da Ucrânia. Demorámos imenso tempo para entrar na Polónia. Tivemos que sair do autocarro, tivemos que levar todas as nossas bagagens e fomos revistados. Nessa altura, não tínhamos qualquer passe diplomático, como tínhamos antes. É mais fácil entrar do que sair. Já dávamos o avião como perdido. Mas depois o autocarro arrancou a correr e deu tempo. Chegámos à Polónia e voámos para Portugal tranquilamente.
Conhecemos uns 20 jovens e, obviamente, existem alguns com quem criámos amizade. Há um jovem que conheci que é oriundo de Mariupol, que fica mesmo junto à fronteira com a Rússia. Uma zona complicada e que foi anexada em 2022. Ele fugiu com a família e pegaram fogo à casa dele. Perdeu tudo. Ele agora vive em Kiev e estuda lá. Ele contou-nos que alguém foi à casa dele e tirou fotografias, e que já estava reconstruída, mas que estava ocupada pelos russos. Era até tipo uma espécie de colonização.
DL: Como encara agora a resiliência das pessoas afetadas pela guerra?
Não sei como é que é possível. Por exemplo, conheci um jovem ucraniano na minha segunda residência universitária, em 2022. O nome dele é Rostyslav Ruslanovich Hutsol e chegou com 17 anos a Portugal como refugiado de guerra. E depois, numa conversa com ele, é que descobri a profundidade da história dele. Ele tem mais uma irmã, o pai é militar reformado e a mãe dele também era militar. Só que a mãe morreu no primeiro dia de guerra, no primeiro dia da invasão russa à Ucrânia. A sensação de ver aquele jovem e estar em contacto com ele, todos os dias, fez-me pensar que tenho de fazer alguma coisa por ele. Então, convidei-o para vir aos Açores no Natal, e ele veio em 2023, e no ano passado também. E vai passar o próximo.
DL: A ligação à Ucrânia continua?
Continua, e eu fiz-lhe a promessa de voltar à terra dele e ir à casa dele conhecer a família.